terça-feira, 24 de agosto de 2010

Oportunidade perdida (24/08)

A esquerda latino-americana oferece argumentos aos que a acusam de só aceitar a legitimidade do Estado quando ela própria está no poder. Como reagiria o Foro de São Paulo à emergência de uma eventual guerrilha antichavista na Venezuela?

Os partidos e as organizações do Foro de São Paulo estiveram reunidos em Buenos Aires na semana passada e produziram teorias complicadas sobre a guerra civil colombiana. Na prática, equalizaram-se os tratamentos ao governo constitucional da Colômbia e à guerrilha das Farc. A linha do PT foi derrotada, ainda que os representantes do partido tenham formalmente aceito o consenso final.

Em resumo, o PT gostaria que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia declarassem um cessar-fogo unilateral e libertassem os sequestrados, passo para levar o governo de Juan Manuel Santos a negociar seriamente a saída definitiva do conflito. É razoável.

Mas os petistas não conseguiram apoio suficiente entre os colegas da esquerda latino-americana, e a convergência alcançada fala genericamente em “saída negociada”, “mediação internacional” e “libertação das pessoas detidas”, de ambos os lados. Os interessados podem obter mais informações no site operamundi.com, que cobriu o evento.

A resolução mistura alhos com bugalhos. Uma coisa é o status dos presos pelas autoridades, submetidos ao devido processo legal e condenados à perda temporária da liberdade. Outra coisa é a situação dos sequestrados pela guerrilha. São situações incomparáveis, se se considera haver na Colômbia um estado de direito em vigor.

Na prática, a esquerda latino-americana relativiza a legitimidade do Estado colombiano. Uma pena, pois oferece argumentos aos que a acusam de só aceitar a legitimidade estatal quando ela própria está no poder. Como reagiria o Foro de São Paulo à emergência de uma eventual guerrilha antichavista na Venezuela? Com as mesmas luvas de pelica que usa para mexer com as Farc? Duvido.

Talvez o PT, partido hegemônico da coalizão de governo no Brasil, devesse ter pensado duas vezes antes de participar da produção e da legitimação de tais ideias. Certamente pesou a necessidade de não se isolar no âmbito do Foro, fundado sob os auspícios do partido, mas a linha da reunião de Buenos Aires contrasta na essência com a posição reiterada em público pelas autoridades brasileiras.

Já faz tempo o Brasil decidiu não se decidir entre duas opções: ou as Farc são um grupo terrorista ou uma força beligerante, categoria reivindicada pela guerrilha. Os argumentos para ficar em cima do muro são conhecidos.

Em primeiro lugar, o Brasil afirma não catalogar ninguém na categoria de “terrorista”, até por não possuir uma legislação para isso. Em segundo, tampouco deseja ser visto como aliado tácito das Farc, o que acontecerá se as reconhecer como força beligerante.

Só que em Buenos Aires o muro pendeu para um lado. Na prática, o consenso ali construído reconhece as Farc como legítima força militar em guerra. É tudo o que pedem as Farc. A decisão ajudará a dar um gás diplomático para a guerrilha na sua busca de ganhar tempo e fôlego para reorganizar forças depois de ter sido colocada em estado terminal pelo governo de Álvaro Uribe.

A pior sinalização que se poderia ter dado às Farc era acenar que elas contam com apoio continental — num continente maciçamente governado pela esquerda — para impor condições inaceitáveis ao governo colombiano.

Se as decisões do Foro de São Paulo contribuírem para alavancar a pacificação da Colômbia, será uma imensa surpresa. Mais provável é que tenham representado um passo atrás. A única solução realista na Colômbia é as Farc deporem as armas, libertarem os reféns e, se assim desejarem, integrarem-se ao processo político regular daquele país vizinho.

Negociações? Sim, mas concentradas em apenas dois pontos. Uma eventual anistia e também a busca de mecanismos para impedir que reste aos contingentes da futura ex-guerrilha a única opção do banditismo como meio de vida. Ainda que elas estejam bem próximas desse ponto.

No item de pauta da Colômbia, a reunião do Foro de São Paulo em Buenos Aires foi uma oportunidade perdida de avançar e de dirimir certas dúvidas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (24) no Correio Braziliense.

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3 Comentários:

Anonymous Euclides disse...

Do último Foro de São Paulo é provável que a notícia com mais impacto na política brasileira, venha a ser a eventual condução ao STF do representante do PT naquele evento: Deputado Federal José Eduardo Cardozo, coordenador da campanha presidencial de Dilma Rousseff.
Suas intervenções foram muito interessantes. A Corte, por certo, não estranhará mais um integrante dado a certos exotismos, por assim dzier, a decidir sobre a constitucionalidade das leis.

terça-feira, 24 de agosto de 2010 11:04:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Como os colombianos vão dar solução para o problema das Farc, se com anistia ou não, por exemplo, é assunto de soberania nacional NA Colômbia. Nós, os cara-pálidas, apenas podemos opinar sobre o que seria melhor ou pior. Mas a decisão que deverá ser acatada por todos será aquela tomada pelo país que tem soberania para decidir. Isto é, a decisão sobre o que fazer com as Farc é assunto dos colombianos. A Colômbia é soberana para decidir o que fazer com as Farc. De minha parte, serei solidário ao que for decidido pela cidadania
colombiana e o seu Estado.

Quanto aos partidos de esquerda congregados no Foro de SP, eu quero que eles se danem, pois hoje qualquer debate minimamente sério sobre a verdadeira natureza das Farc (se força beligerante, se terroristas, se traficantes etc) só pode iniciar depois que os partidos de esquerda do Foro responderem, com a devida objetividade e racionalidade, a seguinte pergunta:

De onde vem a grana (quais os meios?) que compra alimentos, roupas, armas e munições, remédios etc para o efetivo estimado entre sete a cinco mil soldados das Farc?

Por que os partidos de esquerda congregados no Foro não respondem a essa simples pergunta? Por que não se debateu no Foro reunido em Buenos Aires a natureza dos meios ativados pelas Farc para manter em operação todo o efetivo da "legítima força militar em guerra"? Enfim, por que os representantes do PT no Foro de SP não fazem esse debate?

Alguém do PT que visita o blg do Alon pode se apresentar para responder a essas simples perguntas? Mas, por favor, só não me venha aqui para reproduzir a costumeira abstração retórica pop revolution. Eu quero saber dos elementos. Eu quero saber como as coisas nesse âmbito efetivamente são.

terça-feira, 24 de agosto de 2010 17:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Lendo o comentário sempre percuciente do Paulo, chego à conclusão de que a única falha do texto do Alon reside neste trecho: "a busca de mecanismos para impedir que reste aos contingentes da futura ex-guerrilha a única opção do banditismo como meio de vida". Ora, o banditismo JÁ É meio de vida da antiga guerrilha.

Kbção

quarta-feira, 25 de agosto de 2010 10:13:00 BRT  

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