quinta-feira, 29 de julho de 2010

De acordo no essencial (29/07)

Alguma terra foi distribuída, algum dinheiro foi dado. E só

As ruidosas diferenças entre PT e PSDB sobre o tratamento a dar ao MST e outras organizações da luta rural encobrem uma concordância básica: para ambos, a reforma agrária deixou de fazer sentido no atual estágio do desenvolvimento capitalista brasileiro.

O diagnóstico comum não surpreende quem acompanhou a formação das duas correntes políticas. Já nos anos 1970 era a posição dos teóricos e militantes dos grupos que estão nas raízes do peessedebismo e do petismo. Que aliás remetem à antiga Ação Popular, organização da esquerda católica nos anos 1960.

A derrota do PC do B na guerrilha do Araguaia talvez reste para a História como o marco simbólico dessa transição de conceitos. Saía silenciosamente de cena a luta pela distribuição de terra, entrava o combate dos trabalhadores rurais pela carteira assinada, condições dignas de trabalho, etc.

Nas últimas décadas, a reforma agrária persistiu no noticiário, e mesmo em políticas compensatórias de governos. Alguma terra foi distribuída, algum dinheiro foi dado. Os movimentos sociais passaram a ser recebidos em palácio. E só.

Qualquer um que conversa a sério com Luiz Inácio Lula da Silva a respeito pode informar sobre a opinião dele: a reforma agrária deveria ter sido feita lá atrás; como não foi, agora o quadro é outro.

Aos movimentos sociais, recursos e discursos em doses suficientes para aplacar as tensões. Já a política agrária para valer é feita com os grandes parceiros empresariais.

Dos transgênicos ao álcool combustível, passando pela luta em defesa do boi e da soja na fronteira agrícola, nenhum presidente conseguiria ser mais “ruralista” do que Lula foi.

A oposição que Lula sofre no assim chamado agronegócio é fundamentalmente ideológica, consequência das dúvidas ainda existentes sobre a transformação radical nos compromissos estratégicos do PT.

O business rural preferiria um câmbio menos apreciado? Sim, desde que o governo também desse um jeito de impedir o encarecimento dos insumos e maquinaria importados.

E se Lula é o campeão do real valorizado, o vice-campeão foi Fernando Henrique Cardoso. Antes e agora a agricultura tem sido vista como mecanismo eficaz de controle inflacionário, numa transferência maciça de renda do campo para a cidade.

O que não chegaria a ser problema, se essa renda estivesse sendo usada para promover um crescimento industrial acelerado. Em vez de um pedaço de terra, um bom emprego. Talvez menos seguro, mas ainda assim atraente. Especialmente porque a tendência dos jovens rurais — irrefreável — é ir para cidade. Por razões óbvias.

Onde está a encrenca? No fato de a sociedade brasileira carregar com ela um viés anti-industrialista, que vem desde a colonização portuguesa. Sorte que dos três principais candidatos, pelos menos dois, Dilma Rousseff e José Serra, são em teoria “desenvolvimentistas”.

Digo em teoria porque nenhum dos líderes da corrida pelo Palácio do Planalto disse até agora como vai fazer para criar os milhões e milhões de empregos industriais necessários para absorver a mão de obra nacional, especialmente a jovem.

Enquanto José Serra enfatiza a dureza de tratamento a quem atenta contra o direito de propriedade, Dilma procura o contraponto relativo, ressaltando que prefere o diálogo. Sim, mas e o que fazer com a reforma agrária? Onde estão as diferenças?

E tem mais. Quais as medidas práticas que cada candidato vai adotar, se for eleito, para desde o primeiro dia de governo reverter a tendência recente de perda de participação da indústria nas exportações? Como fazer para desconcentrar o crescimento industrial, sem prejudicar as regiões já desenvolvidas? Quais os investimentos previstos para a formação maciça de mão de obra exigida por uma nação que escolhe o rumo da industrialização acelerada?

