terça-feira, 17 de agosto de 2010

Incólumes no lamaçal (17/08)

O Itamaraty opera no terreno do pragmatismo frio e dos interesses brutos, especialmente os comerciais, mas gostaria de atravessar a lama vestido de branco e sair limpinho do outro lado

O ministro Celso Amorim publicou artigo neste fim de semana na Folha de S.Paulo para refutar os críticos do tratamento que a política externa reserva aos direitos humanos. A essência do argumento do chanceler: mais vale agir cuidadosamente nos bastidores e obter resultados tangíveis do que fazer barulho e agravar os impasses.

Afinal, toda manifestação brasileira poderá ser vista como ingerência inaceitável nos assuntos internos de outra nação soberana.

Em teoria, uma beleza. Há porém pelo menos um problema na linha argumentativa do titular do Itamaraty. Ela cai bem nas situações para as quais foi confeccionada. Mas infelizmente não se encaixa em outras.

Uma exceção evidente é o duplo padrão dos votos brasileiros na ONU em temas de direitos humanos.

O Brasil comporta-se ali com extremo cuidado quando o alvo são tiranos aliados do atual governo brasileiro, ou países despoticamente comandados mas prenhes de oportunidades comerciais. Já quando a pauta traz acusações a adversários, explícitos ou não, somos tomados por um principismo granítico.

Aí os direitos humanos passam a ser inegociáveis.

Agir com cuidado, não soar os tambores antes da hora, respeitar (ou pelo menos fingir que se respeitam) os limites da interferência na economia doméstica alheia, eis o cardápio dos itamaratecas quando o cenário estratégico recomenda a defesa do status quo. Já quando interessa ao Brasil a desestabilização (ou impedir a estabilização) de regimes antipáticos, ou incômodos, a conversa é outra.

Tem sido o caso de Honduras. Quando o chanceler fala em discrição, lembro sempre de como ele veio a público, logo após a deposição do presidente Manuel Zelaya, para prognosticar que o novo regime não duraria muito e que deveria ser isolado internacionalmente. Aliás toda a estratégia brasileira no episódio baseou-se nisso.

Na solenidade de posse do novo primeiro mandatário colombiano dias atrás, Luiz Inácio Lula da Silva recusou-se a tomar o mesmo ônibus do presidente hondurenho, recentemente eleito. Afinal, a eleição em Honduras foi o epílogo de um golpe de estado. O fato de Zelaya ter desencadeado a confusão, tentado ele próprio um golpe antes de ser ilegalmente deposto, não entra na narrativa de Lula ou de Amorim.

O governo do PT milita na linha de frente pela readmissão plena de Cuba na Organização dos Estados Americanos (OEA), sem precondições. É razoável, à luz dos princípios da não ingerência. É aliás a posição brasileira desde a redemocratização. Mas o mesmo governo resiste heroicamente à normalização das relações hemisféricas com Honduras, porque tem objeções a aspectos da política interna hondurenha.

Ou seja, a coisa toda não para em pé. É a era dos argumentos à la carte. Para cada situação uma explicação diferente, sem que umas precisem necessariamente encaixar-se nas outras.

Não haveria problema se o Itamaraty assumisse abertamente que sua política é pragmática mesmo. Lembram-se do “pragmatismo responsável”? Pois é.

O Itamaraty opera no lodaçal da realpolitik e dos interesses brutos, especialmente os comerciais. Sua cartilha é a da relativização absoluta dos princípios, mas pretende atravessar o lamaçal vestido de branco e sair limpinho do outro lado.

Daí que de vez em quando alguma autoridade da área compareça ao palco para desfilar princípios morais e éticos, apenas para voltar à rotina em seguida.

E agora?

O Irã recusou a proposta brasileira de mandar para cá a condenada ao apedrejamento. Por “adultério” ou outros crimes, já que o singular sistema jurídico iraniano parece permitir a metamorfose das acusações conforme a conveniência de quem deseja condenar.

