quinta-feira, 27 de maio de 2010

Pressão que vem de cima (27/05)

O que vale mais, a orientação nacional de cada sigla ou a liberdade que ela deve ter nos estados para caminhar do jeito que achar melhor? O Planalto mandou a fatura e o PMDB busca a saída

Vêm aí capítulos animados na novela da “judicialização”. O PMDB está à espera de uma resposta dos tribunais sobre se filiados ao partido podem fazer nos estados campanha para outros candidatos a presidente da República que não Dilma Rousseff. No alvo, especialmente duas seções partidárias: São Paulo e Pernambuco.

Nos dois estados o PMDB irá de Serra, se não houver intervenção de cima e se a Justiça não proibir. Por que as situações são delicadas? São Paulo é a origem eleitoral do virtual candidato a vice na chapa governista, Michel Temer. E Pernambuco é a terra do cacique do PSB, o governador Eduardo Campos. Os socialistas sentem-se escanteados na coligação oficial, dado que todas as honras estão reservadas aos novos sócios do PMDB.

Campos manobrou nos bastidores para evitar este ano um confronto nas urnas com o senador e ex-governador peemedebista Jarbas Vasconcelos. Mas Jarbas decidiu entrar na disputa, para dar um palanque a Serra no estado natal de Luiz Inácio Lula da Silva. O que levou Campos a bater nas portas do poder com um protesto: enquanto o PMDB em Brasília leva a parte do leão e saboreia o bem bom, em Pernambuco a legenda do saudoso doutor Ulysses fica liberada para atazanar os projetos socialistas-dilmistas.

Em 2002 o PMDB apoiou oficialmente o então candidato do PSDB, José Serra, fornecendo a vice, Rita Camata. Mas um bom pedaço da turma foi de Lula desde o começo. O que mudou desde então? Duas coisas. O Congresso derrubou a verticalização nas eleições e instituíram-se regras mais duras de fidelidade partidária.

A verticalização vinha de uma decisão judicial e impedia coligações estaduais entre partidos participantes de diferentes chapas ou coligações nacionais. Para ter liberdade nos estados, a legenda precisaria abrir mão de concorrer à Presidência ou de apoiar algum outro partido oficialmente. Mas a verticalização foi revogada no Congresso e já não vale nesta eleição.

A fidelidade partidária vem de ser anabolizada na Justiça. Então fica a dúvida: o que vale mais, a orientação nacional de cada sigla ou a liberdade que ela deve ter nos estados para caminhar do jeito que achar melhor?

O governo pressiona pela primeira hipótese, que impediria dissidências peemedebistas pró- Serra. O principal efeito seria sentido nas inserções televisivas e radiofônicas estaduais, o espaço destinado aos candidatos locais. Que ao lado de pedirem votos para si pedem também para quem apoiam.

Mesmo na hipótese de a Justiça optar pela supremacia absoluta da fidelidade partidária, haveria uma trilha para os dissidentes. Ainda que não pudessem fazer o proselitismo no horário eleitoral, nada os impediria de defender sua preferência de outros jeitos. Em panfletos, cartazes, pichações, discursos, entrevistas.

Mas a direção do PMDB também está em busca de meios para matar essa possibilidade. Um caminho seria a impugnação da candidatura rebelde. Ou então a cassação do eleito.

Vai ser um bom debate na Justiça. Se ela decidir como deseja a cúpula peemedebista, vai também correr sangue. No sentido figurado, claro. Não que o PMDB seja especialmente afeito a soluções sangrentas. Mas depois de ceder a vice para quem o partido queria, no caso Temer, o Planalto acha que o aliado lhe deve essa. E mandou a fatura.

Convém ficar de olho.

Delay

Antes do Irã de Mahmoud Ahmadinejad, o último país que conseguiu reunir contra ele os Estados Unidos, a Rússia, a China, o Reino Unido e a França foi o Japão, quando atacou Pearl Harbor em dezembro de 1941. Coisa de gênio.

Por falar em Rússia, ontem a temperatura entre Moscou e Teerã subiu, após um ataque verbal de Ahmadinejad, logo rebatido por um assessor do presidente russo.

Interessantes mesmo foram as palavras mais amistosas do presidente iraniano em direção a Barack Obama, apelando ao colega americano por diálogo.

