domingo, 22 de agosto de 2010

Guerra Santa (22/08)

No plano do frio cálculo eleitoral, “pai” e “mãe” são expressões fáceis de compreender e comunicar, e preenchem uma necessidade, pois é bem possível que a maioria do eleitorado esteja atrás desse tipo de relação

Aqui e ali ouvem-se reclamações sobre como Luiz Inácio Lula da Silva conduz a campanha, recorrendo a categorias ditas infantilizantes pelos críticos. Ora, o presidente da República usa no discurso as armas que imagina mais eficazes para garantir a eleição de Dilma Rousseff. Não é inteligente pedir a Lula que faça o serviço dele e também o dos adversários. Não dá para imaginar sua excelência matutando: `Puxa, esse argumento é bom para eleger a Dilma, mas se eu usar vou contribuir para a regressão da cultura política brasileira. Então é melhor não usar.”

Sobre “cultura política” tem uma cena esclarecedora em Reds, o filme, com Warren Beatty no papel de John Reed, o jornalista americano que foi cobrir e se envolveu na Revolução Russa. No processo de consolidação do poder bolchevique em todo o antigo Império dos czares, o comboio ferroviário vermelho chega a uma região islâmica e Reed começa a discursar para a multidão, noticiando o advento da nova era. Certa hora ele percebe, surpreso, ter dito “guerra santa” em vez de “luta de classes”. O discurso havia sido adaptado para ser mais bem compreendido pelas massas.

Assim é a vida. Lula descobriu-se o “pai” e vende na eleição a promessa de que Dilma o sucederá como “mãe”. Nada tem a ver com as ancestrais promessas petistas de uma nova cultura política, de mais autonomia da sociedade em relação ao Estado, de recriação do povo como sujeito de sua própria história, etc. Tais categorias repousam na prateleira à espera de intelectuais dispostos a entender e explicar mais este caso de digestão teórico-política. No plano do frio cálculo eleitoral, “pai” e “mãe” são expressões fáceis de compreender e comunicar, e preenchem uma necessidade, pois é bem possível que a maioria do eleitorado esteja atrás desse tipo de relação.

E Lula vai em frente, sem medo de ser feliz, como escrevi aqui outro dia. Os que pretendem interromper o domínio do PT que espremam a cabeça para descobrir o que e como fazer. Política é relação de vetores, de forças. Se um vetor não enfrenta resistência eficaz, é natural que siga adiante. Como agora na eleição.

A proposta de Lula para o Brasil está clara: eleger Dilma, sustentada na aliança PT-PMDB, e abrir uma era de reformas político-institucionais que consolidem certa visão econômico-social.

Não se sabe exatamente o que seriam essas mexidas, mas eleição não é torneio de detalhismo. Nem a maioria está interessada em saber se a reforma política virá por voto em lista fechada ou distrital.

Mas é fácil de compreender quando o PT diz que quer eleger Dilma para continuar o que Lula fez, e que ela vai precisar de uma sólida maioria congressual para evitar que o governo seja atrapalhado pelos adversários.

A mensagem do PT está claríssima, a da oposição ainda não. Nem é aqui o caso de criticar, pois a tarefa da oposição está longe de ser trivial. É só uma constatação.

Inimputável

E aconteceu. O deleite do horário eleitoral, nossa ilha da fantasia eletrônica, foi bruscamente interrompido pela realidade. O Rio de Janeiro, aquele lugar com a política de segurança tão bacana (tem umas “upepês” que o pessoal cita muito em palanques), encarregou-se de dar o choque de realidade.

Num lance de imprudência, bandidos acabaram saindo dos limites geográficos em que o domínio deles é bem aceito pelo establishment carioca, foram surpreendidos pela polícia e construíram na fuga um cenário de simbolismo quase insuperável: fizeram reféns num hotel chique.

É o Rio da final da Copa de 2014. É a sede da Olimpíada de 2016. Mas o governador Sérgio Cabral não tem maiores motivos para se preocupar.

