terça-feira, 3 de agosto de 2010

A administração das coisas (03/08)

Qual é hoje a ideia estratégica do PT para a sociedade brasileira, para a economia brasileira? O que Dilma pode dizer a respeito?

Tão fascinante quanto nebuloso, segue o debate sobre o que há de ruptura ou continuidade no governo Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao de Fernando Henrique Cardoso. Neste fim de semana FHC voltou ao tema, com a bem humorada expressão “marca original do fabricante”.

FHC tem razão quando reivindica não ter havido no governo Lula mudança relevante na arquitetura institucional, especialmente nos mecanismos econômicos.

Segue firme o tripé responsabilidade fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante (este último, meio de mentirinha). Vão intactos o esqueleto das agências reguladoras e as normas de como regular. E de tempos em tempos o Comitê de Política Monetária define autonomamente a taxa básica de juros.

Mesmo em relação às privatizações, a crítica do PT ao PSDB é essencialmente propagandística. O governo do PT não reestatizou nenhuma das empresas privatizadas por FHC. Esse é um fato. Nem tomou, uma vez no poder, qualquer iniciativa para que se investigasse a venda das estatais no governo tucano. Esse é outro fato.

Fez assim por estar convicto ou por ser mais conveniente? Mas a colocação de tal dúvida apenas reforçaria outra tese oposicionista: o PT está disposto a abrir mão de toda convicção, ou mesmo da defesa dos legítimos interesses nacionais, desde que haja conveniência.

Teorias à parte, é mesmo curioso que o PT não tenha tocado no assunto das privatizações, a não ser para constranger a oposição. Um argumento possível é o batido “vamos olhar para adiante, e não para trás”, mas ele é raso. Todo governo tem obrigação de corrigir o que encontra de errado ao assumir. Aliás, essa é uma das razões de o eleitor votar na oposição.

A não ser que falte força para tanto. Mas daí decorre outra suposição: se alguém deixa de fazer algo hoje só por debilidade política, é razoável supor que o fará quando reunir as energias suficientes.

O PT tornou-se o maior e mais forte partido brasileiro. Uma vez no governo, mostrou-se competente para levar o país a crescer algo mais que antes, ampliou os programas sociais, deu uma bela turbinada no salário mínimo e no crédito. E tem Lula, o comunicador.

Em condições tão favoráveis, seria ingenuidade o partido embrenhar-se agora pelo debate ideológico, programático. Muito mais inteligente é o que está fazendo. Pergunta a toda hora “se a situação está boa, por que mudar?”.

Mas aqui aparece a curiosidade do jornalista. Qual é hoje a ideia estratégica do PT para a sociedade brasileira? E para a economia brasileira? O que o partido deseja alterar na arquitetura institucional para o Brasil transformar-se numa nação como o PT acha que deve ser? Nada?

Fala-se da reforma política e da tributária. É um debate empobrecedor. A primeira tende a resumir-se ao voto em lista fechada (preordenada pelos partidos) e ao financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais. A segunda vai concentrar-se na supressão da guerra fiscal pelos estados.

É só isso mesmo? Então seria forçoso reconhecer que a proposta estratégica do PT se reduziu à “administração das coisas”. Governar de modo a incrementar a renda nacional e a distribuição dela, o que aparentemente (dizem os fatos do governo petista) seria possível sem rupturas no plano da propriedade e da democracia representativa (uma redundância).

Disse lá no começo que o debate é fascinante. Pois a lógica leva a concluir que a principal distinção entre PSDB e PT seria então gerencial. Com vantagem aparente para o segundo (dados os resultados). Discorda dessa redução? Então diga uma lei aprovada por FHC, das importantes, que o PT no poder mudou.

Claro que “gerencial” não pode ser tomado só pelo valor de face. Diferenças gerenciais costumam ter origem na política. Lula não apenas continuou os programas sociais de FHC, mas investiu neles um tanto que representou mudança de patamar. Haveria outros exemplos.

Mas todos quantitativos, no que a expressão é específica.

