quinta-feira, 3 de junho de 2010

Falta ir à academia (03/06)

Na Europa, os principais partidos social-democratas e socialistas têm a mesma origem sindical do PT. E estão no poder ou perto dele há bem mais tempo. Mas ali os sindicatos não foram absorvidos pelo Estado na intensidade daqui, conseguem manter alguma autonomia e capacidade de mobilização

O presidente da República vangloriou-se de ter proporcionado, segundo ele, um período “melhor impossível” para os movimentos sindicais. Conforme sua excelência, tudo que foi pedido acabou atendido. Os sindicatos só não colheram o não reivindicado.

É natural que políticos governem para a base social deles, e coloquem seus apoiadores nas posições principais do grid. Nada há de bizarro, portanto, em o movimento sindical ter se tornado, ao longo dos dois mandatos de Lula, um caminho seguro para ascensão social e política. É justo.

Vindo de onde veio, estranho seria se Lula desse as costas aos companheiros de jornada e aos iguais.

O ponto não é esse. A dúvida é se o pleno e quase automático acolhimento das demandas e a ocupação maciça de espaços políticos resultaram só em aspectos positivos para o movimento sindical e para os trabalhadores, ou se criaram novos problemas.

Um observador de fora detectará facilmente que o movimento sindical brasileiro na Era Lula transformou-se num gigante, mas fraco. As entidades sindicais multiplicam-se, nunca seus dirigentes foram tão bem tratados pelo governo, mas a capacidade de mobilização está muito aquém do que foi um dia.

Há aspectos estruturais envolvidos, como a mudança radical nas relações de trabalho, mais sentida em algumas áreas. Um exemplo são os bancários, categoria fortíssima um quarto de século atrás e hoje reduzida — e debilitada — em consequência da introdução maciça da informática nas finanças.

Tem mais. No pós-ditadura a reorganização do movimento sindical era uma fonte de energia, com as diversas correntes lutando na base para acumular o máximo possível de força. Hoje esse ciclo “refundador” está encerrado. E o fim da inflação alta retirou dos sindicatos o maior motor nas campanhas salariais — em tese o principal momento de luta.

E o financiamento? Ficaram na poeira os sonhos de um sindicalismo sustentado voluntariamente pelos associados.

Some-se a inédita (pelo grau) intimidade com o poder e se compreenderá por que os dirigentes sindicais são hoje em dia mais facilmente encontrados nos corredores e nas galerias do Congresso Nacional, no Palácio do Planalto e nos fóruns pluriclassistas (com empresários) do que nos locais de trabalho.

Ninguém desenvolve musculatura sem fazer exercício. Há quanto tempo o movimento sindical brasileiro não frequenta uma academia?

Na Europa, os principais partidos social-democratas e socialistas têm a mesma origem sindical do PT. E estão no poder ou perto dele há bem mais tempo. Mas ali os sindicatos não foram absorvidos pelo Estado na intensidade daqui, conseguem manter alguma autonomia e capacidade de mobilização.

Quem explica a diferença?

Confiável

Os Estados Unidos conseguiram que a ONU adotasse uma resolução cuidadosa sobre o trágico desfecho da tentativa de furar por via marítima o bloqueio a Gaza.

Em outros tempos, Washington estaria talvez em situação mais difícil, tendo que impor o veto contra a maioria. Não aconteceu agora.

Barack Obama vem aproveitando bem seu capital político para evitar o isolamento. Agora mesmo, apresenta-se como o interlocutor confiável entre Israel e Turquia. O poder — inclusive militar— credencia, e ele usa.

Mas uma hora os meneios do presidente americano deixarão de chamar a atenção e ele precisará mostrar resultados concretos no tabuleiro do Oriente Médio. Precisará alcançar o que os antecessores ambicionaram, mas não atingiram.

A única solução viável para a crônica crise levantina é o nascimento de um país chamado Palestina, no contexto de um amplo acordo regional baseado no direito de todas as nações dali à autodeterminação e no compromisso incondicional com a paz.

Ou seja, os líderes — todos eles — precisarão fazer concessões dolorosíssimas.

Quem pode garantir isso? Talvez os Estados Unidos. Mas a coisa tem sido um pântano para os americanos, pois exigiria que todos os atores regionais aceitassem as condições prévias. Não é simples.

Veremos se desta vez vai ser diferente.

E até acontecer? Vai continuar como agora, com o predomínio absoluto da lei do mais forte.

Até

Já que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) continua em vigor, saio de férias. Obrigado, velho Getúlio.

Espero voltar com a taça.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (03) no Correio Braziliense.

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2 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Boas férias.

Em coerência com o post, não agradeça a Getúlio pelas merecidas férias. Ele está historicamente mais próximo dessa política de cooptação, que conhecemos por peleguismo.

Quanto aos rumos da burocracia sindical e partidária brasileiras, nada que o bom e velho e ainda muito atual A Nova Classe de Milovan Djilas não ajude a entender. Esse livro foi leitura obrigatória na formação política dos jovens militantes dos anos 70 e 80.