Ahmadinejad está pisando na chapa quente e parece algo desorientado pela pressão, mas ainda tem a chave da saída. É só assumir o compromisso de interromper o enriquecimento de urânio e permitir que isso seja 100% inspecionado pelas grandes potências. A carta agora é aceitar a tutela imperial no programa nuclear dele.

Doloroso, mas necessário. Talvez Lula — o campeão mundial da realpolitik — devesse aconselhá-lo nesse sentido.

O problema de Ahmadinejad é como explicar em casa, sem ser acusado de capitulação. Porque terá capitulado.

Assim como o problema de Obama é conseguir na ONU medidas que brequem a caminhada da proposta de sanções unilaterais, em marcha batida no Congresso dos Estados Unidos.

Nesse assunto, as potenciais soluções dão invariavelmente a impressão de estar chegando tarde, com delay.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (27) no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Anonymous Muktar Ali ben Said disse...

É do conhecimento dos bem informados,que uma das características dos povos orientais,árabes ,persas e todos qua compartilham do deserto,além da hospitalidade,respeito aquele que se abriga sob seu teto. Opostamente,empregam um vocabulário ríspido,composto de quilométricas expressões ofensivas,mencionado desde parentescos com animais,suas relações e pragas rogadas a atingirem infinitas gerações do desafeto ou objeto de sua ira. Ahmadinejad, não faz diferente dessa folclórica tradição.Ameaça,faz previsões,ensaia abandonar a mesa,nada que um comerciante de um "shouk" qualquer do oriente ,não o faça.

quinta-feira, 27 de maio de 2010 10:13:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

A consulta do PMDB pode se tranformar em tiro no pé.
Uma que a fidelidade se dá ao Estatuto do Partido, que terá de prever, a sujeição das Seções Estaduais em decisões do tipo. O que parece duvidoso especialmente considerando a história do Partido.
Segundo que o charme do PMDB se encontra exatamente na possibilidade de divergir e não ser traidor.
Daí que se deve esperar um bocado de sangue a correr e por largo prazo dentro do PMDB no caso da Justiça entender em favor da cúpula partidária.
Nem será uma convenção amena e talvez nem as docas e portos serão esquecidos.
Lula, ao fim, poderá estar livre do vice que não quer para a Dilma. Em compensação...

quinta-feira, 27 de maio de 2010 10:27:00 BRT  
Blogger fonceqa disse...

"Antes do Irã de Mahmoud Ahmadinejad, o último país que conseguiu reunir contra ele os Estados Unidos, a Rússia, a China, o Reino Unido e a França foi o Japão, quando atacou Pearl Harbor em dezembro de 1941. Coisa de gênio."
Erro grave, porque óbvio. Talvez no afã de persuadir, coisas da retórica.Os países citados votaram em conjunto contra o Iraque de Saddam Hussein quando da invasão do Kuwait, em 1990. Ver resoluções 660 a 665.

quinta-feira, 27 de maio de 2010 10:29:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Fica cada vez mais evidente que os países do CS da ONU não reconheceram credibilidade à diplomacia que se arvorou porta-voz das boas intenções (implícitas na Declaração, de acordo com Celso Amorim) do governo iraniano.

Os sinais de estranhamento entre os iranianos e os russos são anteriores à assinatura da Declaração. Os iranianos continuam subindo o tom nas críticas à Rússia. Ontem a IRNA publicou as declarações de um parlamentar iraniano, Mehdi Sanaie, sob o seguinte título: “Os iranianos estão prestes a perder a confiança nos russos”.

Mehdi Sanaie é membro da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa no parlamento unicameral (Majilis) e do grupo de amizade Irã-Rússia. Em entrevista à IRNA sobre os a “afiada [sharp] crítica do presidente Mahmoud às recentes posições da Rússia a respeito da questão nuclear do Irã”, ele disse: “alguns segmentos do Irã [eu observo: o governo] acreditam que a sociedade iraniana está pagando um alto preço [costly] para manter as relações com os russos, então Teerã deve pensar duas vezes antes de decidir-se sobre a ampliação dos laços com Moscou.”

Há outras informações importantes na nota. De acordo com Sanaie, os pontos sensíveis nas relações Irã-Rússia seriam os atrasos de responsabilidade russa na implementação da usina nuclear em Bushehr, a não entrega dos mísseis S-300 a despeito dos contratos assinados e, sobretudo, a mudança de tom do Kremlin em relação a Teerã. Ele aconselhou a Rússia a restabelecer a confiança do governo iraniano.

