quarta-feira, 26 de maio de 2010

Uma ordem não tão nova (26/05)

Os excessivamente otimistas com a “emergência de uma nova ordem diplomática no mundo” deveriam talvez recordar como França, Rússia e China torpedearam a Guerra do Iraque no Conselho de Segurança. E apesar disso ela aconteceu

O mito fundador do governo Luiz Inácio Lula da Silva é o mito do fundador. Sua suposta originalidade absoluta. Vimos aqui dias atrás como isso é operado com parâmetros bastante pragmáticos. Para os investidores estrangeiros, louva-se a continuidade na economia. Para o público interno, propagandeia-se a ruptura.

O debate sobre a iniciativa brasileira em relação ao Irã trafega pelo mesmo caminho. O que existe de original no que Lula fez? A diplomacia brasileira carrega tradição de pelo menos quatro décadas nesse campo. Sistematicamente procuramos traçar linhas demarcatórias em relação aos Estados Unidos, mas sem nos alinharmos contra os interesses estratégicos deles.

Tanto é assim que o discurso governamental da suposta subserviência dos antecessores deriva sempre para a caricatura, tem imensa dificuldade de comparecer ao mérito dos assuntos. E o suporte da caricaturização é a agressividade verbal. A tendência a intimidar. Ou pelo menos tentar.

Um parêntese. Não é razoável o governo dizer que está “de cócoras” quem eventualmente discorde da condução do affair iraniano. O sujeito pode divergir do governo sem que isso o lance imediatamente no index dos vendilhões da pátria. Mas parece que os índices de aprovação de Lula fornecem o salvo conduto para certas brutalidades represadas. É uma opção.

No debate sobre o Irã, nada indica que o governo brasileiro esteja a confrontar estrategicamente os Estados Unidos. Estaria, se operasse para Teerã adquirir o domínio sobre a tecnologia nuclear com fins bélicos. Até o momento, é forçação de barra dizer que Lula vai por aí.

Há no governo e no PT quem aprove a emergência de um Irã nuclear como relativizante da influência americana naquela região. O que abriria espaço, segundo tais fontes, para o Brasil deixar o Tratado de Não Proliferação. Mas essas opiniões não são por enquanto hegemônicas, ou não parecem ser.

O caminho de Lula leva jeito de ser outro. Esticar a corda ao ponto de poder discursar aqui dentro como alguém que enfrentou o império. Mas não ao ponto de permitir que a corda arrebente. É, aliás, uma tendência continental. Hugo Chávez vem de conceder a capitais americanos a exploração de megarrecursos petrolíferos. O trade-off proposto pelo presidente venezuelano a Washington é óbvio: bons negócios para os imperiais em troca de paz política na neocolônia.

Talvez Chávez tenha aprendido com Lula. O complicado desta vez é nosso presidente ter resvalado num ponto bastante sensível para a Casa Branca. Barack Obama e Hillary Clinton não ficarão bem diante do Congresso e dos eleitores dali se comerem mosca e permitirem a Teerã realizar o projeto de se transformar numa potência atômica.

Assunto que aqui, curiosamente, é tratado de vez em quando como “inevitável”, na torcida disfarçada do “lunatic fringe”.

Outro aspecto curioso no método analítico pátrio é a compulsão por fazer avaliações e balanços — sempre definitivos e irrecorríveis — antes da conclusão dos processos. O que Lula foi buscar em Teerã? Protagonismo. Conseguiu?

Depende de a carta de intenções lá assinada sobreviver. Se o presidente brasileiro tiver aberto uma picada que leve a algum lugar razoável, receberá palmas planetárias. Se não, restar-lhe-á o penoso papel de novamente denunciar as injustiças do ordenamento global.

Até agora, os países com poder de veto no Conselho de Segurança estão aparentemente unidos no propósito de aumentar as pressões sobre o regime de Mahmoud Ahmadinejad. Para fazer avançar a iniciativa turco-brasileira, será indispensável rachar o bloco das potências. Claro que a alternativa mais provável às sanções é a guerra. Mas nela Lula não perderia quase nada.

Os excessivamente otimistas com a “emergência de uma nova ordem diplomática no mundo” deveriam talvez recordar como França, Rússia e China torpedearam a Guerra do Iraque no Conselho de Segurança. E apesar disso ela aconteceu, e o Iraque deixou de existir na prática como ponto de contestação da hegemonia americana no Golfo Pérsico.