Independente do desfecho, Lula poderá dizer agora que tentou fazer algo para evitar a crueldade. E o Irã continuará a fazer o que bem entende na esfera dos (poucos) direitos humanos. O que não impedirá o Brasil de seguir aliado ao Irã.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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9 Comentários:

Blogger Miguel do Rosário disse...

"O fato de Zelaya ter desencadeado a confusão, tentado ele próprio um golpe antes de ser ilegalmente deposto, não entra na narrativa de Lula ou de Amorim. "

Zelaya tentou dar um golpe? Não sabia dessa... Ah, então Goulart também tentou um golpe... Ah, então não foi um golpe, foi um contragolpe... Viva o golpe!

Prezado Alon, esse tijolinho falho atrapalha a sua narrativa. Zelaya não tentou golpe nenhum. Política significa propor, mudar. Se propor um plebiscito é dar golpe, então que tiremos a idéia de plebiscito da Constituição Brasileira.

terça-feira, 17 de agosto de 2010 08:04:00 BRT  
Anonymous Ivanisa Teitelroit Martins disse...

Alon, quando nem o corpo diplomático resolve os impasses, há uma alternativa na própria legislação iraniana. Nem apedrejamento, nem enforcamento, mas perdão. A família do marido de Sakineh pode suspender a decisão dos tribunais.

terça-feira, 17 de agosto de 2010 09:10:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

Está mesmo na hora do balanço da política externa do Governo Lula. A exceção do assunto Irã, ainda em evolução, de resto está encerrada.

Se permitir provação dentro do assunto política externa,a curiosidade maior passa a se transferir para o futuro; o que esperar dos eventuais futuros governos?

Dilma manteria na íntegra o direcionamento dado por Lula? Ela já anunciou não se alinhar ao tratamento dado a Honduras, por exemplo.

Serra pretenderá mudar profundamente? Afirmou que sim, especialmente quanto aos direitos humanos.

E a Marina?

terça-feira, 17 de agosto de 2010 10:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ou seja, agir cuidadosamente no bastidores, é o equivalente ao na surdina do conselheiro internacional? Surdina com cuidado. Lá no interior diziam ficar na moita. Só para gerar um estardalhaço do fio ao pavio. O real interesse é este: sempre tentar estar bem na foto, mesmo quando sabe-se estar mal. Tudo o que ocorre, só ocorre porque a diplomacia salvadora estava agindo. Cuidadosamente na moita com surdina. Seria um bom lema. Escrito estilizando um trombone.
Swamoro Songhay

terça-feira, 17 de agosto de 2010 10:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Contradições. "Ilegalmente deposto depois de tentativa de golpe", se houve ,não foi tão ilegal assim...
Contudo, é do conhecimento do mundo racional, que o golpe contra Zelaya foi "preventivo" orientado pelo Departamento de Estado,visando neutralizar um possivel efeito dominó sobre a América Central,a partir da Venezuela,leia-se,Chavez.
Os movimentos seguintes da diplomacia brasileira,são objeto de interesse , vem sendo observados de perto e sabotados, pela dubidativa "administração"Barak. Este como se percebe,sem muito esforço,sofre pressões da forças conservadoras supra partidárias que comandam os destinos da "grande nação do norte".

terça-feira, 17 de agosto de 2010 10:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Com todo o cuidado da diplomacia, parece que a senhora iraniana será, cuidadosamente, enterrada até os ombros e apedrejada. Ou na surdina, pode ter outra forma de suplício. Na moita, os iranianos rejeitaram a saída dela para o Brasil ou outro lugar. Exemplo melhor de protagonismo Tommy(não enxerga, não ouve, não fala, não sente)não poderia haver. Aliás, o presidente de Honduras deve ter ficado extremamente preocupado pelo fato de não estar no mesmo ônibus do presidente brasileiro. Talvez, na moita, envie o Zelaya para cá. Quem sabe este não abre por aqui uma fábrica de chapelões, coletes e botinas? Aliás, na surdina, o Zelaya aboletou-se na embaixada em Honduras e ficou lá um bom tempo. Sentiu-se em casa.
Swamoro Songhay

terça-feira, 17 de agosto de 2010 10:58:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Na mosca:

"É a era dos argumentos à la carte. Para cada situação uma explicação diferente, sem que umas precisem necessariamente encaixar-se nas outras."

