terça-feira, 11 de maio de 2010

Um dia complicado (11/05)

O eleitor não funciona por departamentos, não é uma caixa de luz onde certas chaves são ligadas e outras desligadas conforme a situação. A preferência por um candidato vai sendo construída tijolo por tijolo, a partir de percepções ao longo do tempo

Não é simples, nem confortável, escrever uma coluna sobre política para ser lida quando você, leitor ou leitora, está certamente com a atenção posta na lista da Seleção Brasileira de futebol para a Copa da África do Sul.

Ou não? Há gente no Brasil alheia ao futebol, mesmo em Copas do Mundo. Ocasião, aliás, propícia aos “torcedores de Seleção”, uma turma nem aí para a modalidade, mas sempre disposta a engrossar a festa de quatro em quatro anos. E haja paciência.

A crer na mitologia, o Brasil é um país que para entre o Natal e o Carnaval. E onde nada vai acontecer enquanto a Copa não passar.

A conversa sobre o interregno de dezembro a março é furada. Olhe em volta e verá que todo mundo continua trabalhando normalmente. Não conheço ninguém que vá buscar pão e leite na padaria em janeiro, ou fevereiro, e volte para casa de mãos abanando. A não ser em certas praias, por causa da superlotação.

Mas a mitologia é forte. E invade a política. Em tese, o eleitor só começará a prestar atenção nos candidatos depois do fim da Copa. Será?

À primeira vista tem verossimilhança, mas não para em pé. O eleitor não funciona por departamentos, não é uma caixa de luz onde certas chaves são ligadas e outras desligadas conforme a situação. A preferência por um candidato vai sendo construída tijolo por tijolo, a partir de percepções ao longo do tempo.

Se o eleitor ainda não estivesse nem aí para a eleição, Dilma Rousseff não teria subido do traço para perto de 30%. E as intenções espontâneas não estariam em alta permanente. Para todos os postulantes.

A verdade é que estamos em plena campanha eleitoral, antes mesmo do começo da “novela”, o tempo reservado aos candidatos oficiais no horário nobre das emissoras de rádio e televisão.

Para o que contribui também a inédita exposição dos “pré-candidatos” na imprensa. Já registrei aqui a beleza da sítuação. Vivemos uma primavera política, com as notícias a mil e os atores ocupando agressivamente os canais de comunicação. E sem retoques.

Depois virá a campanha oficial. Em que, pelo andar da carruagem, assistiremos a uma enxurrada de direitos de resposta concedidos pela Justiça Eleitoral. Os últimos movimentos do Tribunal Superior Eleitoral levam a concluir que os magistrados querem cuidar desta eleição com mão de ferro.

Impensável

Tem gente que defende a implantação do parlamentarismo no Brasil. A ideia já foi derrotada duas vezes em plebiscito, nos governos João Goulart e Itamar Franco, mas sempre aparece alguém para reapresentar a fórmula milagrosa.

O eleitor talvez tenha tido bom senso ao recusar essa saída. Basta ver o que acontece agora no Reino Unido, onde nenhum dos dois grandes partidos alcançou a maioria absoluta. Os democratas liberais, com um punhadinho de congressistas, transformaram-se no fiel da balança e negociam com os conservadores e os trabalhistas.

Imagine se fosse aqui. A eleição terminou, ninguém conseguiu metade mais um nas duas casas do Congresso e a decisão sobre que governo formar fica a cargo de suas excelências, os deputados e os senadores. Poderá ser um governo do PT, do PSDB ou do PMDB, ou de pequeno que arregimentar apoio suficiente.

Isso no Brasil, com nossos cargos de confiança às dezenas de milhares, com as estatais à disposição.

Então invertam

Ontem foi um dia de troca de chumbo por causa dos juros. PT e PV dizem estar plenamente satisfeitos com as políticas do Banco Central, enquanto o PSDB adota tom algo crítico. Mas com aquele medinho de desagradar ao “mercado”.

A profusão de comportamentos domesticados e dóceis diante da ditadura financeira faz ter saudades de um Ciro Gomes. Ou de um Roberto Requião. Alguém com coragem suficiente para dizer o que deve ser dito. Talvez por isso tenham sido escanteados.

Se é para o BC pairar acima de tudo e de todos, que o presidente da instituição seja escolhido pelo voto direto e universal dos eleitores brasileiros.

No novo sistema, o presidente da República poderia então ser aprovado pelo Senado, depois de indicado pelo presidente do BC.

Seria mais lógico.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (11) no Correio Braziliense.

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11 Comentários:

Blogger Marcelo disse...