Enfim, esses me parecem sinais de que na prática a Rússia já estaria executando ao seu modo algumas sanções ao Irã. Talvez isso ajude a entender melhor a origem dos atuais ruídos entre os dois países.

“MP: Iranians are about to lose trust in Russians”

http://www.irna.ir/En/View/FullStory/?NewsId=1139895&IdLanguage=3

quinta-feira, 27 de maio de 2010 10:59:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, propor mudanças institucionais é sempre uma posição desajeitada, mas a indigência de nossa vida partidária e parlamentar está a exigir alguma criatividade. Existe a regra de que os partidos devem se organizar nacionalmente, creio que ela reflete o desejo de homogeneizar e unificar a vida política, além do receio de confrontos inter regionais bastante comuns ates do Estado Novo. Descartando essa segunda preocupação por ultrapassada, o fato é que a maioria dos partidos nacionais nada mais é que coligações de lideranças regionais, que eventualmente caminham juntas. É fácil combinar com meia dúzia em cada Estado da federação e não sei quantos municípios, daí que o caráter nacional dos partidos não impede que esses existam às pencas, inclusive os “pequenos” para aluguel. O resultado é a completa descaracterização do partido político, enquanto partido, representação de uma parte consistente. Ser cético é mais chique e cômodo – e adoramos, antes de mais nada, as comodidades – mais que seja: por que não damos aos partidos liberdade de organização regional (digamos cada secção estadual pode constituir um partido se quiser), de um lado, e estipulamos uma clausula de barreira (que pode até ser crescente no tempo, para permitir que partidos maiores se organizem) para a representação no Congresso Nacional? A verticalização também não foi uma forma canhestra de se exigir fidelidade? Você se pergunta: “o que vale mais, a orientação nacional de cada sigla ou a liberdade que ela deve ter nos estados para caminhar do jeito que achar melhor?” Eu pergunto existe alguma coisa que seja “uma sigla nacional”? Então por que ela “deve” ter liberdade em cada estado? Os órgãos de comando nacional do partido comandam o que, se cada um faz o que bem entende? Alías, o PTB vem de coligar-se nacionalmente ao PSDB, mas liberou seus integrantes que queiram apoiar o PT, inclusive emprestando palanques de candidatos a governo. Roberto Jefferson é o modelo do democrata brasileiro, é ou não é?
Na pendenga do ocidente com os persas, alguma coisa saiu errado na “encenação” diplomática que, creio, mudou substancialmente o jogo que existia entre Brasil e EUA. Mas ninguém parece dar-se conta. Num primeiro momento o Brasil estranhou a rapidez com que os americanos voltaram a tratar das sanções e cometeu uma indiscrição, revelando, por meio de trechos de uma carta do presidente americano, que sim a encenação havia sido ensaiada. Eu atribuo a rapidez da reação americana à festa ¬– depois das comodidades, em nossas preferências, estão as festanças –, que promovemos com turcos e iranianos para celebrar um acordo no mínimo parcial, como se déssemos o assunto por resolvido. O vazamento de trechos descontextualizados da correspondência presidencial deve ter queimado de vez o filme do “cara”, eles não passaram recibo, mas o tom do Departamento de Estado é completamente outro, antes eles afirmavam apoiar nossa iniciativa (embora parecessem dizê-lo de má vontade) agora enfatizam a discordância com respeito ao Irã. Bem, talvez o presidente acabe esperando para ser candidato novamente em São Bernardo do Campo, o que certa vez prometeu se não me engano.

sexta-feira, 28 de maio de 2010 06:38:00 BRT  
Blogger João Paulo Rodrigues disse...

"Antes do Irã de Mahmoud Ahmadinejad, o último país que conseguiu reunir contra ele os Estados Unidos, a Rússia, a China, o Reino Unido e a França foi o Japão, quando atacou Pearl Harbor em dezembro de 1941. Coisa de gênio."

Bom, houve uma Guerra Fria até 89. A dimensão do isolamento iraniano tem que levar em conta esse fator. Era virtualmente impossível algum país não conseguir apoio em um dos pólos.

sexta-feira, 28 de maio de 2010 09:33:00 BRT  

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