sexta-feira, 14 de maio de 2010

O portador da má notícia (14/05)

A visita do presidente brasileiro a Teerã é um gol, mas será preciso esperar o resultado final do jogo. Para ver se Lula puxa Ahmadinejad para cima, ou Ahmadinejad puxa Lula para baixo

Está bem perto a hora da verdade para a diplomacia brasileira na crise do Irã. A estratégia de Luiz Inácio Lula da Silva e do Itamaraty conduziu o Brasil para o centro da turbulência na disputa em torno do programa nuclear iraniano. Agora é hora de pousar o avião.

Nossa chancelaria vem movida por dois vetores principais: reafirmar o papel do Brasil como jogador global não alinhado aos Estados Unidos e consolidar nossa presença naquela região, especialmente no comércio.

O paradoxo da situação já foi apontado aqui. O Brasil opõe-se às sanções propostas pelos americanos para fazer o Irã desistir da bomba, mas Lula só poderá declarar vitória num desfecho que contemple o objetivo estratégico de Washington: a capitulação do Irã, com a renúncia ao projeto bélico nuclear.

É situação complicada para a liderança iraniana. Uma demonstração de fraqueza a esta altura revigoraria a oposição interna. Em caso de rendição, os adversários certamente acusarão Mahmoud Ahmadinejad de ter debilitado o país diante dos inimigos externos. E a luta interna passaria mais rapidamente a outro patamar.

Enquanto simula condescendência com os movimentos diplomáticos brasileiros, a diplomacia americana aperta os parafusos. Após uma década de pressões políticas e ofensivas bélicas, falta a capitulação do Irã para a pax americana vigorar do Paquistão ao Mediterrâneo.

Formalmente restam também a Síria e as facções mais fundamentalistas da Palestina e do Líbano. Mas a eventual neutralização de Teerã teria também o papel de empurrar os sírios à mesa de negociações, até por falta de alternativa militar. Enfraquecendo por tabela o Hamas e o Hezbollah.

Aliás, em nenhum outro momento os Estados Unidos tiveram sobre o movimento nacional palestino a influência que têm hoje. Falta apenas remover o vetor iraniano e controlar a variável síria. Difícil, mas em processo.

Ahmadinejad e Lula entraram, portanto, num jogo complexo. O iraniano foi inábil — ou lunático — ao ponto de colocar seu país à beira do precipício. Onde Lula enxergou uma oportunidade de entrar para estender a mão salvadora, buscando um belo troféu para a galeria.

A visita do presidente brasileiro a Teerã é nesse aspecto um gol, mas será preciso esperar o resultado final do jogo. Para ver se Lula puxa Ahmadinejad para cima, ou Ahmadinejad puxa Lula para baixo. Lula é o portador de uma má notícia para Ahmadinejad, de que talvez o tempo dele tenha se esgotado. Mas a má notícia pode não ser de todo ruim, se a alternativa for perder o pescoço.

Teimosia

Ontem passou mais um aniversário da Lei Áurea. Quase batido, como de costume. A neo-historiografia não gosta da Abolição. Também desdenha da Independência e da República. Tiradentes? Só é homenageado em Minas Gerais.

O Brasil desgosta de suas datas, da sua História. É uma pena. Virá o dia em que um governo realmente preocupado com os símbolos nacionais recolocará as coisas no devido lugar.

Enquanto não vem, continuaremos tentando resistir à sucção pelo vácuo histórico. É como se viéssemos de lugar nenhum. Aliás em nenhum outro lugar é assim. Todo país normal cultiva seus marcos, como referências do passado e signos de orientação para o futuro.

O governo Lula acelerou essa distorção, na ânsia de apresentar-se como o passo fundador da nacionalidade. É artificial, mas incomoda. Como consolo, a certeza de que a deformação do passado não tem como se eternizar.

Os fatos são teimosos.

Indigno

O governo vai dar um bônus imediato e uma pensão mensal aos campeões mundial de futebol de 1958, 1962 e 1970.
E os que não foram campeões em outras copas — e precisam —, não vão receber nada?

Ou seja, se o sujeito ganhou uma Copa pode envelhecer dignamente. Se não ganhou, que se dane.

Se o governo estivesse atrás de resolver o problema dos velhinhos, agiria com generosidade, sem mesquinhez, sem distinguir quem ganhou e quem perdeu nos mundiais.

É um detalhe a modificar quando a coisa for discutida no Congresso.

