quinta-feira, 13 de maio de 2010

Caçada infinita (13/05)

Ninguém é mais escravo dos inimigos que o sujeito cuja autoestima se alimenta da aprovação e da admiração deles — ou do temor que neles possa instilar

Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Brasil, apoia Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga, técnico da Seleção brasileira de futebol. É um “hedge”. O presidente está agora confortavelmente protegido do risco.

Se o time for bem na África, Lula poderá dizer que ofereceu o ombro amigo ao treinador quando todos criticavam. Se a Seleção for mal, Lula não poderá ser acusado de negar apoio na hora difícil.

Mas há elos mais íntimos entre os perfis dos personagens. Ambos adotam decisões sem dar a mínima para o entorno, atendendo unicamente ao próprio interesse, e em seguida apresentam o prato feito como de consumo obrigatório pela nacionalidade.

Uma vez tomada a decisão, resta ao brasileiro comum torcer a favor. Entrar na corrente. Sob pena de receber na cara a acusação de antipatriotismo. Discordou da convocação? Você deve ser um lobista marqueteiro descompromissado com a amarelinha. Discordou da política para Honduras, para a Bolívia ou para o Irã? Você é obviamente um serviçal dos ianques.

Um método, que pouco a pouco vai desenhando os contornos não apenas da política, mas toma traços de cultura abrangente. Ou talvez eu esteja errado. Talvez o Brasil tenha sido sempre assim na essência, desde a colonização. E por causa dela.

Em vez de uma sociedade de homens livres, a formação paraestatal sustentada na escravidão. Sempre atrás de uma “autoridade” que dê o soco na mesa e nos indique, com a desejada violência, o caminho da virtude. Para depois apresentar o eventual sucesso como prova definitiva do caráter virtuoso do caminho.

Despreze-se e reprima-se sistematicamente a diferença, a divergência, o contraponto. Eis a lei. Na boa, quando possível, ou nem tanto, se necessário.

Dunga tem toda condição de alcançar o sexto título mundial para o país. Tem time para isso, e uma trajetória de sucesso desde que assumiu o cargo. Assim como Lula deve chegar ao fim do governo com a popularidade lá em cima.

São ambos líderes competentes no cultivo da própria liderança — e concentrados nos objetivos.

Há diferenças? Dunga é direto. Lula é sedutor, envolvente. Diferenças cosméticas.

Dunga não precisa só que a Seleção brasileira vença a Copa. Dá a impressão de querer ganhá-la sozinho, com seu exército de incondicionais, sem ninguém para fazer sombra. Será “a vitória do Dunga”, e só dele. Para — quem sabe? — poder esfregar a conquista na cara dos inventores do “Era Dunga”. E de outras gracinhas mais perpetradas contra o vitorioso atleta.

Carlos Alberto Parreira foi o mais massacrado técnico de Seleção brasileira de futebol em todos os tempos. As eliminatórias para 1994 foram um circo de horrores. Daí ganhou a Copa dos Estados Unidos. Está até hoje curtindo a vitória.

Leva jeito de quem vai curti-la por toda a vida. Nem por um segundo desperdiçou tempo, ou energia, na caça aos antigos algozes. Decidiu saborear o sucesso com um sorriso nos lábios. Pare ele parece suficiente.

Já Mario Jorge Lobo Zagallo encasquetou um dia que todos teríamos de engoli-lo. Nunca se conformou com a afirmação — injusta — de que o time de 1970 foi obra de João Saldanha. Nunca conviveu bem com a crítica, com a pressão dos críticos e dos invejosos.

Zagallo é o maior colecionador de títulos mundiais da história do futebol brasileiro, mas parece acorrentado aos tormentos do “complexo de coadjuvante”.

Ao contrário de Parreira, Zagallo continua na eterna perseguição aos que nunca lhe deram “o devido valor”. Uma caçada infinita, pois ninguém é mais escravo dos inimigos do que alguém cuja autoestima se alimenta da aprovação e da admiração deles — ou do temor que neles possa instilar.

Lula vai ser um Parreira ou um Zagallo da política? Isso supondo que ele aceite a idéia de deixar de ser o nosso técnico um dia.

Você tem um palpite?

Enésimo

Já ferido pela trajetória recente, o Senado Federal talvez devesse evitar a tentação de colocar um freio no “Ficha Limpa”, projeto aprovado na Câmara dos Deputados para negar legenda a candidatos com problemas judiciais graves.

