domingo, 16 de maio de 2010

A primeira vítima (16/05)

Se a luta armada era o único caminho para por fim à ditadura, e se as organizações guerrilheiras foram definitivamente batidas nos anos 70, por que razão o regime acabou removido uma década adiante? Quem o removeu?

Mais de um mês de pasmaceira depois, o PT conseguiu pautar algo no debate eleitoral: o paralelo entre Dilma Rousseff e Nelson Mandela. Como era previsível, a jogada nasceu da genialidade mercadológica de Luiz Inácio Lula da Silva.

E foi sutil. Comparou sem comparar. Lula não disse que Dilma está para o Brasil como Mandela para a África do Sul. Seria bizarro. Dizer que o fez é acusação injusta. O presidente apenas comparou a circunstância de cada um na adesão à luta armada.

Repisou a tese de a luta armada no Brasil ter sido produto da ausência de caminho alternativo para combater a ditadura. Segundo essa versão particular e interessada da História, era a guerrilha ou a capitulação. O expediente é duplamente eficaz. Transforma automaticamente em heroi quem decidiu pegar em armas na transição entre as décadas de 1960 e 70 do século passado. Transforma automaticamente em omisso quem não o fez.

Se a luta armada era o único meio de resistir ao regime, quem não a adotou não resistiu ao regime. Uma lógica simples e direta. E completamente furada.

Os movimentos guerrilheiros foram definitivamente neutralizados até o início de 1974. Uma derrota militar completa. Mas em novembro daquele mesmo ano a ditadura começou a morrer, soterrada pelos milhões de votos dados ao Movimento Democrático Brasileiro (oposição) contra a governista Aliança Renovadora Nacional (Arena).

A guerrilha perdeu. Assim como o voto nulo, seu irmão siamês. Quem acabou com o autoritarismo, uma década depois, foi o movimento de massas pacífico e institucional, na combinação das mobilizações sociais e eleitorais. Também aqui uma lógica cristalina: se a luta armada era o único caminho para por fim à ditadura, e se as organizações guerrilheiras foram definitivamente batidas nos anos 70, por que razão o regime acabou removido uma década depois? Quem o removeu?

Haveria talvez a explicação mítica do exemplo que a guerrilha teria deixado, mesmo após sua liquidação. Ou da canalização, para outras formas de combate, da energia guerrilheira. Quem estuda a sério aqueles anos sabe que não foi assim.

O movimento democrático lutava pela volta dos guerrilheiros exilados, pela soltura dos presos e, especialmente, contra a tortura. Mas os grupos políticos remanescentes da luta armada só decidiram aderir à assim chamada via pacífica quando o regime já estava, na prática, batido, depois da revogação do AI-5 em 1978. Batido exatamente por meio da tática e da estratégia que as organizações guerrilheiras recusavam.

São os fatos da História do Brasil. É natural que os personagens, uma vez em posições de poder, tentem reescrever as coisas. É humano. Mas os fatos são mesmo teimosos.

Lula tem uma vantagem sobre os adversários: o presidente não possui veleidades intelectuais, esse traço pequeno-burguês. Encontradiço especialmente em jornalistas.

Pode ser a favor do aborto num dia e contra no dia seguinte, pode estimular hoje a militância contra a criminalização da droga e demonizar amanhã o apoio de um adversário à descriminalização. Pode apoiar incondicionalmente uma greve de funcionários públicos contra um governo tucano e carimbar como altamente inadequado o grevismo contra o governo dele. Pode exigir num dia o bloqueio continental contra Honduras e atacar minutos depois o bloqueio americano a Cuba. Sempre em nome da soberania das nações.

Políticos não mudam de ideia a partir de bons argumentos. Eles selecionam os argumentos que servem à conveniência do momento. Convém agora a Lula apresentar Dilma como mártir da suposta ausência de alternativas fora da luta armada, para quem desejava combater o regime de 1964. É um antídoto às acusações de “terrorismo” feitas contra ela.

Nunca houve de fato terrorismo no Brasil. Houve guerrilha. São duas coisas bem diferentes. E a guerrilha foi uma opção, não uma necessidade. Foi um caminho irrigado pelo exemplo das revoluções cubana e chinesa. A tentativa de um atalho para o socialismo.

