terça-feira, 13 de julho de 2010

Falta o "algo mais" (13/07)

Têm faltado sofisticação e inteligência à nossa política externa. Ela pode ser “de direita” ou “de esquerda”. Só não deve ser incompetente

Talvez esteja na hora de a diplomacia brasileira tentar reencontrar o eixo perdido. As últimas semanas não foram boas para o Itamaraty. Nem para o presidente da República, no front externo. Um ponto de derrapagem foi a condução final do tema nuclear iraniano. De lá para cá as coisas parecem meio fora de lugar.

Ao ponto de o G20 reunir-se para debater as estratégias econômico-financeiras globais e o Brasil passar em branco. Lula sempre defendeu a necessidade imperiosa de ampliar o debate para além do G8, para fora dos estreitos limites do mundo desenvolvido. Quando a ampliação começa a acontecer, o Brasil parece meio à margem.

Tem sido notável o investimento político brasileiro nos Brics, o grupo das nações emergentes mais importantes, como polo alternativo aos Estados Unidos e à Europa. Mas as últimas semanas registram não apenas o nosso isolamento no âmbito dos Brics — como se viu na aprovação das sanções contra o Irã pelo Conselho de Segurança da ONU. Há uma inédita coordenação entre os Estados Unidos, a China e a Rússia.

Passou meio despercebido aqui, encoberto pela reta final da Copa do Mundo e pelo horrendo “Caso Bruno”, mas americanos e russos fizeram uma troca-relâmpago de espiões semana passada que é um sintoma das excelentes relações bilaterais. E nos últimos dias apareceram conexões de separatistas islâmicos chineses uigures com a Al Qaeda, quando se desbaratou uma conspiração terrorista na Noruega.

Em Cuba, finalmente o Partido Comunista começa a se mover, pressionado pela exigência internacional de mais respeito aos direitos humanos. De um jeito meio torto, é verdade, pois propõe banir do país os oposicionistas presos, em vez de simplesmente libertá-los. A ditadura brasileira fazia isso nos anos 1960 e 1970.

O Itamaraty correu para dizer que o Brasil tem um papel no avanço obtido, mas nossa capacidade de capitalizar politicamente é zero. Aqui menos por culpa dos diplomatas e mais por causa do incrivelmente desastroso paralelismo que Lula fez lá atrás entre os presos políticos cubanos e bandidos brasileiros condenados por crimes comuns. E tem mais: custava aos amigos de Lula em Havana avisarem da nova disposição para o diálogo? Teria evitado a saia justa.

Outro desconforto é acabarmos empurrados para o incômodo papel de aliados de Mahmoud Ahmadinejad. Tem gente no governo brasileiro achando que uma bomba iraniana ajuda o Brasil, mas a ideia inicial não era essa, era credenciarmo-nos como interlocutores.

Lula em Teerã deu uma de Asamoah Gyan. No último minuto da prorrogação perdeu o pênalti. Achou antes da hora que o sucesso estava consumado. Deu-se mal.

Em vez de entrar na História como o construtor do canal de negociação entre o Irã e as grandes potências, acabou por enquanto confinado a “marcar posição” contra americanos, russos, chineses, franceses e britânicos. Está emparedado.

Nada porém é definitivo. O peso do Brasil no jogo das relações políticas planetárias deve-se menos a aspectos subjetivos da ação dos governantes e mais ao nosso tamanho econômico, populacional, territorial. Só que talvez esteja faltando o “algo mais” para gerir esse capital.

O Itamaraty tem sua culpa. Por aceitar a relativização e o enfraquecimento do profissionalismo. Uma chancelaria subserviente é ruim para o país.

Falta também à diplomacia adaptar-se adequadamente às novas realidades. O sinal de alerta veio em Honduras, quando não tivemos inteligência (informação) sobre a real força política de Manuel Zelaya. Em Teerã, ninguém disse a Lula que talvez o acordo obtido por ele não fosse suficiente para brecar o expresso das sanções. E que era preciso trabalhar um pouco mais antes de ir para o palco.

Foi evidente ali que o Itamaraty e o Palácio do Planalto não tinham a mínima ideia do estágio das negociações entre as potências no Conselho de Segurança.