Não é porque o sujeito perdeu uma Copa que deve ser — como sugere o governo — esquecido, ignorado.

Seria indigno.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (14) no Correio Braziliense.

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8 Comentários:

Anonymous Lucas Jerzy Portela disse...

em Santo Amaro da Purificação, Recôncavo Bahiano, se comemora desde 1888 o Bembé do Mercado, dia 13 de maio. O movimento negro, colonialista e americanoide, sempre falou mal desta festa espontânea no coração da região do mundo que mais recebeu escravos negros, por mais tempo.

Quando os escravos dos latifundios canavieiros, algodoeiros e fumageiros souberam da abolição, largaram o eito e foram samba no mercado até o dia raiar sobre gritos de "Viva a futura Imperatriz Isabel, amiga dos negros!".

Um 3º Império poderia ter sido mais pacificador, e retificador social, do que 30 anos de Lula.

Ponha na sua conta, Alon, dos fatos históricos que o Ensino atual de História despreza (um ensino paulista, militarista, e PTista - eivado de anti-varguismo): o desprezo pelo 2º Império.

Como se Pedro II tivesse governado por 48 anos milagrosamente. Era um nécio. Como se não fosse heróico um menino de 15 anos de idade assumir o maior território do continente, uma ex-colonia endividade e com 5 revoltas separatistas, uma em cada região - e este menino ter colocado a casa em ordem, financeira e politicamente, em questão de década. Para 40 anos depois entregar uma nação cosmopolita e com amplo reconhecimento diplomático, capaz de produzir intelectuais (alguns deles, negros!) como Machado de Assis, Jaquim Nabuco, João da Cruz e Souza, Oswaldo Cruz, Juliano Moreira.

Para o PTucanismo Paulista, Pedro II foi um erro de 50 anos. Eu não conheço nação que erre por tanto tempo, então desconfio que erro não foi...

sexta-feira, 14 de maio de 2010 07:59:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ver Lula marcando um gol a favor da "pax americana" não deixa da ter uma graça inesperada.
Agora, se Lula realmente convencer o Irã (e o presidente deles, Aladine...qualquer coisa, ficar realmente convencido) que o melhor é ceder....bem, Lula sai por cima, e o baixinho vesgo sai por baixo.

sexta-feira, 14 de maio de 2010 10:19:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, esse assunto me interessa especialmente em função da raridade de ver neste país uma iniciativa pública ir além daquilo que constitui pura obrigação (afinal a preguiça é uma das qualidades que mais gostamos de cultivar). Num país onde poucos acreditam estar obrigados a fazer mesmo o dever de casa é surpreendente um caso como esse. Bem verdade que o trabalho voluntário de nossa diplomacia não envolve uma iniciativa muito arriscada – não, Ahmadinejad não tem como arrastar Lula para baixo, caso não haja um avanço significativo entram as sanções, em último caso os canhões, mas como Lula já disse, ele terá a gratificação de poder dizer que não foi omisso. Mais do que isso, em caso de má vontade do Irã em chegar a um acordo (do lado de cá veremos como má vontade deles, certo?) essa servirá como argumento para que as relutantes China e Russia (que possuem veto no Conselho de Segurança da ONU) venham a perfilar a favor das sanções. Veja que Lula não esqueceu Garrincha e foi combinar com os russos: o presidente Medvedev, parece que contagiado pelo otimismo do brasileiro, cedeu 30% de chances de sucesso à nossa iniciativa (que tem a participação da Turquia, ia me esquecendo nesse meu acesso de ufanismo). O embaixador americano no Brasil (creio que a personagem nesse caso é relevante) disse ao Financial Times que o Brasil desafiava a diplomacia de seu país, deixando bem claro que os americanos estão secos para deslancharem as sanções, apenas, creio que numa deferência especial – particularmente incômoda – a’O Cara... né não? Entre muitos outros recados de diversas origens que pululam na imprensa nesses últimos dias. Por fim, uma questão mais séria, não consigo ver os desdobramentos sobre a política interna do Irã, um acordo poderia fortalecer a oposição, como você diz, mas poderia também enfraquecer seus argumentos, pois entre estes estava o isolamento a que Ahmadinejad conduzia o Irã (ou fortalecê-los, caso Ahmadinejad continue recusando um acordo). O que me parece claro porém é que se não houvesse jogo diplomático – e os americanos, como xerifes do ocidente, não teriam como representar esse papel! – a oposição iraniana não teria como fugir à defesa do interesse do país como um todo.

sexta-feira, 14 de maio de 2010 12:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Levando-se em conta que o Brasil foi descoberto em 1808,até que fizemos algum progresso.Apesar, da monarquia avessa ao empreededorismo,Barão de Maúa,é testemunha viva disso.
Parece ,que finalmente, agora...vai!

sexta-feira, 14 de maio de 2010 13:34:00 BRT  
Anonymous Silvio disse...

