sexta-feira, 23 de julho de 2010

Como sempre antes neste país (23/07)

Como distinguir a crítica do ataque num processo eleitoral? No caso do BC, a vantagem dele é não ter que se preocupar nem com uma coisa nem com outra

Sabe qual é a diferença entre “crítica” e “ataque” numa campanha eleitoral? “Crítica” é o ataque que você faz ao adversário. Já “ataque” é a crítica que o adversário faz a você.

Espero que você tenha gostado da piada. É a adaptação de um velho jogo de palavras, mas penso que cabe bem. Talvez os jornalistas devêssemos usar o termo “ataque” com mais parcimônia, com muito critério.

Cada um é livre para escolher seu próprio parâmetro. Para mim, ataque é tudo que você diz de seu adversário mas não pode provar. Índio da Costa disse que o PT tem ligações com o narcotráfico. Teve que recuar, por razões na esfera judicial. Acusar de crime sem ter provas é coisa de amador.

Já os profissionais atacam de modo mais sofisticado. Atribuem ao adversário coisas que não são crime, mas que tiram voto. Por isso não precisam se retratar, nem recuar. Deixam o adversário enredado na necessidade de explicar-se, e seguem em frente.

Antes de chegar à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva foi muito atacado por supostamente não defender a estabilidade econômica e a responsabilidade fiscal. Mas é um assunto superado pela vida.

Esta semana o Banco Central subiu ainda mais as nossas já recordistas taxas de juros. Hoje em dia quem toma cuidado quando fala de juros é a oposição. Entre nós os limites da política estão bem definidos. Brincar pode, desde que não com coisa séria.

Uma coisa bem séria no Brasil é a espoliação financeira. Tão séria que ninguém de bom senso mexe com ela. Logo depois do anúncio do Comitê de Política Monetária (Copom) as centrais sindicais soltaram as notas de praxe criticando. Mas é inimaginável que essas mesmas centrais movam uma palha para transformar suas críticas em ação.

O PT ataca quem critica a política monetária, insinua que falar mal do BC é flertar com a instabilidade e a inflação. Já as centrais sindicais que apoiam incondicionalmente a candidata do PT, Dilma Rousseff, criticam acerbamente a mesma política monetária, apresentada por eles como a quintessência do mal.

Aliás, isso e a exigência da redução da jornada são os dois vetores principais da ação delas. Para encolher a jornada de trabalho as centrais estão dia sim outro também no Congresso. Sobre os juros, limitam-se a soltar notas protocolares. Que ninguém é besta.

Talvez consigam enganar os historiadores, esta categoria intelectual que dá valor a documentos e a aspas jornalísticas.

Já na oposição as reações aos juros oscilam do silêncio obsequioso à aprovação entusiasmada. O oposição brasileira age como se o BC fosse seu último reduto de poder. É um desfile permanente de gente a ressaltar a “responsabilidade” e a “competência” da autoridade monetária.

José Serra até ensaiou alguma rebeldia. As restrições pessoais dele à condução dos juros são conhecidas. E quem já conversou a sério com Dilma sabe como a incomoda o status quo. Mas estão todos agora adaptados aos limites que o establishment coloca para o debate.

O sujeito defender redução radical de juros no Brasil virou “coisa de maluco”. E candidato nenhum, entre os viáveis, quer ver o rótulo colado nele.

Estes dias o noticiário trouxe números sobre o grau de endividamento das pessoas. Vai em alta. O brasileiro está otimamente bem colocado no campeonato mundial de quanto os indivíduos e as famílias gastam de sua renda mensal para pagar dívidas. E vai maravilhosamente bem também em outro torneio, o da proporção entre a renda comprometida com o pagamento de dívidas e o quanto o devedor tomou emprestado. O brasileiro paga caríssimo para financiar-se.

Mas pergunte se algum dos candidatos a nos governar está a fim de colocar a mão nessa cumbuca. Eles seguem o exemplo vitorioso de Lula. Atacam-se, criticam-se, mas não mexem no essencial.