Notícia no jornal ESP de hoje mostra que o Foro de São Paulo reunido em Buenos Aires está alinhadíssimo com o Itamaraty.

"O Foro rejeita o golpe (de junho de 2009 contra Zelaya), rejeita o governo (de Porfirio Lobo) eleito em uma situação ilegítima e reconhece Zelaya", disse o secretário de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores (PT), Valter Pomar, durante a abertura do 16º Encontro do Foro de São Paulo, evento criado pelo PT em 1990. Com a participação de dirigentes políticos de 33 países latino-americanos e do Caribe, Zelaya recebeu um forte apoio e a proposta regional para "tecer um plano para enfrentar a ofensiva dos Estados Unidos, que apoiaram as eleições ilegítimas em Honduras".

A ética dos imorais

Vocês já se deram ao trabalho de pesquisar a origem de classe e a biografia da família Zelaya? Sabem quem foi o pai de Zelaya? Sabem quantos anos tinha Zelaya filho quando Zelaya pai mandou assassinar mais de uma dezena de camponeses? Zelaya filho sempre poderá dizer "eu não sabia" ou que isso foi "coisa de aloprados".

Na "Matanza de Los Horcones", em 25 de junho de 1975, Zelaya filho tinha 23 anos de idade.

No massacre morreram 14 camponeses e religiosos. Foram sequestrados em Juticalpa, onde pernoitaram no Centro de Capacitación Santa Clara, durante a marcha em direção a um grande encontro de camponeses hondurenhos em Tegucigalpa. Da escola onde estavam, foram conduzidos por agentes a paisana do governo para a fazenda Los Horcones de propriedade da família Zelaya, no vale de Lepaguare, departamento de Olancho, onde foram sumariamente executados e seus corpos enterrados em cova comum.

Morreram no massacre

1. Lincoln Coleman
2. Alejandro Figueroa
3. Roque R. Andrade
4. Máximo Aguilera
5. Iván Betancourth
6. Casimiro Sipher
7. Ruth A. García M.
8. Oscar Ovidio Ortíz
9. María Elena Bolívar
10. Bernardo Rivera
11. Juan B. Montoya
12. Fausto Cruz
13. Arnulfo Gómez
14. Francisco Colindres

O massacre teve participação direta de latifundiários olanchanos e militares, que controlavam o poder de Estado sob o mando do general Juan Alberto Melgar Castro.

A justiça identificou os culpados: José Enrique Chinchilla, Benjamín Plata, Manuel Zelaya (pai) e Carlos Bahr. Esses assassinos foram enviados à Penitenciária Central, saindo livres em 1980 por indulto outorgado pelo governo.

terça-feira, 17 de agosto de 2010 22:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Miguel do Rosário, deve-se analisar a deposição do Zelaya com base no que diz a Constituição hondurenha e não a brasileira. Aquela veda expressamente o instituto da reeleição, impondo a deposição a quem tentar violar tal norma. O Alon erra quando diz que o apeamento do poder foi ilegal, afinal este seguiu todos os trâmites previstos na Carta, tendo sido ouvidas todas as instâncias (Legislativo, Corte Suprema etc). Ilegal mesmo foi a expulsão do Zelaya do país, assim como foi condenável a forma como foi perpetrada.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010 08:29:00 BRT  
OpenID ajax5birasblog disse...

muito bom!

domingo, 20 de março de 2011 14:44:00 BRT  

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