Com a quantidade de amigos e protetores que amealhou, poderá continuar vendendo a teoria de que a segurança no Rio vai bem, obrigado.

E em último caso pode acionar Lula, que não terá dificuldade para colocar a culpa em algum adversário político, ou nos que “torcem contra o Brasil”. Ou no “olho gordo” de alguém.

Inimputável mesmo, só Cabral.

Coluna (nas entrelinhas) publicada neste domingo (22) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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17 Comentários:

Anonymous ivanisa Teitelroit Martins disse...

O Presidente Lula, apesar de sua aprovação inegável, face os bons resultados na economia, devidos à gestão do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, e à do Presidente do BNDES,Luciano Coutinho, e dos bons resultados na política social, devidos à gestão do ex-Ministro Patrus Ananias, tem tratado a política com superficialidade, típico de quem nega as divisões e divergências presentes tanto nos movimentos sociais quanto no próprio PT. Todos recuaram. O cenário político não permite que se analise a política com método e argumentação. Como você escreveu, anteriormente, entrega-se a mercadoria. Este modo de fazer política, causará danos aos princípios constitucionais e às nossas instituições. Está havendo a dilapidação do patrimônio político construído desde a Constituição-cidadã. Há uma prevalência do discurso publicitário e de propaganda, sem a devida circunspecção própria de quem planeja estrategicamente o futuro de um país como o Brasil. Este recuo pode prejudicar e muito a gestão do próximo presidente eleito. Em termos freudianos, a negativa é simbólica, causando a suspensão do recalque, em que se sustentam os padrões civilizatórios: o mal estar da civilização.

domingo, 22 de agosto de 2010 12:35:00 BRT  
Blogger Marcelo Delfino disse...

Não dá para botar a culpa da violência carioca no PCC nem no governador do PSDB, não é mesmo?

domingo, 22 de agosto de 2010 17:19:00 BRT  
Blogger chico disse...

O lula só está fazendo o que lhe é cabível para fazer sua sucessão e o que está garantindo seu sucesso não é a publicidade infantilizadora ou não, são politicas e resultados concretos e publicamente defendidos. Não vejo nada de degradante pra política brasileira a não ser uma oposição desarticulada, sem liderança e sem capacidade de mobilização.

ps: é de fato impressionante como os problemas por vezes fojem do controle publicitário. Pelo menos dessa vez o número perdas foi baixo levando em consideração a surrealidade do episódio...

domingo, 22 de agosto de 2010 21:01:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Só agora eu vi a reportagem do Estadão

A 42 dias da eleição, PMDB reivindica dividir poder "meio a meio" com PT

Em caso de vitória de Dilma, partido de Temer deixaria de agir como 'convidado', passando a atuar como um dos 'donos da casa'.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100822/not_imp598552,0.php

Em um antigo post eu questionei a capacidade e competência política de Dilma para governar.

Vou me auto-citar sem falsa modéstia:

Se Dilma faturar 2010 com os apoios que busca, a crise é certa. O pau vai comer intramuros no petismo e as oligarquias vão apresentar a salgada conta do apoio. Dilma “dama de ferro” é somente jogada de marketing.

Lula levou anos pisando em muita gente para chegar onde chegou no PT. Só depois de completar a obra de pacificação no petismo (carta aos brasileiros) é que ele conseguiu se eleger e governar.

Dilma está mais para “rainha da Inglaterra” do que para “dama de ferro”. E como fica pretensão de Lula de se tornar o primeiro Globetrotter sul-sul. O que poderiam fazer? Colocar o Lula na casa Civil? Vão trazer de volta o instituto absolutista da eminência parda? Não duvido, dado o nosso gosto político pelo poder executivo discricionário.

http://www.blogdoalon.com.br/2010/02/na-hora-e-no-lugar-certos-0902.html

O historiador José Murilo de Carvalho em entrevista recente ao jornal Valor responde à mesma questão

Valor: O PMDB ganhou força ao longo do governo Lula. Para ter o apoio do partido à Dilma, Lula fez o PT apoiar o PMDB em Minas e no Maranhão. Esse avanço do PMDB é preocupante?