Alon, não precisa fazer muito esforço pra imaginar o que aconteceria se o regime fosse parlamentarista. É só olhar a reportagem da Época desta semana, que mostra o loteamento partidário dos cargos de confiança. Já é assim no presidencialismo de coalizão. Dificilmente mudaria muito se o regime fosse parlamentarista. O problema de mudar de regime é outro: é mudar as regras do jogo no meio do jogo, antes que as regras atuais comecem a funcionar direito, bem no momento em que a sociedade parece estar começando a cobrar que elas funcionem.

terça-feira, 11 de maio de 2010 09:59:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A refrega sobre juros e autonomia do BC, não verá, como solução, nenhuma virada de mesa. Tudo estará enquadrado na estratégia do vencedor. Digamos que o caso está já devidamente precificado. Como brincar animadamente, em tempos de vacas magras: se eu adivinhar o que tem na sua marmita eu como a clara.
Swamoro Songhay

terça-feira, 11 de maio de 2010 11:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Embora simpático ao Parlamentarismo, a meu ver não é uma mudança de afogadilho. Depois de, infelizmente, duas derrotas em dois plebiscitos, não seria recomendável colocá-lo para decisão no calor de uma luta política. Seria o caso de coisa pensada, programática, com discussões profundas. Não como panacéia para situações emergenciais, oportunísticas. A lembrança do ocorrido em agosto de 1961, que motivou a instauração do Parlamentarismo de 09/1961 a 01/1963, é mais do que suficiente para desabonar qualquer açodamento com tal tema.
Swamoro Songhay

terça-feira, 11 de maio de 2010 11:28:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, não deixa de ser engraçado que as duas candidatas mais a esquerda defendam uma atuação ortodoxa do BC enquanto o candidato supostamente mais a direita a critique. Mas, neste caso, Serra é provavelmente tanto mais honesto que suas adversárias, como aquele que provavelmente mudaria menos o quadro da política macroeconômica. Paradoxal, né não? O núcleo da confusão é o fato de o atual presidente, com inequívocas credenciais de esquerda, ter não apenas nomeado um BC ortodoxo, mas tê-lo sustentado politicamente durante seus dois mandatos, já que não há autonomia formal da diretoria do BC. A intenção de Serra, com a resposta enviesada de que “o BC não é a Santa Sé”, foi justamente buscar uma imagem mais a esquerda, de quem não vai engolir qualquer coisa que venha da parte do mercado (todos somos de esquerda nestas zelites tupiniquins, o próprio Serra na mesma entrevista diz que, se avaliado em termos convencionais, é um político de esquerda), mas ele corre o risco de passar por inflacionista. De fato, qualquer previsão, sobre qualquer dos candidatos, é um tiro no escuro, assim como as opções do atual presidente muito poucos seriam capazes de prever antes das eleições de 2002. Você critica o parlamentarismo britânico, mas não seria muito melhor, como até alguém de fora percebe se dar por lá, que pudéssemos discutir claramente o que divide de fato as pessoas no país? Não seria muito melhor do que assistirmos dois políticos (falo de Serra e Dilma, claro) que, até pelas respectivas trajetórias, são muito iguais, procurando ser mais iguais ainda... aos olhos dominantes das zelites? Não tenho hoje uma posição sobre o parlamentarismo por aqui, mas não é muito mais razoável que o fiel da balança seja um partido pequeno, que possa fazer a maioria com um ou outro dos maiores, do que ter como fiel da balança o maior dos partidos? Caro Alon, eles negociam a maioria tratando temas que são reais para os eleitores britânicos, enquanto nós aqui fazemos companhia àquela Alice que passa no cinema.

terça-feira, 11 de maio de 2010 15:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Já disse várias vezes que se não existisse o presidencialismo eu seria parlamentarista.
E sou pelo parlamentarismo porque também como costumo dizer: fisiologismo, meu nome é parlamentarismo. Fisiologismo aqui entendido como a composição que visa conciliar os interesses conflitantes dos representados apresentados na arena política pelos representantes e entendido o fisiologismo como a única forma que a democracia tem de funcionar uma vez que não se sabe a priori qual o interesse maior da nação em cada caso concreto apresentado para ser decidido.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 11/05/2010

terça-feira, 11 de maio de 2010 18:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Dizer que talvez por isso tenham sido escanteados (os com coragem suficiente para dizer o que deve ser dito), só é justificável para quem como eu tenta manter a coerência de ser céptico.
E mais, não foi só o PT e PV que dizem estar plenamente satisfeitos com as políticas do Banco Central, a bem da verdade José Serra foi crítico apenas com Miriam Leitão (Pode ser até como estratégia, pois dizem que no Sul ele também atropelou uma jornalista, ou seja, falou para conquistar o voto de quem quer que as mulheres sejam submissas). Em relação ao Banco Central ele disse que quando ele (José Serra) deparar-se com um erro do Banco Central ele não vai ficar calado. Ora, até nos Estados Unidos onde Ben Bernanke tem mandato se o presidente Barack Obama deparar com um erro do Ben Bernanke, ele vai tratar logo de falar com Ben Bernanke que ele está errado e é melhor consertar o erro, pois do contrário vai fazer o Congresso demiti-lo por incúria.
E mais, não há razão em acreditar que a política monetária do Banco Central não é a política de Lula. Só os petistas de carteirinha que ainda defendem essa tese. Ah, e os peessedebistas que ainda insistem que a política monetária do Banco Central é a política de FHC (bem é melhor dizer que passaram a insistir depois que a política deu certo) porque pensam que a herança maldita foi suficiente para impedir qualquer ação do governo.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 11/05/2010

