quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Um silêncio desmoralizante (04/08)

Será que no multicultural “outro mundo possível” vai ser permitido apedrejar até a morte (ou enforcar) mulheres “adúlteras”? Quem pode esclarecer?

O presidente da República venceu a inércia e intercedeu pela mulher condenada a morrer apedrejada no Irã, por “adultério”. Antes tarde do que nunca. Por certo sua excelência mediu os prós e contras e concluiu que num ano eleitoral não ficava bem deixar a bola pingando para os adversários chutarem.

Mas assim anda a política. No frigir dos ovos, graças também aos gestos de Luiz Inácio Lula da Silva, as perspectivas da condenada são hoje algo menos piores que ontem, e isso é bom. Ainda que se possa discutir a abordagem meio torta do tema pelas autoridades brasileiras.

Teria sido mais simples e objetivo se Lula pedisse ao amigo Mahmoud Ahmadinejad a abolição dos castigos cruéis, por razões de ordem humanitária. Fazer o simples, o arroz com feijão.

Do jeito que foi dito, com a sugestão de asilo, introduziu-se um viés abertamente político. E aí sim a coisa pôde ser lida em Teerã como ingerência nos assuntos internos deles. O imediato apoio de Washington à iniciativa brasileira não foi à toa. Tampouco é fortuito Lula ter agora relativizado a oferta e enfatizado o aspecto humanitário.

Ainda mais por não haver qualquer vetor político envolvido. É um caso exemplar de puros direitos humanos.

Entrar desajeitado num assunto e tentar corrigir em andamento não é trivial. Especialmente para uma administração acostumada a praticar o relativismo.

Quando interessa, recorre-se até à suposta supremacia das leis internacionais sobre as de cada país nos direitos humanos. Foi assim no debate sobre a Lei de Anistia. Quando não, deixa-se para lá, a pretexto da autodeterminação das nações. Desde que não implique prejuízo político caseiro.

De todo modo, é preciso sempre dar um desconto. País nenhum faz política externa com base principalmente nos direitos humanos, e seria hipocrisia pedir ao Itamaraty inaugurar a moda.

Mas se governos estão de vez em quando, digamos, contingenciados por interesses de Estado, a mesma desculpa não é aceitável quando se observam as organizações partidárias e sociais.

O espantoso aqui não é o governo brasileiro andar cheio de dedos numa questão diplomaticamente complicada. Ensurdecedor no Brasil é o silêncio dos partidos autodenominados progressistas e dos movimentos sociais, especialmente os dedicados a causas femininas, ou feministas.

Será que no multicultural “outro mundo possível” apedrejar até a morte (ou enforcar) mulheres “adúlteras” vai ser permitido? Quem pode esclarecer?

Esquematicamente, o raciocínio oculto permite ser lido mais ou menos assim: “Se Ahmadinejad é aliado de Lula, então as violações dos direitos humanos no Irã, especialmente contra as mulheres, talvez devam ser compreendidas no âmbito da luta global contra o imperialismo norte-americano”.

No jargão clássico, estaríamos diante de uma contradição secundária.

E portanto exigir do regime dos aiatolás que não mate a pedradas (ou na forca) mulheres condenadas por relações extraconjugais seria, nessa lógica, dividir a frente mundial contra os Estados Unidos. E fazer o jogo dos Estados Unidos.

Parece-lhe bizarro? Pois é.

Políticos e governantes que cedem à tentação de posar como moralmente superiores candidatam-se a cair no ridículo. Manejar o discurso dos direitos humanos no terreno das relações internacionais exige cuidados e sofisticação.

Já as organizações da sociedade não estão tolhidas por certos freios, têm mais liberdade para falar e agir.

Assim como têm a liberdade para permanecer no mais desmoralizante dos silêncios.

Debate

Mesmo concorrendo com a decisiva semifinal brasileira na Libertadores, o debate de amanhã entre os presidenciáveis tem tudo para ser um sucesso. Na hora e depois, com as “pesquisas” sobre “quem ganhou” e com a edição interessada, feita pelas campanhas.

Há reclamações na praça sobre a escassez de debates. Os números desmentem. Talvez nunca antes na história das eleições brasileiras tenha havido tanta exposição dos candidatos.

Se alguma coisa der errado nesta eleição, não será por falta de debates, entrevistas, sabatinas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (04) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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7 Comentários:

Anonymous Cláudio Camargo disse...

