quarta-feira, 12 de maio de 2010

Servidão voluntária (12/05)

Nossos liberais têm uma visão partida do mundo (para não dizer partidária): na política, quanto mais controles, melhor; na economia, o ideal é a ausência de controles. O predomínio soberano do mercado

Peça a algum especialista que explique a você como funciona o sistema de freios e contrapesos na democracia. Mas cuide para que seu especialista seja identificado com o liberalismo. E ouça a explicação com paciência, perguntando todo o necessário, até ficar completamente esclarecido. Até ficar convicto de que não pode haver no regime democrático qualquer instituição isenta de controles. Por princípio.

Em seguida, pergunte ao interlocutor por que o Banco Central deve ser exceção à regra. Sim, pois nossos liberais têm uma visão partida do mundo (para não dizer partidária): na política, quanto mais controles melhor, na economia, o ideal é a ausência deles. O predomínio soberano do mercado.

Uma contradição a estudar.

Eis a principal herança maldita, sem aspas, dos anos 90 do século passado, quando a História tinha supostamente acabado e o “Reich do Pensamento Único” exibia ares de querer durar uns mil anos.

Ali o país debelou a hiperinflação, a um custo social e econômico ínfimo, graças ao Plano Real. Essa é a herança bendita. Junto criou-se a maldita: a autoridade monetária foi entronizada acima do bem e do mal, por sobre qualquer crítica.

Não gostou de o Banco Central ter subido a taxa de juros? Você é um irresponsável, está flertando com a inflação, quer por a perder as conquistas das duas últimas décadas.

O PT é a vítima mais recente da armadilha. E entrou nela por boa razão. Não fosse a dura política monetária do primeiro mandato, o governo Luiz Inácio Lula da Silva provavelmente naufragasse. Infelizmente porém, o trade-off tático transformou-se gostosamente em estratégico.

De vez em quando alguém rateia, como fez o presidenciável do PSDB na última segunda-feira, num momento de mau humor. No geral, porém, os políticos estão de acordo com o mecanismo de troca hoje saboreado pelo PT.

Os eleitos pelo povo podem nomear os amigos para os cargos federais e as estatais, e administrar o pedacinho do orçamento que sobra após as vinculações. Já os eleitos pelo mercado administram a moeda. E se alguém questiona o arranjo, a patrulha trata logo de fuzilar.

De um lado, atacam os incondicionais de Lula. Do outro, os incondicionais do mercado. Um movimento em tenaz. Uma aliança difícil de enfrentar.

Até as divisórias —hoje retiradas— do Palácio do Planalto sabem que o Banco Central errou na crise, e comprometeu o crescimento em 2009. Para a indústria, os efeitos foram trágicos. As divisórias sabem também que as contas externas vão muito mal, porque nossa balança comercial vai minguando, inclusive por causa da sobrevalorização do Real. E sabem de muitas outras coisas, porque as ouvem das autoridades. As mesmas que publicamente se alinham com o BC pois convém na política.

O contraste entre o que os políticos falam em off e o que aceitam dizer em on sobre o Banco Central é o maior atestado da servidão voluntária que se impõem.

Para adiante

Mas talvez seja hora de reclamar menos e produzir mais soluções. Inclusive no jornalismo. Quem sabe desta vez o eleitor brasileiro tem a sorte de ver as perguntas certas serem feitas aos candidatos nas entrevistas e nos debates entre eles?

Cada um poderia dizer, por exemplo, o que fará para reduzir rapidamente o spread bancário, a diferença entre o juro que o banco paga ao poupador e o que cobra do tomador do empréstimo. Sim, pois o banco não empresta o dinheiro dele, empresta o nosso.

Outra dúvida é sobre as tarifas bancárias, essa coisa maligna para o cliente e superbenigna para o banco. Como impor concorrência de verdade? Como romper o cartel?

Enfim

Ao menos aparentemente, o governo percebeu que deve continuar governando. Decidiu endurecer com os grevistas do serviço público federal e tenta colocar um freio na compulsão congressual por criar despesas.

É bom saber que enquanto quase todos só querem saber da eleição alguém continua de olho na saúde da lojinha.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (12) no Correio Braziliense.

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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, não sou economista, mas se o governo não se endividasse tanto, a taxs de juros poderia ser ínfima. Aliás, coma inflação comendo o rendimento da poupança, os finaciadores maioritários do governo já recebem rendimento negativo.

quarta-feira, 12 de maio de 2010 19:07:00 BRT  
Anonymous Leonardo disse...

Liberais de verdade nao defendem independencia ou autonomia do Banco Central.