Ninguém avisou Lula que era uma má estratégia colocar todas as fichas na possibilidade de Barack Obama destravar as negociações da Rodada Doha?

Tem faltado sofisticação e inteligência à nossa política externa. Ela pode ser “de direita” ou “de esquerda”. Só não deve ser incompetente.

É um bom tema para quem vier a ocupar a cadeira presidencial em janeiro.

Moqueca

Volto à coluna depois de mais de um mês, e a eleição presidencial continua indefinida.

Já se disse em algum lugar que as coisas estão melhores para o PT do que estavam meses atrás e melhores para o PSDB do que pareciam semanas atrás. Talvez os ansiosos devam dirigir-se a Oberhausen e perguntar ao polvo Paul.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (13) no Correio Braziliense.

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9 Comentários:

Blogger pait disse...

Brilhante volta ao blog! Parabéns agradecidos.

terça-feira, 13 de julho de 2010 11:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Talvez as férias tenham-lhe deixado um pouco emperrado. Não sei porque, mas me pareceu que se você tivesse escrito tudo há um mês faria algum sentido se se pensasse só no curtíssimo prazo. Não tudo, porque se se pensasse no curtíssimo prazo não faria sentido o que de fato é aproveitável neste seu post, ou seja, a frase:
"Nada porém é definitivo".
Clevr Mendes de Oliveira
BH, 13/07/2010

terça-feira, 13 de julho de 2010 13:23:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Salve, Alon.

"Nós ajudamos [...]Atuamos na surdina, sem alardes", declarou Marco Aurélio Garcia a respeito dos presos cubanos.

Será que a troca de espiões também não foi obra da "diplomacia da surdina"?

terça-feira, 13 de julho de 2010 17:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Grande retorno.

Dizer tudo isso sem se enfurecer e sem pesar a mão nas palavras, só mesmo para quem acaba de voltar de férias.

Bruno

terça-feira, 13 de julho de 2010 19:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Você faz parte de um grupo muito grande e de pessoas muito inteligentes que criticam a posição do Brasil na Rodada Doha. Aqui neste post você pergunta:
"Ninguém avisou Lula que era uma má estratégia colocar todas as fichas na possibilidade de Barack Obama destravar as negociações da Rodada Doha?"
Em relação a sua pergunta há duas possibilidades. Alguém avisou ou ninguém avisou. Penso que a possibilidade de ninguém avisar é remota, mas não seria impossível. De todo, como existe a possibilidade de ninguém avisar, não custava você lançar a pergunta. Alea jacta est.
Só que há algo mais importante em relação a Rodada de Doha que sua questão parece não levar em conta. Sua questão parte do princípio de que os economistas do PT não foram capazes de perceber que o setor de produção de alimentos é um setor com redução na participação do PIB mundial. Assim, defendem o fim do subsídio para em troca liberar o setor de serviços (saúde, educação, entretenimento e cultura) para os grandes empresários internacionais setores que realmente crescem no mundo e mais à frente quando se evidenciar que a única forma de manter ou aumentar a produção de alimentos no mundo é mediante o subsídio se aceitaria a reintrodução dos subsídios para a agricultura e pecuária. A pensar assim você tem toda a razão em chamar o governo de incompetente. Sem ser economista, há trinta anos eu sei disso então se o PT não sabe disso é por grassa ignorância.
Existe também a possibilidade de o PT saber disso e ter buscado uma estratégia para enfrentar a forte concorrência dos capitalistas estrangeiros quando se liberasse o setor de serviços. E a melhor estratégia para não enfrentar essa concorrência era impedir que a Rodada Doha fosse destravada. E evidentemente a estratégia se fortaleceria se alguém avisasse ao PT que era grande a possibilidade de Barack Obama não destravar as negociações da Rodada Doha. Seguro que a Rodada Doha não seria destravada, tudo que o governo tinha que fazer era sair bem na fita e defender o destravamento.
Foi mais ou menos isso que eu quis dizer quando enviei um comentário em 10/04/2010 às 19h14min0s BRT para o seu post "A Alça cambial de Lula" de 09/04/2010. No meu comentário eu retiro um trecho de um artigo de Fidel Castro em que até o já debilitado ditador cubano havia percebido as segundas intenções de Lula.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/07/2010

