quinta-feira, 22 de julho de 2010

Sem concorrência (22/07)

Sinto muito, cara ministra, não há entre nós, nem de longe, concorrente para Luiz Inácio Lula da Silva na categoria do “Só eu fiz”

Outro dia a candidata do PT, Dilma Rousseff, introduziu no debate eleitoral um vetor interessante. Foi quando em solenidade do aliado PSB referiu-se aos méritos do socialista Jamil Haddad na criação do Sistema Único de Saúde e na iniciativa de fazer o medicamento genérico.

Dilma quis matar dois coelhos com uma só cajadada. Falar bem de um aliado e, implicitamente, falar mal do adversário José Serra, que carrega a marca de ter tornado viáveis em grande escala a produção e a comercialização dos genéricos.

Acabou desencadeando um efeito-cascata. Agora é a candidata do PV, Marina Silva, quem comparece ao noticiário para reivindicar a um partidário, o ex-petista Eduardo Jorge, a paternidade dos genéricos. Jorge foi quem propôs e impulsionou o debate sobre o assunto na Câmara dos Deputados.

Eduardo Jorge, Jamil Haddad, José Serra. São todos nomes de forte presença na história do sistema brasileiro de saúde pública, um dos mais avançados do mundo.

E há muitos outros. Mas o tema aqui não é quem fez o que na Saúde: é sobre como certos políticos gostam de moldar os registros históricos aos próprios interesses.

Quando falou da contribuição de Haddad, Dilma sintetizou o pensamento dela em dois conceitos.

1) É importante atribuir a autoria a quem de direito.

2) Cada um dá sua contribuição. O que não é possível é alguém dizer: "Só eu fiz".

E não é que a ministra tem razão? Uma ambiência política razoável deveria incluir esse detalhe: reconhecer o mérito de todos que de algum modo contribuíram para as coisas melhorarem, no Brasil e no mundo.

Mas isso é utopia. Até porque Dilma é a candidata do governo e do presidente que mais sistemática e persistentemente procuram se apresentar como os únicos responsáveis por tudo que há de bom no país, apontando o dedo acusador aos adversários quando se buscam os culpados pelo que há de ruim.

Sinto muito, cara ministra. Não há entre nós, nem de longe, concorrente para Luiz Inácio Lula da Silva na categoria do “Só eu fiz”.

É natural que os políticos falem bem de si e, num grau menor, dos aliados. E que falem mal dos adversários. Na infância do PT o pessoal gostava de falar mal de Getúlio Vargas. Dilma não tem nada a ver com isso, na época estava no PDT.

Aliás, quando conveio, petistas e tucanos foram sócios no antivarguismo e no antitrabalhismo. E nem é preciso ir longe. No fim do primeiro mandato, a caminho da tentativa de reeleição, Lula deu uma longa entrevista à The Economist afirmando que faria a reforma trabalhista num eventual segundo tempo na Presidência.

Lula chegou ao poder e viu-se na contingência de buscar certos apoios, até para não o defenestrarem. E aí ele e o PT passaram a falar bem de gente que antes costumavam desmerecer, em palavras ou atos. Na maior.

Os dois últimos “reabilitados” nesta campanha são Tancredo Neves (a quem o PT negou apoio na corrida presidencial contra Paulo Maluf em 1985) e Ulysses Guimarães (de quem o PT recusou o apoio no segundo turno contra Fernando Collor em 1989).

Dilma e o PT precisam dos votos em Minas Gerais e da aliança com o PMDB. Simples assim.

Se amanhã precisarem do apoio do PSDB em alguma circunstância complicada, não relutarão em creditar ao então ministro da Fazenda de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, "méritos decisivos na construção do Plano Real". Ou ao anêmico FHC em segundo mandato "a façanha de ter implantado, naquela situação política dificílima, uma dura Lei de Responsabilidade Fiscal". Entre aspas.

E a vida seguirá, como se nada tivesse acontecido.

E os jornalistas correrão, a cada dia, para registrar as aspas do momento.

Ainda que as declarações dos políticos uns sobre os outros não valham rigorosamente nada, pelos motivos expostos.

Ah, sim, para quem quiser ler a íntegra da entrevista de Lula à The Economist em fevereiro de 2006, o endereço é http://www.blogdoalon.com/geocities/lulainterview.pdf.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (22) no Correio Braziliense.

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Simples aplicação da Lei de Gerson (levar vantagem) ou a de Ricúpero (esconder desacertos e faturar méritos). Hipocrisia e cinismo permeiam as relações humanas e o ambiente político.
Quando conveniente, fala-se das realizações da Ditadura Vargas. E foram muitas. Idem do regime militar. Fiquemos com Itaipu, Embrapa pra não cansar.
Admitir que a relativa tranquilidade atual se deve à estabilização da moeda, Proer, LRF, conjuntura mundial, etc, pode não render dividendos. Melhor é ficar bonito na foto.
Duro é ver uma oposição recalcitrante e incompetente na defesa dos seus proprios méritos.

quinta-feira, 22 de julho de 2010 09:15:00 BRT  
Anonymous Serginho/Sampa disse...