Liberais de verdade defendem o FIM do Banco Central ( vide Ron Paul, nos EUA ).

quarta-feira, 12 de maio de 2010 21:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Você diz:
"Ali o país debelou a hiperinflação, a um custo social e econômico ínfimo, graças ao Plano Real. Essa é a herança bendita".
É o que se conta. Volto aqui a um post mais recente. Para o post aqui no seu blog intitulado “O amigo dos inimigos” de 25/04/2010 eu enviei três comentários. Dos dois primeiros interessa-me reproduzir aqui um trecho de cada um. Do primeiro, enviado em 25/04/2010 às 18h02min00s BRT, eu reproduzo o seguinte parágrafo (Em maiúsculas qualquer acréscimo que eu ache por bem fazer):
“Há, entretanto, o que eu chamo de vingança de Modigliani (Dizem que quando André Lara Resende apresentara uma forma de acabar com a inflação sem muito esforço, Modigliani teria dito que se fosse tão fácil assim nunca se acabaria com a inflação, pois sempre se a estaria trazendo de volta para poder acabar com ela) [QUANDO PRIMEIRO EU UTILIZEI ESSA EXPRESSÃO EU DIZIA “A MALDIÇÃO DE MODIGLIANI”, E COMO FICAVA UM NOME BONITO EU A ALTEREI PARA A MALDIÇÃO DE O GORDO, EM HOMENAGEM AO DELFIM NETTO, POR TER INICIADO ESSE PROCESSO DE FAZER PLANO EM VÉSPERA DE ELEIÇÃO AO ADIAR PARA MARÇO DE 1983 A DESVALORIZAÇÃO QUE DEVERIA TER SIDO FEITA ATÉ ANTES DE 1982. LEMBRANDO AQUI QUE NÃO FAZER PLANO É UM PLANO TAMBÉM. DEPOIS ALTEREI A EXPRESSÃO PARA “A VINGANÇA DE O GORDO” PARA DAR ENTENDER QUE DELFIM NETTO QUE FORA TANTO CRITICADO POR ENDIVIDAR O PAÍS AO TEMPO DELE VIA OS SEUS CRÍTICOS PERCORRENDO O MESMO CAMINHO]. Itamar Franco vai-se acabando na política, restando para ele a expectativa de ser o plano B para a disputa eleitoral em Minas. Rubem Ricúpero foi engolido pela Parabólica, Ciro Gomes está desaparecendo devagarinho. E Fernando Henrique Cardoso fica medindo força para ver quem sabe mais com quem muitos vangloriam de chamar apedeuta.
E no segundo comentário que eu enviei em 26/04/2010 às 13h08min00s BRT há a seguinte explicação complementar sobre a “vingança de Modigliani”:
“Falei no meu comentário de 25/04/2010 às 18h02min00s BRT sobre a "vingança de Modigliani". Não é só para os políticos. Ela atinge todos os comentaristas econômicos que, ao elogiarem o Plano Real, esquecem o quanto é bom para o Presidente da República ter um Banco Central fingidamente autônomo para recair sobre o Banco Central todo o ônus do combate à inflação. E, em um país de potencial de crescimento econômico elevado como é o Brasil, havendo crescimento, mas a inflação não aparece (Pela subida do juro na dosagem certa) todo o bônus fica para os índices de popularidade do presidente da República. Não importa de quanto se aumentou a dívida pública.”
É isso, seu comentário dizendo que o custo do Plano Real foi mínimo o faz incluir-se nesse grupo de comentaristas econômicos que falam bem do Plano Real, mas não consideram que foi por causa do Plano Real (Em véspera de eleição, para eleger presidente e um presidente que não fora sequer presidente de grêmio recreativo e depois para aprovar a emenda da reeleição e depois para ser se reeleger) que o Brasil caiu na crise da dívida pública e da dependência ao bom humor do capital internacional. É a maldição do economista Franco Modigliani recaindo sobre você. E que o faz criticar no governo Lula os defeitos que são extensivos ao Plano Real, como se pode ver na leitura do seu post “A Alca cambial de Lula” de 09/04/2010 ou de “A nova dependência” de 29/04/2010. No entanto, para esses articulistas o Plano Real debelou a hiperinflação, a um custo social e econômico ínfimo. Pode-se até está certo se o mundo tivesse se acabado antes da crise do México em 1995.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 12/05/2010

quarta-feira, 12 de maio de 2010 21:21:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Se os liberais e o liberalismo são historicamente tudo isso que você diz, por que razão você está tão bravo com eles? Se essa é a natureza do liberalismo, então é somente forçoso reconhecer tautologicamente que os liberais agem em conformidade com credo liberal. Qual o motivo do espanto e da fúria?

Considerando a epígrafe do blog, sua ira deveria ser dirigida para os seus pares no campo político e ideológico oposto ao dos liberais. Mas o fato é que quando no poder seus pares mimetizaram com muito gosto e proveito o “tudo isso que aí está”. Se juros estão altos e o spread também, por que o governo “nunca antes”, ao qual você é simpático, não mexeu nesse vespeiro? A resposta comporta um misto de conveniência, cagaço e, sobretudo, completa ignorância do que colocar no lugar.

