segunda-feira, 31 de maio de 2010

Apontar para quem? (31/05)

Na América do Sul temos a vantagem de não haver até o momento situações como a do Irã ou a da Coreia. Se alguma nação daqui evoluísse para o produção da bomba, atrairia imediatamente os Estados Unidos de maneira ainda mais decisiva do que hoje

A presença brasileira no imbróglio alavancou o noticiário aqui sobre a crise em torno do projeto nuclear iraniano. Menos badalada, outra confusão forma-se no Extremo Oriente, entre as duas Coreias. A do Sul acusa a do Norte de ter afundado um navio militar.

As Coreias estão tecnicamente em estado de beligerância desde o conflito dos anos 1950. Ele acabou num armistício, mas nunca chegou a haver acordo de paz.

Por que há duas Coreias? O arranjo vem do fim da Segunda Guerra Mundial. Entre os entendimentos das grandes potências, um previa que derrotada a Alemanha Nazista a União Soviética entraria efetivamente em guerra contra o Japão. E a península coreana seria compartilhada por americanos e soviéticos.

A cristalização da Guerra Fria transformou a península em zona de grande tensão e criou uma divisão nacional que o Norte, governado pelo Partido Comunista, jamais aceitou. E o Norte tentou resolver o assunto à força, invadindo o Sul. Quase conseguiu. Ocupou praticamente todo o vizinho.

No pedaço de chão que sobrou, tropas americanas e outras, sob a bandeira da ONU, desembarcaram e empurraram os norte-coreanos para bem além da separação original. Os militares dos Estados Unidos chegaram à fronteira com a China, ameaçando unificar a península sob a batuta do Sul.

Mas aí os chineses, já governados por Mao Tsé-Tung, não acharam graça e entraram na guerra, empurrando os americanos para os limites de 1950. Aí o conflito parou. Morreram uns 800 mil do lado aliado e 1,5 milhão do lado sino-norte-coreano. Para que tudo ficasse como estava antes de a bagunça estourar.

A divisão das Coreias sobreviveu ao fim da Guerra Fria, também porque a existência do Norte é um vetor de equilíbrio regional entre chineses e americanos. E porque o Norte investe maciçamente em força militar como elemento estabilizador do status quo. E do poder dominante ali.

Paradoxal é que a militarização do Norte e a ameaça permanente de conflito acabam consolidando a presença americana. É mais ou menos o que acontece no Oriente Médio, onde a potencial nuclearização do Irã abre caminho para reforçar estrategicamente o papel da Casa Branca.

Já escrevi que nunca antes o movimento nacional palestino esteve tão limitado às opções políticas de Washington. E a escalada da presença americana no Levante será a resposta “natural” à persistência de um Irã ameaçador para os aliados dos Estados Unidos. Fala-se de Israel, mas este tem mais meios do que os vizinhos árabes para defender-se dos iranianos.

Um cenário de paz duradoura no Extremo Oriente e no Oriente Médio levaria à integração econômica de cada região e à redução da necessidade de alinhamentos — ou de intervenção externa. Mas não é o que se delineia.

Na Coreia do Norte e no Irã, a militarização e o fechamento político parecem ser a resposta de grupos voltados unicamente a manter-se no poder, incapazes de proporcionar bem-estar a seus povos ou de sobreviver num ambiente de democracia. E toda ação traz junto reação.

Na América do Sul temos a vantagem de não haver até o momento situações como a do Irã ou a da Coreia, do contrário haveria obstáculos intransponíveis à integração regional.

Eis uma variável que os apologistas da bomba brasileira deveriam levar em consideração: como nas duas regiões citadas, se alguma nação daqui evoluísse para o produção da bomba atrairia imediatamente para cá os Estados Unidos de maneira decisiva. Ainda mais decisiva do que hoje.

Numa América do Sul democrática, pluralista e completamente livre das armas de destruição em massa a liderança brasileira é natural, pelo peso específico em território, população e economia. Numa outra situação, não seria.

Ficaríamos os sulamericanos mais parecidos com as áreas atuais de conflito. Aliás, ainda sobre este assunto, todo mundo que busca armas nucleares é para apontá-las em direção a alguém. Com objetivos expansionistas ou dissuasórios.

E nós, apontaríamos nossos mísseis nucleares para quem?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (31) no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Olhe bem o que você disse:
"a potencial nuclearização do Irã abre caminho para reforçar estrategicamente o papel da Casa Branca"
Quer dizer, os Estados Unidos estão se matando no Afeganistão para ter uma base lá e se matando no Iraque para ter uma base lá e a possível nuclearização do Irã é que reforça o papel da Casa Branca? Não seria o contrário? Os Estados Unidos se matando a oeste e a leste das fronteiras do Irã, isto é, o papel reforçado dos Estados Unidos é que está abrindo caminho para uma possível nuclearização do Irã?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/05/2010

domingo, 30 de maio de 2010 23:21:00 BRT  
Anonymous J. Ferrarius disse...