Carvalho: Como disse, essas alianças, apesar de constrangedoras, são indispensáveis para a governança. O que preocupa é a natureza da convivência do PT com o PMDB em eventual governo Dilma. Pela força de sua liderança, Lula foi capaz de enquadrar o PT e controlar o PMDB. Dilma terá maior dificuldade em fazer isso. Ela poderá se ver diante do dilema de ter que recorrer à ajuda de Lula, enfraquecendo a própria autoridade, ou enfrentar crises desgastantes em sua aliança.

domingo, 22 de agosto de 2010 23:13:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Caro Alon, acho que houve uma leitura equivocada sua do episódio no Rio.

Onde as UPPs foram implantadas, os resultados tem sido inquestionáveis.

Nem a Rocinha, nem o Vidigal, onde houve os conflitos, tem UPPs implantada, ainda. Não se pode exigir que uma política funcione onde ela não foi implantada.

Nas comunidades de bairros onde foram implandatas como Botafogo, Copacabana e Tijuca, até o mais reacionário morador, e o maior inimigo de Cabral, aprova e vivencia o êxito da política.

A única grande comunidade implantada, Cidade de Deus, também tem resultados inquestionáveis. Assassinatos caíram de 33 em um semestre para apenas 1.

A política é boa, não deve ser desestimulada por pessoas lúcidas como você. Tanto é boa que nenhum candidato de oposição a Cabral a contesta. Pode-se reclamar de não ter sido implantada em mais comunidades, e que os bandidos que fogem de uma comunidade com UPP vai se abrigar em outra da mesma facção. Mas é assim que funciona toda tática militar de conquistar território: o inimigo recua. Espera-se que com o tempo, com a expansão das UPPs não deixe mais espaço para onde recuar.

Marina Silva, se não me engano, também inclui as UPPs em seu programa de governo como política federal, pelas mãos de Luiz Eduardo Soares (ex-PT).

Outra leitura equivocada é não reconhecer o êxito da polícia no confronto. Houve tiroteio, houve espetáculo no noticiário, houveram policiais e bandidos feridos sem gravidade, houve uma mulher morta do grupo dos bandidos, mas o saldo foram 11 presos, e apreensão de armamentos, sem ferir nenhum refém.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010 00:37:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Enviei um comentário para Ivanisa. Talvez não tenha chegado.

Ivanisa

Concordo com sua análise.

Os governos hoje cada vez mais se parecem com uma agência de propaganda. Aliás, esse rebaixamento da política, que você apontou com bastante clareza, está na lógica mundial da política, incluindo os EUA, a Itália, a Rússia, a França, o Irã, a Venezuela etc. Onde isso vai dar? Não sei. Mas não vejo como isso possa dar em boa coisa.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010 13:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Chico (domingo, 22 de agosto de 2010 21h01min00s BRT),
A questão não é se recorrer aos que os críticos chamam de categorias infantilizadoras está trazendo ou não resultado eleitoral. A questão é o uso dessas categorias, pois elas não contribuem para a evolução da cultura política brasileira.
É claro que depois do Plano Real, o PT e Lula poderão sempre alegar que tudo que não é proibido por lei é permitido. E sob o aspecto político eles estão certos porque a atividade política da representação não pode se conduzir por princípios éticos. O representante defendendo interesses de representados pode negociar por eles, mas não pode renunciar, que é o comportamento mais próximo da ética, aos interesses que representa. Se não há ética tudo é permitido.
O Plano Real anestesiou a população que votou no pai do Real. Dizer que o Plano Real deu certo e isso o redime da regressão da cultura política que ele provocou é alegação canhestra. As crises cambiais e o apagão elétrico que o Plano Real nos causou não nos dão nenhuma garantia de que o Plano Real deu certo. Sem esquecer que a inflação pelo IGP-M no último trimestre de 2002 se anualizada superava 50%, mais do que os 30% de inflação média com que a Colômbia conviveu na época que as FARCs prosperaram.
Enfim, dDizer que o Plano Real deu certo vai ser sempre uma opinião pessoal. É questão de opinião como seria também questão de opinião em um eventual governo de Dilma Rousseff dizer que ela tenha feito um bom governo (Qualquer que seja o governante não há ninguém que possa dizer, acima de qualquer questionamento, que tal governante foi bom).
Assim, a alegação de que o eventual governo de Dilma Rousseff seria bom e que, portanto, isto redimiria Lula, O PT e a Dilma Roussef de fazerem uso de categorias que não contribuem para a evolução da cultura política brasileira é tão canhestra como a de defesa do Plano Real.
Aliás defesa também que se pode fazer ao Plano Cruzado se se disser que ele foi feito não para acabar com a inflação, mas para nos proporcionar uma das mais modernas e democráticas constituições do mundo (Sem o Plano Cruzado, provavelmente isso não teria ocorrido).
Clever Mendes de Oliveira
BH, 23/08/2010