É considerada “de esquerda” ou não-liberal a capitalização do BNDES, iniciada no ano passado, com R$ 180 bilhões? São procedentes os rumores sobre um novo aporte de R$ 100 bilhões para financiar o PAC II e as obras da copa do mundo?

Os que aprovaram um empréstimo de R$ 460 milhões (foi repassado a metade do valor) no BNDES para um frigorífico que faliu 3 meses depois são “de esquerda” ou não-liberais?

É “de esquerda” ou não-liberal o Tesouro aportar no BNDES valores nesse montante, sabendo que os empréstimos que o Tesouro toma no mercado têm um custo maior do que aquele que o BNDES oferece às empresas? Isto é, é “de esquerda” ou não-liberal o Tesouro pagar mais caro pelo dinheiro que repassa ao BNDES para que o banco ofereça aos empresários interessados empréstimos a um custo inferior ao que se pratica no mercado?

O que o governo “de esquerda” no poder desde 2003 gasta com o seus programas sociais é dinheiro de pinga perto do que ele gasta com empresários privados amigos do rei BNDES que não estão dispostos a correr riscos e a esperar pelos lucros no longo prazo.

quinta-feira, 13 de maio de 2010 00:12:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, quando surge o argumento de que algo está acima de qualquer crítica é sinal de que um consenso está se formando na sociedade, contra as convicções de quem usa o argumento. A política monetária esteve sob fogo intenso, inclusive o tal fogo amigo vindo do vice-presidente. Na medida em que foi mostrando resultado, foi tirando a força dos discursos contrários. É a irresistível força dos fatos. Não é verdade que o BC está fora do jogo de pesos e contrapesos, a rigor, hoje ele se encontra ao alcance da caneta do presidente, o que aliás, acaba por reforçar a idéia da autonomia formal, um desenvolvimento natural. Mesmo então seus integrantes estariam sujeitos a punição por desempenho abaixo do esperado apenas que, como acontece com o juiz de futebol, será necessário esperar o fim da partida em curso. Mas tudo isso é uma questão menor para as eleições, a tal ponto que, como disse em comentário a um post anterior, os três candidatos que se manifestaram tem a mesma posição, que é a de não mudar nada a respeito. Mas nós possuímos uma queda especial por falsas querelas, é ou não é?

quinta-feira, 13 de maio de 2010 06:43:00 BRT  
Blogger Marcos Diniz Ribeiro disse...

Alon,

você escreve no Estadão? Porque, não tenho nenhum dúvida, escrever com firmeza acerca de um ponto de vista, no Brasil, há dois: você e o Reinaldo Azevedo. Há um abismo entre o nível dos seus artigos e o que se lê em qualquer um dos colunistas do Folha de São Paulo, para dar um exemplo, digamos, mais "progressista".

Eu sei que você escreveu na Folha, na A2-Brasília, por algum tempo. O que aconteceu?

quinta-feira, 13 de maio de 2010 13:34:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Bem, Marcos, saí de lá em 1993. Faz tempo, não é?

quinta-feira, 13 de maio de 2010 16:15:00 BRT  
Anonymous Ivanisa Teitelroit Martins disse...

Marcos,
Ainda bem que há colunistas como o Alon.
Alon tem sustentado opiniões difíceis, buscando ponderar os diferentes vetores das questões políticas, econômicas, político-partidárias e dos movimentos sociais. Além disso ele consegue construir metáforas em que até as divisórias do Planalto ganham ouvidos. Isso torna seus artigos ainda mais interessantes, porque ele sustenta idéias desenvolvimentistas e democráticas com crítica e humor.

quinta-feira, 13 de maio de 2010 21:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

Simplesmente não é possível tachar o BC de liberal, neoliberal, comunista, socialista, etc... É possível tachá-lo de novo-clássico, novo-keynesiano, pós-keynesiano. Não é uma questão de filosofia política, é uma questão de abordagem técnica. E na abordagem técnica é consenso entre os economistas que é necessário blindar o BC das eventuais ingerências do executivo, que tendem a inflacionar a economia em tempos de eleição.

Eu estou sempre pronto para achar que o regime de metas não funciona, basta que um pós-keynesiano me dê provas de que abaixar os juros na marretada não vai nos transformar em um Zimbábue, ou que um economista da escola austríaca me dê provas de que a inexistência do BC vai diminuir os ciclos econômicos. E eu espero também que eles vençam o debate na academia primeiro, antes de querer nos oferecer suas saídas.

abraços, Zamba

segunda-feira, 17 de maio de 2010 22:08:00 BRT  

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