Nas guerras -que são apenas a continuação da política por outros meios- a primeira vítima é a verdade. Aqui não está sendo diferente.

Mas quem se importa com isso?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (16) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

23 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

[OFF}
Meu caro você tem um ótimo colega colunista de economia no CW. Se você tem vergonha de pedir umas dicas para ele, aconselho a se aperfeiçoar mais. Come aqui:
http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=6220

sábado, 15 de maio de 2010 22:58:00 BRT  
Anonymous LuizF disse...

Caro Alon,

se nas guerras a primeira vítima é a verdade, honre-a retratando-se de sua afirmação "nunca houve de fato terrorismo no Brasil". Houve, sim. Ou qual nome se dá para atos como detonar explosivos em bancas de jornal, matando civis inocentes? o que é lançar um carro contra um quartel, detonando em seguida explosivos que destroçam um ser humano, naquele momento uniformizado, senão terrorismo em estado de alta pureza?
Sendo assim, falta apenas afirmar que as pessoas que se explodem, se matando e matando tantos outros quanto possível, são somente "guerrilheiros" e não terroristas. Aí não dá.

domingo, 16 de maio de 2010 00:06:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Instigado por sua nota, eu revi o vídeo do PT, e o narrador diz claramente (antes do presidente citar Mandela):

"Como milhares de jovens ela não viu outra saída..."

Ou seja, em nenhum momento está dizendo que não existia outra saída, está dizendo que ela não viu.

No contexto da época isso era bastante razoável. Havia golpes seguidos dentro do golpe, cada vez fechando mais o regime. Ninguém imaginava em 1968 que Geisel iria liberar criticas do MDB na eleição de 1974 na TV, dando início à abertura lenta e gradual, para entregar o poder 11 anos depois. A própria Dilma, após cumprir sua pena por subversão integralmente (saiu em 1973 em pleno governo Medici), não retomou a guerrilha, nem viveu na clandestinidade. Continuou vivendo no Brasil e passou a fazer política partidária.

Em 1968, era natural pensar que sem resistência não acabaria a ditadura. A história de ditaduras latino americanas eram de perpetuação no poder do grupo dominante.

Quero lembrar que várias pessoas que hoje estão no PSDB, no PV, em diretorias de empresas e bancos, pensaram e agiram da mesma forma, na época. Por isso não são pessoas loucas e muito menos criminosas. São pessoas que agiram como soldados voluntários de exército rebelde, combateram em missão, e de forma até inocente, porque a maioria não tinha treinamento nem aptidão para isso.

Em 1968, após a passeata dos 100 mil, um grupo de estudantes com Hélio Pelegrino foram recebidos por Costa e Silva para negociar a libertação de estudantes presos em passeatas estudantis. O General queria uma moratória: o fim das passeatas. Não houve acordo. Os estudantes continuaram presos por "subversão", e as passeatas continuaram. Daí veio o AI-5 em dezembro. O fato é narrado no livro "1968 o ano que não acabou".

Aqueles estudantes que estavam no planalto negociando com o general poucos meses antes, entraram para a luta armada, quando entenderam que todas as portas estavam fechadas.

O que leva estudantes intelectualizados que não ingressaram no exército, que não gostariam que o serviço militar fosse obrigatório para si, a ingressar numa organização militar rudimentar como a guerrilha?

A falta da existência de partidos socialistas legalizados na época, a proibição da UNE e perseguição à Diretórios Acadêmicos, a intervenção em sindicatos.

Se houvesse liberdade de organização partidária, estudantil, sindical, direito de greve, estariam como estão hoje os jovens que estão na UJS, no PCO, no PSTU, o PSOL, no PCdoB, no PT, na CONLUTAS, etc.

A redemocratização foi o conjunto da obra de todos que lutaram por ela, tanto quem não pegou em armas, como quem pegou. Acho injusto desconsiderar que o filho da Zuzu Angel, por ter entrado na guerrilha e na lista de desaparecidos, não tenha ajudado a formar pressões de Congressistas estadunidenses (considerados de esquerda para os padrões de lá) por normalidade democrática no Brasil. Outros inúmeros casos também geraram pressões sobre o Brasil de outros países. Assim como o Mandela preso como "terrorista" nas leis vigentes de lá, ajudou nas pressões internacionais pelo fim do Apartheid.