O multiculturalismo se pretende de esquerda mas tem raízes no pensamento mais reacionário, o romantismo político do século XIX, matriz das doutrinas anti-iluministas, racistas e fascistas. A "esquerda do outro mundo" ficou completamente órfã e hoje repete os equívocos do stalinismo, justificando qualquer regime "anti-imperialista". Aliás, não é só a esquerda institucional que vem incorrendo nesse deslize: quem não se lembra do Michel Foucault defendendo a revolução dos aiatolás por seu caráter "anti-ocidental"?

quarta-feira, 4 de agosto de 2010 11:54:00 BRT  
Anonymous Paulo Dias Filho disse...

Por que não marcaram o debate para Sexta-Feira?

Como são-paulino e por já ter decidido meu voto(Dilma), vou assistir ao jogo.

Se o debate ficar armazenado na internet, assistirei depois. Senão, paciência.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010 12:47:00 BRT  
Anonymous sergio ferreira disse...

Poxa, Alon

Você está, se me permite, descambando para aquela posição em que sabe todas as soluções para todos os problemas que aparecem!

E que o governo Lula erra sempre!

Seria o caso de perguntar: por que você não se candidata?

E esse problema da visão multiculturalista, ele não alcança também a visão democrático-capitalista-iluminista?

quarta-feira, 4 de agosto de 2010 15:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Penso deferente do Sergio Ferreira, será que na assessoria do governo Lula, não existe funcionário com visão?
O Alon deveria participar dessa assessoria, e Lula não cometeria esses fiascos em relação a certos países.
Mas pensando bem, com todos os erros cometidos por Lula, em cinco meses de governo, que faltam, o presidente ainda tem muito crédito em estoque.
Fernando Ferreira

quarta-feira, 4 de agosto de 2010 17:01:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Não posso me candidatar, Sergio, não sou brasileiro nato.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010 17:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
O governo faz o Plano Cruzado de combate a inflação em ano de eleições pelo temor que o povo pudesse se revoltar com os altos índices de inflação e para evitar que a oposição fizesse muitos deputados na Constituinte de 1986, sem levar em conta que estaria, como advertira Francisco Dornelles na época, distruindo a economia. Outro governo faz o Plano Real de combate a inflação em ano de eleições, para eleger um presidente e um presidente que não fora sequer presidente de um grêmio recreativo na juventude, não importando que para acabar com a inflação o governo tivesse que jogar o país em crises contínuas no Balanço de Pagamentos. O governo permite uma desvalorização do dólar que permitem ao governo manter as taxas de juros em patamar suficiente para assegurar taxa de crescimento do PIB semelhante às taxas de crescimento do PIB chinês para ser divulgada nas vésperas das grandes convenções eleitorais dos grandes partidos não importando que se esteja jogando o país em futuras crises no Balanço de Pagamento. E, no entanto, censuram o governo por tentar tirar proveito da situação da mulher condenada a morte no Irã. Fez bem você no primeiro parágrafo deste post defender a decisão eleitoreira do governo.
Agora, dizer que:
"No frigir dos ovos, graças também aos gestos de Luiz Inácio Lula da Silva, as perspectivas da condenada são hoje algo menos piores que ontem, e isso é bom",
Não me parece factual, principalmwente quando se diz no primeiro parágrafo que a mulher está condenada a morrer apedrejada no Irã. No Blog do Luis Nassif, há o post "As condenações da iraniana" de terça-feira, 03/08/2010 às 18:05 feito a partir de um comentário do comentarista Tomás Rosa Bueno que é bem esclarecedor. Segundo Tomás Rosa Bueno, "a hipótese de a mulher ser apedrejada já está afastada desde início de julho".
Enfim, não tenho dúvida que a declaração de Lula foi eleitoreira, no sentido que foi uma declaração para tirar proveito para a candidata dele sem que o STE pudesse aplicar qualquer multa. E não é graças a Lula que as perspectivas da condenada sejam hoje algo menos piores que ontem.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 04/08/2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010 22:42:00 BRT  
Anonymous Ivanisa Teitelroit Martins disse...

Alon, você tem cidadania brasileira? Onde você nasceu? Apesar de já saber, suponho que sua origem, o país em que você nasceu, os princípios que foram transmitidos a você através das gerações, sejam o fator que distingue seu texto dos outros analistas e permita que você faça uma análise mais complexa e detida do cenário internacional.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010 22:56:00 BRT  

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