terça-feira, 4 de maio de 2010

Escravo da ribalta (04/05)

Mais do que demonstração de força, a blitz do presidente nos últimos dias talvez seja sintoma de alguma fragilidade. Lula não quer só ganhar. Quer fazer barba, cabelo e bigode, para Dilma governar sem oposição efetiva. Terá força para tanto?

A largada desta etapa da “pré-campanha” presidencial neutralizou o ambiente de euforia no campo governista que marcou os primeiros meses do ano. A oposição mostrou duas coisas não exibidas até então: disposição para o embate e capacidade de articular um discurso. Acostumados a jogarem sozinhos ao longo de muito tempo, o presidente da República e o PT dão sinais de, como se diz no boxe, terem sentido o golpe.

Um sintoma é o pronunciamento de Luiz Inácio Lula da Silva em rede nacional de TV por motivo do Dia do Trabalho. Questões procedimentais à parte, ele provoca pelo menos uma dúvida: por que o presidente precisa adotar comportamento algo heterodoxo agora, se daqui a pouquinho ele terá o gordo tempo de televisão de Dilma Rousseff na campanha, para se fartar de mandar o eleitor votar nela?

A resposta deve ser buscada na lógica das construções políticas. O presidente entrou em campo nos últimos dias menos para impressionar o público — ainda nem aí para a eleição — e mais para causar boa impressão aos aliados. O processo eleitoral entra agora na fase decisiva da costura de alianças, e Lula quis deixar claro aos amigos em potencial que ele tem sim um discurso para, como se diz nas entranhas do governo, desconstruir a oposição.

Isso para os potencialmente amigos não cederem à tentação de virarem inimigos. Um fenômeno sempre ameaçador em exércitos que, antes de tudo, estão juntos por interesses apenas materiais.

Assim, mais do que demonstração de força, a blitz do presidente nos últimos dias talvez seja sintoma de alguma fragilidade.

Lula tem objetivos ambiciosos em 2010. Além de eleger Dilma, pretende remover o PSDB do poder em São Paulo e Minas Gerais, e também encerrar a carreira política dos que lhe fizeram oposição cerrada no Congresso Nacional, com foco no Senado. Ali, Lula projeta construir para Dilma uma maioria folgada, deixando o futuro governo petista de mãos livres para as reformas constitucionais que bem entender.

Lula não quer só ganhar. Quer fazer barba, cabelo e bigode, para Dilma governar sem oposição efetiva. Terá força para tanto?

Quais são os trunfos de Dilma e de Lula na eleição? A aliança dos maiores partidos, o maior tempo na tevê, a popularidade do presidente.

Tempo de TV é importante, mas a história das eleições brasileiras está cheia de exemplos de não ser tudo. As alianças são importantes, mas eleição presidencial embute bom grau de autonomia do eleitor na relação com os candidatos. E o apoio de Lula, qual será o peso efetivo dele na hora da decisão?

Há certezas e dúvidas sobre como o cidadão comum enxerga o presidente. Certezas? Ele o vê como alguém que faz um bom governo, de realizações reconhecidas. E valoriza sua trajetória. As dúvidas estão em outro lugar. Até que ponto Lula é um líder a quem a maioria seguirá incondicionalmente? Até que ponto o pragmatismo presidencial não acabou diluindo, no transcorrer do governo, uma certa relação afetiva que o eleitor não petista talvez mantivesse com o líder histórico do PT?

O filme sobre a vida de Lula, por exemplo, não foi um sucesso de bilheteria. Ao contrário. Uns dizem que a fita é simplesmente ruim, mas o insucesso não foi previsto quando ela estreou, ou pré-estreou. Muita gente boa que viu na época apostou na capacidade de a obra galvanizar emocionalmente o país, com óbvios efeitos no processo eleitoral. Simplesmente não aconteceu.

Num extremo, o entorno de Lula busca convencê-lo de que se transformou num guia condutor de almas, para além da simples racionalidade. No outro, a oposição gostaria de acreditar que Lula só transferirá a Dilma os votos que ela já teria por ser a candidata do PT.

A verdade está em algum lugar no meio. Onde? Ninguém, no governo ou na oposição, tem certeza.

Daí que Lula tenha precisado voltar à ribalta. De onde não consegue sair sem gerar na turma dele uma sensação chata de insegurança.

Hellmann's

Sob pressão, Mahmoud Ahmadinejad começa a viajar na maionese. Como fez ontem na ONU. Urge que a diplomacia brasileira proteja Lula da excessiva identificação com o amigo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (04) no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Blogger Ligeirinho disse...

Não vejo a oposição articulando um discurso. Chamar Serra de pós-Lula ao invés de anti-Lula e 'Estado Ótimo' no lugar de 'Estado Mínimo' não chega a configurar uma nova opção para o país.