Ou esta coluna pode estar completamente na contramão. O Brasil com que sonha o PT será institucionalmente diferente do atual? Quem pode esclarecer? A candidata Dilma Rousseff.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (3) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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12 Comentários:

Blogger pait disse...

Voto em lista preparada pelos partidos é eleição indireta para o congresso. Não deixa de ser uma ruptura com a democracia representativa, no estilo da ditadura militar. Acho que não vai passar. É só uma bandeira para animar as bases autoritárias do PT.

terça-feira, 3 de agosto de 2010 09:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O que está no papel,leis, decretos ou qualquer diploma equivalente, é letra morta enquanto não executada.
E é o que abunda no prolífico cesto legisferante. Coube ao PT ou Lula, como queira, ,implementar.Ainda assim, as casas legislativas nem sempre concordam.O país, sua sociedade ,esta, com certeza, é movida a campanhas. Se, a mídia se opuser ou omitir,dificilmente prosperará qualquer iniciativa seja do executivo ou do legislativo.Como temos testemunhado, as páginas publicam qualquer coisa e até inverdades.O que parece insinuar uma tendência.

terça-feira, 3 de agosto de 2010 10:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ou seja, no que deu certo, o governo Lula limitou-se a ser um arremedo do governo FHC. Porém, não realizou as reformas que os próprioas tucanos sugeriam ainda à época em que FHC estava no governo, inchou a máquina públicam, radicalizou a política do toma lá dá cá, resgatou raposas políticas que já caiam no ostracismo e, nesse sentido, representou um retrocesso institucional considerável.

No que buscou inovar, mostrou-se um desastre completo, fazendo uma diplomacia pusilânime que reduziu o país no continente em que sempre foi líder a um papel menor, em que a "simpatia" de vizinhos insignificantes como a Bolívia precisou ser "comprada", empréstimos para obras na Venezuela foram concedidos, dívidas de todos os países pobres foram perdoadas.

Isso para não lembrar o avanço sobre a imprensa, as declarações levianas e irresponsáveis de "autoridades públicas".

Para completar, o governo faz a alegria de banqueiros e se perpetua no poder.

Pobre Brasil!

terça-feira, 3 de agosto de 2010 11:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não parece que a candidata Dilma responda ao questionamento por esclarecer sua visão sobre os caminhos futuros do País. Se o fizer, será apenas depois das eleições. Isso se vier a vencê-las. Ou talvez, nem assim. Hoje, prevalecem apenas promessas genéricas sobre continuidade, sem aprofundar nada de relevante. Parece tomar por já resolvidas todas as questões de fundo e portanto, a mera continuidade seria o suficiente. É muito pouco, a julgar pelas complexidades que a próxima quadra sugere.
Swamoro Songhay

terça-feira, 3 de agosto de 2010 13:21:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Sobre empresas estatais e privadas e o interesse nacional

Lucro da Vale cresce 130% e chega a R$ 6,6 bi no segundo trimestre
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/774890-lucro-da-vale-cresce-130-e-chega-a-r-66-bi-no-segundo-trimestre.shtml

“Segundo a companhia, além de refletir a crescente demanda global por minérios e metais, o resultado é reflexo ainda de custos operacionais sob controle e medidas para aumentar a produção. Em nota, a mineradora afirma tratar-se de seu melhor desempenho desde o choque financeiro global no terceiro trimestre de 2008.”

Quando o presidente Hu Jintau esteve no Brasil comentou-se pela imprensa que um dos objetivos da visita era facilitar os contatos das siderúrgicas chinesas em busca de alternativas de fornecedores de minério de ferro. As três gigantes Vale, Rio Tinto e BHP Billiton são formadoras de preço do minério no mercado internacional. A Vale tem o controle estratégico dos portos de saída de minério. Isso impede, por exemplo, que os chineses negociem contratos de fornecimento com preços inferiores aos fixados pela Vale. Os chineses podem comprar à vontade e de quem quiser. Mas antes teriam que construir um porto para escoar esse minério.

Eike Batista vê nos chineses uma fonte de capital para os US$ 50 bilhões que devem ser investidos na construção do Porto Açu, no Rio de Janeiro. O porto está em construção.

