domingo, 25 de julho de 2010

Quem vai escorregar primeiro? (25/07)

A equipe de Serra precisará evitar repetir as bobagens fatais cometidas por Geraldo Alckmin na largada do segundo turno de 2006. A de Dilma, os tristes equívocos perpetrados, na mesma circunstância, por Marta Suplicy dois anos atrás

E não é que a eleição com mais internet, mais imprensa, mais bate-boca, mais antecipação e mais pesquisas polêmicas, desde a redemocratização, está na bica de ser decisivamente influenciada — mais uma vez — pelos marqueteiros nos programas oficiais de rádio e TV?

Quem conseguir na assim chamada “telinha” encaixar melhor o primeiro soco vai levar boa vantagem em agosto, dado o relativo equilíbrio da disputa. As pesquisas variam entre si, mas nenhuma diz que a parada está decidida, ou perto de se decidir.

Os exércitos guerrilheiros na internet andam em razoável equilíbrio, bem como a capacidade demonstrada pelos candidatos de emplacar aspas na imprensa e criar polêmicas que deixam o adversário em situação desconfortável.

Os tucanos passaram semanas tendo que explicar como e por que supostamente não vão privatizar mais estatais nem acabar com o Bolsa Família. Agora é o PT quem explica que supostamente não tem relações com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), cujas conexões com o narcotráfico são conhecidas.

Ambos os “supostamente” são apenas provocações. Ninguém precisa se ofender.

Mas antes da TV pode haver novidades. Nos últimos dias, o PT vem adotando uma linha “propositiva”, moralmente superior, característica de quem avalia estar bem. Campanhas são assim mesmo: se o sujeito acha que vai na frente, ou em situação favorável, apela pelo “alto nível”. Basta a situação mudar e o discurso “construtivo” vai para a gaveta.

Veremos se o “propositivismo” petista resistirá às turbulências vindouras e à pressão de uma corrida equilibrada.

Para o eleitor, penso eu, interessaria uma eleição mais, digamos, americana. Menos cínica. Que uns digam tudo o que pensam dos outros, que façam todos os ataques e críticas imagináveis, que tudo, afinal, venha à luz do dia. O eleitor merece saber.

O certo é que a Justiça Eleitoral vai ter muito trabalho, bem como os assessores jurídicos das campanhas. Como atacar (ou criticar) deixando a menor margem possível para um direito de resposta? Também aqui os marqueteiros irão dizer a que vieram.

A observar, ainda, o quanto cada profissional da marquetagem conseguirá resistir às loucuras do entorno, quando a pressão ficar insuportável. A equipe de José Serra precisará evitar repetir as bobagens fatais cometidas por Geraldo Alckmin na largada do segundo turno de 2006. A de Dilma, os tristes equívocos perpetrados, na mesma circunstância, por Marta Suplicy dois anos atrás.

Os profissionais são os mesmos. Quem se sairá melhor? E quem escorregará primeiro desta vez?

Até porque os dois principais candidatos vão ambos razoavelmente bem. Ou pelo menos melhor do que previam os adversários. Serra parece próximo de completar vivo a travessia do deserto, o período entre o lançamento da candidatura e o início da TV. E não se deve duvidar de que Dilma chegará preparada aos debates.

Reciprocidade

O Brasil pretende que o imbróglio entre a Colômbia e a Venezuela seja resolvido no âmbito da Unasul, a articulação dos países da América do Sul. Aqui Caracas leva grande vantagem sobre Bogotá.

Verdade que em fóruns assim as coisas costumam ser resolvidas por consenso. Mas ajuda bastante ter a maioria, estar em minoria é sempre desconfortável.

O Brasil trabalha para tirar da jogada os Estados Unidos, que têm voz na OEA. Não será difícil alcançar esse objetivo. Basta apresentar uma solução viável que leve à desmobilização das Farc e demais grupos guerrilheiros.

Se a Venezuela exige, com razão, que os Estados Unidos respeitem a soberania venezuelana, é razoável exigir de Hugo Chávez que também respeite a soberania colombiana. A solução deve ser recíproca.

Talvez deva-se evitar a queda pelo teatro, algo intrínseco ao ambiente político sul-americano. Ainda que Chávez tenha levado o atributo a outro patamar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (25) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, a frase, que permita-me copiei e colei, mata toda a charada para a diplomacia brasileira no caso em questão: "Basta apresentar uma solução viável que leve à desmobilização das Farc e demais grupos guerrilheiros". Acrescentando que o "basta", soa como definitivo.
Swamoro Songhay

domingo, 25 de julho de 2010 16:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Gostei da seguinte frase deste seu post "Quem vai escorregar primeiro?":
"Para o eleitor, penso eu, interessaria uma eleição mais, digamos, americana. Menos cínica. Que uns digam tudo o que pensam dos outros, que façam todos os ataques e críticas imagináveis, que tudo, afinal, venha à luz do dia. O eleitor merece saber".
Eu, como eleitor, senti que o meu interesse estava representado pelo analista.
Há-se de reconhecer que a eleição no Brasil não segue muito o modelo americano. Nos Estados Unidos os candidatos normalmente têm carisma. Quando não o têm como no caso de Albert Gore na eleição contra George Bush, filho correm o risco de serem derrotados.
E mais, quando a crítica é feita, como José Serra fez para destruir a candidatura Ciro Gomes em 2002, o candidato ainda corre o risco de ver os eleitores de quem ele ataca ir para candidaturas adversárias.
De certo modo só resta às candidaturas se ajustarem à realidade, utilizando os argumentos que as favorecem. Como foi observado por você no post "Sem concorrência" de 22/07/2010 em relação da proposta da candidata Dilma Rousseff de dar o mérito a quem merece, isso é uma utopia. Afinal, Dilma Rousseff:
"E a candidata do governo e do presidente que mais sistemática e persistentemente procuram se apresentar como os únicos responsáveis por tudo que há de bom no país, apontando o dedo acusador aos adversários quando se buscam os culpados pelo que há de ruim".
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/07/2010

domingo, 25 de julho de 2010 19:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Basta que o céu caia na cabeça do presidente Lula. Desmobilizar as Farc? Não parece ser do interesse de Lula e do PT.

domingo, 25 de julho de 2010 20:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pelo pouco que se pode aferir com base em noticiário, estaria havendo uma escalada ou inícios de uma. Se for efetiva tal escalada, não restará aos estadistas da região outra alternativa que não a de se apresentarem para a mediação do problema.
Swamoro Songhay

segunda-feira, 26 de julho de 2010 12:50:00 BRT  

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