domingo, 30 de maio de 2010

Afeganistão, Bolívia, México (30/05)

Oferta quando há demanda é vetor dificílimo de controlar. O Brasil precisa de uma política eficaz para diminuir radicalmente o consumo de cocaína, entre outras drogas

Dias atrás Luiz Inácio Lula da Silva sugeriu que a Embrapa pode ajudar o Afeganistão a substituir a papoula por outras culturas. Seria teoricamente uma bela contribuição pátria para desatar o nó estratégico das relações entre a política e o crime no país asiático: a estreita ligação do establishment com a produção e o tráfico de drogas.

Depois de por fim à presença soviética, o islamismo radical afegão cuidou de combater os senhores da papoula, e o governo do Talibã conseguiu resultados expressivos. Mas aí os talibãs tiveram a péssima ideia de dar salvo conduto à Al Qaeda, e de suportá-la no ataque aos Estados Unidos em 2001. Era uma retribuição pelo apoio recebido na guerra contra a URSS. Acabou mal, como se sabe.

Americanos de um lado, talibãs do outro, quem voltou a mandar no Afeganistão foi a turma da papoula. Cada lado cultiva — sem trocadilho — boas relações com esse revigorado motor da economia.

É um emblema da realpolitik de Washington: enquanto apertam a tenaz sobre o mercado da coca no noroeste da América do Sul, os Estados Unidos fecham taticamente um olho ao negócio da papoula na Ásia Central. Porque as Farc são adversárias, mas se você definir o combate à droga como pré-requisito para alianças políticas no Afeganistão você não achará aliado ali hoje em dia.

A realpolitik não é monopólio dos americanos, e até escrevi que no quesito ninguém chega aos pés de Lula. Se a Embrapa pode ajudar a diminuir a presença da papoula na economia afegã, por que sua excelência não impõe uma dinâmica semelhante nas relações com a Bolívia, quando o tema é a coca?

Talvez porque desfilar teorias sobre um pequeno país nos confins do mundo é uma coisa, outra coisa é tratar, em termos práticos, um problemaço bem aqui ao lado.

Evo Morales ascendeu em La Paz combatendo a pressão americana para o país diminuir a área plantada de coca. Esse é o nó político. Quem combatia ali a coca era (e é) tratado como serviçal americano. A retórica soa-lhe familiar?

E há o nó econômico. A Embrapa tem expertise para oferecer soluções técnicas, mas a matriz da confusão não está na inexistência de culturas alternativas à papoula e à coca no Afeganistão e na Bolívia, respectivamente. O impasse não é científico. A variável-chave é o dinheiro, o valor do mercado, do negócio. O xis da equação é a demanda pela droga e a rentabilidade da coisa.

Recentemente o governo americano admitiu o triste papel de seu país na tragédia em que o México mergulhou por causa do tráfico. Hillary Clinton foi lá e fez o mea culpa. O mercado americano é suficientemente valioso para justificar a atividade de alto risco ao sul do Rio Grande.

O México não estaria às voltas com a violência trazida pelos barões da droga se os americanos não estivessem dispostos a consumir a mercadoria que chega do vizinho.

É uma conta simples e universal. Considerada a demanda, qual o preço que compensa o investimento e garante o lucro máximo, tomados o risco de investir e a presença dos concorrentes?

No ótimo filme de Ridley Scott American Gangster, Frank Lucas (Denzel Washington) monta um esquema tão macabro quanto genial durante a Guerra do Vietnã: trazer dentro dos caixões dos militares mortos heroína do Sudeste Asiático para vender em Nova York.

Oferta quando há demanda é vetor dificílimo de controlar.

O PSDB introduziu na campanha o tema da cocaína vinda da Bolívia. Rapidamente o assunto caiu na gaveta da retórica. Discute-se a forma, se é a mais adequada para tratar um ponto delicado na relação com o país vizinho. O governo reagiu como se o assunto estivesse restrito aos limites da diplomacia.

