segunda-feira, 5 de abril de 2010

Paixões lindas (05/04)

Como descreveu Nelson Sargento em "Falso amor sincero", o caso amoroso pode ser bem bonito quando um finge que ama e o outro finge que acredita

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, teve algum sucesso na estratégia comunicacional que coroou o sai não sai. Conseguiu dar curso à versão de ter recebido do comando do governo, especialmente do presidente da República, um apelo para ficar no cargo em vez de ser candidato a qualquer coisa. A verdade é algo diferente. Já faz tempo Meirelles deixou de ter maior utilidade para Luiz Inácio Lula da Silva e o PT como presidente do BC. Ao contrário.

Meirelles seria mais adequado a Lula como candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff. O presidente daria um sinal forte à oligarquia financeira de preservação dos interesses vitais desta, com um porta-voz otimamente bem posto no eventual novo governo. E com a vantagem adicional de a saída dele do BC abrir espaço para Dilma, caso eleita, tentar fazer a política monetária dela própria —e não a do “mercado”, ente que combina o melhor do abstrato (ninguém sabe exatamente onde encontrá-lo e como falar com ele) com o melhor do concreto (pelos interesses que tão bem protege).

Para o governo, a saída de Meirelles possibilitaria juntar o útil ao agradável.

Mas o chefe do BC acabou listado entre os neófitos moídos pelo triturador de projetos desenvolvido na cúpula do PMDB. Que não precisou de muita sabedoria para identificar no “Meirelles vice” a tentativa palaciana de fechar um acordo eleitoral com o partido e, simultaneamente, livrar-se de maiores compromissos com o partido. Um dogma na cartilha de Lula. Conceitualmente semelhante à atração de José Alencar, então no PL, para a chapa em 2002. A aliança era com Alencar, o PL era só uma circunstância.

O PMDB antevê um cenário brilhante se Dilma triunfar em outubro. O partido com mais governadores, prefeitos (inclusive nas capitais), senadores, deputados federais, estaduais e vereadores pode emplacar 2011 nas presidências da Câmara dos Deputados e do Senado, além da vice. Teria portanto três das quatro primeiras posições na hierarquia da República.

Claro que um presidente petista recém-eleito poderá reunir força política fresquinha e impor ao PMDB soluções mais equilibradas. Com o PT presidindo uma Casa no Congresso. Mas aí entraria em operação a tática tradicional do peemedebismo, que pode escolher entre ser um só ou muitos, dependendo da conveniência. Pois cada pedaço da megalegenda precisa ter musculatura própria para sobreviver no embate interno —como se viu na última sucessão na Presidência do Senado.

As relações do PT com o PMDB são um curso completo de realpolitik, escancarado e grátis. Pós-graduação. Se precisassem ser descritas em música, talvez fossem o "Falso amor sincero", de Nelson Sargento, que Walter Alfaiate interpretou como ninguém. “O nosso amor é tão bonito, ela finge que me ama e eu finjo que acredito.”

O PT unificou o PMDB em torno de si para conseguir governar em paz neste segundo mandato. Mas, como dizia anos atrás um amigo sabido, quando o peemedebismo era ainda mais problema do que solução, se o PMDB dividido poderia ser um alento para terceiros que ambicionavam a cadeira de Lula, uma vez unido teria motivos para querer abocanhar ele próprio o ambicionado lugar.

O trunfo do PT é o PMDB não ter um assim chamado “projeto nacional”, um candidato factível a presidente da República, um líder com força para subjugar os caciques regionais. É então uma aliança quase perfeita para o petismo. O PT governa e o PMDB apoia, em troca apenas de espaços segmentados de poder orçamentário.

Nesse jogo complexo, Henrique Meirelles acabou sobrando. Depois de se filiar ao PMDB, o banqueiro descobriu-se repentinamente mais importante para combater a inflação do que como jogador na arena político-partidária.

Uma descoberta que traz dois problemas. O primeiro é o presidente do BC querer agora ajudar a forçar a mão na alta dos juros, até como maneira de mostrar sua relevância política. Ou como vingança.

O segundo problema vai aparecer quando as urnas disserem quem vai, enfim, governar o Brasil depois de 2011. As salas de votação nem terão fechado as portas completamente e já se ouvirá, nos canais de sempre, sobre a importância de Meirelles ficar no comando do BC, para neutralizar eventuais heterodoxias.

Um lobby que vai aparecer, com certeza. Só não se sabe quando. É pule de dez.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (05) no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

"O trunfo do PT é o PMDB não ter um assim chamado “projeto nacional”, um candidato factível a presidente da República, um líder com força para subjugar os caciques regionais."

