quarta-feira, 28 de julho de 2010

Dialética radical (28/07)

Os últimos números reafirmam nossa profunda dependência do exterior. Está meio demodé tocar no assunto, nestes tempos dialéticos, quando a moda é ser ao mesmo tempo você e o seu contrário

Está passando quase despercebido o crescimento do deficit em transações correntes do balanço de pagamentos. Em resumo, o saldo da balança comercial não vem sendo suficiente para compensar as maciças remessas de lucros e dividendos. A relativa tranquilidade nasce de dois vetores: as reservas cambiais e a captação de investimentos vindos do exterior.

Ou seja, a economia brasileira resiste também porque continua escancarada aos fluxos globais do capital, e assim o país vai se financiando. Não deixa de ser irônico que aconteça sob um governo do PT, mas essa observação já anda meio batida, reconheço (comparar o que o PT dizia antes de chegar ao governo e o que fez depois).

Sempre é útil, entretanto, registrar que enquanto Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e entourage batem dia sim outro também na tecla do “fim da dependência”, nunca antes na história deste país estivemos tão dependentes do dinheiro vindo de fora. Mas como ele existe e está disponível para um governo tão “market friendly” quanto o nosso, a coisa passa disfarçada. O governo fala grosso. E a oposição se faz de surda. Que não é besta.

Lula adora repetir, e cada vez mais, o quanto não dependemos agora do Fundo Monetário Internacional, e isso tem um efeito simbólico conhecido. Deve ter também algum efeito eleitoral. Mas o presidente não conta a história toda. Deixa de dizer que passamos a depender de um dinheiro muito mais caro, o dinheiro que vem para cá atrás das nossas obesas taxas de juros e, num grau menor, das gordurosas margens.

Haverá negócio mais bacana no planeta do que ser dono de um banco ou de uma companhia telefônica no Brasil?

O faz de conta está mesmo com tudo. Pena é que alguns menos treinados na mistificação escorreguem de vez em quando. O chanceler Celso Amorim protagonizou uma página espantosa na trajetória da diplomacia pátria, ao dizer, no início deste mês, na Câmara dos Deputados, que o Brasil pôde votar no Conselho de Segurança da ONU contra as sanções ao Irã porque não deve ao FMI.

Ou seja, segundo Amorim, quem votou a favor das sanções fê-lo por ser devedor.

Restou porém fora da lógica do ministro um detalhe: o maior credor do mundo, a China, votou favoravelmente.

É o caso de especular. Será que Barack Obama ameaçou Pequim com um calote dos títulos do Tesouro americano caso os chineses não acompanhassem o voto americano contra o Irã? A julgar pelo raciocínio de Amorim, quem sabe?

Ironias à parte, os últimos números reafirmam mesmo nossa profunda dependência do exterior. Está meio démodé tocar no assunto, nestes tempos de dialética radical, quando a moda é ser ao mesmo tempo você e o seu contrário. Mas é fato.

E por que permanecemos atrelados ao nosso roteiro tradicional? Porque continuamos incapazes de gerar a poupança necessária para sustentar nosso consumo e, ao mesmo tempo, nossas necessidades de investimento.

Somos um Estados Unidos em escala reduzida. No que eles têm de pior. No vício de viver do dinheiro e do trabalho alheios. Na cultura do esbanjamento. A diferença é que eles ainda podem, por enquanto, imprimir a moeda mundial. Nós não.

Lula e Dilma fizeram o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Do ângulo simbólico foi ótimo. Havia tempo que a agenda do crescimento não era colocada em primeiro lugar.

Infelizmente, porém, na rubrica dos recursos orçamentários para investimento ou na taxa de poupança não se registrou neste governo evolução significativa em relação ao anterior. O que deixou de ser drenado em juros virou custeio. Bom de um lado, pelos repasses aos mais pobres, mas péssimo para quem acredita na essencialidade da poupança nacional e do investimento público para crescer de maneira sustentada.

Nos últimos dias os analistas respiram aliviados, pois parece que o Banco Central tem sido eficaz ao impedir a aceleração do crescimento. Lula festeja, pois parece que nosso “PIB potencial” (o que não arrebenta a inflação) anda um pouquinho maior em relação ao do governo anterior.

Como se sabe, vivemos uma era de profundas transformações.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (28) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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7 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

As afirmações do chanceler Celso Amorim, forma proferidas no dia 9 de junho,passado.:"Felizmente o Brasil não deve ao FMI e votou de acordo com suas convicções".Essa resposta aludia aos devedores e dependentes do FMI e suas políticas depressivas.