segunda-feira, 23 de agosto de 2010 13:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pois bem, Duarte. E então, até onde o funcionamento da tática militar de conquistar território vai?
Swamoro Songhay

segunda-feira, 23 de agosto de 2010 14:57:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

As UPP constituem experiência ainda recente.
Uma questão que se apresenta é o rígido controle policial sobre as atividades da comunidade, que tanto repercutem na atividade criminosa, quanto sobre a liberdade das demais pessoas daquela localidade.
Ou seja, há de se observar um pouco mais e avaliar os resultados considerando as consequências sobre o universo abrangido pela medida. Além de eventuais necessidades de correção. Em especial a formação democrática do policial.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010 15:09:00 BRT  
Anonymous Xandão disse...

Alon, ainda sobre as UPPs: elas funcionam, sim, mas não serão jamais a maravilha apregoada. A questão sempre foi mais social do que policial, porém décadas de apatia governamental criaram cidadelas de traficantes. Expulsá-los é obrigação, mas não resolve a questão, que tem a ver com tamanho do estado, racismo, cotas, crescimento sustentável e muito pouco com pó e maconha.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010 19:17:00 BRT  
Blogger Edgard Pina disse...

Alon,

Por favor não faça isso. Aqui no Rio, o programa das UPP´s tem trazido paz a todas, eu disse todas, as comunidades beneficiadas. O episódio da Rocinha/Vidigal aconteceu exatamete em duas comunidades ainda não ocupadas. De vc espero sempre a sua lucidez, nunca comentários que possam, de uma forma ou de outra, desestimular política como essa. Detalhe: Não votei no Sérgio Cabral!

terça-feira, 24 de agosto de 2010 00:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 23/08/2010. Permita-me algumas observações. A MP do Plano Real foi discutida por cerca de quatro meses nas comissões tamáticas e no plenário do Congresso. De fevereiro de 1994 a maio de 1994, quando foi transformada em Lei, sofreu severa oposição, vencida pela qualidade das medidas. Quanto ao anestesiamento, não considero a palavra correta. Houve realmente uma deflação tão forte, que o poder aquisitivo da popolução melhorou em termos reais. Mas, os ajustes necessários demandaram período relativamente longo, dado a profundidade das medidas e com muitas críticas, tanto no Congresso como em áreas empresariais. Enfim acabou prevalecendo o entendimento de que a estabilização era um valor a ser preservado. Assim, como houve profundas discussões públicas sobre as medidas deflacionárias, anestesiamento não caberia. O Cruzado, por sua vez, na época, desencadeou um processo de euforia pela inflação zero. O então ministro da Fazenda era considerado um herói. Dizem que até (não localizei dados para comprovar) que mesmo índices de criminalidade caíram em função da euforia gerada pelo Cruzado. Os benefícos eleitorias foram patentes em ambos os casos. No caso do Cruzado, devido ao fracasso do plano, carreou muitas críticas. No Real, apesar de amplas críticas públicas, os resultados foram palpáveis, dado a duração e aprofundamento das medidas que vigoram até hoje. Mesmo tomando o indicador anualizado de 50%, em 2002, deve ser ressalvado que a inflação, antes do Real, era cerca de mais de 20% ao mês, mais de 1% ao dia. outro aspecto a ressalvar, é que a economia, por alguns momentos, foi alvo de insegurança, dado o governo que assumiria, ter passado intenções de tentar implementar outro caminho, com promessas até de anulação das medidas de estabilização. A parte visível, ou sensível, de tais pregações foi a pressão inflacionária, corrida ao dólar e aumento do indicador de risco Brasil. Tal onda foi superada pela firmeza do governo que sairia na defesa das medidas e pela transição executada. Técnicos do governo que concluia seu mandato, ficaram nos cargos até que o novo governo tivesse condições de indicar os seus. Inclusive, o presidente do BC permaneceu no cargo até que alguém fosse indicado e aceitasse assumir a presidência da autoridade monetária.
Swamoro Songhay