Depois chamam o Serra de "biruta de aeroporto" por uma hora reconhecer os erros do governo Lula e outra hora reconhecer os acertos. Não é exatamente isso que o Alon quer? A ambição é válida mas a hipocrisia é bem mais embaixo e muito mais cabeluda seu Alon.

quinta-feira, 22 de julho de 2010 22:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Quanto ao que eu queria falar que é semelhante ao comentário do Anônimo no comentário enviado quinta-feira, 22/07/2010 às 09h15min00s BRT, eu digo o seguinte. Eu concordo com você quando você diz que
“é utopia . . . . em uma ambiência política . . . . reconhecer o mérito de todos que de algum modo contribuíram para as coisas melhorarem, no Brasil e no mundo”.
Não vejo, entretanto, muita relevância nessa sua afirmação. E o complemento que você dá achei ainda mais sem conteúdo. Diz você que:
“Dilma é a candidata do governo e do presidente que mais sistemática e persistentemente procuram se apresentar como os únicos responsáveis por tudo que há de bom no país, apontando o dedo acusador aos adversários quando se buscam os culpados pelo que há de ruim. ”.
Vamos supor o extremo: que não seja utopia. Viveríamos em um mundo em que se reconhece o mérito de todos que de algum modo contribuíram para as coisas melhoram. Nesse caso que mal há que os governantes procurem-se apresentar como os únicos responsáveis por tudo que há de bom no país? E que a oposição acuse o governo de mentiroso? E que vença a discussão, o melhor?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 23/07/2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010 08:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Achei interessante uma frase que você colocou "en passant" no seu post. Nela você diz:
"Os dois últimos “reabilitados” nesta campanha são Tancredo Neves (a quem o PT negou apoio na corrida presidencial contra Paulo Maluf em 1985) e Ulysses Guimarães (de quem o PT recusou o apoio no segundo turno contra Fernando Collor em 1989)".
Não tinha dado importância há uma outra afirmativa sua em que você diz:
"No fim do primeiro mandato, a caminho da tentativa de reeleição, Lula deu uma longa entrevista à The Economist afirmando que faria a reforma trabalhista num eventual segundo tempo na Presidência".
No fim do post você remete para a entrevista à revista The Economist. São 11 páginas e tanto. Sempre que comparo o governo de FHC com o governo de Lula eu procuro destacar que a minha crítica a FHC relaciona-se apenas com o governo dele. Não gosto dele como sociólogo, mas não vou deixar de ler um artigo ou uma entrevista dele para ler uma de Lula. Essa entrevista de Lula à revista, entretanto, surpreendeu-me. Há muitas passagens que é o puro Lula que não me interessa, mas há informações importantes como a relacionada com a Alca e a Rodada de Doha que mostram claramente que o governo adotou a Rodada de Doha como estratégia para não ser invadido pelos serviços. E, no entanto, o que se vê é você se preocupar com algumas linhas sobre a reforma trabalhista.
Agora, mudança do PT mesmo foi a relacionada com a recusa pelo PT de apoio a Ulysses Guimarães no segundo turno contra Fernando Collor em 1989. É verdade isso? Se for, não se pode deixar de congratular em saber o tanto que o PT mudou para melhor. Isso sim que precisava ter uma remissão a um endereço na internet onde a gente pudesse ler a notícia da época.
A recusa em apoiar Tancredo Neves é mais fácil de entender. Se fosse uma disputa acirrada talvez a decisão fosse complicada, mas em uma disputa frouxa, em que se tinha um colégio eleitoral, um candidato getulista e conservador, a postura do PT não seria tão radical (Eu que sou getulista tinha dificuldade de aceitar Tancredo Neves, imagina-se um partido que tinha o Francisco Weffort como teórico, como deveria considerar o Tancredo Neves). Agora não aceitar o apoio de Ulysses Guimarães, além de ser radical é burra. Vale à pena saber quem comandou essa decisão.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 27/07/2010

terça-feira, 27 de julho de 2010 20:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Pretendia explicitar, o que acabei não fazendo,em meu comentário de terça-feira, 27/07/2010 às 20h27min00s BRT, um agradecimento por você ter disponibilizado a entrevista de Lula para a revista The Economist na eleição de 2006. Coo não fiz lá fica aqui o agradeciento.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 27/07/2010

terça-feira, 27 de julho de 2010 21:43:00 BRT  

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