Ora, não estamos tratando de gás natural, agenda que aliás Lula conduziu muito bem, preservando ao mesmo tempo o abastecimento e as relações com os bolivianos. Está em jogo a saúde dos nossos filhos e netos, o futuro dos nossos jovens, especialmente os mais pobres — as grandes vítimas do crack.

A poucos meses da eleição, o governo percebeu que precisamos lutar contra o crack. Por isso é que é bom ter eleição quase toda hora. Perto dela os governantes lembram rapidinho do que antes cuidaram de esquecer.

O Brasil precisa de uma política eficaz para diminuir radicalmente o consumo de cocaína, entre outras drogas. É urgente aumentar a pressão sobre o país de Evo Morales, mas não basta. Apertar o mercado consumidor é essencial para maximizar a eficácia da repressão ao narcotráfico.

Reduzir a demanda e aumentar (muito) o risco do negócio são as duas pernas do bom combate ao mal.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada este domingo (30) no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

11 Comentários:

Anonymous Victor Rodrigues disse...

Matéria muito pertinente, Alon.

Realmente, muita gente se ateve a observar o personagem Serra, e a questão em si ficou relegada a segundo plano. O Brasil precisa de uma abordagem direta à população pra tratar esse assunto com muita seriedade, concordo contigo.

Mas focar a Bolívia me parece equivocado. Mais uma vez aparentemente entrando na peleja Serra/Dilma, mas é apenas para fazer justiça ao nosso vizinho. Ela responde por 13.37% da produção na América Latina, segundo dados de um relatório de 2009 da UNODC - United Nations Office on Drugs and Crime. A Colômbia, que certamente não seria cúmplice do tráfico na geopolítica tucana, detém 50.88% da produção.

sábado, 29 de maio de 2010 18:41:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Em 2006 (logo no início do primeiro governo de Evo) o presidente Lula fez essa mesma oferta que você sugere: a Embrapa ajudar a desenvolver arranjos produtivos alternativos a coca.
Na página da Embrapa mostra convênios com o Ciat-Bolívia (Centro de Investigación Agrícola Tropical) com cooperação em diversas áreas desde agricultura familiar orgânica até manejo florestal, passando pelo biodiesel.

Talvez se os países ricos também fizessem a sua parte e dessem aos países pobres alguma isonomia no tratamento que dão aos subsídios agrícolas internos, haveria vantagem econômica para camponeses pobres ficarem longe da encrenca de cultivar plantas que são matéria prima para o mercado de drogas.

sábado, 29 de maio de 2010 18:57:00 BRT  
Blogger chico disse...

Concordo com todos os pontos, e duvido q vá encontrar-se alguém que discorde disso.

A unica coisa q todo mundo se pergunta é se fazer declarações avulsa ofendendo e acusando o governo de um país vizinho seja o melhor caminho para se chegar a um bom resultado nesse assunto...

sábado, 29 de maio de 2010 20:49:00 BRT  
Blogger Blogdomaidana disse...

Fico impresionado com pessoas que defende um governo frouxo com os traficantes só para apoiar uma candidata de seu partido. absurdo.

sábado, 29 de maio de 2010 21:36:00 BRT  
Blogger chico disse...

ps: Alon, me pergunto porque diabos o Jogo do Poder ultimamente só entrevista políticos do DEM. Isso é ruim não somente por causa do monocromatismo, mas principalmente porque (e isso nao tem haver com o meu posicionamento político-ideológico) o pessoal do DEM costuma render umas entrevistas bastante michurucas...

sábado, 29 de maio de 2010 21:43:00 BRT  
Blogger pait disse...