E, se é possível fazer, por que ainda não foi feito?

Catastrofismo

O vazamento de petróleo no Golfo do México foi uma catástrofe, mas também parece ter havido muito catastrofismo. Aqui, aliás, Lula deu azar. Os americanos conseguiram começar a resolver o problema bem no dia em que o nosso presidente questionou a competência deles para achar a solução.

Claro que nem Lula nem a Petrobras tinham ideia de como solucionar a encrenca, mas quem disse que o presidente perderia a oportunidade de pontificar sobre as dificuldades alheias? De espargir lições abstratas?

Picuinhas à parte, o mais surpreendente é que a natureza e a ação do homem estão reduzindo os efeitos do desastre bem mais rapidamente do que se imaginava. Quem achava que o problema dali jogaria água fria no nosso pré-sal deu com os burros n’água.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (29) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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7 Comentários:

Anonymous Cláudio Camargo disse...

Vale lembrar que já em 1966 o Caio Prado Jr. questionava a necesssidade de uma reforma agrária no famoso livro "A revolução brasileira".

quinta-feira, 29 de julho de 2010 15:38:00 BRT  
Blogger Ronaldo Marques disse...

O Plano Brasil 2002 da SAE fala de um crescimento anual de 7% a.a. Um PIB de US$3,0 trilhões e uma renda per capita de US$15 Mil até lá!
Ou seja o dobro do PIB e +50% na renda!
Abordei o tema do crescimento vs. desenvolvimento em 3 dos últimos 4 posts do meu blog.
Todos falam na cobra mas não mostram o pau por uma razão simples: Não existe crescimento exponencial em um mundo de recursos finitos!
As perguntas a serem feitas são:(1)Crescimento do que? (2)Para quem?
(3)A qual custo? (4)Qual a necessidade real? (5) Qual a maneira mais direta e eficiente para beneficiar aqueles que necessitam realmente? (6)Quanto é suficiente?
Gostaria muito de conhecer as tuas respostas. Abraços

quinta-feira, 29 de julho de 2010 18:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuererwerker,
Como eu tenho insistido várias vezes no seu blog, a concentração no campo é uma tendência que se observa em todo o mundo capitalista. E com ela há um aumento de produtividade e um êxodo rural. E, ainda mais relevante, se constata que, mesmo com o aumento de produtividade, o setor agrícola sofre diminuição progressiva da participação do setor no total do PIB. É assim no mundo todo. Já na década de 80 mencionavam esse fenômeno para prognosticar a diminuição da importância do Partido Republicano nos Estados Unidos uma vez que haveria uma redução da importância dos estados mais conservadores, em geral agrícolas, tanto em relação à economia como em relação com a população. O Partido Republicano sobre enfrentar essa dificuldade.
Em relação à reforma agrária no Brasil eu considero que dois outros fatores devem ser levados em consideração. O primeiro, mas não o mais importante, e de longuíssimo prazo, seria considerar como vai ser o mundo capitalista daqui a mais de 50 anos. Muito provavelmente o mundo caminhará para o modelo de Nicholas Georgescu-Roegen: mais planejamento com crescimento econômico e populacional controlado. Em uma economia assim será que haverá trabalho para todo mundo? Provavelmente haverá atividades de serviços suficientes para dar emprego para todos. Pode ocorrer, entretanto, que haja necessidade de deixar no meio rural uma grande parte da população. Se esse for o caso o modelo de Reforma Agrária não pode ser de todo descartado.
Um segundo aspecto a considerar e que vai do curto prazo ao longo prazo é a necessidade de resolver bolsões de pobreza nos entornos das grandes cidades do país. É um problema que não será resolvido de imediato. Enquanto não se resolve, vale à pena tentar manter no meio rural o trabalhador rural e outros que foram para a cidade grande e vivem nas piores condições possíveis e gostariam de voltar para o meio rural se lá fossem asseguradas as condições mínimas de educação e saúde além de alimentação e abrigo.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/07/2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010 13:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Achei meio despropositado você dizer que
"Lula deu azar. Os americanos conseguiram começar a resolver o problema bem no dia em que o nosso presidente questionou a competência deles para achar a solução".
Fiquei pensando quem consideraria que Lula teve azar, os 80% que aprovam a administração dele ou os 20% que não aprovam? Eu li a respeito da declaração de Lula. E li também sobre o início da resolução do vazamento, como não me considero à vontade nem no grupo de 80% que aprova a administração dele nem nos 20% que desaprovam, fiquei a imaginar que foi por essa razão que eu não vi razão para considerar que Lula teve azar.
E deixou-me ainda mais incrédulo o arremate que você dá a esse tópico sobre o vazamento de petróleo ao dizer que
". . . . a natureza e a ação do homem estão reduzindo os efeitos do desastre bem mais rapidamente do que se imaginava".
Será? Notícia avissareira que eu tenho dificuldade de encontrar no google. Agora, mesmo verdade, a conclusão que você dá não me parece correta. Dizer como você disse que:
"Quem achava que o problema dali jogaria água fria no nosso pré-sal deu com os burros n’água".
Não tem nenhum suporte nos fatos conhecidos: o golfo do México é bem diferente da costa brasileira, os Estados Unidos têm uma infinita maior capacidade (tecnológica e de recursos financeiros) de solucionar um problema de vazamento e evidentemente possuem mais capacidade (tecnológica e de recursos financeiros)para reduzir os efeitos do desastre, com mantas sugadoras, produtos químicos e o escambau.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/07/2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010 13:46:00 BRT  
Blogger chico disse...

