quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Cardápios frágeis (05/08)

Mas o que diz mesmo sobre a dúvida dos candidatos a respeito do Congresso é a frugalidade dos respectivos cardápios legislativos

Pergunte aos candidatos a presidente sobre como melhorar o desempenho do Congresso Nacional e eles responderão com citações a respeito da reforma política. Não convencem. Uma eventual mudança só valeria para mandatos parlamentares a partir de 2015, ou mais adiante. E nada garante que as duas diretrizes até agora badaladas, o voto distrital ou o voto em lista preordenada (com financiamento exclusivamente público), trariam a Brasília um Congresso diferente.

O voto em lista com o veto ao financiamento privado, casado à fidelidade partidária, tem potencial para gerar a desejada (no Executivo) paz dos cemitérios no centro da Praça dos Três Poderes. Só que é ainda teoria, a checar. A inércia é elemento poderoso. No Brasil, poderosíssimo.

O cálculo eleitoral dos governistas é eleger amplas maiorias na Câmara e no Senado, para oferecer apoio confortável a Dilma Rousseff, se ela ganhar a corrida. Já entre os oposicionistas as contas são pragmáticas.

Mesmo sem uma maioria imediata, José Serra no Planalto teria a força política e orçamentária para neutralizar eventuais turbulências. E Marina Silva? Ela enfrentaria dificuldades, à medida que o tempo fosse correndo.

Como formar maiorias eficazes no Congresso Nacional do Brasil é uma dúvida acomodada no rol dos mistérios (quase) insolúveis. E mais um parêntese. O leitor perguntará “eficazes para quê?”. Boa pergunta.

Fernando Collor foi o último presidente a tentar governar em minoria. Luiz Inácio Lula da Silva ensaiou algo assim, mas desistiu (ou foi desistido) a tempo de salvar o próprio pescoço.

Desde o impeachment de Collor, todos os presidentes governaram (ou acabaram tendo que governar) com maiorias amplas. Ainda na esfera das teorias, teriam tido portanto as melhores condições para impulsionar suas respectivas agendas. Mas não se deu.

As maiorias, ao fim e ao cabo, serviram apenas para evitar mais dores de cabeça do que seria saudável.

E doravante? Dificilmente haverá um presidente tão popular quanto Lula (talvez o próprio, num eventual retorno). Por que Dilma, Serra ou mesmo Marina teriam condições melhores para governar do que as dadas ao presidente que sai? Dilma parece buscar a fórmula pelo caminho mais ortodoxo. Acomodar bem os aliados em postos-chave da administração orçamentária (o pão será partilhado), mas governar de fato com um núcleo reduzido de seus.

Serra afirma que não precisará lotear a máquina, deseja obter uma maioria estável no Congresso atendendo adequadamente as bases eleitorais dos parlamentares.E Marina diz estar tarimbada para fazer um diálogo congressual em alto nível.

Tudo no plano das boas intenções. Mas o que diz mesmo sobre a dúvida de cada um a respeito do Congresso é a frugalidade dos respectivos cardápios legislativos. Falta ambição, talvez por sobrar realismo.

Quem vai ganhar?

O que é “ganhar o debate”? Quem se engana paga um preço altíssimo. Debate é como entrevista de emprego, leva vantagem quem preenche melhor as necessidades do entrevistador/empregador. No caso, o eleitor.

Mas tampouco adianta querer dar só uma de bonzinho, ser apenas “construtivo”, debate é também briga de galo, duelo. Há candidatos a líder, e no final só sobrará um.

Até porque liderança é um atributo decisivo na avaliação do eleitor. Ainda que não seja necessariamente medida com parâmetros objetivos. Presidente da República é um cargo com imensas pressões. E o debate serve de laboratório. Ganha mais quem espana menos.

Lógica

Quanto mais prováveis os progressos nas relações entre Israel e Autoridade Palestina, maior também a probabilidade de os insatisfeitos (Hezbollah, Hamas, etc.) tentarem colocar areia na engrenagem, ou água no chope.

As crises no Oriente Médio seguem uma lógica inquebrável. Desta vez porém as perspectivas de conversa parecem concretas. O que não é garantia de nada. Depois que a “lógica de Oslo” fracassou, ninguém sabe exatamente por onde caminhar.

Oslo representava a possibilidade de percorrer etapas parciais sem a garantia do status final. Novas negociações deverão evitar a armadilha, que levou à segunda intifada.

Não será trivial.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (05) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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3 Comentários:

Anonymous Rotundo disse...

Alon, desculpe a incapacidade, porém não consegui entender o que afinal signifca Dilma governar "de fato", uma vez "partilhado o pão (o orçamento, erário, tesouro ou o nome que quiser dar ao caixa do governo).
Tirando a execução orçamentária - e a política econômica e que de fato é operada pelo Bacen - o que restaria para ocupar a governante?
O mesmo que para o Lula anadarilhar, politicar e a política externa, já que em matéria de defesa não devemos seque cogitar?
Ou seja mais faz de conta na Casa Civil, onde algumas senhoras tâo mal preparadas quanto mal humoradas, preparam uns powerpoints, exorcisam as tmps nuns e noutros e que nem dão muita bola, porque o que interessa, salvo engano, é o controlar a bijuja, Alon.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010 17:51:00 BRT  
Blogger pait disse...

O único jeito de haver maiorias a serviço do eleitor no congresso é o voto distrital, que força o deputado a responder diretamente ao seu eleitor, e reforça as chances dos partidos com mais eleitores.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010 21:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, ao que parece, poderíamos ter algo como capitania hereditária? O ungido recebe um quinhão e faz dele o que bem entende? Ou uma espécie de regência. O ungido é seria tutelado até que o tutor entenda já ser o mesmo maior. Só que presidencialismo jaboticaba como o descrito, seria o caminho mais curto para crise institucional.
Swamoro Songhay

sábado, 7 de agosto de 2010 09:25:00 BRT  

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