Em novembro de 2009, a terceira maior siderúrgica da China, Wuhan Iron & Steel Group (WISCO), firmou contrato com a MMX Mineração e Metálicos para adquirir 22% de participação na companhia.

Desde junho comenta-se nos meios de informação que a WISCO negociava um contrato de fornecimento de minério com a Venezuela. No final de julho, a WISCO revelou que fechou um contrato de longo prazo (7 anos) para compra de mineral de ferro da estatal Corporación Venezolana de Guayana (CVG) a um preço de 20 dólares por tonelada inferior ao fixado pela Vale para o terceiro trimestre de 2010.

WISCO and Venezuela agree iron ore contract price for 2010

http://www.steelorbis.com/steel-news/latest-news/wisco-and-venezuela-agree-iron-ore-contract-price-for-2010-544950.htm

Precisaria confirmar, mas parece que o companheiro Chávez fechou o negócio tendo como base o marcador “preço Vale”, isto é, durante sete anos a WISCO comprará um total de 40 milhões de toneladas de minério venezuelano a um preço US$ 20 inferior ao “preço Vale” vigente nesse prazo. O minério da Venezuela tem qualidade semelhante ao exportado pelo Brasil.

Pergunta

Como fica o governo brasileiro que pressionou o Congresso a apoiar o ingresso da Venezuela no Mercosul?

terça-feira, 3 de agosto de 2010 13:21:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

(continuação)

Para quem não sabe, as estatizações ocorridas na Venezuela, em nome do festejado “socialismo do século XXI” prejudicaram a tal ponto as siderúrgicas e empresas de mineração que hoje o governo Chávez não vê outra saída a não ser submeter parte de sua soberania aos interesses chineses.

Chávez também fechou um “empréstimo” a troco de fornecimento futuro de petróleo com a China. Mas não se sabe a que preço e sob quais condições. Por exemplo, se o custo de frete foi subsidiado ou mesmo zerado para os chineses:

"A China fornecerá financiamento de US$ 20 bilhões para ajudar no desenvolvimento da Venezuela, em condições que em nada têm a ver com as leoninas de organismos multilaterais de crédito como o Fundo Monetário Internacional", ressaltou o chefe de Governo venezuelano, sem detalhar as condições desse desembolso, que ia assinar em Caracas com o presidente Hu Jintao.

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,chavez-consegue-ajuda-milionaria-da-china-em-troca-de-petroleo,539893,0.htm

Atenção para a passagem: “leoninas [condições] de organismos multilaterais de crédito como o Fundo Monetário Internacional”.

Pressupõe-se pela declaração de Chávez que submeter a soberania nacional venezuelana aos interesses chineses é preferível do que recorrer ao FMI.

Na verdade, a China aproveita-se da terrível situação fiscal em que vive a pátria do socialismo do século XXI para esfolar a Venezuela:

“En 2009 se duplicó déficit de las empresas públicas.”

http://economia.eluniversal.com/2010/08/03/eco_art_en-2009-se-duplico-d_1992766.shtml

“Morgan Stanley no descarta déficit de divisas en Venezuela”

http://economia.eluniversal.com/2010/08/03/eco_art_morgan-stanley-no-de_1992768.shtml

“Deuda pública interna de Venezuela ha crecido 2.427% desde 1998”

http://www.guia.com.ve/noti/65118/deuda-publica-interna-de-venezuela-ha-crecido-2427-desde-1998

“Déficit de divisas de más de US$7.500 millones registra el BCV en el movimiento diario de las reservas internacionales”

http://www.guia.com.ve/noti/65119/deficit-de-divisas-de-mas-de-us$7500-millones--registra-el-bcv-en-el-movimiento-diario--de-las-reservas-internacionales

terça-feira, 3 de agosto de 2010 13:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

E qual a ideia ou projeto de Serra, que justifique ou faça crer que com ele o Brasil ficaria melhor ?