A lógica de Mandela também foi essa. Ele partiu para a guerrilha, quando o CNA foi jogado na clandestinidade, e os protestos eram proibidos.

Mandela também não chegou ao poder pela guerrilha do MK que nunca teve força militar para vencer o exército sul-africano, mas a luta da guerrilha do MK de Mandela, deu visibilidade para as pressões internacionais, viabilizarem a transição negociada na África do Sul.

Regimes ditatoriais, se todo mundo ficar sossegado e não fizer oposição (inclusive pela rebeldia das armas, quando a oposição não é consentida), não caem nunca.

domingo, 16 de maio de 2010 01:43:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

Bom dia.

Alon, como disse não comento mais no seu blog (o que você não perde coisa alguma), mas tou escrevendo apenas para informar o Duarte que publicarei o comentário dele no meu, sai as 9 horas de hoje. Se ele não quiser basta dizer e retiro. Bom domingo, sucesso e felicidade sempre.

domingo, 16 de maio de 2010 08:24:00 BRT  
Blogger João Paulo Rodrigues disse...

Repisou a tese de a luta armada no Brasil ter sido produto da ausência de caminho alternativo para combater a ditadura. Segundo essa versão particular e interessada da História, era a guerrilha ou a capitulação.

A primeira frase é verdadeira: foi um produto da ditadura. Mas é um sofisma afirmar que a segunda frase representa um desdobramento da primeira. Não é dito isso no programa.

domingo, 16 de maio de 2010 09:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Em quase uma palavra, parabéns.

domingo, 16 de maio de 2010 10:44:00 BRT  
Anonymous Ivanisa Teitelroit Martins disse...

Alon,
este é o divisor de águas.
É preciso pensar politicamente e analisar o veio histórico a partir da recomposição das forças da sociedade e a frente de resistência que se formou com a constituição do MDB.
"Os movimentos guerrilheiros foram definitivamente neutralizados até o início de 1974. Uma derrota militar completa. Mas em novembro daquele mesmo ano a ditadura começou a morrer, soterrada pelos milhões de votos dados ao Movimento Democrático Brasileiro (oposição) contra a governista Aliança Renovadora Nacional (Arena).'
Os movimentos guerrilheiros foram neutralizados e houve muitas perdas dolorosas de grandes ativistas que de maneira desassombrada se lançaram na organização de atividades clandestinas de combate. Este empenho vanguardista não teve apoio popular. Aqueles que sobreviveram vieram a fazer auto-crítica. Foi preciso que a sociedade se organizasse em sindicatos, nas universidades e nos bairros para fazer o combate pela informação e pelas idéias. Foi o tempo dos jornais clandestinos, dos documentos políticos que eram debatidos em pequenos grupos e da ação de rua, em que se disputava democraticamente com a grande imprensa a análise dos fatos políticos.
A partir de 1975 houve um movimento de alvorecer constante na recuperação da democracia. Grandes tempos aqueles!

domingo, 16 de maio de 2010 10:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bastante interessante a tese da falta de ou de não ter visto alternativas. A pré-candidata do governo mira-se no presidente em tudo, como indicador de caminhos, inspirador e orientador de todas as ações. Aspecto reforçado sempre. E o presidente optou por outra forma, ao que parece, de confronto com o regime de então. Assim, fica um tanto mais confuso o antídoto.
Swamoro Songhay

domingo, 16 de maio de 2010 12:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Duarte, respeito suas ponderações como forma de defender algo em acredita. Contudo, ao custo de um grande contorcionismo para enquadrar mais ainda a pré-candidata governista em mais uma tese levantada pelo presidente.
Swamoro Songhay

domingo, 16 de maio de 2010 12:22:00 BRT  
Blogger Renato disse...