As leis trabalhistas não foram simplesmente um beneplácito do ditador. Não foi por acaso que no imediato pós-1930 os sindicatos livres foram fechados e a lei de expulsão dos estrangeiros foi aprovada. Também não foi por acaso que papai Getúlio não mexeu uma palha no Estado para acolher na lei os trabalhadores rurais. Por que será papai Getúlio não estendeu sua ação paternal em direção aos filhos camponeses?

Quem observa e examina as lutas operárias no alvorecer da Republica e da instituição do moderno mercado de trabalho livre no Brasil para além do foco tradicional vê ali um movimento social politicamente engajado na produção de novos direitos, na contestação do instituído e na afirmação da sua autonomia.

Ao contrário do que concluiu uma certa tradição histórica marxista, a prática social das classes nesse período da nossa história não foi uma prática muda (desqualificação da fase utópica que antecedeu a científica). O proletariado não esperou sentado pelos seus "intelectuais orgânicos" ou pela solução global dos conflitos através da conquista ou destruição do poder estabelecido. Afirmou-se como sujeito social muito antes do advento do PC do B no final dos anos 20. Constituiu-se como classe reivindicando o reconhecimento –– compulsório a toda sociedade civil –– de direitos de classe. Nesse sentido, o proletariado do início do século XX atingiu obliquamente, mas com muita eficácia política, o poder em sua pretensão de requerer adesão e obediência de todos os cidadãos.

As análises das lutas dos trabalhadores pela ampliação ou consecução de direitos políticos e sociais apontam para um movimento que colocava em questão a constituição do Estado democrático no Brasil. À margem das interpretações que subestimam ou mesmo ignoram a face política desse movimento, encontramos os conflitos e as transformações pelos quais passava a sociedade brasileira nas primeiras décadas da República. Essas lutas são testemunhas de uma prática social que, ao seu modo, propunha um alargamento (conquista de direitos de classe) da legalidade constitucional. Um alargamento que tendia ao extravasamento e até mesmo ruptura da ordem jurídica sacralizada pela burguesia republicana.

Ao mesmo tempo constitutivo e constituinte da revolução democrática, esse movimento era indefinido (isto é, não seguia os cânones do bolchevismo) comportando, inclusive, contra-ofensivas que tendiam a negá-lo ou indeferi-lo (no caso, o trabalhismo getulista e a tradição historiográfica que colaborou ativamente na construção do ditador Getúlio como o grande protetor da classe operária.)

Fatos originados no imediato pós-30, como a lei de expulsão de estrangeiros, fechamento de jornais operários, fechamento da Escola Moderna de São Paulo, decretação da ilegalidade dos sindicatos autonomamente constituídos são a evidência empírica de uma reação contra-revolucionária da classe dominante. No campo operário até 1930, a luta incessante e abrangente pela afirmação, ampliação ou consecução de direitos políticos e sociais. No campo conservador no pós-30, a resposta contra-revolucionária conhecida como "Revolução de 1930". A “revolução” abriu caminho para a uma transição política autoritária na forma do Estado, com o objetivo de direcionar e tutelar as perspectivas absolutamente novas, e de consequências imprevisíveis, que o alargamento da luta operária pela afirmação da sua autonomia e por direitos políticos e sociais poderia trazer.

quinta-feira, 3 de junho de 2010 20:30:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, férias mais produtivas essa! Por que a referência a CLT no final? Para sugerir que você não disse tudo o que pensa? Nem precisa muito, mas você parece não enxergar a ligação entre, de um lado, a perda de musculatura do movimento sindical e, de outro, o financiamento estatizado: se dependesse da filiação e pagamentos voluntários por parte da base, os sindicatos estariam funcionando em bases “de mercado”, o sujeito fornece um bem ou presta um serviço e recebe uma retribuição monetária equivalente (se não for equivalente o trabalhador que não é Mané deixa o sindicato). Quando o financiamento faz-se via imposto esse vínculo é quebrado, não precisa mais do que isso para compreender a baixíssima produtividade da máquina pública. Antes que a atual cúpula sindical acendesse já existia uma enorme e raquítica estrutura sindical, cujas lideranças eram chamadas de pelegas por aqueles. A única diferença entre os pelegos de antanho e os atuais é a aguerrida militância política. Na verdade, a estrutura sindical de hoje (financeiramente muito poderosa) promove negociações trabalhistas protocolares enquanto dirige sua capacidade de trabalho para a atuação político partidária. Então, concordo com você, não vejo problemas na crescente presença de sindicalistas nos corredores do poder, não há diferença com a arregimentação, por exemplo, na academia (não de musculação, claro): creio que o eleitor já percebeu, mas as zelites não, que currículo acadêmico, por si só, não agarante grande coisa no governo. Mas perdemos a chance de termos sindicatos e continuamos com um Estado inchado que desperdiça energia com o que não lhe cabe fazer. Aqueles que queriam liquidar com o Estado getulista hoje se empenham na construção de um sucessor para o velho caudilho.

sexta-feira, 4 de junho de 2010 14:20:00 BRT  

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