quarta-feira, 19 de maio de 2010

Falta a química (19/05)

Não que as coisas entre Estados Unidos e Brasil estejam indo mal, na vida real. Elas estão normais, evoluindo até. Outro dia assinamos um acordo militar com eles, o primeiro desde os anos 1970. Mas a sintonia entre os presidente não é a mesma de antes

Já notei aqui que as relações entre Brasil e Estados Unidos pareciam mais azeitadas quando George W. Bush ocupava a Casa Branca e cultivava Luiz Inácio Lula da Silva como o particular progressista de estimação. Bush era um presidente de direita, e as circunstâncias do seu período no cargo reforçaram essa imagem.

A parceria entre os dois presidentes não trouxe maiores resultados práticos ao Brasil. Nós bem que fomos atrás. No primeiríssimo plano, as tentativas de concluir a Rodada Doha e de emplacar o etanol de cana como biocombustível no mercado americano.

Nada deu em nada. Ou deu em muito pouco. Lula gabava-se de ser atendido por Bush ao telefone quando quisesse (por exemplo, quando acordava “invocado”), mas a exuberância dessa laranja não resultou em muito suco.

Bush está aposentado no Texas e agora é Barack Obama. O primeiro negro na Casa Branca, o homem que mobilizou o segmento mais “liberal” (no jargão deles significa esquerdista) da sociedade americana, o político da ruptura antes impensável, o presidente das grandes preocupações sociais. Em teoria, na ideologia, muito mais próximo de Lula que o antecessor.

Ideologia nem sempre (quase nunca) é o principal instrumento a moldar as relações entre líderes.

Não que as coisas entre Estados Unidos e Brasil estejam indo mal, na vida real. Elas estão normais, evoluindo até. Outro dia assinamos um acordo militar, o primeiro desde os anos 1970. Se não fosse um petista na Presidência provavelmente o mundo teria caído. Como o governo é do PT, não caiu.

Mesmo no caso do Irã agora, a estratégia de Lula teoricamente converge para o interesse americano: o Brasil diz estar empenhado em impedir que os iranianos adquiram poderio atômico.

E não há elementos para afirmar com certeza que o Brasil esteja dissimulando. Existe no governo quem veja num Irã nuclear o desejado contraponto à influência americana na região, mas fica difícil enxergar o que Lula ganharia se passasse à História como um cavalo de Troia.

Trata-se então, sempre em tese, de arrufos entre próximos, quase iguais. Mas o desconforto é visível do lado de cá. Menos no Itamaraty e mais no Palácio do Planalto.

Um problema é Obama não precisar de Lula para fazer relações públicas em escala planetária. Outro problema é Obama ter pouquíssimo ou quase nada a oferecer no âmbito dos nossos desejos imediatos.

A Casa Branca tem procurado concentrar-se na aprovação de pontos críticos da agenda eleitoral democrata, como as reformas da Saúde e do sistema financeiro. Diante da obstrução republicana, é improvável que aceite dispersar forças só para cultivar as relações com o amigo meridional.

Insuficiente

O assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia, disse ontem que o Brasil prefere tratar assuntos relativos aos direitos humanos de maneira discreta, quando envolvem gestões junto a governos.

Garcia tem razão. Aqui vale mais o resultado do que o barulho. Especialmente quando o excesso de barulho pode dificultar o resultado desejado.

É complicado, porém, quando regimes ditatoriais oferecem aliviar as transgressões aos direitos humanos como moeda de troca de negociações políticas. É uma forma particularmente cruel e desprezível de obter dividendos.

O Brasil pouco ou nada pode fazer para interferir nas políticas de outras nações soberanas, inclusive quando a pauta são os direitos humanos. Pode obter concessões pontuais, e quando consegue é ótimo.

Pode também procurar exercer alguma forma — mesmo que discreta — de pressão moral. Movimentos junto à opinião pública. Lula tem cacife para isso. Deveria usá-lo.

É possível pressionar sem confrontar, advertir sem humilhar, criticar sem injuriar. É também para isso que existe a diplomacia.

Garcia tem razão se a coisa for tomada pelo ângulo puramente operacional. Já pelo ângulo simbólico, Lula está no vermelho na defesa pública dos direitos humanos em certos países amigos.