As vezes sinto nos seus artigos uma superficialidade cruel. Se calhar o pouco espaço e, quem sabe o medo de ser laudatório demais, o obrigue a isto. Afinal, capacidade de síntese, sem se agarrar a lógica cartesiana mais chinfrim, não é para qualquer um. Também não percebi a valorização que voce tenta sustentar com ela sobre o o fao de a Dilma ter pelejado na guerrilha. Pelo que tenho lido e ouvido do Lula não é este o principal vetor da sua admiração por ela mas sim a capacidade para gerir e realizar. Um pouco mais de consistência nos temas e argumento não seria de todo mal.

domingo, 16 de maio de 2010 12:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eu me importo, você parece ser a única voz inteligente na esquerda.

domingo, 16 de maio de 2010 13:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

..só falta explicar como a ditadura foi causa dos movimentos guerrilheiros pré-64...tunel do tempo?

domingo, 16 de maio de 2010 13:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Regimes ditatoriais de extrema direita sempre caem. Pode demorar mas caem. Os infernos de esquerda é que tendem a se perpertuar.

domingo, 16 de maio de 2010 17:46:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O atributo “terrorista” para a caracterização da luta armada do período pode sim ser empregado. Há base histórica para sustentar a proposição.

Vide manual escrito por Marighella, capítulo 9.3., “Sobre os Tipos e Natureza de Modelos de Ação para os Guerrilheiros Urbanos”:

“Os modelos de ação que o guerrilheiro urbano pode realizar são os seguintes:

a. assaltos; b. invasões; c. ocupações; d. emboscadas; e. táticas de rua; f. greves e interrupções de trabalho; g. deserções, desvios, tomas, expropriações de armas, munições e explosivos; h. libertação de prisioneiros; i. execuções;j. seqüestros;l. sabotagem; m. TERRORISMO; n. propaganda armada; o. guerra de nervos [...]

TERRORISMO

O TERRORISMO é uma ação, usualmente envolvendo a colocação de uma bomba ou uma bomba de fogo de grande poder destrutivo, o qual é capaz de influir perdas irreparáveis ao inimigo.
O TERRORISMO requer que a guerrilha urbana tenha um conhecimento teórico e prático de como fazer explosivos.
O ato do TERRORISMO, fora a facilidade aparente na qual se pode realizar, não é diferente dos outros atos da guerrilha urbana e ações na qual o triunfo depende do plano e da determinação da organização revolucionária. É uma ação que a guerrilha urbana deve executar com muita calma, decisão e sangue frio.
Ainda que o TERRORISMO geralmente envolva uma explosão, há casos no qual pode ser realizado execução ou incêndio sistemático de instalações, propriedades e depósitos norte-americanos, fazendas, etc.
É essencial assinalar a importância dos incêndios e da construção de bombas incendiárias como bombas de gasolina na técnica de TERRORISMO revolucionário. Outra coisa importante é o material que a guerrilha urbana pode persuadir o povo a expropriar em momentos de fome e escassez, resultados dos grandes interesses comerciais.
O TERRORISMO é uma arma que o revolucionário não pode abandonar. [...]

Propaganda Armada [...]

Assaltos a bancos, emboscadas, deserções, resgate de prisioneiros, execuções, seqüestros, sabotagem, TERRORISMO e a guerra de nervos são todos casos em ponto. [...]

Guerra de nervos [...]

Os melhores métodos usados pela guerrilha urbana na guerra de nervos são os seguintes:

a. usando o telefone e o correio para anunciar falsas pistas à polícia e ao governo, incluindo informação de bombas e qualquer outro ato de TERRORISMO em escritórios públicos e outros lugares, planos de seqüestro e assassinato, etc, para obrigar as autoridades a cansar-se, dando seguimento à falsa informação que foi alimentada;”

[Grifos meus. Carlos Marighella. Mini-manual do guerrilheiro urbano, junho de 1969. Disponível em:

http://www.marxists.org/portugues/marighella/1969/manual/cap02.htm#9.3

Para Marighella, o terrorismo era sim um método legítimo de luta política ao qual o militante poderia recorrer com a finalidade de atingir determinados alvos táticos.

No entanto, é simplório reduzir esses movimentos de luta armada à classificação de “grupos terroristas”. O terrorismo não define uma natureza comum a todos os grupos que recorreram á luta armada como forma de combate ao imperialismo e com vistas à implantação de regime socialista.

Aviso aos navegantes que da missa não conhecem nem o introito.

Nos idos de 74, era comum na esquerda marxista-leninista (incluídos trotskistas e maoistas) a crítica ao aventureirismo pequeno burguês que optou pela luta armada como forma de combate ao regime militar e método de luta política com a visada estratégica de implantação do socialismo. Portanto, não é novidade para muitos (e muito menos uma invenção “da direita”) a crítica ao esquerdismo pequeno burguês trazida pelo Alon neste post.

