quinta-feira, 20 de maio de 2010

Os propósitos e os holofotes (20/05)

No roteiro de Lula, a negociação é o antídoto contra as sanções. No roteiro proposto pelos americanos, talvez as sanções sejam a alternativa ao caminho das armas. Pelo menos é possível que russos e chineses enxerguem assim

É discutível a atitude brasileira de deixar a reunião do Conselho de Segurança da ONU em que se discutiam as possíveis sanções contra o Irã. Se o Brasil tem uma posição, deve defendê-la em qualquer instância. Por que não?

O Brasil parece ter ficado surpreso com a velocidade de reação das potências no CS, e com a unanimidade a favor do rascunho das sanções.

Na teoria, a declaração obtida por Luiz Inácio Lula da Silva em Teerã deveria ter dividido o bloco dos países com poder de veto. Deveria ter facilitado o descolamento entre de um lado Estados Unidos e de outro Rússia e China.

Mas não aconteceu. Um motivo é que as medidas vêm sendo costuradas faz tempo entre os protagonistas do CS. E costuras envolvem compromissos.

Um exemplo: os americanos toparam ceder aos russos no escudo antimísseis do leste da Europa. Os russos não podem agora simplesmente desconhecer as preocupações dos Estados Unidos com o Irã.

Os chineses também carregam um portfólio de pontos estratégicos delicados na relação com Washington. Não podem se dar ao luxo de flutuar ao sabor dos acontecimentos.

Outra razão é que nem russos, nem chineses, nem franceses nem súditos de Sua Majestade estão dispostos a conviver com um Irã nuclearizado. A França não se alinha automaticamente aos Estados Unidos, ao contrário: na crise do Iraque peitou o aliado do começo ao fim. Rússia e China tampouco.

Circula a teoria de que as sanções são um primeiro passo para os Estados Unidos intervirem militarmente no Irã. O histórico das guerras recentes encoraja a hipótese. Mas há nela um buraco lógico. Por que motivo russos e chineses iriam estimular a presença de tropas americanas no Irã? Qual o interesse dessas duas potências em incentivar a expansão bélica da superpotência?

Interesse nenhum. O que faz obrigatório levantar uma possibilidade: talvez os parceiros dos Estados Unidos no CS vejam as sanções como um caminho não para impulsionar a eventual agressão militar, mas para diminuir a probabilidade de ela acontecer.

No roteiro de Lula, a negociação é o antídoto contra as sanções. No roteiro proposto pelos americanos, talvez as sanções sejam a alternativa ao caminho das armas. Pelo menos é possível que russos e chineses enxerguem assim.

Também por isso escrevi na coluna de terça-feira que a tática brasileira levaria a aumentar as pressões sobre Teerã, em vez de diminuir. O Irã tem um histórico de enrolar o CS, e se as potências enxergassem a aceitação tardia da algumas condições pelos iranianos como manobra para novamente “comprar tempo” provavelmente dariam mais uma volta no parafuso. Ou mais algumas.

O Irã trabalha com a hipótese de os Estados Unidos não conseguirem abrir uma terceira frente, além do Iraque e do Afeganistão. É razoável. Como também é razoável imaginar que Washington esteja a rascunhar caminhos para enfrentar o problema, de um jeito ou de outro.

O documento assinado em Teerã rendeu dividendos políticos a Lula, mas é preciso agora ir além do brilhareco. Se o Brasil está sinceramente interessado numa saída pacífica — e não apenas em fazer propaganda de si próprio — talvez devesse considerar que os termos acertados no domingo com Mahmoud Ahmadinejad são, infelizmente, insuficientes. E que é preciso avançar.

A questão-chave do affair iraniano é o monitoramento internacional do programa atômico. O próprio Itamaraty admite isso, quando caracteriza o trato do último fim de semana como “primeiro passo”. Qual é a dificuldade, então? O ritmo. Brasil e Irã caminham a passo de tartaruga, mas os fatos já adquiriram velocidade de coelho.

