sexta-feira, 28 de maio de 2010

Com prazo de validade (28/05)

Toda a estratégia de construção da musculatura política de Lula está alicerçada há pelo menos três décadas na cuidadosa seleção de inimigos, reais e imaginários

O PMDB esboçou suas ideias para o programa de governo de Dilma Rousseff. É uma plataforma que poderia ser assinada pelo PSDB. Haveria certas tensões, como por exemplo no tema da autonomia do Banco Central, mas nada que inviabilizasse a convergência.

O rol de sugestões peemedebistas terá também facilidade para trafegar pelo PT que decide. Porque o partido há tempos migrou programaticamente para um centro social-democrata e também porque o PT precisa do PMDB.

Não que o PMDB vá romper a aliança por causa de diferenças doutrinárias (esta coluna é sobre política, não sobre humorismo), mas o movimento da legenda reafirma seu novo papel. Em caso de vitória de Dilma, o PMDB deve fixar-se como lastro do establishment, especialmente se o enfraquecimento do PSDB passar de um ponto razoável.

Claro que esse é o cenário ruim para o PSDB, havendo os bons e os ótimos. Mas não custa especular.

As últimas semanas marcam também uma inclinação decisiva da candidatura Dilma rumo ao centrismo. As flechas verbais de José Serra contra a excessiva autonomia defendida pelo mercado e porta-vozes para o Banco Central foram a senha para os críticos petistas e dilmistas do BC repensarem instantaneamente as restrições à política monetária e se alistarem na blindagem a Henrique Meirelles.

Eis o Eldorado da política brasileira, desde que Luiz Inácio Lula da Silva mostrou o caminho do sucesso: ênfase oral na mudança genérica e abstrata, seleção cuidadosa de inimigos a demonizar (pois afinal a boa política não se faz sem eles) e compromisso granítico com o establishment econômico-financeiro.

É mais arte que técnica, e exige imenso talento. Que Lula tem. Com a vantagem de não ser escravo das próprias palavras, quando tomadas como referência. O que é dito hoje pode ser desdito amanhã. Sob admiração geral.

Dilma conseguirá adquirir pelo menos parte desse talento ao longo da campanha eleitoral? Ela vem tentando e treinando. E conta com Lula no manche. Pois pilotar com a maestria dele não é para qualquer um.

Tome-se a questão dos “inimigos”, tocada três parágrafos acima. Por estes dias Lula diz que a insistência em sanções contra o Irã vem de países (ou pessoas) incapazes de fazer política se não definirem inimigos. “No mundo tem gente que não sabe fazer política sem um inimigo”, disse literalmente o presidente.

Toda a estratégia de construção da musculatura política de Lula está montada há pelo menos três décadas na cuidadosa seleção de inimigos, reais e imaginários. Toda a comunicação do presidente baseia-se no ataque diário (às vezes mais de uma vez por dia) a eles.

Ora é a elite, o pessoal que comandou este país durante 500 anos. Podem ser também os que não acreditavam que um torneiro mecânico pudesse governar bem o Brasil. Ou então todos os presidentes anteriores, que administraram pensando só nos ricos, e jamais nos pobres. Etc.

Quem tiver a paciência de dissecar o discurso do presidente da República encontrará um único fio condutor inalterado. A ofensiva sistemática contra os adversários, como método de coesão dos fieis.

Mas como agora o que importa a Lula é uma solução negociada no caso do Irã, demoniza-se a demonização. É uma boa tática. Mas é só tática. É perecível, e com prazo de validade bem apertado.

O que interessa

Tenho escrito aqui que o tema nuclear iraniano tem duas soluções possíveis: a capitulação de Teerã ou a guerra. Lula foi o mensageiro da primeira opção, que Mahmoud Ahmadinejad aceitou parcialmente.

Há um problema em certas análises centradas na aplicação ou não de sanções. Elas são um meio, assim como a diplomacia.

A ameaça de sanções aumenta o cacife de Lula como negociador de uma saída menos traumática. E tem mais. O único lugar do mundo em que existe alguma obsessão sobre como nosso presidente vai emergir politicamente desta bagunça é aqui mesmo.

É um tema de política interna. No resto do planeta, a atenção está voltada para saber se o Irã vai ter a bomba ou não vai.

É o que interessa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (28) no Correio Braziliense.

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11 Comentários:

Anonymous joão jose´natalin disse...

