terça-feira, 20 de abril de 2010

Perguntas eleitorais (21/04)

Que tal perguntar aos candidatos sobre coisas palpáveis, sobre soluções possíveis para os grandes problemas nacionais? Se depender deles, é provável que o país seja mais uma vez tomado por frases de efeito

O momento positivo na economia projeta um belo futuro imediato. Os sinais são de que as vendas vão bombar. Bom para as empresas e os empregados. Mais emprego, mais dinheiro no bolso.

O freio dos juros, que vem aí, vai demorar um tantinho para fazer efeito. Alta do juro no Brasil de vez em quando sincroniza com o calendário eleitoral. Nem tão longe da eleição que traga más estatísticas antes das urnas, nem tão atrasado que deixe a inflação escapar.

Por falar em juros, é incrível como a inflação brasileira não aguenta um crescimentozinho acima de 5%. Eis uma pergunta para os presidenciáveis. “O que o senhor (ou senhora) vai fazer para o país poder crescer mais, sem correr o risco de uma derrapagem inflacionária?”

Pois, noves fora os discursos, as lágrimas, as veias jugulares repletas e os rostos congestionados, este governo cultivou e preservou a principal herança do anterior que merece ser catalogada de “maldita”. O teto (baixo) para o crescimento, acima do qual as variáveis macroeconômicas entram em desarranjo.

Vamos esperar para ouvir a palavra dos candidatos. Há saídas supostamente criativas, como de gente perto de Marina Silva que não vê no crescimento acelerado necessariamente um objetivo. Pois ele traria a indesejável perturbação dos ecossistemas.

Quando a crise econômica eclodiu, em setembro de 2008, desencadeou junto a fabricação de teorias sobre o caráter benéfico de colocar um freio no avanço do consumo, e portanto da produção. Acacianismo matemático: o determinante de uma matriz nula é zero, com certeza absoluta.

É a piada velha da experiência de fazer um cachorro sobreviver sem alimentação. Estava quase dando certo, mas o cachorro morreu.

Se a economia andar mais devagar, em tese a natureza vai sofrer menos, pois haverá menos demanda por matérias-primas. Mas a vida humana não segue certos modelos matemáticos, e a piada do cachorro é só uma piada. A escassez de oportunidades econômicas têm o efeito de impelir para o extrativismo populações sem outro meio para subsistência.

Pobreza e defesa da natureza são vetores opostos.

Até agora, esses debates vêm sendo conduzidos no plano das generalidades ou da fé. É possível desenhar formas ambientalmente corretas de exploração da Amazônia? Sim, desde que a floresta em pé valha mais do que a derrubada. E onde isso foi conseguido, onde funciona?

É possível o Brasil crescer mais do que 5% ao ano para baixar de verdade as taxas de desemprego, e sem pressionar insuportavelmente a inflação? Evidente. Mas como fazer? E, se é possível, por que não foi feito até agora?

Talvez seja uma boa trilha nesta eleição. Ou pelo menos original. Insisto nisso. Perguntar aos candidatos sobre coisas palpáveis, sobre soluções possíveis para os grandes problemas nacionais.

Porque se depender deles é provável que o país seja mais uma vez tomado por frases de efeito, por aspas que garantem os lides de repórteres e editores aflitos, mas estão longe de alcançar os desafios reais de quem vai governar o Brasil pelos próximos quatro anos.

Um plano

Há algo a festejar sobre a demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol? A decisão do Supremo Tribunal Federal que regulamentou aquele processo de maneira equilibrada, dentro do possível, e também estabeleceu jurisprudência para futuras demarcações.

Isso do ângulo do interesse nacional, porque pelo lado propagandístico a medida rendeu a Luiz Inácio Lula da Silva aplausos em públicos seletos, o que não deixa de ser motivo para festejo presidencial.

Mas em Roraima a coisa não vai tão bem. Falta uma perspectiva realista e integrada de progresso, de prosperidade, de produção do bem-estar. Que não seja o empreguismo no setor público.

Na Raposa, Lula recolheu capital político no nicho gordo do “progressismo a custo zero”, pois praticado à custa do alheio. Poderia agora usar parte desse capital para fabricar um plano de desenvolvimento para Roraima, que está precisando.

Seria patriótico. E ainda dá tempo. Não é o próprio presidente quem insiste, corretamente, na ideia de governar até a meia-noite de 31 de dezembro?

O governo já fez sua média, nacional e internacional, na Raposa Serra do Sol. Falta agora fazer o resto.

Aliás, essa pode ser também uma pergunta para os candidatos. “Como desenvolver e fazer habitar as fronteiras do Brasil preservando o meio ambiente, garantindo ao mesmo tempo a defesa nacional e os direitos dos índios?”