terça-feira, 11 de maio de 2010 19:03:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Alon, você esqueceu que tem o Plinio de Arruda Sampaio (PSOL), para salvar a pátria no quesito discurso contra os bancos e os rentistas.
A discussão sobre o BC é cada candidato fazendo discurso para a platéia do outro.
O típico eleitor de Dilma e Marina torce o nariz para esse discurso delas, mas não mudará seu voto. Elas tentam vencer resistências na elite com esse discurso. Também não conquistará o voto (talvez Marina conquiste alguma coisa), apenas reduzirá resistências a seus nomes.
Já Serra é o contrário. Ele já tem o apoio do mercado, que torce o nariz para esse discurso dele, mas não mudará seu voto. Ele tenta vencer resistências na elite econômica de esquerda (nos meios intelectuais, acadêmicos e supostamente formadores de opinião). Não conquistará voto dessa gente, mas reduz resistências. E com isso, adquire mais confiança do mercado como possível vencedor.
No fundo, ninguém está falando para a massa, onde o "autonomia do BC" e nem mesmos "taxa básica de juros" é tema que sensibilize.
O juros ao consumidor é algo que sensibilizaria mais, porém enquanto a maioria achar que tem dinheiro no bolso e a prestação para comprar bens e serviços cabe dentro do salário (independente da taxa de juros embutida), como tem acontecido no governo Lula, até mesmo esse assunto fica para segundo plano.
Então os candidatos estão apenas falando para reduzir resistências no pessoal que costuma financiar as campanhas de forma legal (sem qualquer ironia).
De qualquer forma, ganhe quem ganhar, a política do BC deverá ser a mesma. Da mesma forma que o Banco Central europeu atua sobre o Euro, independente de ganharem governos de esquerda ou direita nos países membros.

terça-feira, 11 de maio de 2010 21:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Duarte (11/05/2010 às 21h27min00s BRT),
É quase tudo que eu gostaria de dizer. Ficou faltando avaliar como o discurso chega no povão caso a CBN seja uma rádio que chega ao povão, no tocante ao fato que ele diz que interfere (O povão gosta de presidente que interfere). E qual é a reação do povão para os atritos de José Serra com as jornalistas mulheres, pois esse mesmo fato ocorreu com entrevista no Rio Grande do Sul.
De todo modo, concordo integralmente com sua análise.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 12/05/2010

quarta-feira, 12 de maio de 2010 08:41:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, permita um adendo ao meu comentário anterior. Além do candidato “conservador” que quer um BC heterodoxo, mas acredito que seja quem menos interviria na ação de um BC centrado no combate à inflação; além das candidatas de esquerda que defendem um BC ortodoxo e autônomo no comando da política monetária; se formos ao que de fato disseram os candidatos vemos que todos defendem exatamente a mesma coisa, a continuidade de uma autonomia informal, não institucionalizada. Na prática deixando sempre aberta a possibilidade de uma intervenção rápida do poder executivo sobre o BC. De fato não há polêmica alguma, nem o assunto divide o eleitorado (que quer apenas que a inflação permaneça sob controle). Enfim, gastamos muita energia sem avançar nada. Diga que Alice não faz mais sentido.

quarta-feira, 12 de maio de 2010 10:49:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Clever
Eu acho que o discurso para o povão chegou confuso na entrevista à rádio, mas não compromete porque não é tema popular. No máximo perdeu oportunidade de aproveitar melhor o espaço e o tempo. Se fizesse um discurso populista falando mal dos "banqueiros" ou dos "especuladores", poderia sensibilizar mais. Mas seria fora do perfil de Serra, e poderia não dar certo.
Os atritos com a jornalista, se restrito a este, não deve comprometer, porque foi acima do tom, mas dentro do tolerável para o ouvinte.
De qualquer forma serve de alerta para o candidato e os marqueteiros corrigirem das próximas vezes.
O único político que eu vi levar vantagem em bater boca com jornalistas em público foi Jânio Quadros, que criou uma imagem própria e até decepcionava a platéia e os próprios jornalistas, caso não tivesse um comportamento excêntrico e rascante.

quarta-feira, 12 de maio de 2010 17:39:00 BRT  
Anonymous Hélio disse...

"Então Invertam"

Bobagem!

Por acaso os ministros do STF são escolhidos "pelo voto direto e universal dos eleitores brasileiros"?

quarta-feira, 12 de maio de 2010 18:33:00 BRT  

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