terça-feira, 24 de agosto de 2010 11:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Chico (domingo, 22 de agosto de 2010 21h01min00s BRT),
Por falta de tempo não detalhei com mais rigor a semelhança no uso não instrutivo de determinados eventos para angariar votos e que se verifica nesta eleição e se verificou na eleição de 1994. Ficou parecendo que agora só se pode acusar o PT pelo uso da propaganda, enquanto em 1994 houve o uso de uma ação (O Plano Real), com conseqüências econômicas antes e após a eleição.
Na verdade nos dois casos eu estou analisando mais é o efeito eleitoral. O Plano Real anestesiou a consciência política do povo que votou em reconhecimento a quem, sendo o pai do Plano Real, acabou com o transtorno que a inflação sempre foi. O discurso de Lula hoje também aproveita o embalo da economia para anestesiar a consciência política do povo.
Embora eu tenha explicitado mais a minha crítica ao Plano Real, eu não estou discutindo os efeitos econômicos que surgem ao se acabar de uma vez com a inflação (Que em minha opinião talvez seja factível em país pequeno como Israel, Bolívia e o Peru de Fujimori) e nem os efeitos econômicos decorrentes de se acabar com a inflação em ano eleitoral e para eleger um presidente e para eleger um presidente que não fora sequer presidente de um grêmio recreativo na juventude (No caso da Bolívia, Ángel Víctor Paz Estenssoro acabou com a inflação cerca de 4 anos antes da eleição, o Presidente ficou com a glória, mas não lançou a candidatura dele e sim do artífice do Plano de Estabilização Gonzalo Sánchez de Lozada que, entretanto, não se elegeu na primeira tentativa, pois o eleito, compondo-se com Hugo Banzer fora Jaime Paz Zamora que alegava na campanha que no cemitério também havia estabilidade).
A análise desses efeitos que eu tomo como ruins é, entretanto, matéria para estudiosos. Assim, a comparação do uso de expressões como pai e mãe por Lula nessa campanha seria mais apropriada com uma propaganda eleitoral específica que ocorreu na campanha de 1994. Na propaganda gratuita, FHC prometeu reduzir os impostos. Para quem como eu torce para o aumento da carga tributária, o discurso de FHC pareceria deseducador. Tenho que reconhecer, entretanto, que o desiderato do aumento da carga tributária é de uma diminuta minoria. Para quem como FHC estava informado por Gustavo Franco que o combate da inflação só é exitoso quando se aumentam as receitas como o economista carioca já constatara no trabalho dele "Fiscal Reforms and Stabilization: four hyperinflation cases examined", saído na revista inglesa The Economic Journal, Vol 100, no 399 (March I990), 176-187, dizer que vai reduzir os impostos não é só deseducativo, mas desrespeitoso com a população. E na época ele já estava com a eleição ganha.
De todo modo além da semelhança do discurso de 1994 com o discurso atual, há também semelhança no pano de fundo da economia. Na época fez-se um Plano Real que aumentou o consumo e levou o Brasil para uma série de estrangulamentos no Balanço de Pagamento. Agora também o governo ao perceber no início de 2009 que a crise no Brasil fora maior do que se imaginara e que o comércio mundial estava deprimido deu uma virada na economia, voltou a valorizar o real e optou por um desenvolvimento puxado pelo mercado interno que criou a atual situação de euforia, mas que pode levar o pais a recair nas crises de Balanço de Pagamento tão freqüentes na era de FHC.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 24/08/2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010 14:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Realmente, não tem nada de bom nessa história de pega que o filho é teu. afinal de contas são mais de 190 milhões de pessoas, cerca de mais de 130 milhões de eleitores. Afinal, houve mesmo o progresso social? Se houve a palavra correta é infantilização mesmo. Se não houve, o problema é um pouco maior. Contudo, se for apenas coisa de marketólogos, tudo bem, pois, há o antídoto de muitos eleitores não gostarem de serem compareados a incapazes clamando por tutela. Assim, os marketólogos poderiam orientar os seus assistidos a denominarem-se pais dos ricos, caso tenha havido a alteração na renda e a diminuição da desigualdade.
Swamoro Songhay

