terça-feira, 20 de julho de 2010

O casamento entre homossexuais (20/07)

Em resumo, trata-se apenas de lançar o tema da escolha sexual no rol dos assuntos com que o Estado nada tem a ver

Falta nesta eleição alguém viável e que reúna coragem para dizer simplesmente o seguinte: “Vou fazer como a presidente da Argentina, vou trabalhar para aprovar no Congresso Nacional a liberação plena do casamento entre pessoas do mesmo sexo”.

É casamento mesmo, e não subformas de contornar a encrenca. O debate entre os argentinos foi esclarecedor. Trata-se apenas de garantir um direito fundamental: o da igualdade. Se heterossexuais podem casar-se, por que não estender a prerrogativa aos homossexuais?

Assuntos como a religião e a orientação sexual são da esfera privada. E o Estado? Cabe a ele oferecer as condições para o pleno exercício do direito de escolha. Só. Se determinada igreja condena certas preferências sexuais, que selecione os fiéis como bem entender. Mas é assunto dela, não nosso (se a ela não pertencemos).

Complicado é a Igreja Católica tratar com suavidade os casos de pedofilia homossexual em suas fileiras e, ao mesmo tempo, pressionar os poderes constituídos para manter como cidadãos de segunda categoria os homossexuais que desejam levar uma vida transparente, digna e cidadã.

Idem para as demais igrejas, incluídas as evangélicas. Se estão insatisfeitas com a influência do catolicismo na esfera pública, não é razoável que também queiram ditar normas para quem não segue sua cartilha.

É hora de enfrentar o preconceito, nas diversas variações. Uma delas: a resistência a permitir que casais homossexuais adotem crianças.

Vamos acabar com isso. Dezenas de milhares de pequenos órfãos ou relegados esperam uma oportunidade de futuro. Orientação sexual não define a qualidade do pai, ou da mãe, para criar o filho, ou a filha.

Em resumo, trata-se apenas de lançar o tema da escolha sexual no rol dos assuntos com que o Estado nada tem a ver.

Eis um ponto. Mas infelizmente é baixa a probabilidade de ele e outros relevantes serem debatidos com franqueza e objetividade. O script dos candidatos viáveis é sabido. Eles percorrem o país não para saber o que devem fazer, mas principalmente para recolher os vetos provenientes dos diversos grupos de pressão.

Assim, pouco a pouco, os candidatos vão se transformando em portadores do nada. Ou do quase nada. A consequência natural é serem incapazes de mobilizar a sociedade. Daí que estejamos diante da campanha eleitoral talvez mais passiva desde a redemocratização.

Do jeito que vai, ela só galvanizará mesmo os portadores e beneficiários de espaços estatais (ou paraestatais) e os candidatos a um. Cada qual no seu papel. Já a sociedade acompanhará à distância, reservando-se o direito de decidir na hora da urna.

Nos países desenvolvidos costuma ser assim, quando a eleição não coincide com nenhuma grande crise. O problema é que nós não somos ainda um país desenvolvido. Temos impasses gigantescos a superar. Impasses cuja solução exige imensa energia social.

O “casamento gay” é um exemplo. Deve haver outros. Mas em fase de bonança econômica nem o governismo quer marola nem a oposição tem coragem de ousar.

Uma pena.

Sem emoção

Ainda sobre a eleição, o comício/passeata de Dilma Rousseff no Rio sexta-feira foi fraquinho. De quem é a culpa? Da chuva? Ela talvez tenha até ajudado, pois oferece uma explicação elegante para o baixo comparecimento.

Ou talvez o eleitor não estivesse disposto a gastar as preciosas horas de uma tarde/noite de sexta-feira para ficar em pé diante do palanque e ouvir discursos de políticos enfadonhos, previsíveis, repetitivos e autocentrados.

Muitos eleitores estão propensos a votar na candidata de Luiz Inácio Lula da Silva porque avaliam que ele faz um bom governo e que as coisas boas devem continuar. Só isso. É um voto pragmático.

Como naqueles passeios de buggy pelas dunas, o programa pode ser com ou sem emoção. Desta vez parece que o eleitor optou pelo bilhete “sem emoção”. Vamos acompanhar.

De volta

Obcecada que está com a imprensa, com o Ministério Público e com a Justiça Eleitoral, talvez daqui a algum tempo a candidatura petista tenha que soltar uma nova “Carta aos Brasileiros”, agora para garantir que vai respeitar o Estado de Direito Democrático.

Se bobear, ela será redigida pelo mesmo autor da primeira, de 2002, que se comprometia com o modelo macroeconômico: Antonio Palocci.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (20) no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Blogger Manuel disse...

Alon,

Ótima coluna. Só acho um pouco problemático o termo "escolha sexual", usado como sinônimo de orientação sexual. Quem estuda esse assunto costuma preferir o segundo.

terça-feira, 20 de julho de 2010 16:58:00 BRT  
Blogger Luan disse...

Boa avaliação! Gostei
Abraços, Luan Diego Vosnhak

terça-feira, 20 de julho de 2010 17:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

justo... muito bom. já estou divulgando a reflexão.

terça-feira, 20 de julho de 2010 18:02:00 BRT  
Blogger Vicente Portella disse...

Na prática vivemos uma coisa engraçada. Onde o Estado deve estar presente, querem privatizar. Onde os Estado não deveria se meter - vida privada e orientação sexual de cada um - querem estatizar.
O Brasil precisa amadurecer urgentemente, apesar de que, em alguns setores, fomos direto a podridão.

terça-feira, 20 de julho de 2010 18:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, vc acha que a candidata do PT está seguindo o mesmo caminho do Obama que brigou com a Fox (para ser coerente nas análises como vc mesmo diz).
Outra coisa, o que vc acha dessas reportagens da Veja: dos dólares em cuba, Farcs, grampos sem aúdio, dragões de várias cabeças. Ah, e da ficha falsa da Dilma na Folha. São factuais ou apenas jogadas pra torcida?
Não minha opinião a mídia fala o que quer, e quem não gostar que entre na justiça.
O problema é que, como diria o Joelmir Beting toda justiça que tarda falha. Mas é idêntica a democracia, melhor com ela, hehehe.
E toca o barco...
Abs
Rafael

terça-feira, 20 de julho de 2010 23:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Duas pendências que devem ser aprovadas e regulamentadas: a união civil entre pessoas de mesmo sexo e a adoção de crianças por estes casais. No caso da adoção, casos específicos são judicializados, demorando, gerando custos, frustrações. A criança, o maior beneficiário, estaria sendo privada da atenção que deveria ter de forma mais rápida e objetiva.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 21 de julho de 2010 11:44:00 BRT  

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