sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A tampa do caldeirão (27/08)

A fila da política é como qualquer outra: quando ela estaciona, é bom para quem está na posição certa. E complicado para os demais. O mais grave não é o sujeito sentir-se derrotado, coisa normal na atividade. É o líder, ou candidato a líder, saber-se impedido na preliminar

Nos sonhos do PT o cenário está bem delineado. Dilma Rousseff ganha agora e daqui a quatro anos haverá duas opções. Pode ir de Dilma na reeleição ou recolocar na corrida um Luiz Inácio Lula da Silva sempre disposto a voltar para completar a epopeia.

Como teoria, tem chance de dar certo.

Dilma está confortável em todas as pesquisas e Lula diz dia sim outro também que ainda tem estrada pela frente na política. O arcabouço parece bem montado. A aliança com o PMDB é sólida, e não há motivo para imaginar que o peemedebismo irá atirar o cacife pela janela em troca de ilusões, ou aventuras.

Mas toda teoria bonita tem um problema, ou mais de um. O projeto de hegemonia estendida do PT suporia, na eventualidade da volta de Lula em 2015, que em quase três décadas, de 1995 a 2022, o Brasil teria apenas três presidentes. Um deles (Dilma) interino na prática.

É evidente que o eleitor tem a liberdade de decidir por aí, se assim entender. A peculiaridade é que esse cenário “tamponado” significa a virtual aposentadoria compulsória de toda uma geração, líderes hoje ainda regionais e cujo projeto estaria limitado a uma rotação entre o Senado e a tentativa de continuar mandando cada um no seu próprio quintal.

Águas bloqueadas acumulam-se. A fila da política é como qualquer outra: quando ela estaciona, é bom para quem está na posição certa. E complicado para os demais. O mais grave não é o sujeito sentir-se derrotado, coisa normal na atividade. É o líder, ou candidato a líder, saber-se impedido na preliminar de alcançar o troféu mais ambicionado.

Cada partido dos grandes tem um punhado de gente nessa fila. O PT um pouco menos, dada a carnificina da crise de 2005. Mas os governadores petistas eleitos agora vão amanhecer na cadeira em 2011 já pensando em passos maiores. É da natureza humana.

No PMDB idem, assim como no PSDB, que caso confirmadas as projeções precisará reagrupar-se em torno de um projeto de poder, para sobreviver como legenda de peso. Ou arriscar-se à digestão lenta (ou nem tanto) por ação das conhecidas forças centrípetas. Mesmo em partidos menores, sonhar não custa nada.

Como o PT irá lidar com as ambições represadas dos amigos de hoje que podem ser um pouco menos amigos amanhã? Lula tem agora peso suficiente para ser a tampa do caldeirão. Mas por quanto tempo?

Se o exemplo for Getúlio Vargas, para um tempo razoável. Getúlio foi o norte da política brasileira por um quarto de século.

Lula está posicionado para passar disso, se a conta for feita a partir de 1989, quando Fernando Collor se elegeu como o anti-Lula.

Terceirizar

Vida de marqueteiro é difícil. É como diz a bem-humorada observação portuguesa sobre os técnicos de futebol. Num dia é uma besta; no outro, bestial.

O de Dilma vive dias de festa. Dois anos atrás, era protagonista do triste episódio em que a campanha do PT à Prefeitura de São Paulo enveredou pela vida pessoal do adversário.

Talvez esteja na lista das funções da marquetagem segurar a onda quando as coisas que os políticos decidiram dão errado.

De todo modo, quando você ouve dizer que a campanha x ou y “tem um problema de comunicação” procure atrás do pano os problemas políticos. É mais prático.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (27) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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6 Comentários:

Blogger Ronaldo Marques disse...