terça-feira, 24 de agosto de 2010 16:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (terça-feira, 24/08/2010 às 11h49min00s BRT),
Não sou economista, mas acompanho a realidade econômica brasileira há mais de 40 anos. Já venho discutindo o Plano Real e os oito anos de governo de FHC há muito tempo. Aqui mesmo no blog do Alon Feuerwerker eu posso mencionar só esse ano muitos posts onde fiz essa discussão. Com resposta para você há comentários meus no post "A Alca cambial de Lula" de sexta-feira, 09/04/2010. Menciono também aqui no blog do Alon Feuerwerker o post do ano passado "À espera de um carinho" de sábado, 12/12/2009 em que eu discuto com o comentarista Alberto099 o caráter eleitoreiro do Plano Real.
Em relação ao conjunto de instrumentos que FHC deixou como Lei de Responsabilidade Fiscal, Regime de Metas de Inflação, liberação do comércio exterior (Sempre critiquei ter-se acabado com a desoneração das exportações de produtos primários e semielaborados, obra da Lei Kandir - LC 87/86) etc há também muitos comentários meus. Lembro só que se se fizer uma pesquisa na Internet sobre o Regime de Metas de Inflação vai-se descobrir que onde ela foi implantada, houve menor inflação e menor crescimento. Para países em desenvolvimento isso é o que eu chamo de herança maldita. É herança porque o governante que a recebe não pode ficar livre dela, principalmente se ele não tem força política hegemônica para implantar um novo modelo, e é maldita porque o país precisa crescer a taxas mais rápidas e não ter inflação mais baixa.
Não sei se é fácil o acesso, mas lembro ter discutido bem a Lei de Responsabilidade Fiscal junto ao post "Os dez anos da Lei de Responsabilidade Fiscal" de segunda-feira, 03/05/2010 às 1107 no blog do Luis Nassif em que Luis Nassif aproveita para mencionar a Lei de Responsabilidade Fiscal a partir da reportagem no Valor Econômico intitulada "Licença para gastar". Nos comentários no post há muitos elogios à Lei de Responsabilidade Fiscal, mas sempre mostrando um problema que a Lei cria para a Administração Pública. As críticas me fizeram e fazem lembrar de Hebert Levy na Gazeta Mercantil dele elogiando FHC e que eu resumia mais ou menos assim: "O Plano Real é muito bom, o Plano Real é bom demais, mas por favor presidente, você que é tão probo e cordato, reduza o juro".
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/08/2010