terça-feira, 13 de julho de 2010 22:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Você faz parte de um grupo muito grande e de pessoas muito inteligentes que criticam a posição do Brasil na Rodada Doha. Aqui neste post você pergunta:
"Ninguém avisou Lula que era uma má estratégia colocar todas as fichas na possibilidade de Barack Obama destravar as negociações da Rodada Doha?"
Em relação a sua pergunta há duas possibilidades. Alguém avisou ou ninguém avisou. Penso que a possibilidade de ninguém avisar é remota, mas não seria impossível. De todo, como existe a possibilidade de ninguém avisar, não custava você lançar a pergunta. Alea jacta est.
Só que há algo mais importante em relação a Rodada de Doha que sua questão parece não levar em conta. Sua questão parte do princípio de que os economistas do PT não foram capazes de perceber que o setor de produção de alimentos é um setor com redução na participação do PIB mundial. Assim, defendem o fim do subsídio para em troca liberar o setor de serviços (saúde, educação, entretenimento e cultura) para os grandes empresários internacionais setores que realmente crescem no mundo e mais à frente quando se evidenciar que a única forma de manter ou aumentar a produção de alimentos no mundo é mediante o subsídio se aceitaria a reintrodução dos subsídios para a agricultura e pecuária. A pensar assim você tem toda a razão em chamar o governo de incompetente. Sem ser economista, há trinta anos eu sei disso então se o PT não sabe disso é por grassa ignorância.
Existe também a possibilidade de o PT saber disso e ter buscado uma estratégia para enfrentar a forte concorrência dos capitalistas estrangeiros quando se liberasse o setor de serviços. E a melhor estratégia para não enfrentar essa concorrência era impedir que a Rodada Doha fosse destravada. E evidentemente a estratégia se fortaleceria se alguém avisasse ao PT que era grande a possibilidade de Barack Obama não destravar as negociações da Rodada Doha. Seguro que a Rodada Doha não seria destravada, tudo que o governo tinha que fazer era sair bem na fita e defender o destravamento.
Foi mais ou menos isso que eu quis dizer quando enviei um comentário em 10/04/2010 às 19h14min0s BRT para o seu post "A Alça cambial de Lula" de 09/04/2010. No meu comentário eu retiro um trecho de um artigo de Fidel Castro em que até o já debilitado ditador cubano havia percebido as segundas intenções de Lula.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/07/2010

terça-feira, 13 de julho de 2010 22:54:00 BRT  
Anonymous Chesterton disse...

Parece que para os organismos internacionais o governo Lula já acabou. Será que isso tem reflexo na escolha do próximo presidente do Brasil?

quarta-feira, 14 de julho de 2010 08:55:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Só não dá, dentre outras dúvidas, como é que pode existir trabalho na surdina depois de forte alarde sobre as ações da diplomacia presidencial. No caso recente de de Cuba, as ações foram da Igreja Católica. Pode até ser que tenham havido gestões junto ao Papa, ao Presidente do Governo Espanhol e Cuba. Mas, como desta vez o resultado foi favorável, parece não ter havido nada em tal sentido. De todo modo, sumiram do noticiário Irã, Flotilha da Paz, Honduras etc. Mas, na surdina, entraram o trem bala e a infraestrutura para a Copa2014.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 14 de julho de 2010 14:29:00 BRT  
Blogger DIL_MENTINDO disse...

Alon
A FSP publicou um artigo reproduzido da The Economist e q na minha opinião foi pouco divulgado. Sugiro a leitura no original ou na Folha:
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/767418-brasil-ja-e-um-dos-maiores-doadores-internacionais-diz-economist.shtml
ou
http://www.economist.com/node/16592455?story_id=16592455&fsrc=rss
Acredito que a informação contida no artigo ilustra seu comentários.
Tomo a liberdade de sugerir um aprofundamento da sua análise da Política Externa.
Este assunto é, a meu ver, o "algo menos" que demonstra seu raciocínio.
Faltam muitos "algo mais" a esta incompetência constantemente confirmada.

sábado, 17 de julho de 2010 18:42:00 BRT  

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