Não entendi, afinal os EUA estão no Oriente Médio desde o fim da Segunda Guerra, desestabilizando todos os países por causa do petróleo (lembre o golpe no Irã contra Mossadegh e o apoio a Sadam para iniciar a guerra do Iraque contra o Irã), mais o apoio a Israel, muito antes de qualquer país muçulmano pensar em fazer qualquer bomba, e o Irã, agora, é que causa o assédio americano na área??? Acho que não.
Por outro lado, é óbvio que se qualquer país sul-americano fizer a bomba, atrairá mais a atenção americana. Mas o fato de inexistir qualquer pretensão nesse sentido não impediu os EUA de instalarem 7 bases na Colômbia, de reativarem a Quarta Frota e de tentarem dividir a Bolívia e derrubar os governos Evo e Chaves. E tudo isso para desestabilizar a região, em função dos seus interesses imperiais. Ou seja, a inexistência da bomba não impediu os norte-americanos de fazerem o que sempre fizeram, a sua política imperial.

segunda-feira, 31 de maio de 2010 11:41:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

São justamente aguardadas pela diplomacia mundial iniciativas do governo brasileiro, no sentido de promover um acordo de paz entre as duas Coréias.
Trumbicamos em Honduras, nos estatelamos no Irã, resta uma esperança para Lula, o Salvador da Humanidade, o genio do Diálogo Olho-no-Olho. Ainda que sejam puxados os olhos orientais, Lula é nossa esperança na paz.
Lula de ir e não esquecer de carregar junto nosso minúsculo chanceler.

segunda-feira, 31 de maio de 2010 12:28:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Quem acompanha a cobertura do que vem sendo escrito e falado por aqui a respeito da Declaração de Teerã percebe que o foco jornalístico praticamente se restringe ao protagonismo da diplomacia brasileira no episódio e se isso trabalha contra ou a favor do ingresso do Brasil como membro permanente do CS. No entanto, essa questão é secundária, sendo a principal, a que de fato interessa, o entendimento sobre se o Irã vai ou não submeter o seu programa nuclear às inspeções da AIEA, conforme o previsto no TNP. O antiamericanismo travestido de patriotismo e a pretensão brasileira de ocupar uma vaga permanente no CS não são um consenso nem aqui no país.

O que salta à vista do olhar estrangeiro é cada vez mais o alinhamento do governo brasileiro ao iraniano. Não vejo no que esse alinhamento possa trazer benefícios ao país. Está se repetindo nesse plano o que vimos acontecer recentemente em relação a Cuba e Honduras.

Eu acho que os EUA e os demais países membros do CS da ONU estão muito pouco incomodados com as pretensões da diplomacia brasileira e muito mais preocupados em frear a proliferação nuclear em países não confiáveis, como é o caso do Irã.

O site do Presidente Ahmadinejad noticiou que domingo Lula ligou para o homólogo iraniano e disse que “está determinado a prosseguir nos esforços para obter o apoio dos líderes mundiais [isto é, Sarkozy, Medvedev e Hu Jintao] para a Declaração de Teerã”.

Se entendi direito o que li, na conversa Lula teria dito que a Declaração “coloca os países membros permanentes do Conselho de Segurança em uma situação crítica”. No meu entendimento, Lula teria anunciado que vai continuar trabalhando para rachar do CS e, desse modo, atender aos objetivos principais dos aiatolás de ganhar tempo e de continuar a enrolar a AIEA. Lula cumprimentou o colega, dizendo que a conferência de revisão do TNP “resultou em um grande sucesso para o Irã” (“Iran, Brazil called Tehran Declaration important”).

http://www.president.ir/en/?ArtID=22202

Eu fiquei me perguntando sobre qual seria o significado, no entendimento de ambos, de “uma situação crítica” para os países membros permanentes do CS e no que exatamente consistiu para Lula “um grande sucesso para o Irã” na conferência de revisão do TNP em NY.

Neste fim de semana foi a vez do Le Monde indagar sobre os reais objetivos do programa nuclear brasileiro (Le programme nucléaire du Brésil suscite des doutes, 30 mai 2010).

segunda-feira, 31 de maio de 2010 12:29:00 BRT  
Blogger nina disse...

Excelentes o artigo e o comentário do paulo araujo.
Para completar o quadro, só o jogo da seleção na terra de Mugab, notório assassino, como Ahmadinejad, e também mui amigo de nosso aspirante a dono de bomba nuclear.
obrigada aos dois!

terça-feira, 1 de junho de 2010 12:10:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

A política para a bomba atômica no Brasil é a mesma da Alemanha e Japão. Querem saber fazer, mas não querem fazer contrariando tratados.
No América do Sul, a nuclearização só será viável, caso haja integração militar, senão é burrice. Produziria apenas uma corrida armamentista com os vizinhos, fazendo todos gastarem muito dinheiro fora da agenda de combater a pobreza e desenvolver economicamente a região.
Se houvesse integração militar, formando bloco nos moldes da OTAN, mas apenas com países da região, faz sentido o consórcio pensar na nuclearização do arsenal. Mas isso ainda é assunto para um futuro ainda distante. E até lá armas nucleares, como as de hoje, podem estar até um pouco obsoletas para serem interessantes.

quarta-feira, 2 de junho de 2010 14:59:00 BRT  

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