Um leitor honesto (que não tem a mente obnubilada pelas ideologias da direita ou da esquerda e que, portanto, está longe das sinecuras governamentais ou das seitas) logo percebe que os anathema sit são dirigidos ao blogueiro que não reza pelos catecismos influentes no debate político atual.

domingo, 16 de maio de 2010 18:10:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Sobre a expressão latina anathema sit (seja excluído) e a questão de fundo apontada pelo herético Alon.

A Igreja católica apresenta sua doutrina em pronunciamentos positivos e negativos. O Concílio de Trento consagra a fórmula da exposição positiva (decretos), seguida das condenações de opiniões contrárias à doutrina (cânones encerrados com as palavras "que seja excluído da comunidade dos fiéis" - anathema sit).

Exemplo de pronunciamentos do magistério negativo na condenação do materialismo pelo Concílio Vaticano I:

"Se alguém afirma que nada existe além da matéria – anathema sit (seja excluído)" (condenação do materialismo pelo Concílio Vaticano I).

As opiniões qualificadas com a fórmula anathema sit (seja excluído) eram consideradas pela Igreja como heresia.

Jean-Pierre Faye no ensaio sobre a linguagem totalitária (Introdução às linguagens totalitárias, teoria e transformação do relato. Ed. Perspectiva, SP, 2009) busca entender o movimento de migração de um idioma político, originado em um campo ideológico específico, para outro (direta->esquerda e esquerda->direita). Ele ativa a imagem da ferradura ideológica para explicar como, no circuito da linguagem, temas e slogans criados em distintos campos ideológicos são acolhidos pelo par direita/esquerda. No fundamental, não raro esses idiomas políticos utilizam a mesma língua.

Seguindo-se conceitos apresentados por Faye, chegamos ao itinerário que vai do nazismo às forças terroristas, cuja razão que operou na Itália e na Alemanha (nos anos 60 e 70 do século XX) incluía sequestros, assassinatos, bombas jogadas contra cidadãos alheios ao embate político. No itinerário sentimental da crítica ao liberalismo e ao Parlamento efetuada pelo terror da esquerda, está o mesmo desencanto nazi-fascista face com as instituições representativas. Ambos partilham idêntica desconfiança diante do Legislativo e do Judiciário.

domingo, 16 de maio de 2010 18:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Li recentemente o livro "Judas, traidor ou traído?" do General Danillo Nunes (Foi vice na chapa de ?Flexa Ribeiro). O general, um positivista, não se apegou muito à questão formulado por Pilatos, embora quase todo o livro seja sobre Cristo. No início e no final ele tenta caracterizar Judas. No início tenta desvendar o termo Iscariotes. No final ele trata de informar quem era os Zelotas.
Volto então para Pilatos. Afinal, o que é a verdade? Tomo-me como céptico e não vejo a verdade como vítima, mais vítima dela somos nós. De todo modo, sendo ela vítima, ela o é também nos tempos de paz. E na guerra morrem primeiro os que foram mortos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/05/2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010 08:35:00 BRT  
Anonymous RICARDO BC disse...

A questão não era somente exterminar a GUERRILHA. Era preciso calar, silenciar e AFASTAR (EXILAR OU MATAR) qualquer oposição. É essa a lógica que sustenta o regime para além da desestruturação das guerrilhas. A guerra, para eles, era bem maior.

segunda-feira, 17 de maio de 2010 09:35:00 BRT  
Anonymous Carlos disse...

Como assim não houve terrorismo no Brasil? E aquelas bombas de 1966, em Recife eram o que? Festa junina?