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (20) no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Blogger Paulo Roberto disse...

As tuas questões quanto ao desenvolvimento de certas ações a respeito de programas de governo, são bastante pertinentes e acredito que os planos de governo, em andamento e que devem continuar com Dilma,caso seja eleita, estão preenchendo este vazio histórico em ações como o PAC, por exemplo, que traz em si, a empregabilidade no País, além do planejamento estratégico em setores importantes da Nação, coisa que aliás, assim de maneira organizada, não lembro de ter visto por aqui, não querendo lembrar o já batido, "nunca antes na história etc.".
O que me deixa curioso, é que essas realidades, concordem-se com elas, ou não, estão escancaradas na imprensa, seja na velha, ou na blogosfera.
Creio, pois, que está aí, a proposta de governo da situação.
O que não vejo na oposição.
Desconhecer ou ignorar essas ações, no processo histórico do Brasil, me parece um tanto surreal, prá quem escreve sobre política, economia ou afins.
Por isso te perguntei dia desse, desde onde partia sua posição à esquerda.
Não foi irônico e/ou desrespeitoso, como pode ter sugerido a pergunta.
Abraço!

terça-feira, 20 de abril de 2010 12:26:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

Esta que o Brasil não pode crescer a mais de 5% é discurso de agiota (nacional e internacional) para aumentar a bolsa rentista. E eles tem muito apoio na midia para sustentar este discurso. Pra baixar a selic é um deus-nos-acuda, para aumentar é ligeirinho ligeirinho. E onde tá essa tal inflação que mamãe, minhas, irmãs e cunhadas não veem? Elas que fazem as compras de casa já estariam reclamando se houvesse.

terça-feira, 20 de abril de 2010 14:42:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Mas em Roraima a coisa não vai tão bem. Falta uma perspectiva realista e integrada de progresso, de prosperidade, de produção do bem-estar".

Pois é. Quem sabe não arrendam a área para as locações do Avatar II. Figurante é que não vai faltar. Uns 20 mil índios (?) habitam a imensidão.

Lula poderia, sei lá, lançar um PAC da cultura do arroz e convidar o Stédile para gerenciar os recursos e a produção. :-)

Li que os arrozeiros expulsos dos 0,7% (12.202 ha) da área de 1.743.089 hectares (ou, 17.430,89 km2)da reserva Raposa do Sol, atingiam uma média de produtividade por hectare entre 6,3 e 7,8 toneladas, com algum nível preparo correto do solo, mecanização, adubação, escolha do cultivar adequado e outras boas práticas da agricultura que não dependem da ajuda de Eywa. A produção anual de arroz no Estado antes da incorporação da área dos rizicultores (12.202 ha) à Reserva era de 150 mil toneladas.

Um estudo de junho de 2009 da CONAB, “Mapeamento das Áreas Cultivadas com Arroz na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, na safra 2008/09.”, apresenta alguns números.

http://www.conab.gov.br/conabweb/download/nupin/mapa_raposa.pdf

RESULTADOS
Foram mapeados 11.242,6 ha cultivados com arroz na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, dos quais 9.561,6 ha já estavam com a colheita concluída na época da pesquisa e 528,3 ha ainda estavam por colher. Além desses, 1.152,7 ha permaneceram em pousio [período em que as terras repousam] na presente safra.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando-se a área total cultivada na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, juntamente com as áreas em pousio, estima-se que, com a saída dos arrozeiros da TI, deixarão de ser produzidas cerca de 64 mil toneladas nas próximas safras (à produtividade média de 6.300 kg/há), o que representa, aproximadamente, 50 % da produção de arroz no estado de Roraima, na safra 2008/09.

De acordo com o estudo, em outras localidades a produtividade na safra 2006/2007 chegou a 7.834 kg/ha.

Para que se tenha um parâmetro da idiotia brasileira que apoiou tamanho absurdo, um hectare (10.000 m2) é um pouco menos da medida máxima oficial (120mX90m) de um campo de futebol. O campo do Maracanã tem 8.250 m2 (110mX75m).

Relação de países com área em km2 semelhante ou pouco inferior à reserva Raposa do Sol. Eslovênia e Israel têm pouco mais que 20 mil km2 cada um. A Bélgica tem 30.528 m2.

Kuwait - 17 818
Suazilândia - 17 364
Timor-Leste - 14 874
Bahamas - 13 878
Montenegro - 13 812
Vanuxatu - 12 189
Gâmbia 11 295
Qatar - 11 000
Jamaica - 10 991
Líbano - 10 400

Para quem quiser conferir ou formar outros parâmetros,

http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_pa%C3%ADses_e_territ%C3%B3rios_por_%C3%A1rea#De_10_000_km.C2.B2_a_50_000_km.C2.B2

terça-feira, 20 de abril de 2010 17:41:00 BRT  
Blogger assino mamãe… disse...