Concordo que a reforma agrária deveria ter sido feita lá atrás, mas discordo quanto ao abandono da criação de uma politica de reforma agrária consistente e integrada (não conheço nenhum país desenvolvido admirável que não possua uma classe média rural e uma agricultura voltada para o mercado interno).

A verdade é que o primitivismo prolongado da sociedade agrária brasileira continua, mesmo mais de um século depois, sendo um grande entrave ao desenvolvimento do país.
A reforma agrária é uma das medidas que o PT gostaria de ter força para "impor" às elites brasileiras e não possuí. Até ai tudo bem, a única coisa preocupante é que o PT parece não estar se movendo para reunir essa força e cozinhando o MST em banho-maria.

ps: tem que ter realmente muito amor pela imparcialidade jornalística para depois do governo FHC considerar o PSDB desenvolvimentista...

sexta-feira, 30 de julho de 2010 16:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ronaldo Marques (quinta-feira, 29 de julho de 2010 18h23min00s BRT),
Não conhecia seu blog, nem tinha lido seu comentário quando escrevi o meu comentário de sexta-feira, 30 de julho de 2010 13h21min00s BRT. Se já o tivesse lido, eu o teria mencionado, afinal a idéia do economista (Romeno, de família judia e que viveu grande parte da vida dele lecionando nos Estados Unidos) Nicholas Georgescu-Roegen é exatamente a questão da finitude dos recursos e, portanto, da criação de um modelo econômico (dificilmente ele poderá ser capitalista) menos consumista e com um planejamento centralizado de modo a se ter um crescimento mais igualitário no mundo e mais de acordo com a disponibilidade de recursos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/08/2010

domingo, 1 de agosto de 2010 21:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Chico (sexta-feira, 30 de julho de 2010 16h14min00s BRT),
O meio rural é pouco intensivo em mão-de-obra e tem pouca participação no total do PIB.
Assim, não me parece provével que se observa o que consta da sua observação em parênteses no seu comentário acima e que se acha transcrita a seguir:
"não conheço nenhum país desenvolvido admirável que não possua uma classe média rural e uma agricultura voltada para o mercado interno".
A classe média existente no meio rural nos países desenvolvidos só sobrevive pelo forte subsídio.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 04/08/2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010 23:19:00 BRT  

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