Seria um novo erro. O enésimo. E grave.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (13) no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Anonymous Antonio Santos disse...

Vai ser um mix dos dois
Do Parreira o sorriso de felicidade.
Do Zagallo um pouco da "perseguição" aos inimigos mas com uma diferença. Não quer a aprovação deles, só tirar um sarro da cara dos adversários.
Tipo mostrar o gráfico dos juros. Ou o crescimento da economia. Ou a diminuição da dívida. E dar risada, se divertindo com as explicações e a saia justa em que meteu os caras.
Acho que vai ser mais divertido e não amargo como o Zagallo.

quinta-feira, 13 de maio de 2010 13:24:00 BRT  
Blogger Guilherme Scalzilli disse...

A ficha é suja

Resisto a apoiar a tal Ficha Limpa e discretamente comemoro sua formatação definitiva, que a encaminha para o limbo jurídico. Ela proporcionaria um recrudescimento da já alarmante putrefação institucional do Judiciário.
Qualquer juiz obscuro, das menores e mais remotas comarcas, poderia destruir projetos políticos legítimos. Lideranças regionais seriam perseguidas e arruinadas. Basta contrariar os interesses do empresariado, da mídia, das boas famílias ou, afinal, dos próprios “doutores” togados, e sua vida virará um inferno.
Dêem-me cinqüenta mangos e lhes devolvo uma boa condenação por corrupção de menor, assédio moral, irregularidades trabalhistas diversas, etc. A exigência do colegiado apenas encarece o esquema; e, pior, o generaliza.
Uma reforma política de verdade suplantaria todos esses arremedos moralistas. Mas, sendo impossível aprová-la sem uma Assembléia exclusiva, os benfeitores do Congresso agradam o distinto eleitor com paliativos e indignações entorpecentes.

quinta-feira, 13 de maio de 2010 17:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Feola. Lula o será :gordo já começa a estar,talvez cochile e com a"sorte"que lhe consagram,os opositores, sua seleção deve arrematar o " Tri".Treino ,somente trivial. Na verdade , um aquecimento. Os "adversários', estão mais para "sparrings". Ambos,como "sarampo e catapora", assustam apenas crianças.Talvez,nem isso, nesses tempos de vacina.
Portanto, que durma plácidamente.E,
desperte coberto por justas e merecidas glórias.

quinta-feira, 13 de maio de 2010 17:12:00 BRT  
Blogger chico disse...

Alon, eu assisto religiosamente as entrevistas q vc faz, suas colunas do blog sao mtu melhores q as dos aclamados colunistas da folha e considero vc um jornalista q de fato preza a ideia de imparcialidade e que possui uma posição que pende para esquerda. Entretando, devo salientar que esse seu post me lembrou bastante uma coluna de FHC onde ele acusava Lula de um tal de "autoritarismo popular"...

ps: comparar a figura de Lula a figura de Dunga nao tem mtu cabimento. Eles sao opostos na grande maioria dos aspectos...

quinta-feira, 13 de maio de 2010 17:38:00 BRT  
Blogger Richard disse...

O chato é que, me parece, este tipo de comportamento descrito está se tornando usual. Seja Lula, Dunga, Tuma Jr., Severino Cavalcante, aquela infeliz da Procuradora... enfim, TODOS começam a agir sem dar a mínima pra opinião alheia, a imprensa, as críticas e até mesmo a razão.

Nem um desastre iminente (ou possibilidade de um) parece abalar as "certezas"... talvez por isto, Dunga tenha escalado um time de "postes": se algo der errado, foi culpa deles!!!!

quinta-feira, 13 de maio de 2010 20:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bela análise psicológica.

sexta-feira, 14 de maio de 2010 10:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Guilherme Scalzilli (12/05/2010 às 17h06min00s BRT),
Eu preferiria que não houvesse esse projeto, mas não imagino que ele tenha um efeito danoso tão profundo como o que você avaliou no seu comentário.
De toda forma a sua crítica me é reconfortante, por saberque não estou sozinho.
Lembro que uma forma que eu propus (Há comentários meus no blog do Alon Feuerwerker sobre esse assunto) foi, uma vez que os jornalistas eram um dos grandes defensores do projeto, que o projeto fosse estendido também aos jornalistas. Parece que um deputado também falou nisso, mas a patota da CBN ficou ridicularizando-o.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 15/05/2010

sábado, 15 de maio de 2010 19:13:00 BRT  

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