Objetivamente, a situação dos Estados Unidos é hoje mais confortável do que quando decidiram dar cabo de Sadam Hussein. Na vida real, portanto, a tal “nova ordem” parece mais distante, e não mais perto.

Se este episódio do Irã consolidar a aliança das grande potências, e contra a posição do Brasil, Lula precisará dar um passo atrás. Em vez da secretaria-geral da ONU, talvez irá contentar-se com a presidência da Assembleia Geral. Se algum grande com poder de veto roer a corda, Lula poderá celebrar vitória na ONU. E Obama terá provavelmente que buscar o seu objetivo de outro modo.

Vitória conjunta de Lula e de Obama? Só se o Irã aceitar o monitoramento internacional e parar de enriquecer urânio.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (26) no Correio Braziliense.

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11 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon ultimamente só tem dado conselho furado.
Se for aproveitar os seus conselhos, melhor seria fazer tudo ao contrário , ou como ironicamente disse o presidente do PT, José Dutra, continuar errando na mesma linha.

quarta-feira, 26 de maio de 2010 13:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Não entendi o que você quis dizer por:
"Objetivamente, a situação dos Estados Unidos é hoje mais confortável do que quando decidiram dar cabo de Sadam Hussein".
De todo modo, traço a diferença que eu vejo entre as duas situações.
Há oito anos o PIB da China era metade do que é hoje (Pela regra dos 70 para se dobrar um valor basta crescê-lo ao ano durante tantos anos que quando se multiplica a taxa de crescimento pelo números de ano o produto seja 70).
Se não tivesse invadido o Iraque, dado que a economia recuperava-se a passos de cágado, George Bush perderia as eleições nos Estados Unidos. Conhecendo o povo americano que não é diferente de povo nenhum do mundo, George Bush sabia que se ele invadisse o Iraque ele ganharia a eleição americana. É preciso ser cego para não se está de acordo de que a invasão do Iraque decorreu do interesse de reeleição do ex-presidente George Walker Bush.
Na situação atual é preciso saber se Barack Obama precisa invadir o Irã para se reeleger. Eu creio que não, mas ainda que seja necessário que Barack Obama realize a invasão do Irã para se reeleger, não me parece que as condições para implementar essa ação seja as mesmas condições de quase oito anos atrás. Reconheço que estrategicamente os Estados Unidos estão do lado de lá (Afeganistão) e do lado de cá (Iraque) do Irã, mas parece-me uma feia empreitada para os Estados Unidos. E é claro que os americanos odeiam mais o Irã do que o Iraque. Mas o Iraque era uma ditadura minoritária, enquanto o Irã é uma Democracia com uma Constituição teocrática que conta com um grande apoio popular (Como se pode ver no site (http://tinyurl.com/22sz4ms) com referência ao estudo: "Analysis of Multiple Polls Finds Little Evidence Iranian Public Sees Government as Illegitimate" postado em February 3, 2010. Essa informação eu retirei de um comentário (#75) de Tomas Rosa Bueno enviado em 24/05/2010 às 02:12 pm para o blog de Na Prática a Teoria é Outra no post "Notas sobre o Irã" de 22/05/2010).
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/05/2010

quarta-feira, 26 de maio de 2010 13:55:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon
Há anos os iranianos enrolam a AIEA. O que pretendem agindo assim? Boa coisa não parece ser.

Se aqui os áulicos batem o bumbo e soltam fogos patrióticos por mais uma “vitória da nova diplomacia brasileira”, fora daqui o mundo que pensa e decide sabe muito bem que a questão de fundo (a natureza do programa nuclear iraniano) não está contemplada na Declaração de Teerã. Nada na Declaração a respeito da contrapartida do Irã em abrir-se sem subterfúgios às inspeções estabelecidas nos acordos de salvaguardas com a AIEA, previstos no TNP.

Salvo as honrosas exceções, você incluído, as reportagens e os artigos de opinião estão funcionando como verdadeiras linhas de transmissão da retórica governista, amplificando ensurdecedoramente a mensagem de propaganda da virilidade da “nova diplomacia”.