segunda-feira, 17 de maio de 2010 16:43:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, creio que o presidente Lula prepara sua temporada fora do poder, é isso que explica a guinada do governo para a esquerda nessa última fase: asilo a Battisti, decreto sobre direitos humanos etc. E o que importa não é vencer as questões, apenas que o presidente apareça como campeão das esquerdas. Da mesma forma a candidatura Dilma Russeff, importa menos a vitória que a afirmação da candidatura em si. Com maior ou menor clareza o presidente poderá dizer que submeteu a legitimidade da opção pela luta armada ao crivo popular. Assim como trazer o exemplo de Mandela é tratar o assunto enviesadamente, sem dizer claramente o que se quer. Não vi o programa, nem vou atrás, mas é evidente a ousadia do presidente: esse tema, ponto fraco da candidatura Russeff, partindo da hipótese de que o eleitor médio é conservador, deveria ser trazido à baila pela oposição, mas o governo sente-se forte para antecipar-se é tentar reduzir os efeitos de uma eventual ofensiva. Parece-me óbvio que é desconhecido do eleitor médio o passado da candidata durante o regime militar, se lembramos que até a pouco as pesquisas apontavam que não era de conhecimento do eleitor sequer que ela fosse a candidata do presidente. Por que a oposição ainda não concentrou sua comunicação nesse ponto? Vejo duas explicações, ou José Serra escolheu ser coerente com sua biografia – e o passado da candidata do governo deve ser irrelevante para alguém como ele – ou está guardando a ofensiva para mais perto das eleições, esperando aproveitar a reação emocional, imediata, do eleitor (o que para mim, politicamente, seria inteiramente legítimo). Mas nisso tudo o importante é perceber que o eleitor médio não dispõe de representação política próxima a ele, e nossas zelites, por que é delas que estamos de fato tratando, continua discutindo questões de 30 ou 40 anos atrás.

terça-feira, 18 de maio de 2010 08:55:00 BRT  
Anonymous Ivanisa Teitelroit Martins disse...

Alberto,
Você tem razão. Tanto o candidato da oposição quanto a candidata do governo continuam discutindo questões de 40 anos atrás. Esse viés tem criado uma divisão na sociedade. Nossa sociedade, formada na sua maioria de jovens, quer conhecer a história, o passado. O passado pode ser contado de diferentes maneiras, dependendo do lugar em que se ocupasse na época. Ao final, conhece-se sempre parte da verdade e urge construir um discurso para o futuro do país. É fato que é preciso debater os episódios que ceifaram a democracia no país no período do regime militar, mas esse não deve ser o vetor para identificar o atual embate de idéias no país. Torna-se estranho para o jovem usar categorias de pensamento cunhadas no passado com as quais ele não se identifica.

terça-feira, 18 de maio de 2010 10:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alberto099 (18/05/2010 às 08h55min00s BRT),
Pensei em elogiar seu comentário ou pelo menos mostrar identificação com ele, mas contive-me e voltei a o ler por precaução. Enfim, não tenho dúvida, concordo inteiramente com seu comentário. Quanto ao elogio já o fiz bem antes aqui no blog do Alon Feuerwerker quando mencionei que nós temos a tendência de considerar como muito boa a opinião que se expressa muito semelhante ao que pensamos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 18/05/2010

terça-feira, 18 de maio de 2010 13:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Concordo Alberto099. Só faço um reparo: a julgar por algumas declarações feitas a respeito do Gabeira, tratam-se de questões em cabeças que vivem nos anos pré-60.

terça-feira, 18 de maio de 2010 14:04:00 BRT  
Anonymous Célia Almeida disse...

Eu li "a primeira vítima" pq um amigo me enviou...li mto rápido e ainda assim identifiquei ao menos dois erros crassos no que concerne a história daquele período. Vc sabe que Vladmiir Herzog foi assassinado em 1975? mas eu não sei como vc classifica os assassinatos realizados pelos militares...em novembro de 1974 a ditadura começa a morrer?? foi??? onde??? em 1974, começa-se a tomar outro rumo os "anos de chumbo", e isso é outra coisa...nunca se disse que a luta armada era o único meio...até pq nunca há apenas um meio...há caminhos permeados sempre pela conjuntura vigente...agora, pergunte aos tantos e tantos jovens que pegaram nas armas naquela época, pq pegaram? ...talvez, se vc começar por aí, tenha uma noção maior do fatos, do contexto...estude mais história...aqui é um comentário pequeno, vou responder na íntegra e enviar apresentando com mais detalhes como vc está equivocado acerca da ditadura militar no Brasil...pelo texto, imagino certamente, que vc tem saudade das aulas de EMC, de EPB e afins...escrevo logo mais.

sexta-feira, 21 de maio de 2010 11:16:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home