Quer falem, quer não falem, quem vai à feira, ao sacolão e ao supermercado, sabe muito bem que a inflação está subindo, mesmo com o crescimento estando com o freio de mão puxado.
Por tudo o que tenho lido por ai, na internet, nos jornais, a falha se encontra no endividamento interno, nos gastos governamentais que aumentam o custo do dinheiro. Na disparidade da dívida interna e do PIB.
O que acontece, quer me parecer, é que ninguém quer arcar com os custos das medidas impopulares necessárias para acertar esse descompasso.
Enquanto não tivermos um governo mais interessado no país do que em ser popular ou reeleito, ficaremos nessa toada. Alguns se dão extremamente bem, a grande maioria vai levando, fazendo umas comprinhas em 72 meses, mas o grande arranque que o Brasil espera há anos e anos, 40, 50, 100 anos, nunca vem.
Posso estar certa ou errada, essas coisa de economia são complicadas e, até onde vejo, muitas vezes empíricas,mas ainda não apareceu quem se dispusesse a fazer alguma coisa, a não ser Itamar e Fernando Henrique.
Precisamos crescer pois a população sempre aumenta e precisará de oportunidades.
Vamos ver o que prometem os candidatos.

terça-feira, 20 de abril de 2010 18:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Primeiro, o Brasil está crescendo a mais de 7%. Segundo, o Brasil deveria evitar os afoitos. Na Veja de 19/03/1996, páginas amarelas, 5, 6 e 8 há uma entrevista com José Serra com o título “O cruzado já vingou”. A consulta pode ser vista na VejaDigital. De lá tiro uma pergunta da Veja e a resposta do José Serra:
"VEJA - O governo não hesitou demais até agir? [Talvez a pergunta tenha levado em conta a entrevista que umas três semanas antes FHC houvera dado para o Jornal do Brasil já ameaçando uma debandada para o partido de Leonel Brizola]
SERRA - Entre a concepção e o anúncio do Plano, duas semanas atrás, o programa consumiu cinco meses de estudos. Trata-se de um plano ousadíssimo, que obviamente não poderia ter sido montado da noite para o dia. Mas, como o governo não podia dizer quais eram suas reais intenções, ficou para alguns a impressão de que se hesitava sobre o que fazer no campo econômico".
Sempre costumo chamar à atenção sobre o Plano Cruzado pelo descaso com a receita tributária. Na resposta José Serra disse que o Plano consumiu 5 meses de estudo. Então o plano deveria ter tido mais cuidado com o imposto de renda, principalmente da pessoa física, de tal modo que uma febre consumista pudesse ser reduzida pelas alíquotas maiores do imposto de renda e por faixa de isenção menor. No entanto, dois anos após o país já ter iniciado a recuperação econômica – em 1984 o crescimento fora de cerca de 4% e em 1985 o crescimento fora de 7,8% – os economistas do PMDB acreditavam que a economia estava em recessão e que por isso não se podiam adotar medidas de restrição de demanda.
A solução para o problema do teto para o crescimento, José Serra tem a receita que ele bem aplicou em São Paulo e que o Alexandre Schwartzman primeiro dissera que José Serra não aplicara, mas depois fez mea culpa e assumiu o engano dos cálculos que fizera. Basta aumentar um pouco a arrecadação e reduzir um pouco ou muito as despesas. O problema é só saber se terá coragem de dizer. Em 1989, aqui em Belo Horizonte, Minas Gerais, terra de Tiradentes, Leonel Brizola em entrevista a um jornal dos mineiros dissera que a carga tributária brasileira já havia alcançado 27% do PIB no governo de Geisel, descera para 22% e precisava ir para 30%. Vamos ver qual dos três ou mais candidatos não tem medo do povo e diga a solução.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 20/04/2010

terça-feira, 20 de abril de 2010 19:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Assino Mamãe…(20/04/2010 às 18h29min00s BRTE)
Como teremos governos mais interessados no país do que em ser popular ou reeleito, se é dado ao governante o direito de ser reeleito e fortalecido com a reeleição o potencial de fazer o seu candidato vencer a próxima disputa?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/04/2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010 15:44:00 BRT  
Anonymous JúlioFábio disse...

Aonde a floresta vale mais em pé ? na Costa Rica. Ou alterando um pouco: aonde o ecosistema natural vale mais "em pé" ? Em Bonito-MS, por exemplo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010 18:29:00 BRT  

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