Em resumo, a permanência do Irã como nação soberana depende da renúncia definitiva ao uso da energia nuclear para fins militares. E de isso poder ser efetivamente verificado e fiscalizado pelas potências. Em suma, para manter sua soberania o Irã deverá renunciar a uma parte dela.

Justa ou injusta, essa é a situação. E os dirigentes iranianos estão diante da encruzilhada. Na qual, aliás, eles mesmos fizeram tudo para se meter. As escolhas colocadas aos países nos momentos-chave da História nunca são fáceis.

Será ótimo se o Brasil e Lula puderem ajudar o Irã a fazer a escolha correta. É o que farão, se estiverem movidos pelos propósitos certos, e não apenas pela busca dos holofotes.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (20) no Correio Braziliense.

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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Teoria do dominó,agora, a serviço do
"Ocidente". Primeiro, justificava-se a intervenção no sudeste asiático, porque caindo um país "nas garras do comunismo",outros se seguiriam ,exatamente como os retângulos de um dominó.Eis que essa teoria renasce aplicada nessa região secularmente disputada. Nova fase, de diplomacia truculenta ,"pós queda do muro"produziu sua primeira vítima : Iraque. Sem muito esforço intelectual nem mesmo profundo conhecimento geopolítico,é notoria a intenção do "Tio",descarregar o porrete em sobrinhos rebeldes.Mesmo preventivamente. Como costuma acontecer em intervenções,mesmo nas melhores famílias , a ira cresce quando um membro a ela se interpõe.

quinta-feira, 20 de maio de 2010 10:41:00 BRT  
Anonymous Tovar Dornelles disse...

Desculpe, é obrigatório reparo.
Mas “o Brasil e Lula... (ajudar o Irã)” vistos como entidades distintas é de subserviência inaudita para quem emite opinião, impossível de deixar passar batida. É a tentativa de redução do País em meio a um mediocrizante culto a personalidade.
Lula foi ao Irã como Presidente do Brasil, firmou acordo em nosso nome. Não anda e é recebido a La Bono Vox ou Sting, que por meios próprios, promovem direitos. Tampouco há, no momento, qualquer indício de que tenha se transformado em algo maior do que o PT.
Muito menos provas de que fez o mundo em 6 dias e depois Deus deu alguns retoques no sétimo. Tampouco de que descobriu o Brasil ou num átimo mudou o País. Ele, Dilma e mais ninguém.
Inaceitável isso. O Brasil é maior e pode bem mais.

quinta-feira, 20 de maio de 2010 10:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

grande texto. Muito distante do maniqueísmo do que a imprensa vem produzindo com relação as questões diplomáticas. Um ponto de fuga da imprensa chifrim.
Tá difícil acompanhar os jornais nos últimos dias. Escutar o Arnaldo Jabor dizer que a ação de Lula representa a derrota de toda a atuação diplomática brasileira durante toda uma década, apesar de forçado, expressa a pobreza da discussão do tema na mídia.

Abs.