quarta-feira, 28 de julho de 2010 13:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Bom post este "Dialética Radical" de 28/07/2010. Tenho evidentemente algumas discordâncias. No início por exemplo você diz que:
"Está passando quase despercebido o crescimento do deficit em transações correntes do balanço de pagamentos".
Não creio que tenha havido esse despercebimento. No blog no Estadão do José Paulo Kupfer há um bom post sobre esse assunto com o título de "Insistência nos jogadores errados" de 26/07/2010 às 18h35. Há outros, indiquei esse porque José Paulo Kupfer posta de forma mais espaçada e assim muitas vezes um post de importância fica encabeçando o blog dele por um bom tempo. É o caso do dele que é o último desde o dia 26.
Outra afirmação sua que considerei sem fundamento foi concluir que uma vez que o chanceler Celso Amorim disse que o Brasil pôde votar no Conselho de Segurança da ONU contra as sanções ao Irã porque não deve ao FMI então:
". . . segundo Amorim, quem votou a favor das sanções fê-lo por ser devedor".
Não dá para concluir isso, a menos que concluamos com o que pensamos e não com o que o chancelar Celso Amorim pensa. É conhecido o zelo do governo em não tratar de assuntos internos de outros países. Sendo assim, é bastante improvável que o chanceler Celso Amorim esteja falando de outros países. Se for para dizer algo além do que ele disse talvez fosse o caso de dizer que ele disse que em outras oportunidades o Brasil não votou como desejasse porque era devedor do FMI. E tendo servido a tantos senhores o chanceler Celso Amorim provavelmente sabia do que estava falando, ou melhor, deixando de falar.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 28/07/2010

quarta-feira, 28 de julho de 2010 13:34:00 BRT  
Blogger chico disse...

Alon, como sempre ótimas análises e escolha de temas fora do lugar comum. Destacarei só 2 pontos em que discordo.

1- Não precisamos mimetizar Lula sobre o teor messiânico de seus governos e suas realizações, mas sem dúvida tentar fazer uma aproximação entre os resultados do governo Lula e do governo FHC não é factível. Ainda que o resultado tenha sido somente o de atenuar alguns dos grandes entraves do país e haja números bastante próximos (como o de percentual de investimento do governo), não há como não constatar a discrepância de resultados de gestão.

2- Fazer um paralelo entre o antigo crescimento sustentado por endividamento externo por parte do governo e a atual dependencia de crédito externo por parte do setor privado é um enorme sofisma...

quarta-feira, 28 de julho de 2010 19:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, o analista mais "pontudo" da blogosfera e talvez de todo jornalismo nacional

quarta-feira, 28 de julho de 2010 20:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"Somos um Estados Unidos em escala reduzida. No que eles têm de pior. No vício de viver do dinheiro e do trabalho alheios. Na cultura do esbanjamento. A diferença é que eles ainda podem, por enquanto, imprimir a moeda mundial. Nós não".

Ou...

Temos um histórico anti-industrial que vem de nossa herança portuguesa.

Caro Alon,

adoro a sua coluna, mas não posso deixar de observar que você escorrega muito em preconceitos faorianos.
O Brasil já tem um longa história... transformou suas instituições modernas (estado e mercado), mas continua "essencialmente" uma colônia portuguesa?! Tal raciocínio não é um pouco desprovido de lógica?
Isso é um passado ou uma sina? São fatores culturais (que se alteram) ou instintos intransponíveis? Com as transformações históricas e institucionais não vem também a reconstrução da cultura e do que significa ser humano e brasileiro?
Roberto Grun, sociólogo paulista, diz que são visões como a sua que fazem com que o spread seja enorme. Lógico que temos que cobrar juros mais altos! Afinal, pela "herança" portuguesa que tem, o brasileiro é mais "propenso" a dar calote.
Esse é o pano de fundo irrefletido do forte spread cobrado pelas instituições financeiras. A razão não é simplesmente econômica, mas social.

Abs

daniel natal rn

segunda-feira, 2 de agosto de 2010 04:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Daniel (Natal -RN)(segunda-feira, 02 de agosto de 2010 04h51min00s BRT),
Vivo à cata de comentários como o seu alertando para preconceitos fortemente enraizados, mas que fogem a qualquer lógica mais acurada. Vivo às turras com os que mencionam Max Weber para acusar de patrimonialista o setor público brasileiro. Um termo que fazia sentido naquela época que a contabilidade pública era incipiente é usado à farta, como que desconhecendo o tanto que é moderno o setor público brasileiro.
No entanto no final do texto você diz:
"A razão [do forte spread cobrado pelas instituições financeiras] não é simplesmente econômica, mas social".
Não seria melhor usar um outro termo que remetesse ao preconceito? Ao dizer que a razão do forte spread é social fica parecendo que você concorda que "pela "herança" portuguesa que tem, o brasileiro é mais "propenso" a dar calote".
A bem da verdade eu questionaria quase tudo. Primeiro dificilmente se provaria que há o nexo causal entre o brasileiro ser mais propenso a dar calorte e o forte spread. Depois questionaria se há essa maior propensão do brasileiro em dar calorte. E finalmente questionaria se essa propensão decorre da nossa herança portuguesa.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 04/08/2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010 23:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever,

se você ler direitinho irá perceber que eu critiquei justamente tal tipo de raciocínio.
É justamente esse preconceito, que é social e não alienígena, que gera o crescimento do spread.
O preconceito cria um pano de fundo aonde o brasileiro aparece como um ser "essencialmente" corrupto. Ora, nada poderia ser mais absurdo.

Abs.

Daniel

terça-feira, 10 de agosto de 2010 11:34:00 BRT  

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