A maior parte da droga vem para o Brasil da Colômbia, não da Bolívia, certo? Sob os auspícios das Farc, a quem o governo brasileiro faz vista grossa, dizem. Sim ou não? De fato é complicado........

sábado, 29 de maio de 2010 23:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Houve outros pontos em que eu fiquei em total discordância e, portanto, não vi fundamento na alegação oposta ao que eu penso. Se tivesse visto mudaria de opinião. Serve de exemplo esta parte do seu post transcrita a seguir:
"Ora, não estamos tratando de gás natural, . . . . . Está em jogo a saúde dos nossos filhos e netos, o futuro dos nossos jovens, especialmente os mais pobres — as grandes vítimas do crack".
Por que não devemos ver as duas questões de forma semelhante? O gás natural aumenta a produtividade brasileira e permite que aqui no Brasil possam-se gerar mais empregos que vão possibilitar que mais brasileiros cresçam saudáveis e fortes, ou seja, o gás natural tem relação com a saúde dos filhos e netos de brasileiros e torço que também tenha relação (favorável, é claro) com a saúde de filhos e netos dos bolivianos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 29/05/2010

domingo, 30 de maio de 2010 00:02:00 BRT  
Anonymous Cristiano Medri disse...

Faz 40 anos que os EUA declararam guerra total às drogas e o consumo só aumentou. Esta tua opinião está atrasada, portanto, 40 anos. Esta abordagem já falhou. Sempre haverá mercado consumidor e, portanto, sempre haverá quem produza e venda. É como querer enxugar gelo, lutar contra esta lógica.
Assim, penso que deveria haver uma guinada total na questão das drogas, liberar tudo e criar um mercado muitíssimo bem regulado.
O tráfico só será morto se for por asfixia econômica, o que só ocorrerá pela ação da livre concorrência da atividade legalizada e, portanto, passível de controle real por parte dos governos.
Vamos deixar de ser inocentes, consumidores sempre haverão, em qualquer situação.

domingo, 30 de maio de 2010 10:28:00 BRT  
Anonymous Muktar Ali ben Said disse...

Papoula,coca,canabis,todas com histórias semelhantes de grandes consumidores ao fundo.
A primeira,convertida em ópio e imposta para consumo forçado pelo Império Britãnico aos chineses,e assim submete-los,tornando-os civicamente abúlicos;depois da descoberta da morfina,as grandes guerras ,sua aplicação medicinal e o vício decorrente colhendo milhões de usuários por atacado;geração seguinte a heroína,devastadora sobretudo no continente americano(do norte);segue-se a "droga do poder" e sua difusão social. Aceitável nas rodas do "jet set",difunde-se em todas as classes.Canabis , a droga do pobre ,provoca lesera,devaneios e apetite posterior .Reprimida por causar absenteísmo na produção.
Os americanos falham nas suas estratégias de conquista .Limitam-se apenas a derrotar o inimigo.Ignoram as necessidade da manutenção da vitória.Afeganistão é exemplar.Mantém uma política inadequada e ultrapassada de negociar com porretes na mãos :um à vista e o outro dissimulado.Bom lembrar a querela entre EUA e Canadá,na época da "Lei Seca",promotora da temperança ianque,em que o Canadá era acusado
de permear suas fronteira,de vez que lá não existia proibição de consumo nem de fabrico de bebidas alcoolicas.O ministro canadense repetia enfático ,às reiteradas queixas:"respondo pelo o que ocorre dentro das minhas fronteiras,e somente até ali".
Portanto,como diriam os bôemios da antiga Lapa,retardando o dia que chegava:"Conta outra, Ernesto!"

domingo, 30 de maio de 2010 10:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito pertinente o post. Só a lamentar que no debate que segue-se à entrada do tema tráfico e drogas na campanha, houve o velho artifício de esquecer apenas do que se lembra de esquecer. Uma forma bem seletiva de distorcer e desconstruir o tema e quem o trouxe à baila. O dito foi contra o tráfico de cocaína, a insuficiência em seu combate e seus malefícios ao Brasil. As respostas críticas e discordantes foram sobre o povo e Estado Plurinacional da Bolívia e até a comparações entre produções bolivianas e colombianas de cocaína. Como se a origem tivesse o condão de diminuir ou aumentar a letalidade do problema. Ou das responsabilidades de combatê-lo. Assim não chegar-se-á a nada.
Swamoro Songhay

domingo, 30 de maio de 2010 13:18:00 BRT  
Anonymous irineu disse...

Cadeia para todo mundo. Para traficantes, consumidores e simpatizantes em geral.

domingo, 30 de maio de 2010 18:19:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home