Daniel Menezes
Natal/RN

sexta-feira, 21 de maio de 2010 00:05:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, talvez você tenha razão e seja apenas a busca de holofotes, mas mesmo nesse caso não é fácil de entender o que se quis com as negociações. Como você diz o ponto importante era o monitoramento internacional do programa iraniano e ficou claro que o Irã não se comprometia em direcionar todo o seu combustível para enriquecimento fora do país, mesmo antes da declaração do Irã explicitando que manteria o enriquecimento internamente (com a declaração tudo ficou muito pior, claro, o “enrolation” era real e o Brasil compactuava com ele, mas o que Teerã pretendia com essa declaração? Ganhar tempo é que não era). Como o Brasil acreditou que isso pudesse ser apresentado como uma vitória? Como evitar que os holofotes exibam um fiasco? Que declarasse ter alcançado avanços, mas que Teerã teria de avançar ainda mais em sua proposta, e pedisse tempo ao Conselho de Segurança. Que se negociasse com o Irã uma proposta de engajamento séria contra contrapartidas no desarmamento da região, o que traria novidades para a mesa de negociação. Mas parece que subestimamos a importância da questão para o ocidente, levando o “enrolation” longe demais. A lógica é uma disciplina tirânica (se parte do enriquecimento de urânio se dá fora do controle internacional, então não há controle internacional), creio que é uma das vantagens da linguagem humana permitir flexibilizar a lógica, aceitar temporariamente alguma inconsistência que permita um desenvolvimento favorável no tempo. O “enrolation” pode ser útil – e talvez esteja quase sempre presente –, mas é preciso avaliar corretamente até onde ele pode ir, e na maioria das vezes ele não pode ir até o ponto de ficar evidente. Nós somos craques no assunto, são formas de “enrolation” as declarações do presidente de que a elite criticou a participação do Brasil por não ser de sua competência, uma afirmação verdadeira que não acrescenta nada ao assunto, ou o paralelo do tratamento dado ao Irã e a violência na criação dos filhos. Nós temos aliás uma convivência difícil com a lógica, trazendo um exemplo de fora do assunto mas que serve de sugestão para um post, a tese de que o projeto ficha limpa não pode impedir a candidatura de quem já tenha sido condenado porque seria retroagir desfavoravelmente aos possíveis implicados. Caro Alon, já viu lógica mais non sense? Seria como proibir o tabaco em restaurantes apenas àqueles que começassem a fumar depois da proibição, eu diria até que nesse caso do ficha limpa legislar retroativamente talvez fosse defensável, mas legislar retroativamente de fato: de fenestrando os políticos que tenham sido eleitos já condenados. Na verdade foi mais um “enrolation” para permitir o projeto passar no congresso.

sexta-feira, 21 de maio de 2010 04:41:00 BRT  
Blogger João Paulo Rodrigues disse...

Tirando o Alon, não se vai encontrar nenhuma análise digna de nome na impresa pátria. Apesar dos limites do jornalismo (que supredimensiona o imediatismo), Guardian, NYT, Herald Tribune, El País, Financial Times e outros são a melhor fonte para entender os possíveis desdobramentos da crise. Todavia, isso ainda é insuficiente, pois a mída brasileira, no seu afã pela polêmica eleitoral, está deixando de cobrir o Itamaraty (e o Min. da Defesa) como deveria, com algumas raras exceções.

sexta-feira, 21 de maio de 2010 10:50:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

Alon, não custa avisar ao nosso Chanceler que a Coréia do Norte está oferecendo condições excepcionais para o protagonismo mundial de nosso sábio e eterno Presidente.
É só ir lá, prosear um pouco, prometer um jogo entre os líderes dos dois bandos e tudo estará resolvido nos trinques. Além do mais a Coréia já tem a bomba e como lançá-la.

sexta-feira, 21 de maio de 2010 10:53:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

A nota foi boa, mas o que é chamado de holofote é apenas uma visão superficial de curto prazo.
Acredito que a intervenção diplomática do Brasil no Oriente Médio, tem mais a ver com a construção de alianças maiores a médio e longo prazo, visando o todo na agenda dos países em desenvolvimento conflituosas com os países ricos, e isso nada tem de ideológico. Tanto é assim que os governos militares agiram da mesma forma que o governo Lula voltou a agir. Antes, quem iniciou este direcionamento rumo ao multilateralismo, foi o governo Vargas, com a continuidade de JK e Jango. Nos anos pós-muro de Berlim, quando esteve na moda o consenso de Washington, essa política foi abandonada no Brasil.
Para entender essa política, é fácil, quando recorremos a um exemplo clássico de fácil compreensão: até hoje os EUA não assinaram o reconhecimento das 200 milhas marítimas, contra 156 países que assinaram (por isso que eu digo que foi um desastre o Brasil assinar o TNP sem exigir nada em troca, sequer esse reconhecimento pela potência hegemônica da época). Enquanto isso, a convenção da ONU já reconhece até 350 milhas. Nove países já exerceram esse direito. O Brasil apresentou sua proposta em 2004. A fonte destas informações é a Marinha do Brasil, que não morre de amores pelo governo do PT.
A mediação do Brasil no Irã está no contexto da confluência de interesses destas convenções da ONU, na formação do G-20, das negociações das rodadas de DOHA, que impediu que os países ricos submetessem os em desenvolvimento a abrir mais seus mercados à manufaturados e setor de serviços, gerando desemprego local; e das negociações climáticas, onde os países em desenvolvimento e pobres podem ter muito a ganhar com a abertura de mercados aos biocombustíveis e à maior industrialização em países que detenham matriz energética limpa.
A preocupação bélica nuclear é maior na agenda dos EUA, Europa, Israel e Rússia. EUA, Europa e Israel querem mais do que garantias. Usam com maestria política o assunto para desestabilizar o Irã, da mesma forma que usaram as inexistentes armas químicas contra o Iraque.
O Brasil media para que o Irã faça concessões o suficiente para a ONU ter garantias do cumprimento do TNP. Ir além e desestabilizar o estado e o governo iraniano, não é da alçada do Itamaraty.

