quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Foto escondida na carteira (19/08)

Você acha que algum dos candidatos vai colocar um heterodoxo (de verdade, não de boca) na Fazenda ou no Banco Central? Chance zero

A cidadania já registra pelo menos uma vitória nesta eleição. A cultura dos debates veio para ficar, ainda que falar de permanências num país como o Brasil seja sempre arriscado. Só entre os presidenciáveis serão no total cinco encontros, incluído o da web promovido ontem pelo UOL.

Ajuda a circunstância de nenhum dos corredores estar tão na frente que possa se dar ao luxo de recusar a debater. Mas mesmo essa observação deve ser relativizada, pois em estados onde há um líder disparado tampouco existe clima para os fujões.

Com a disseminação das assim (mal) chamadas redes sociais, o candidato pode até correr, mas não conseguirá fugir, para dar razão ao velho ditado. Melhor ir ao debate, aguentar bem as pancadas, defender-se delas e tentar encaixar algumas.

Um debate pode decidir a eleição? Sim, na hipótese de produzir uma rachadura no casco de credibilidade do candidato. Se o sujeito construiu para si certa narrativa e ela sai trincada da refrega verbal, ele passa a ter um problema.

Daí que todo o esforço dos contendores concentre-se em trincar a narrativa do adversário. Ou pelo menos defender a própria, no caso dos líderes.

Qual é a essência da narrativa do PT nesta eleição? O Brasil está melhorando e não há motivo para mudar. Em time que está ganhando não se mexe. Uma lógica forte. A resposta da oposição é uma pergunta. Por que continuar com os desacertos se é possível manter o que vai bem e corrigir o que anda mal? Uma batalha morro acima.

O situacionismo reage colocando em dúvida a capacidade de o PSDB manter o país no rumo, dado que os números de Fernando Henrique Cardoso foram piores que os de Luiz Inácio Lula da Silva. E há também o trabalho sistemático e obsessivo de Lula para desconstruir o antecessor.

Ontem no debate, José Serra fez uma referência ao que chamou de ingratidão de Dilma Rousseff em relação aos ex-presidentes que conquistaram a estabilidade econômica, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Foi um soco bem encaixado.

A petista recorreu ao argumento de instabilidade inflacionária no fim do governo FHC, mas aí é ela quem trava a batalha simbólica morro acima. Do mesmo jeito que Lula encarna a busca de justiça social e o combate à desigualdade, Itamar e FHC já estão nos livros de História como os arquitetos da moeda forte.

Dilma insistir que o PT recebeu um país em ruínas e sem rumo é tão crível quanto o PSDB afirmar que deu tanta ênfase nos programas sociais quanto o atual governo. Simplesmente não cola. Pode fazer sucesso em círculos de militantes fanáticos, mas não cola.

O repique inflacionário no fim do governo FHC existiu e teve dupla origem. Havia alguma desconfiança quanto aos compromissos macroeconômicos do PT, mesmo mitigada depois da Carta aos brasileiros. E havia também um certo clima de fim de feira no epílogo da administração tucana.

O PT enfrentou sim um quadro algo complicado quando assumiu em 2003. E resolveu como? Com juros e superávit primário, na moldura institucional deixada pelo governo que saía. Teve ainda o cuidado extremo de revogar o dispositivo constitucional que limitava os juros em 12%. Quis dar e deu um sinal de docilidade ao capital financeiro.

O fato é que o sucesso econômico da era petista está erguido sobre alicerces alheios. O que é normal. Tampouco Itamar e FHC teriam dado cabo da inflação sem as contribuições de José Sarney e Fernando Collor. Nos acertos e nos erros. E por aí afora.

Mas a maior homenagem que a contemporaneidade política presta aos pais da estabilidade é Dilma e Serra, dois conhecidos críticos da condução econômica, estarem impedidos de seguir adiante com as próprias ideias.

Os economistas heterodoxos? São úteis para assinar manifestos de apoio (é chique), publicar artigos furibundos em jornais, verter lágrimas de emoção ou arrumar confusão em fóruns multilaterais sem importância. Você acha que algum dos candidatos vai colocar um heterodoxo (de verdade, não de boca) na Fazenda ou no Banco Central? Chance zero.

Quando fala sobre a oposição, Lula gosta de usar a imagem do ex-marido que torce para a ex-mulher não encontrar alguém capaz de fazê-la feliz. Já no caso da dupla Lula/Dilma, a imagem poderia ser outra. Fala mal da mulher para os amigos na mesa de bar, mas não tem coragem de procurar uma nova.

Anda até com uma foto dela na carteira, para mostrar escondidinho aos banqueiros, quando convém.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (19) no Correio Braziliense.

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5 Comentários:

Anonymous Ivanisa Teitelroit Martins disse...

"Mas a maior homenagem que a contemporaneidade política presta aos país da estabilidade é Dilma e Serra, dois conhecidos críticos da condução econômica, estarem impedidos de seguir adiante com as próprias ideias." "Insight" brilhante.
Isto se chama censura própria do jogo eleitoral em que a promessa do impossível predomina. Mantém-se uma carta na mesa virada para baixo, que os outros jogadores desconhecem e precisam pagar para ver. Daí a necessidade de traçar hipóteses: quem será o Ministro da Fazenda e o Presidente do Banco Central de um e de outro? Quais são as concepções que sustentam o que Dilma e Serra pensam sobre a condução da política econômica quando conversam com os seu botões (expressão muito usada por Mino Carta)?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010 21:32:00 BRT  
Anonymous JV disse...

resumindo, o programa do PT é horrIvel e Lula que virou neoliberal vai forçar a Dilma a sê-lo.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010 00:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Contribuicoes de Jose Sarney e Fernando Collor? voce escreveu isso visando neutralizar um pouco o efeito que possa gerar teu reconhecimento da verdadeira contribuicao a economia brasileira, feita por FHC e Itamar? A comparacao so e boa para os dois primeiros, sendo ofensa profunda aos outros dois. De resto, ate estava gostando do texto.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010 03:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pela andar da carruagem, ou pelo silêncio das rodas da carruagem, não serão heterodoxos chamados a cargos de ponta. A Heterodoxia ficou nos tempos dos planos salvacionistas inflação zero, nos anos 80 do século passado: Cruzado I e II, Verão, Collor I e II. Houve também o Bresser, menos impetuoso que os demais. Tal aspecto de medidas estabilizadoras foram superadas pelo Real, em 1994. Agora, com os candidatos fechados em copas sobre o tema, pode-se especular que não haverá heterodoxia: a herança poderá ser um pouco salgada para teste de outros trilhos.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 20 de agosto de 2010 11:41:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Heterodoxo foi Lula, que deu um a rasteira na ortodoxia petista. Do jweito que os pT embaralha os conceitos para confundir a todos, poderia levar essa na cara.

sábado, 21 de agosto de 2010 07:54:00 BRT  

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