O jogo que o Lula e a diplomacia brasileira se propôs a jogar é extremamente complexo e perigoso, mas pode dar certo no final.

De um lado os EUA babando para aplicar severas punições ao Irã (fazem o papel do lado mal), do outro lado, o rebelde que não aceita ser conduzido. No meio disso tudo, o herói nacional, Lula.

O acordo pode dar certo pois o Irã está louco pra encontrar uma saída diplomática (sanções comerciais seriam horríveis para um país muito centrado no petróleo), por outro lado, não pode parecer que o Irã capitulou e aceito as condições do "sioninsmo" internacional.

Lula é o cara certo para propor algo que leve a paz e não seja visto pelo Irã como derrota para os americanos.

De quebra, o Lula ainda vai oferecer para que o combustível nuclear utilizado pelo Irã seja enriquecido no Brasil. Seria uma bela maneira de impulsionar a industria nuclear nacional.

Lula é um cara de sorte (e muita competência). Se tudo isso der certo, ele esvazia completamente o discurso da oposição (interna) e fatura esta eleição. Tb não seria nada impossível faturar o Nobel da Paz.

Fortes emoções a vista ...

sexta-feira, 14 de maio de 2010 21:31:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

A lei Áurea tem seu registro histórico, mas é vista com a devida crítica, o que é inerente ao contexto histórico.
Da mesma forma que não tem muito cabimento glamourizar o General Figueiredo pela contribuição na redemocratização, é natural que o orgulho negro seja mais dedicado à um guerreiro rebelde como Zumbi dos Palmares, do que a uma concessão vinda de cima e sem qualquer reparação indenizatória aos libertos. Ainda mais quando o processo de abolição que levou à lei áurea foi extremamente lento e gradual, e o Brasil foi o último país das Américas a abolir, fica difícil comemorar com entusiasmo.
Tiradentes é feriado nacional, por isso acho simplismo dizer que só é homenageado em Minas Gerais.

sábado, 15 de maio de 2010 01:00:00 BRT  
Blogger Eugenio 13, OFS disse...

Paz e bem!

Escrevestes:
"[ . . . ] num desfecho que contemple o objetivo estratégico de Washington: a capitulação do Irã, com a renúncia ao projeto bélico nuclear."

Teerã já
muitas vezes
declarou
que tem objetivos pacíficos,
nãobélicos
.


Ou seja,
os EE.UU.A.
na verdade
têm outro objetivo;
quiçá similar
ao que estão fazendo no Iraque
(roubar as riquezas naturais do país).

É como a fábula do lobo e o cordeiro que foi beber água.

sábado, 15 de maio de 2010 19:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

concordo contigo quando afirma que nós não comemoramos nossas datas históricas.

Eu te pergunto? Isto não estaria relacionado com o mito de fundação da figura brasileira que une o nosso país, que tende a enxergar negativamente as datas comemorativas e o próprio modo brasileiro de ser. Sergio Buarque não seria o grande sistematizador dessa tese de que o brasileiro é emotivo, despido de racionalidade e que nossas revoluções e conquistas não passaram de um mero engôdo?!
Será que a culpa é mesmo do governo?! Não há algo anterior que dá base social para que o nosso estado-nação não se reconheça enquanto tal?
Nós não nos alimentamos da idealização do americano e da banalização do que é brasileiro? Benjamim Franklin tinha aquele "buxo" enorme. No entanto, não vemos nenhum americanos criticá-lo por ser comilão. No Brasil, Dom João VI é apontado como um mero comedor de frango assado. Dom Pedro é sempre apresentado como um tarado sexual. Só acho que essas representações atravessam a cabeça dos brasileiros, não importando se são governo ou não.
O Brasil foi o país que mais cresceu economicamente no século XX. Enquanto isso, sempre nos percebemos como preguiçosos, essencialmente corruptos e incapazes de resolvemos o nosso atraso interminável?!
Acho que culpar o governo significa, apenas, apontar o resultado final de todo um processo.
Será que a coisa não é mais embaixo?

terça-feira, 18 de maio de 2010 00:54:00 BRT  

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