Prezado Alon,
O que está cozinhando no caldeirão desta eleição é uma nova receita de pão-de-ló, como diria Ulysses Guimarães.
Infelizmente, o pão-de-ló, mais uma vez, não é o projeto de uma nação mas sim o projeto de poder de um homem com alucinações maníacas!
Resta saber quanto tempo dura o tal do "feel good factor" e até onde vai a "cordialidade" do povo brasileiro!
Ver http://bit.ly/bfHUfu

sexta-feira, 27 de agosto de 2010 11:06:00 BRT  
Anonymous Antaxerxes disse...

Alon...

O PT tem ainda um perfil muito "revolucionário", querendo mudanças radicais... Esta vitória que se avizinha vai torna-lo "mais paciente"... Mas, de qualquer modo, ele está "amarrado a alianças" para evitar recaidas...

O LULA não vai concorrer a novas eleições... NUNCA IRIA REPETIR ESTA INACREDITÁVEL APROVAÇÃO (96%) NO FUTURO... A crise mundial está correndo solta e vai ter uma recaída pelas receitas ortodoxas que os países desenvolvidos estão adotando (corte de déficit, "responsabilidade fiscal burra", segregação de imigrantes, etc...).

Em um video dos anos 80, divulgado na campanha em SC, êle diz o que faria se fôsse eleito... e é o que tem conseguido...Ele está fiel as suas origens e discursos...


"Queimar o filme" como se diz no popular, fazendo a "mesma coisa denovo" não condiz com o grau de intuição que ele possui.

Êle vai partir para num primeiro passo, consolidar a Dilma e fazer as reformas estruturais necessárias para o desenvolvimento economico futuro ...

Depois, num segundo passo, vai "testar o seu limite de competência" fora do país, em lutas contra a fome, contra a probeza, a favor da Paz, etc...

Talvez, buscar um Nobel da Paz...

Este nível de aprovação (96%), em uma nação democratica plenamente instituida, com imprensa livre, partidos de oposição leves e soltos, sem presos políticos, etc.. é uma façanha inacreditável nos dias de hoje...

E o BRASIL não é uma republiqueta qualquer, é a 8 economia do mundo, partindo para a 4 ou 5 posição em poucos anos; tem a quinta população do mundo; desigualdades enormes sendo rápidamente diminuidas, infraestrutura também equacionada e iniciando a solução, etc...

Vai virar cases de gestão pública... e avalizar esta sua pretensão e atuação externa...

E, a Marina é uma candidata possível em 2014 (se a reeleição cair...) ou 2018... Será a fase do desenvolvimento auto-sustentável, do "verde" na economia mundial...

Felicidades...

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sexta-feira, 27 de agosto de 2010 14:25:00 BRT  
Anonymous Antaxerxes disse...

PS: Como dissem os gurus indianos, só no presente podemos fazer alguma coisa, o futuro ainda o estamos desenhando e o passado é coisa morta, já passou, não dá para mudar mais...O passado pode nos ensinar alguma coisa, mas não há garantias que se repita...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010 14:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon, se lhe posso sugerir pauta, que tal abordar a questão do controle partidário. Como um só decide em uma agremiação política, como o Jefferson e o Dornelles fizeram, p. ex.? A questão me interessa e creio que a muitos, bem como está em sintonia (creio) com o teor de sua coluna. Abs, Guilherme

sexta-feira, 27 de agosto de 2010 14:35:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Chegou ao ponto, Alon.
A nova oposição (com expectativa de poder nacional) no Brasil deverá surgir das dissidências da base governista.
A atual oposição do PSDB/DEM/PPS deve sair enfraquecida, e sem força como alternativa de poder nacional (algo como o PDS da década de 80 saiu depois da campanha das Diretas Já).
É mudança de paradigma político: a era Lula demarca o fim do período da nova república, onde imperaram o antigo PMDB (cuja metade aderiu a era Lula), o PFL e o PSDB que estiveram no poder nos governos Sarney, Collor, Itamar e FHC.

sábado, 28 de agosto de 2010 02:07:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

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sábado, 28 de agosto de 2010 02:38:00 BRT  

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