terça-feira, 3 de agosto de 2010 17:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (terça-feira, 3 de agosto de 2010 13h21min00s BRT),
A candidata do governo promete dar continuidade ao governo Lula. Há cerca de 80% dos brasileiros que aprovam o governo Lula. Para você, no entanto, a candidata do governo
"Parece tomar por já resolvidas todas as questões de fundo e, portanto, a mera continuidade seria o suficiente. É muito pouco, a julgar pelas complexidades que a próxima quadra sugere".
Não entendi, você quer que a candidata do governo seja a porta-voz da mudança? Não lhe parece que a proposta de mudança tem menor possibilidade de êxito eleitoral?
Pelo que você toma a campanha eleitoral? Você a toma como uma grande aula de moral e civismo? Há algum país do mundo em que a campanha eleitoral seja essa grande aula de moral e civismo que parece que você quer que se constitua a capanha eleitoral?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 03/08/2010

terça-feira, 3 de agosto de 2010 22:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira BH,(terça-feira, 3 de agosto de 2010 2h54min00s BRT). Boa lembrança. Em certo sentido, sim, as eleições são uma aula de moral e civismo. Em alguns países, eleições acabam virando manifestações violentas, greves, boicotes etc. No Brasil, tais fases parecem superadas. Ou as aulas ganharam outros atrativos. Por sua vez, os candidatos têm, por abrigação, dizer a que vieram, como encaram o País do futuro, o que pretendem realizar etc. Caso contrário, ao invés de civismo, fica atavismo, como o discurso da continuidade, que pode até ter algum atrativo eleitoral. O que digo é que é muito pouco. E tem muito de atávico, auto elogioso, congelado. Assim, se for mera continuidade, poderá, em caso de lograr vencer, manter até o que necessita ser mudado. Como a infraestrutura, a educação, a saúde, por exemplo. As próprias áreas citadas, já dão ideia do que precisa ser profundamente alterado.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 4 de agosto de 2010 15:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerverker
E há mais divergências, pois em seguida há um parágrafo interessante em que você apresenta justificativa para o PT não ter feito mudanças em relação ao governo de FHC. Diz você:
"A não ser que falte força para tanto. Mas daí decorre outra suposição: se alguém deixa de fazer algo hoje só por debilidade política, é razoável supor que o fará quando reunir as energias suficientes".
Não li ainda todo o artigo de Fernando Henrique Cardoso, que encontrei no Estadão a partir de sua referência buscando no Google com o nome de FHC e a bem humorada expressão. O título do artigo é "Cara ou coroa". Não li todo, mas, pelo que li, pareceu-me que o que você diz não é muito original, pois tive a sensação de que para Fernando Henrique Cardoso a continuidade do Lula – o Cara – não é com a Dilma, mas com o José Serra. Desculpe-me ter pensado em deixar o trocadilho que veio primeiro ainda pior. De todo modo, a possibilidade da ruptura ser Dilma foi a idéia que o seu parágrafo, semelhantemente a idéia que por alto eu penso que está no texto de Fernando Henrique Cardoso, também deixou transparecer.
É uma tese complicada de difícil entendimento pelo eleitorado e você quer que a candidata Dilma Rousseff esclareça. Parece-me, entretanto, que esta seria uma tarefa mais para o José Serra. Só ele poderia convencer o eleitorado que ele é a continuidade do governo Lula, enquanto a Dilma Rousseff é a candidata da ruptura. Não creio que ele conseguiria convencer o eleitorado.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 04/08/2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010 21:47:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
O blog é seu, mas penso que os blogueiros deveriam ter como hábito deixar informado que tal comentário enviado em tal data e horário teria sido censurado pelo administrador do blog. Do lado de cá os comentaristas ficam sempre na dúvida se houve censura ou se foi problema de conexão.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 06/08/2010

sexta-feira, 6 de agosto de 2010 13:52:00 BRT  
Blogger Caio Mendes disse...

Acredito que voto em lista não contribuirá em nada para o fortalecimento da democracia. Mas, é bom ver que as pessoas teem adquirido uma visão crítica da sociedade, isso eleva o grau de maturidade. Uma outra questão importante, é o fato de se alcançar essa maturidade com belos cursos superiores, onde poderemos citar como instituição de referência o IESB em Brasília.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010 14:50:00 BRST  

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