Alon voce teve ter uma adoração
fixa pelo torneiro. Estou lendo há
meses seu blog e para o lula é só
alegrias. Tudo que ele toca torna-se
ouro. Esquisito e estranho. Aonde
estará a verdade ?

sexta-feira, 28 de maio de 2010 12:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Achei a primeira parte do seu post "Com prazo de validade" de hoje, 28/05/2010, como diria você, com o prazo de validade vencido. Não é uma análise nova. E só agora reconhecer que Lula faz no discurso dele exatamente o que ele acusa aos outros de fazerem, isto é, ele demoniza a demonização fica até extemporâneo, a menos que a sua intenção era para abrir a segunda parte do seu post reconhecer previamente que o Irã é demonizado.
E quanto a segunda parte em que você inicia repetindo um argumento já diversas vezes repetido no seu blog e que eu transcrevo a seguir:
"Tenho escrito aqui que o tema nuclear iraniano tem duas soluções possíveis: a capitulação de Teerã ou a guerra",
Eu aproveito para mencionar dois aspectos que são prévios para o entendimento dessa sua fala. O Irã vem crescendo a uma taxa de 9% ao ano nessa última década. Atualmente, o PIB do Irã, pelo câmbio oficial que é o que importa, é o dobro do PIB de Minas e dois terços do PIB de São Paulo. E o PIB como bem lembra José Eli da Veiga no artigo "De onde vem a força do PIB" publicado no Valor Econômico de 02/09/2008 foi feito para medir a capacidade que tem uma nação de pagar por uma guerra. Um pouco de inteligência é suficiente para saber que é melhor para eles esperarem. A espera ser posta como capitulação não me parece muito apropriado, mas mesmo que o seja, seria uma capitulação como Mahmoud Ahmadinejad e a tropa dele fizeram em 1981 no final do governo de Jimmy Carter e antes do início do governo de Ronald Reagan ao desocupar a embaixada americana em Teerã e para, quase um quarto de século depois, voltarem como Presidente do Irã.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 28/05/2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010 13:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Digitei errado a taxa de crescimento do PIB do Irã. É 6% ao ano. Digitei errado e não corrigi antes de enviar o meu comentário de 28/05/2010 às 13h43min00s BRT.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 28/05/2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010 18:26:00 BRT  
Anonymous F.Arranhaponte disse...

O Irã cresceu em média 5,1% nos últimos 10 anos até 2009.

Desacelerando recentemente - média de 2% em 2008 e 2009.

Desde 2000, em nenhum ano o Irã cresceu 9%. O máximo foi 7,8% em 2007.

sexta-feira, 28 de maio de 2010 20:03:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Acho que tem ingredientes novos faltando em sua análise.

Acaba de ser assinado por todos 189 países signatários do TNP, a declaração final do Tratado de Não-proliferação.
O documento final de 28 páginas foi aprovado nesta quinta por todos os países signatários do TNP e estipula a convocação de uma conferência em 2012 que visa "o estabelecimento de um Oriente Médio livre de armas nucleares e outros dispositivos de destruição em massa". Este ponto foi elaborado pelos países da Liga Árabe para que Israel seja pressionado a assinar o TNP (Segundo o Estadão).

Os EUA e demais membros do CS assinaram. Se for o que entendi, o Irã também. Logo isso abre caminho para outra saída honrosa aos persas e árabes: capitulação, desde que o foco de pressões, como sanções e não proliferação nuclear desvie-se do Irã para Israel.

sábado, 29 de maio de 2010 03:39:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Parece que análise política é igual a teoria da relatividade. Depende do ponto de referência do observador.

Vejo o caminho do sucesso de Lula bem diferente do que você descreveu. A "ênfase oral na mudança" não tem nada de genérico nem abstrato quando vista pela população de baixa renda. Quem comia uma refeição por dia e passou a comer 3 entende o que é o Fome Zero. Uma família de baixa renda que teve primeiro membro alcançando o curso superior, entende o Prouni e o Reuni. Quem conseguiu a casa própria entende a volta dos programas habitacionais. Um trabalhador rural que passou a trabalhar com carteira assinada, ganhando pelo menos o salário mínimo, entende o combate ao trabalho precário e informalidade. Quem alcançou o primeiro emprego na cadeia produtiva do Petroleo ou na construção civil (o mercado está aquecido tanto para engenheiros e técnicos como para operários) entende a importância de uma política industrial.

Também não vejo nenhuma "seleção cuidadosa de inimigos a demonizar na trajetória de Lula". Quando sindicalista enfrentou quem estava do outro lado da mesa: seus patrões e a opressão da ditadura aos direitos trabalhistas. Quando político enfrentou os oponentes: os conservadores e reacionários. O enfrentamento poucas vezes foi ele quem deu o tom. Quem deu o tom da radicalização foram os oponentes. Ou seja, Lula sempre fez seu papel natural. Foi um político que soube agir certo na hora certa, na maioria das vezes.