Qto a construir maioria no senado, penso que, embora depender da oposição para aprovar reformas constitucionais seja mais seguro do ponto de vista democrático, é muito menos eficiente. Se o governo a tivesse, poderia ter implementado a reforma tributária e política? (Desse ponto de vista, me parece que o parlamentarismo é muito mais eficiente, ao implicitamente não deixar um primeiro ministro nas mãos da oposição - tendo que negociar cargos e favores).

terça-feira, 4 de maio de 2010 08:55:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Pobre Irã. Não basta nunca ter invadido um pais sequer a séculos.
Não basta ter um vizinho com arsenal nuclear, ainda tem que ficar ouvindo lição de moral do único pais que detonou uma bomba atômica sobre seres humanos.
E o comentário do líder supremos do Irã que disse para quem quisesse ouvir que arma nuclear é contra o Islâ?
Claro que ninguém comenta.

terça-feira, 4 de maio de 2010 10:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1) Quanto à diplomacia frente ao Irã, ao que parece a maionese já transbordou e grudou. 2) Quanto ao aspecto eleitoral, o único discurso desconstrutor efetivo, ao menos até agora, é o da campanha, ou pré-campanha, governista. Só que contra si mesma. Algo que pode ser considerado até estranho. Contudo, pode ser que, ingenuamente, acreditaram em suas próprias teorias. Nelas, pontificava a aposta na desistência do pré-candidato das oposições. Ao contrário, não ocorreu a desistência, como as oposições demonstraram um vigor que pode ter causado um grande desconforto na estratégia inicial governista.
Swamoro Songhay

terça-feira, 4 de maio de 2010 12:06:00 BRT  
Blogger Renato disse...

Nem vou ler o resto. "A oposição mostrou duas coisas não exibidas até então: disposição para o embate e capacidade de articular um discurso". Disposição para o debate?. Só se for nas barras dos tribunais. Porque até o presente momento o que temos vistos é uma guerra onde o que conta é desqualificar, desconstruir, enxovalhar. Vide os sites registrados em nome do PSDB. Qual disposição para o embate? O dos brucutus, como bem qualificou Brizola Neto. Porra Alon, voce as vezes tem cada uma!

terça-feira, 4 de maio de 2010 15:49:00 BRT  
Anonymous Baú disse...

...

Alon


por que é que eu gosto de te ler de baixo pra cima?

É muito melhor começar do fim...

experimente!


abraço do Baú

terça-feira, 4 de maio de 2010 17:43:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

"Qual disposição para o embate? O dos brucutus, como bem qualificou Brizola Neto."

Porra Alon, às vezes aparece cada um...

Eu vou criar um blog. Nele somente só publicarei o honesto debate. O nome do blog: Os Leprechauns.

"Lula tem objetivos ambiciosos em 2010. Além de eleger Dilma, pretende remover o PSDB do poder em São Paulo e Minas Gerais [...]. [No Senado]. Lula projeta construir para Dilma uma maioria folgada, deixando o futuro governo petista de mãos livres para as reformas constitucionais que bem entender. [...]

Terá força para tanto?"

Se Lula não teve força para fazer tudo isso em quase 8 anos e com os estratosféricos índices de popularidade, por que raios ele conseguiria fazer com Dilma o que não conseguiu fazer antes?

O mais provável é que se mantenha ou aumente no Congresso o número de parlamentares "franciscanos". Se tudo for bem, o mais provável é que tenhamos com Dilma o mesmo que já tivemos. Isso aceitando que ela dê conta de governar, do que tenho dúvida. É esperar para ver.

Alon, você acredita mesmo que Dilma tem capacidade política e executiva para assumir a presidência e governar de fato? Não ponho fé. O PT é tribal.

Assim que o morubixaba passar a borduna imperial para as mãos da sucessora, o mais provável, e parodiando a "Ruas da Cidade" do Milton Nascimento, é que Guiacurus Caetés, Goitacazes, Tupinambás, Aimorés, Guajajaras, Tamoios, Tapuias, Timbiras, Tupis entrem em guerra franca. O PT e os seus congêneres são territorialmente muito tribais.

Gostaria de saber o seu palpite para o que irá fazer Lula depois de 2010, se Dilma ganhar. Fica pelo Brasil para dar uma forcinha na política interna, ou se volta para o plano da política externa?

terça-feira, 4 de maio de 2010 18:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pensando bem que realidade diferente de 2005 do Mensalão hein! Quem apostava no sangramento frustrou-se. A única coisa que conseguiram foi aleijar o Dirceu, que provavelmente hoje estaria no lugar da Dilma. Aí, eles pensaram, acertamos pelo menos no cardeal e sua clã, agora é só a tese do sangramento dar certo e nós estaremos de volta. Para um bom observador era mais ou menos isso o que pairava dentro do mundo político, não era?
Ismar Curi

terça-feira, 4 de maio de 2010 20:01:00 BRT  

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