sexta-feira, 23 de abril de 2010

O voto do Fredo (23/04)

Em vez de discutir o apoio a tal ou qual candidato, a UNE deveria numa próxima reunião homenagear o Fredo Ebling, cujo voto 30 anos atrás permitiu ao “U” da sigla estar até hoje em vigor, para valer

Corria o ano da graça de 1980 e a diretoria da União Nacional dos Estudantes estava reunida no DCE da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em Vitória, para tomar posição diante da reforma partidária imposta — ou segundo outras versões permitida — pelo governo João Figueiredo. A UNE fora reconstruída um ano antes e compunhamos a primeira direção, eleita pelo voto direto. Já eram os ventos da abertura a soprar.

A diretoria de 15 integrantes era complicada que só. Todos militantes ou simpatizantes de grupos e partidos que uma década antes tinham aderido à luta armada. Um assunto superado pela vida, mas as diferenças políticas persistiam. Parte pendia para o nascente PT, que outros acusavam de ser subproduto da manobra de Figueiredo para dividir o MDB (Movimento Democrático Brasileiro, única oposição partidária permitida pelo regime até então).

Mas havia duas tendências entre os “peemedebistas”, que defendiam a necessidade de a oposição continuar unida no PMDB, sucessor do MDB. Uma argumentava que o PDT, o PTB e o PT, nascidos da reforma figueiredista, eram iniciativas legítimas, e que portanto a UNE não deveria se alinhar a nenhuma sigla. Outros exigiam que a entidade apoiasse explicitamente o PMDB, segundo eles “o único partido da oposição”, pois os demais haviam aceitado a divisão patrocinada pelo regime e tirado vantagem dela.

Ano passado, a UNE comemorou 30 anos da reconstrução e um punhado daqueles diretores reunimo-nos em Porto Alegre, numa homenagem bacana organizada pelo deputado estadual Adão Villaverde (PT). E lembramos entre boas risadas daquela reunião no DCE da UFES. Por que as risadas? Por causa das manobras heterodoxas de obstrução colocadas em prática pela parte da diretoria que, em certo momento, viu-se minoria. A tática era arrastar a pauta sem decidir nada, até que chegassem os diretores ainda ausentes. E que fariam a maioria pender para o nosso lado.

No fim deu certo. Depois de três dias inteiros de sumiços convenientes para derrubar o quorum, de infinitas questões de ordem e de encaminhamento intervaladas por discursos irados e intermináveis sobre todos os assuntos possíveis, o Fredo Ebling finalmente desembarcou vindo de Porto Alegre e nos garantiu a maioria de um voto. E pela diferença de um mísero voto decidimos não decidir nada. E a UNE não se alinhou a nenhum partido.

Olhando retrospectivamente, talvez tenha sido a decisão mais importante e correta da UNE desde sua reconstrução, naquele bonito e bem brigado 1979. Porque, diferente do movimento sindical, a entidade nacional dos estudantes não se fragmentou. Não há uma UNE do PT, uma do PCdoB, uma do PSDB ou uma do Democratas. É quase inacreditável, mas todas essas forças políticas continuam aglutinadas até hoje numa única “central sindical” estudantil. Deve ser o único lugar no Brasil em que todos convivem em relativa paz.

Vejo agora no noticiário que a UNE deve discutir por estes dias uma proposta de apoio à candidatura da ex-ministra Dilma Rousseff. Eu duvido que a própria candidata tenha algo a ver com isso. Deve ser coisa das disputas político-partidárias que fazem a alma do movimento estudantil, aqui e em qualquer outro lugar do planeta. Mas há essa proposta.

A UNE tem lá seus problemas, como todo mundo. Nos últimos anos vem apoiando a administração de Luiz Inácio Lula da Silva. Alguns dizem que é por causa das verbas recebidas, mas, pelo que eu conheço, a acusação é injusta. A explicação é outra: as correntes político-partidárias que comandam majoritariamente a UNE estão com Lula, e estão no governo Lula. Como ocorre, por exemplo, com a maioria das entidades sindicais empresariais. E que não são criticadas.

Mas esse detalhe tem menos importância histórica. O governo Lula vai passar e a UNE continuará. Fundamental é ela persistir ao menos com a ambição de representar todos os estudantes, detalhe indispensável para manter abertos os canais de diálogo com o conjunto do universo estudantil.

Por isso, em vez de discutir o apoio a tal ou qual candidato, a UNE deveria numa próxima reunião homenagear o Fredo Ebling, cujo voto 30 anos atrás permitiu ao “U” da sigla estar até hoje em vigor, para valer.

É fácil encontrá-lo. Se quiserem, posso fornecer os contatos.

Seria mais inteligente. Além de inteiramente justo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (23) no Correio Braziliense.

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12 Comentários:

Anonymous Ivanisa Teitelroit Martins disse...