sexta-feira, 21 de maio de 2010 12:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Li todos os comentários sobre o seu artigo, e me pareceu que ninguém cogitou uma questão importante, e, ela já está sendo constatada, qual seja, a discussão sobre a nuclearização militar do Brasil. Isso tem que ser levado muito a sério, sem ser especialista é possível imaginar um cenário diferente e mais conturbado para as relações internacionais. O fato é que os paises nuclearizados não estão interessados na extinção de suas armas, justamente por imaginar aquele cenário. E há muitos outros países que está já a se preparar para ele. Então porque não discutimos a hipótese? E, é esse um ponto importante que a diplomacia brasileira está pondo à nossa mesa agora...
Ismar Curi

sexta-feira, 21 de maio de 2010 22:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ismar Curi (21/05/2010 às 22h13min00s BRT),
Também não sou especialista, mas com outras palavras foi essa idéia de nuclearização do Brasil, só que em meu entendimento sob pressão dos militares que eu deixei implícito na seguinte passagem do meu comentário que eu enviei em 18/05/2010 às 19h15min00s BRT aqui para o blog do Alon Feuerwerker no post “Sem trouxas nem "enrolation"” de 18/05/2010 (Correções de erros e explicações no texto em maiúsculas):
“De todo modo, não me parece que o governo Lula tenha entrado nessa apenas para proveito próprio (DE LULA OU DO PT). Penso que ele foi instado pelo militares que TÊM interesse em uma bomba atômica para o Brasil. Com a bomba atômica o país poderia deixar de ser classificado como, nas palavras de José Luís Fiori no artigo no Valor Econômico de 23/05/2007 intitulado "A turma do "deixa disso"”, um país da turma do "deixa disso".
A intenção é ganhando tempo para o Irã, ganhar tempo também para o Brasil.”
E quando eu fiz referência ao ganho de tempo eu queria enfatizar que o tempo da civilização persa é diferente do nosso.
Além da Constituição de 88 outros fatores levaram o Brasil a assinar o acordo em setembro de 1998. Pelo que se percebe no discurso do Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, por ocasião da cerimônia de assinatura da mensagem que envia o Tratado sobre Não-Proliferação de Armas Nucleares ao exame do Congresso Nacional em 20 de junho de 1997, FHC teve interesse em assinar o TNP para ser bem tratado pelos Estados Unidos, que não tinham medo do Brasil, mas contavam com o exemplo brasileiro. Coincidentemente a cerimônia foi anterior ao início da crise financeira de 1997 deflagrada com o anúncio em 2 de julho de 1997 de que o baht (moeda tailandesa) passaria a flutuar, ao que se seguiu sua desvalorização imediata em 15%, mas a assinatura do tratado deu-se em setembro de 1998, mais de um ano após o encaminhamento do Tratado, mas já em plena crise financeira que se iniciou na Rússia em 17 de agosto de 1998.
Como se vê, a nossa situação hoje é melhor, mas não ao ponto de fazermos como a Coréia do Norte que em pleno governo de George Bush abandonou o TNP.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/05/2010

sábado, 22 de maio de 2010 20:03:00 BRT  

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