E interessa ao PMDB ter esse "projeto nacional"? Tenho certeza que não.

segunda-feira, 5 de abril de 2010 09:04:00 BRT  
Blogger Marcos Diniz Ribeiro disse...

Sensancional o poste.

Faço a pergunta: é pensável um cacique regional do PMDB tornar-se um supercacique nacional?

Não, porque teria de vir de São Paulo ou Minas. No primeiro, impossível. No segundo, improvável.

A menos que, após uma eventual vitória Serra, surja um catalisador para um movimento "basta de São Paulo". E, aí, quem sabe não aparece algum senador com destaque numa CPI...

segunda-feira, 5 de abril de 2010 13:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pois é. Apesar de tudo, da aparente complexidade, das rusgas etc. ainda a política da terra é muito previsível. E como previsível, nada como um pouco de humor: falta saber, então, quem fará oposição ao PMDB no período 2011/2014.
Swamoro Songhay

segunda-feira, 5 de abril de 2010 13:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

leio teus textos e fico com vergonha de dizer que sou professor de ciência política.
Vou ter de comer muito feijão com arroz para chegar, talvez um dia, a possuir sua capacidade de análise.
O que mais gosto é que você, ao mesmo tempo em que não adere aos consensos automatizados e (pré)reflexivos, também não cai naquele discurso moralista de "luta contra o PIG".
Porém, sinto falta de análises, e é só uma sugestão, que digam respeito ao papel desempenhado pela imprensa na atual conjuntura.
As vezes fico com a impressão de que você não leva em consideração a máxima gramsciana de que a imprensa também é um partido.

Abs

Daniel

segunda-feira, 5 de abril de 2010 21:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Um post precioso. Só possível para quem conhece a realidade política brasileira e só possível para quem sabe contá-la.
Senti, entretanto, duas carências. Você não procura analisar porque o PMDB não tem "um candidato factível a presidente da República, um líder com força para subjugar os caciques regionais"? Fica uma idéia, ou melhor, um fato solto no ar. E o mais exótico fato a habitar a realidade política brasileira sem que se procure fazer uma amarração. Há muitas explicações. Assim, para muitos é claro que em razão de ser forte em muitos estados enfraquece-se a possibilidade de o PMDB possuir um cacique nacional. Há, entretanto, para refutar essa justificativa o fato do Michel Temer ficar na presidência do partido há tanto tempo. Seria por que ele é de São Paulo?
A segunda carência seria um melhor desenvolvimento do tema do Henrique Meirelles. Na sexta feira eu fui junto ao seu post "O mensageiro e seu risco" de 02/04/2010 e reclamei da ausência de um relato no seu blog sobre o dia do fico do Henrique Meirelles. Como o assunto do post "O mensageiro e seu risco" era outro, parece que o meu comentário foi censurado.
Vale, entretanto, recordar o que eu pretendia dizer no meu comentário, pois eu tinha outra visão sobre o dia do fico. Para mim na quinta-feira, 01/04/2010 tinha havido uma troca no Banco Central. Saíra o presidente para inglês ver do Banco Central (Argumento meu antigo que os textos acadêmicos sobre o perfil dos ocupantes de cargo de presidente do Banco Central só têm feito confirmar) e entrara o presidente para brasileiro ver.
Você fala em dois problemas relacionados com o imbróglio Henrique Meirelles. Um seria ele para querer mostrar relevância ou até mesmo por vingança aumentar os juros. Quanto a esse pode ter certeza que não acontecerá. Henrique Meirelles só aumenta o juros quando Lula pede a ele para aumentar. Se for interesse de Lula que os juros tenham que ser aumentados (Para combater os que muitos consideram o dragão da inflação), então Henrique Meirelles aumentará os juros. É claro que alguns poderão ter a leitura que ele aumentou os juros para mostrar relevância ou até mesmo por vingança. Não penso, entretanto, que essa seja uma boa leitura.
O segundo problema para você é o “lobby que vai aparecer . . . quando as urnas disserem quem vai, enfim, governar o Brasil depois de 2011 . . . sobre a importância de Meirelles ficar no comando do BC, para neutralizar eventuais heterodoxias”.
Bem, para mim o lobby vai começar desde agora e será capitaneado pela turma da Dilma em campanha.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 05/04/2010

segunda-feira, 5 de abril de 2010 22:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Meirelles é ousado na intenção e conservador no gesto.Aposta em Dilma,por isso fica.Permanecer por dois governos,o faz um Alan Greenpan,caboclo.Ao contrário deste sem riscos de promover "bolhas imprevisiveis".

segunda-feira, 5 de abril de 2010 23:20:00 BRT  

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