Alon,

em defesa do U: U de união, U de unidade. Em defesa da autonomia dos movimentos sociais e sindicais. Há um viés de partidarização de algumas centrais sindicais. Nem a UNE nem o MST devem se partidarizar. UNE como você escreveu é a central dos estudantes e deve continuar defendendo e lutando pelo ensino público, pelos trabalhadores da educação, pelos programas em defesa da juventude. A Secretaria da Juventude no governo Lula não teve a devida relevância. A PEC da juventude somente foi encaminhada ao Congresso esse ano. Houve atrasos em função de obstáculos e divergências na articulação da políticas sociais, que foram gerados pelo personalismo na ocupação dos cargos públicos, especificamente pela composição política nos cargos estratégicos dos principais Ministérios da área social. Outro fator que postergou o avanço da política da juventude foi a excessiva centralização de prioridades na Casa Civil.

sexta-feira, 23 de abril de 2010 12:56:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

Alon,

Há algum tempo, vc publicou uma foto dessa diretoria e um comentarista sugeriu que se buscasse localizar onde andam e o que fazem aqueles "pioneiros".
Eu sei de alguns: Marcelo Barbieri - prefeito de Araraquara (PMDB-SP); Cândido Vaccarezza - líder do governo na Cãmara e deputado federal (PT-SP); Aldo Rebelo – deputado federal (PCdoB-SP); Fredo Ebling – depois que trabalhou com vc nas Relações Institucionais, não soube mais.
E os outros? Se não me engano, o Juca (Juarez Amorim) e o Zé Pimenta eram de MG; Lula (Luiz Falcão) e Pedro (Reis Pereira), de PE; Giba (Gilberto Martin), de Londrina, PR; Rui César, baiano; Kika (Maria Francisca de Souza), carioquíssima.

Artur Araújo

sexta-feira, 23 de abril de 2010 14:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ola

Pode ficar Tranquilo o U continua com toda a força e nesse coneg a UNE
Discute o projeto de Brasil que os Estudantes querem entegando esse documento a todos os candidatos

sexta-feira, 23 de abril de 2010 15:02:00 BRT  
Anonymous NPTO disse...

Grande Post. É isso aí.

sexta-feira, 23 de abril de 2010 16:04:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Artur,

O Giba é (ou foi) sec de Saúde do Requião. O Juca é pres do PPS em MG. O Rui é empresário da educação em Salvador. O Fredo é servidor na Câmara dos Deputados.

Abs.

sexta-feira, 23 de abril de 2010 18:09:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Naquela época, a UNE não fez escolha partidária no campo da esquerda, mas não fez nenhuma resolução sobre eleições?

Algo como repudiar o voto aos partidos de sustentação da ditadura?

sexta-feira, 23 de abril de 2010 18:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eu não sei ou estou mal informado, mas, sempre a UNE discutiu seu apoio ao candidato à presidência da república, o que é bem diferente desse histórico evento relatado por você.
Ismar Curi

sexta-feira, 23 de abril de 2010 21:36:00 BRT  
Anonymous Mateus disse...

Alon, acho que você está um pouco desatualizado. Há tempos, desde que a UNE assumiu uma postura constante de alinhamento com o governo (PT), existe a CONLUTE, e os DCEs hoje se filiam ou a uma ou a outra, uma total incoerência.

sábado, 24 de abril de 2010 10:32:00 BRT  
Anonymous Adão Villaverde disse...

Caro Alon:

Parabéns por este Post, que reupera e atualiza o debate sobre autonomia e(in)dependência na relação movimentos-partidos. Gracias pela referência, da comemoração dos 30 anos da nossa UNE, que propiciamos aqui no RS o ano passado.
Abração, Villa.

sábado, 24 de abril de 2010 11:58:00 BRT  
Blogger Ramon disse...

Alon, era estudante de Jornalismo e acompanhei aquela reunião na Ufes. Na verdade foi no Diretório Acadêmico do Centro Tecnológico. Me lembro de vocês, da diretoria, só feras, escrevendo bilhetinhos, embrulhando o papel bem pequenininho, e jogando um pro outro durante as reuniões,, uma curiosa forma de comunicação. Hoje, como vc, sou jornalista, e trabalho na universidade.

domingo, 25 de abril de 2010 02:19:00 BRT  
Anonymous Carlos Saraiva disse...

Alon, sou seu f~e seu blog é uma das minhas (poucas) leituras diárias na internet, mas a sua afirmação de que a UNE apóia o governo independentemente das verbas que recebe é merecedora do Troféu Polyanna.Não existe pensamento independente quando você é sustentado pelo governo.

domingo, 25 de abril de 2010 06:52:00 BRT  
Blogger César Bento disse...

Teu pos faz uma abordagem interessante sobre o tema.
Fredo Ebling é um grande cara. Tive oportunidade de conhecê-lo e conviver algum tempinho com ele.

quinta-feira, 29 de abril de 2010 10:04:00 BRT  

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