terça-feira, 27 de julho de 2010

Parte da solução ou do problema? (27/07)

Houve alguma precipitação quando aqui dentro se classificou como definitiva a derrota diplomática momentânea de Lula

O Brasil voltou a se movimentar no tabuleiro iraniano. Apesar do fracasso no desfecho da primeira mediação em torno do programa nuclear, o presidente da República carrega com ele algum ativo da iniciativa. Bem ou mal, aos trancos e barrancos, o Brasil está posicionado como interlocutor. Percorremos um trecho da curva de aprendizado e agora trata-se de extrair as lições.

Onde falhou o tal “pacto de Teerã”, no qual Brasil e Turquia foram avalistas da proposta de o Irã mandar para fora do país urânio “pobre”, e receber em troca o material “rico”? Na dúvida —aliás bastante razoável— de que a iniciativa buscava apenas ganhar tempo, permitindo aos iranianos avançar no caráter bélico de seu programa.

O Irã afirma que seu projeto nuclear é pacífico, mas o ceticismo é universal. Nas conversas reservadas, mesmo diplomatas do Itamaraty admitem que as garantias de Teerã são de fachada. E que as autoridades iranianas travam uma corrida contra o tempo, confiando que quando alcançarem o completo domínio da tecnologia guerreira estabelecerão um reequilíbrio de forças irreversível, internamente e na região.

Desde as contestadas eleições que lhe deram mais um mandato, Mahmoud Ahmadinejad vem suprimindo cirurgicamente a oposição. Os protestos mais recentes nascem de um ponto insuspeito: os conservadores não alinhados ao presidente. Pouco a pouco, os vetores democráticos da revolução islâmica de 1979 ficam na poeira.

Um Irã nuclear agregaria imenso poder ao establishment persa, permitindo-lhe consolidar a ditadura interna e apresentar-se como senhor dos destinos regionais.

É frequente analisar que um Irã nuclear ameaça Israel, mas dos países que entrariam na alça de mira dos aiatolás o Estado Judeu talvez esteja em melhores condições de se defender. Já as nações árabes ficariam em situação de inferioridade estratégica intolerável, com o consequente desencadeamento de uma corrida nuclear regional.

Deve haver alguma explicação razoável para o arsenal atômico israelense não ter deflagrado essa corrida até agora, mas não há dúvidas de que um Irã com a bomba terá outras consequências. E se isso não chega a ser um problema para o Brasil, dada a ligeireza com que tratamos do tema, é para muita gente boa.

A Rússia, por exemplo, caminha num sentido bem definido. Está alinhada aos Estados Unidos e à Europa no esforço para neutralizar Ahmadinejad. Nunca as relações Moscou-Teerã estiveram tão tensas. Igualmente a China.

Mas o início desta coluna foi sobre o ativo do Brasil no imbróglio, o de conversar com todo mundo. Houve alguma precipitação quando aqui dentro se classificou como definitiva aquela derrota diplomática momentânea de Luiz Inácio Lula da Silva. Dizia o Chacrinha que as coisas só acabam quando terminam, e ele tinha razão. A confusão iraniana está longe do fim, e adiante há muitas oportunidades potenciais de protagonismo.

O ponto fraco da posição brasileira está na dubiedade diante da possível nuclearização do Irã. No plano formal, o Brasil diz defender para os iranianos os mesmo direitos que já temos no desenvolvimento de tecnologia para fins pacíficos. Mas vazam como de uma peneira do governo brasileiro os desejos de o Irã servir como boi de piranha, abrindo um precedente que permita ao Brasil se retirar do Tratado de Não Proliferação.

Cuba e Venezuela têm sido mais explícitos, ao olhar a nuclearização do Irã como um passo decisivo para impor a desejada, por eles, derrota estratégica aos Estados Unidos. Aqui, ambos levam a vantagem da transparência.

No nosso caso, mais eficazes serão as iniciativas de intermediação, as propostas de diálogo, quanto mais clara ficar nossa própria posição. Se somos parte constitutiva do “enrolation” ou se nossas iniciativas se destinam, de fato, a enquadrar o Irã, mas pacificamente e de um modo que não faça sofrer a população daquele país.

Em miúdos, o Brasil precisa decidir se é parte do problema ou da solução.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (27) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

Anonymous Rotundo disse...

O Brasil, ao contrário de sua tradição diplomática, passou a ter lado.
No mais das vezes escolhemos o pior lado.
É o caso do Irã, Chávez, Fidel, Sudão e por aí afora.
Não nos cabe aí qualquer protagonismo ligado a isenção ou mediação.
Continuaremos, no máximo, a levar recados e cumprir papéis fixados pelos outros e sem contar com a confiança das maiores potências.
Sem chances de sucesso individual.

terça-feira, 27 de julho de 2010 12:11:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Concordo com Rotundo.

percebi nessa nova investida uma alteração importante no discurso do Celso Amorim. Eu o vi na TV dizendo que o governo do Irã precisa dar mostras mais conclusivas e convincentes de que o o programa nuclear iraniano não possui fins bélicos.

Depois de todo o furdunço diplomático do governo brasileiro, que culminou com o vexaminoso vazamento de uma parte (a que interessava) da correspondência oficial entre os chefes de Estado dos EUA e do Brasil, agora o discurso de Amorim está bem mais afinadinho com o do CS da ONU. O que explica essa inflexão no discurso diplomático brasileiro?

Eu concordo com sua análise sobre a correção de rumo na diplomacia. Mas ainda permanece sem exame a qualidade dessa diplomacia. Isto é, é bom para o Brasil ficar nessa diplomacia de levar recados e cumprir papéis fixados pelos outros?

Volta a velha questão: será que não existem na região de influência de fato do Brasil questões mais importantes e para as quais a nossa diplomacia não tem dado a devida atenção?

Fica evidente que o que se busca com essa diplomacia é muito mais a luz dos holofotes externos e internos do que atividade diplomática para o que de fato interessa ao país.

terça-feira, 27 de julho de 2010 16:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"Deve haver alguma explicação razoável para o arsenal atômico israelense não ter deflagrado até agora essa corrida até agora, mas não há dúvidas de que um Irã com a bomba terá outras consequências".

- porque Israel nunca ficou aos berros ameaçando seus vizinhos.

terça-feira, 27 de julho de 2010 17:57:00 BRT  
Anonymous Pelodan disse...

"Deve haver alguma explicação razoável para o arsenal atômico israelense não ter deflagrado até agora essa corrida até agora, mas não há dúvidas de que um Irã com a bomba terá outras consequências".

- porque Israel é protegido dos EUA e pode tudo.
- porque a exemplo do Irã é muito dificil entrar para o "clube", anulando o risco Irã não tenho duvidas que o Brasil será a bola da vez.

quarta-feira, 28 de julho de 2010 21:10:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O Brasil não foi, não é e não será ameaçado de obliteração por ninguém. Uma coisa é pesquisa da energia nuclear. Outra, é ficar na ambiguidade sobre a produção de armas nucleares. Se assim o fizer, deixará de ser uma grande nação pacífica, para ser uma pequena potência agressiva.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 29 de julho de 2010 10:30:00 BRT  

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