Talvez por isso tenham passados batidos os sinais de recuo na retórica. No seu programa de rádio “Café com o Presidente”, Lula assumiu posição defensiva e cuidou de relativizar o que antes era um tido como um absoluto (a “vitória da nova diplomacia na conquista do Acordo”), ao dizer que “nós não fomos lá [ao Irã] para negociar acordo nuclear. Nós não temos procuração para isso”.

http://blog.planalto.gov.br/precisamos-falar-mais-em-paz-do-que-em-desavencas/

A inflexão no discurso governamental fica evidente se confrontarmos a declaração do presidente com as primeiras manifestações de Celso Amorim. Do Blog do Planalto em 18/05/2010:

“Entrevista exclusiva do ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) ao Blog do Planalto concedida no voo de volta ao Brasil após visita presidencial a Teerã. Na entrevista, Amorim comemora o resultado da reunião tríplice Brasil-Turquia-Irã em que foi firmado o ACORDO sobre o enriquecimento do urânio iraniano na Turquia”. [Grifo meu].

http://blog.planalto.gov.br/entrevista-com-o-ministro-celso-amorim-persuasao-foi-mais-eficiente-do-que-a-pressao/

Ora, se o governo brasileiro “não foi lá para negociar um acordo” por que então somente se falou, e ainda se fala, por aqui a todo momento justamente o contrário?

Essa elevação retórica para efeito de propaganda da Declaração de Teerã à categoria de Acordo não ocorreu no Irã. Em todas as notas publicadas no site da agencia governamental de notícias iraniana (IRNA) a coisa desde o inicio é chamada pelo seu nome: “Tehran Declaration”.

A pergunta ainda sem resposta quando se examina a cobertura e análise dos fatos em Teerã pela imprensa brasileira é: no que a Declaração contribui para fazer o Irã atender às demandas da AIEA?
Celso Amorim, ignorando o aviso prudente da sabedoria popular que diz que o caminho do inferno é pavimentado por boas intenções, declarou à imprensa que as boas intenções do Irã nessa questão de fundo estariam implícitas na Declaração. Sei.

Relembrando Garrincha, o ministro não combinou com os russos. Imediatamente após a assinatura da Declaração, representantes do governo iraniano foram cristalinos na afirmação de que não se deveria buscar qualquer relação entre a Declaração e a continuidade do programa de enriquecimento de urânio.

PS: Eu fico aqui pensando até que ponto a aprovação das sanções poderia interessar o governo dos aiatolás, apesar da retórica em contrário. Veja como respondeu o governo russo à descabida provocação iraniana, que atribuiu à Rússia a condição de satélite americano:

"Nunca ninguém conseguiu preservar sua autoridade recorrendo a demagogia política". [...]
"A Federação Russa é regida por seus próprios interesses de Estado de longo prazo. Nossa posição é russa: ela reflete os interesses de todos os povos da grande Rússia e não pode ser nem pró-americana nem pró-iraniana."

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2010/05/russia-recomenda-ao-ira-que-pare-com-demagogia-politica-1.html

Surpreendente o diplomata ter ativado na resposta o argumento da “grande Rússia”. Quem conhece um pouco de história sabe bem do que estou falando e do tamanho da encrenca em que a virilidade da “nova diplomacia” está nos enfiando.

quarta-feira, 26 de maio de 2010 17:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Um acréscimo ao meu comentário. Não resta dúvida que Irã e Brasil pretendem se colocarem como grandes potências e nisso Barack Obama encontra uma situação diferente da enfrentada por George Walker Bush diante de Sadam Hussein, que ao tempo dele queria apenas evitar que o Iraque se desintegrasse.
Pela história e localização, o Irã está muito à frente do Brasil, mas o PIB iraniano é só o dobro do de Minas Gerais com uma população 3,5 vezes maior e dois terços do PIB de São Paulo com o dobro da população. Assim, é evidente que o caminho mais ínvio é o iraniano, pois o país tem que se apressar por razões externas em duas frentes: a da pesquisa e a da economia enquanto o Brasil não sofre as pressões externas e está bem à frente na economia e a pesquisa não parece ser esse bicho papão sabendo quantos países hoje já possuem a bomba atômica.
A intenção brasileira parece-me ser a de ganhar tempo e se tudo der certo seguir os passos iranianos. E ganhar tempo em relação à bomba atômica. Esse tempo aparentemente poderia ser ganho se o Brasil afastasse da área do agrião, mas não daria prestígio ao país. Lá à frente quando o caminho para a bomba atômica estiver mais pavimentado, talvez o país possa percorrê-lo com o prestígio adquirido e até em parceria com o Irã. De todo modo dado a diferença da realidade do Irã e do Brasil assiste um pouco de razão dos que dizem que o Brasil não deveria ir para aquelas bandas. Não vejo, entretanto, prejuízo para o Brasil ainda que a aposta desse errado.
Não sou a favor da bomba atômica, mas creio que como o juro esse é um assunto para especialista que eu não sou e assim imagino que os que tentam dar ao Brasil a capacidade e a condição de produção de armas nucleares devem ter uma boa razão para tal. É claro que como José Serra também penso que esses especialistas não são nenhuma Santa Sé.
Aproveito ainda para flexionar o verbo para o plural na frase transcrita a seguir com a correção em maiúscula e que consta do meu comentário que eu enviei em 26/05/2010 às 13h55min00s BRT aqui para este post “Uma ordem não tão nova” de 26/05/2010.
“Eu creio que não, mas ainda que seja necessário que Barack Obama realize a invasão do Irã para se reeleger, não me parece que as condições para implementar essa ação SEJAM as mesmas condições de quase oito anos atrás
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/05/2010