Não chega a ser original. Ele não está sozinho no comportamento. Mas vale o registro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (18) no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, as gestões da diplomacia brasileira pouco ou nada tem a ver com os interesses do estado brasileiro ou do povo. Os interesses defendidos são de um grupo que ora no poder pretende para si glórias absolutamente indevidas. Lula quer um Oscar!!

quarta-feira, 19 de maio de 2010 12:27:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Quanto à segunda parte da nota, há um erro em não considerar que a agenda humanista prioritária de Lula é o combate à fome e a miséria mundial.
Querer direcionar os esforços do presidente para direitos humanos (como se erradicar a fome a pobreza não fosse) é adotar a agenda imperialista que só defende a "liberdade" como valor universal, deixando de lado fraternidade e igualdade.
Há excesso de líderes mundiais empenhados em apregoar a liberdade, sobretudo em países que não são seus aliados, e carência de líderes mundiais para lutar de fato para erradicar a fome e a pobreza.
Lula não deve desviar o foco da luta contra a pobreza para a luta das garantias das liberdades individuais. Isso seria uma forma ingênua de se deixar pautar pelo lobby dos países ricos, que não querem enfiar a mão no bolso, nem fazer concessões a seu protecionismo, para resolver o problema da pobreza e da fome mundial.

quarta-feira, 19 de maio de 2010 13:49:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Acabaram com a festa antes da hora prevista para ela terminar.

Assim que veio a publico, o problema na Declaração foi rapiadamente localizado nas intenções não explicitadas pelos iranianos no documento.

Porém, eles próprios encarregaram-se de esclarecer as intenções não explicitadas na Declaração, com as reiteradas manifestações de que não haveria qualquer relação entre o documento que explicita as condições da troca de urânio e a continuidade do programa de enriquecimento, o qual continuaria ocorrendo do mesmo modo como ocorreu até hoje: à margem ou acima das salvaguardas previstas no TNP.

Em poucas palavras, jogaram no lixo toda a retórica pacifista e conciliatória dos atuais chefes do Itamaraty. Em minha opinião, foram as declarações dadas à imprensa pelos iranianos as parteiras da resposta imediata dos países do 5+1.

Não é factível que as declarações dadas pelos representantes do governo iraniano logo após a assinatura da Declaração tenham sido um descuido diplomático (“o programa de enriquecimento vai continuar”). Se os iranianos tivessem formado firme convicção sobre a necessidade imperiosa da abertura de negociação, não teriam feito tamanha e tão descarada provocação. Lamentável é ver o Itamaraty (a instituição do Estado) metido nesse furdunço que em nada interessa ao país.

quarta-feira, 19 de maio de 2010 19:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Você deve se lembrar dos tempos bipolares da divisão capitalismo x socialismo, quando os negociadores do lado soviético preferiam negociar com republicanos e vice-versa. Alguma identificação em seu diagnóstico das relações Lula x Bush poderiam remeter a um arquético sobre negociações em política internacional, ou poderíamos tentar racionalizar os estudos de caso?
Ismar Curi

quarta-feira, 19 de maio de 2010 23:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Duarte(quarta-feira,19 de maio de 2010 13h49min00s BRT). Interessante e esclarecedor o seu raciocínio sobre a abrangência do conceito de direitos humanos, fome e miséria, as formas defendê-los e os estadistas classificados conforme sua atuação em cada caso. Isso remete e esclarece certo posicionamento quanto à greve de fome dos dissidentes cubanos. A atitude dos dissidentes foi praticamente desaconselhada. Por motivo de não ser a melhor forma de protestar contra injustiças e atentados aos, olha ai, direitos humanos. Foram dados até conselhos para que desistissem de recusar alimentos. Com relação ao que foi dito por autoridades brasileiras sobre a greve de fome dos dissidentes, é provável que as mesmas deveram-se ao foco de combate à fome e à miséria no mundo? Ou seja, se eles parassem a greve, seriam menos pessoas a passar fome no mundo. Parece coerente, não?
Swamoro Songhay

quinta-feira, 20 de maio de 2010 13:05:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Swamoro Songhay
Ironias à parte, veja que em Cuba para se passar fome é preciso fazer greve. Ainda tem muitas nações no mundo que estão longe de poderem se dar a este luxo.
E tem muita gente no mundo fazendo esforços políticos por aqueles que não tem liberdades políticas de manifestação, de representação, de participação, mas pelo menos estão de barriga cheia; enquanto tem pouca gente no mundo fazendo esforços políticos por aqueles que ainda estão em um estágio anterior de desenvolvimento humano: ainda passam fome. Lula é um dos poucos líderes de peso realmente engajados.

quinta-feira, 20 de maio de 2010 19:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Duarte (quinta-feira, 20 de maio de 2010 19h30min00s BRT). Não acho irônico um país proporcionar o básico a seus cidadãos. Embora considere que tal aspecto não deve ser a qualquer custo.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 21 de maio de 2010 11:26:00 BRT  

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