Como sempre antes neste país.

Autorregulação

Entrevistei o presidente do PT, José Eduardo Dutra, para um programa de televisão e ele fez uma observação razoável. Defendeu que os programas partidários (não os eleitorais) no rádio e na televisão sejam monitorados e regulados por um órgão composto pelos próprios partidos políticos.

É uma ideia. Até porque outro argumento de Dutra é igualmente razoável. Do jeito que vai a coisa, com a Justiça dizendo o que pode ou não pode ser dito (fora do período eleitoral), daqui a pouco alguém recorrerá ao Supremo com base na garantia constitucional da liberdade de expressão.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (23) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


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3 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Índio da Costa disse que o PT tem ligações com o narcotráfico. Teve que recuar, por razões na esfera judicial. Acusar de crime sem ter provas é coisa de amador."

Tá.Talvez ele estivesse querendo "enganar historiadores"...

O que o vice de Serra trouxe para o debate político foi apenas o registro dos inegáveis vínculos históricos entre as Farc e o PT.

Quanto ao narcotráfico, poderia esclarecer em bom português se você tem convicção formada de que as Farc NÃO mantêm quaisquer ligações com a produção e o tráfico internacional de cocaína? Eu, embora não possa apresentar as provas conclusivas dessa ligação, reconheço que há sim um imenso conjunto de relevantes evidências nesse sentido e que estas não podem ser simplesmente ignoradas. Precisariam ser investigadas, seja por historiadores, seja por jornalistas. Não é?

Os desdobramentos políticos dessa declaração de Índio da Costa no debate eleitoral são outros quinhentos. Claro que aos petistas e filopetistas cabe assumir o papel de virgens vestais e negar.

Um reparo à sua generalização sobre os historiadores, que seriam tontinhos por natureza e ludibriáveis pelos documentos e pelas aspas dos jornalistas.

Historiadores raramente se deixam enganar. Sendo humanos, historiadores erram por variados motivos. Os honestos intelectualmente sabem reconhecer os erros, sobretudo quando suas narrativas dos fatos são confrontadas, contraditas ou mesmo refutadas por outras igualmente fundamentadas na pesquisa empírica e lógica.

Bem diferente é o que fazem os ideólogos. E nesse campo pouco importa se são historiadores ou jornalistas. Mas estes também não se deixam enganar. Estes escrevem para enganar os incautos e, principalmente, para a adular os poderosos e, desse modo, auferir vantagens. As universidades e o meio jornalístico estão repletos desses espécimes.

Destes últimos, os intelectuais aduladores, a extinta União Soviética os produziu aos montes. Claro que não só nela. Intelectuais a serviço dos poderosos existem e existirão nas ditaduras e nas democracias.

O culto da personalidade é o elemento comum entre os ditadores, sejam “de esquerda” ou “de direita”. Hoje, está vivíssimo em Cuba, na Coréia do Norte e nos demais grotões sem maior importância pelo mundo afora. Os “pais do povo” têm especial preferência pela exposição monumental e viril (em cartazes, filmes, fotos etc para a massa) da personalidade deles.

Historiadores relatam uma prática vigente na era Stalin: nos salões onde papai Stalin discursava, funcionários do Estado colocavam baldes de água fria atrás da flexível coluna dos aduladores, para que eles pudessem refrescar as mãos, continuando assim os aplausos por horas e horas.

sexta-feira, 23 de julho de 2010 13:01:00 BRT  
Blogger pait disse...

É, se o Supremo decidir que a Constituição garante a liberdade de expressão, corremos o sério risco de cair numa democracia. Quem avisa, amigo é.

Para baixar os juros, o governo precisa gastar menos. Isso nenhum político quer.

sexta-feira, 23 de julho de 2010 14:49:00 BRT  
Anonymous iara disse...

O Indio da Costa pode pedir as provas concretas para o Reinaldo Azevedo.Eh so entrar no blog dele que as provas estao expostas para todos.

sábado, 24 de julho de 2010 15:03:00 BRT  

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