quarta-feira, 25 de agosto de 2010 08:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/08/2010. Não sei se dará para continuar a boa discussão neste post. Mas, poderemos em outros, se pudermos. Só deixo uma observação. O Plano Real teve caráter deflacionário e não de demarragem. A demarragem só viria após os exigidos ajustes que a estabilidade traria. Se pudermos, continuaremos em outro post.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 26 de agosto de 2010 11:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (terça-feira, 24/08/2010 às 11h49min00s BRT),
Há vários pontos a considerar no Plano Real. A dificuldade sob o aspecto teórico e sob o aspecto prático de se acabar com a inflação é um ponto importante. Sob o aspecto teórico não parece ser nada excepcional até pelo exemplo de modelos semelhantes sendo aplicados em vários países ao mesmo tempo e em todos eles obtendo-se resultado, de tal modo que na época do Plano Real não havia nem uma dúzia de países com inflação elevada. No aspecto prático é necessário levar em conta as peculiaridades do Brasil como tamanho e população e grau de desigualdade de renda e atraso econômico e ainda o fato de o país possuir um processo democrático de tal intensidade que o colocava na vanguarda dos estados democráticos de direito e sem a existência de um partido hegemônico como o Justicialismo na Argentina o que sem dúvida constituía dificuldade sem tamanho para debelar a inflação.
Sem ser economista, eu discuto mais a questão de qual o modelo mais recomendável para se adotar: o estilo de um só tiro ou o modelo convencional de reduzir a inflação paulatinamente. Em minha opinião, para a realidade brasileira e para o que já se tinha conseguido na época, o Brasil não poderia ter optado por acabar com a inflação de uma vez. E as conseqüências econômicas nocivas de se acabar com a inflação de uma vez foram exacerbadas pelo fato de o Plano Real ter sido realizado em época eleitoral, para eleger um presidente e com a agravante de se tratar de um presidente que não houvera sido sequer presidente de um grêmio recreativo na juventude. O último item talvez não tenha tido conseqüências econômicas, afinal o setor público como um grande mastodonte provavelmente sofra pouca influência da capacidade de gerenciamento do seu guia. Eu menciono esse item, entretanto, como um dado a mais para lembrar que a escolha dos auxiliares e a tomada de decisão no governo de FHC ficavam sempre dependentes da análise criteriosa e técnica dos fatores e pouco decorria de uma capacidade própria de tomada de decisão. A análise técnica é tarefa mais para assessoria, o que talvez, tomando-se pela tese de FHC sobre a escravidão, recomendá-lo-ia como um bom assessor de Dom Pedro II.
A avaliação posterior do Plano Real será como eu tenho insistido sempre ideológica, mas ela nunca deveria ser feita em comparação com a inflação de mais de 40% ao mês que os próprios autores do Plano Real contribuíram para que se alcançasse. O Plano Real deveria ser comparado com o processo de combate à inflação realizado por Marcílio Marques Moreira que de uma inflação de quase 30% em dezembro de 1991 levara a economia para uma inflação de quase 20% em abril de 1992. Em maio de 1992, haveria o repique natural em razão do aumento do salário mínimo, mas a seqüência indicava que muito provavelmente em 1993 nós teríamos inflação mensal inferior a dois dígitos. O grande risco que o irmão de Fernando Collor de Mello nos livrou foi ter evitado que Fernando Collor de Mello se transformasse em um grande herói nacional no ano em que se ia aprovar a Revisão da Constituição de 88. Risco que evidentemente nós não corremos com FHC que segundo artigo de Carlos Heitor Cony, não era nem déspota nem esclarecido, rebatendo entrevista de José Arthur Giannotti no Jornal do Brasil que, mais para defender FHC, dissera que havia o risco de se ter um déspota esclarecido.
Para quem como eu gosta da carga tributária mais elevada, há que se reconhecer que foram as situações de estrangulamentos externos que o Plano Real e a administração dele nos levaram que possibilitaram que a carga tributária subisse tanto. Nesse sentido, na minha avaliação o Plano Real teria tido um efeito mais benéfico do que um plano para acabar com a inflação paulatinamente.
Também não nego que é melhor para uma economia que o país tenha condições de combater focos inflacionários via política monetária, mas a essa mesma situação se chegaria com a redução gradual da inflação.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/08/2010

quinta-feira, 26 de agosto de 2010 12:42:00 BRT  

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