Não vejo compromisso com o establishment econômico-financeiro. Vejo amadurecimento para saber medir forças e conjunturas e não entrar de forma quixotesca em batalhas perdidas por inexistência de condições políticas e sociais para ter apoio.

sábado, 29 de maio de 2010 04:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Sobre o TNP: a) Brasil e Argentina, ao que parece, não assinaram o Protocolo Adicional do TNP; b) ambos têm acordo de inspeção mútua e pretendem que isso já seja reforço de salvaguardas da AIEA; c) o posicionamento não recebe apoio unânime e recebe críticas, contrastando com os anúncios de vitória.
No caso da evolução social do Brasil, o referencial é que a cada dia fica mais claro o reconhecimento de que houve uma evolução da economia e do progresso social nos últimos 20 anos. Portanto, há vários governos e fases anteriores. Tal reconhecimento foi feito até mesmo pela pré-candidata governista, falando a investidores em Nova York. Há pouco tempo, também o Ministro da Fazenda fez o semelhante reconhecimento e referenciação. Isso é importante, pois mostra que a história não pode ser reescrita.
Swamoro Songhay

sábado, 29 de maio de 2010 12:27:00 BRT  
Blogger chico disse...

Faço das palavras de Duarte as minhas.

E acrescento: nao podemos esquecer que em muitos aspectos o governo dos EUA é teatral e preso a interesses corporativos, e que os EUA, esses sim, precisam sempre de inimigos construidos teatral e artificialemnte. Ainda que atualmente o poder esteja em mãos mais moderadas, isso não significa que eles não podem planejar um repeteco do Iraque...

sábado, 29 de maio de 2010 12:42:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Na nota "Os propósitos e os holofotes (20/05)", Alon escreveu:

"Um exemplo: os americanos toparam ceder aos russos no escudo antimísseis do leste da Europa. Os russos não podem agora simplesmente desconhecer as preocupações dos Estados Unidos com o Irã."

Porém a realidade parece ter mudado. Essa lua de mel quanto ao escudo anti-mísseis acabou:

Para Moscou a chegada à Polônia da primeira bateria de Patriots (a 60Km da fronteira Russa, disfarçada de treinamento), no domingo, põe em risco a estabilidade na região. “Estas acções não conduzem ao reforço da estabilidade; pelo contrário, só reduzem o nível de confiança”, sustentou porta-voz do Ministério russo dos Negócios Estrangeiros, citado pela agência noticiosa estatal Interfax.

Parece que o Irã tem sido usado por todo mundo, como "bode russo". Enquanto o assunto fica na pauta, cada potência, e cada emergente que não seja acomodado segue seus próprios planos expansionistas. Os dos EUA são bélicos (entendendo-se que o domínio bélico traz junto o domínio econômico). Os do Brasil (e Turquia) são de geopolítica econômica (daí eu não conseguir entender as críticas do Alon às posições do Brasil, pois o Itamaraty está apenas preenchendo os espaços e montando no cavalo encilhado que passa à sua frente). Cada país está o fazendo seu jogo da forma que consideram bom para si (o que nem sempre é bom para o outro).

Os planos da Russia ainda não estão bem claros. O Irã é um bom mercado para eles, é também um problema devido a conexão com grupos extremistas rebeldes islâmicos como chechenos; por outro lado é um muro de contenção aos EUA, e ao mesmo tempo, crises dos EUA com países árabes e os persas favorece a economia russa, fazendo subir o preço do Petróleo, onde Rússia, Irã e Árabes são produtores concorrentes.

Árabes e próprio Irã parecem querer fazer do limão, limonada, querendo transferir as pressões por desarmamento no Oriente Médio em direção a Israel. E Israel faz seu jogo para manter uma supremacia bélica, e impedir que desafetos se armem nuclearmente, para garantia da sobrevivência de seu estado.

A Coréia do Norte parece aproveitar o momento para gerar nova crise, que lhes traga dividendos.

Cada um faz seu jogo. O que está se vendo, é que, no campo diplomático, os EUA, que estiveram mal acostumados a dar as cartas sozinhos no pós-muro-de-berlim, estão encontrando jogadores mais profissionais e mais fortalecidos pela frente.

sábado, 29 de maio de 2010 13:03:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Muito bom comentário, Duarte. Parabéns.

sábado, 29 de maio de 2010 13:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Por lances descritos, está-se chegando a uma versão da Guerra Fria (de meados dos 40s até fins dos 89s, com a queda do Muro de Berlim). Só que numa versão piorada. Se era possível piorar, em muito, algo daquela fase sinistra da história, todos que almejam estão sendo muito bem sucedidos. O fundo do poço está bem próximo. E com platéia a aplaudir. Um a um zumbis políticos emergem de suas catacumbas. Com suas novas roupagens, mas com as pioradas estapafúrdias teses. Uma pena. Haja guiné, arruda, bala de prata, água benta e outros esconjuros, mas todos serão forçados a retornar às catacumbas logo logo.
Swamoro Songhay

domingo, 30 de maio de 2010 12:58:00 BRT  

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