quarta-feira, 26 de maio de 2010 20:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É Alon, meu comentário foi censurado e não apareceu . Pensei que fossem censurados comentários agressivos. O meu deve ter sido censurado porque não era TÉCNICO o suficiente. Talvez fosse INGENUO.
Que pena

quinta-feira, 27 de maio de 2010 08:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Concordo plenamente com o autor do primeiro comentário.

quinta-feira, 27 de maio de 2010 08:44:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Fiquei curioso, anônimos. Que "conselho" exatamente foi dado neste post/coluna?

quinta-feira, 27 de maio de 2010 09:55:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

Lula só é cogitado para cargos na ONU e no BIRD por conta da bondade da imprensa brazuca.
No mundo essa hipótese sequer é imaginada.
Começa que esses cargos tradionalmente não são reservados a ex-dirigentes nacionais. Muito menos terão assento os que pretendam "protagonismo" pessoal. O que é oposto a natureza dos cargos.
Se chance houvesse, há muita gente boa a frente de quem comete política internacional inconsequente e que agora visa a confrontação.
Ademais, a conferir o passsdo recente - 2003 para cá - do Itamaraty na conquista de espaços em organismos internacionais, constatará que perdemos até os que detínhamos.
No mínimo o Chanceler de Bolso é mais pé-frio que o Presidente. Na verdade ele é muito ruim de serviço. Lula não tem qualquer chance, a exceção de figurar como factóide nas manchetes e comentários locais.

quinta-feira, 27 de maio de 2010 10:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Peraí Alon
Se o que existe é apenas continuidade em relação ao governo anterior especialmente com a política externa de não alinhamento do Brasil, então porque os diplomatas de pijama não param de atacar o acordo com o Irã, e mesmo toda a política externa do governo como ideológica e como uma inflexão, portanto, uma ruptura com a tradição de neutralidade ????
Ismar Curi

quinta-feira, 27 de maio de 2010 13:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ismar Curi (27/05/2010 às 13h13min00s BRT),
Eu comentei uma ou várias vezes aqui no blog do Alon Feuerwerker que uma das qualidades dele é ele já de antemão identificar o lado dele: democrático, nacional e de esquerda.
Só que Alon Feuerwerker não é só isso, ele é muito mais. E apenas após reconhecer o tanto mais que ele é, torna-se possível entender algumas idéias que ele expressa. Ou não entendê-las como é o exemplo que você deu, ou o exemplo que eu dou no meu comentário de 26/05/2010 às 13h55min00s BRT. E, mesmo em um post bem arrazoado, como esse me pareceu, ainda há coisas incompreensíveis como:
"Não é razoável o governo dizer que está “de cócoras” quem eventualmente discorde da condução do affair iraniano".
Como não é razoável se estamos em época de eleição? Parafraseando Dora Kramer que no artigo "Lavoura anáquica" de terça-feira, 25/05/2010 no jornal O Tempo parafraseou Dostoievski, digo, distorcendo também um pouco, se o Plano Real foi permitido, tudo mais é permitido.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 27/05/2010

quinta-feira, 27 de maio de 2010 20:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Clever
Nossa divergência com o Alon, parece estar relacionada justamente à sua perspicácia para a análise, e que no caso daquela posição declarada democrática e de esquerda, talvez a gente pudesse mitigá-la como de centro, aí então é que fica difícil a posição dele, tem de andar numa corda bamba intelectual para garantir esse negócio de independência partidária, que parece nunca alcançável, já que o equilíbrio é instável, cheio de quedas e novas tentativas. Me parece que a vida dele é dura...Mas ao fim, creio que também é estratégia de intelectual sedutor já que estamos nós aqui a debatê-lo. Muito bem Alon Feuerwerker.
Ismar Curi

sábado, 29 de maio de 2010 14:53:00 BRT  

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