quarta-feira, 14 de abril de 2010

O que ele diz. E o que faz (15/04)

Brasil e Estados Unidos voltam a estreitar relações militares. Lula busca novos espaços para afirmar a identidade brasileira no plano internacional, mas não coloca em dúvida nosso campo de alianças — especialmente bélicas — no hemisfério

O aquecimento progressivo da campanha eleitoral deixa meio escondida, relativizada, a assinatura do acordo de cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos. O fato ganha importância analisado à luz das relações históricas entre os países.

Estados Unidos e Brasil tinham desde o pós-guerra laços militares formais, que foram sendo abalados ao longo da década de 1970. Por duas razões: os movimentos brasileiros para desenvolver tecnologia nuclear e as fortes pressões da administração Jimmy Carter (1977-1981) pelo respeito aqui aos direitos humanos.

O regime militar da época enxergava tais ações da Casa Branca, contra as torturas e a perseguição política de oposicionistas, como ingerência indevida nos assuntos internos do Brasil. Era ingerência, mas não indevida. E foi muito estimulada pela forte militância dos nossos exilados, na denúncia sistemática dos maus-tratos aos presos políticos brasileiros.

As pressões do governo Carter ajudaram na época a acelerar a abertura política e a atenuar o sofrimento de quem combatia o regime. É uma dívida que a democracia brasileira e os militantes da esquerda brasileira têm com o ex-presidente americano. Talvez não seja confortável para a biografia de alguns, mas é um fato.

Aliás, um problema enfrentado pela Boeing na concorrência agora para a venda dos caças à FAB vem dali: a dúvida entre os nossos militares sobre a confiabilidade dos parceiros americanos, dado o contencioso político e humanitário daquela época. Não deixa de ser curioso, ou ao menos paradoxal —visto que a atual administração brasileira inclui gente cujo sofrimento foi amenizado pela política de Carter.

Mas assim é a vida. De prático, interessa que agora Brasil e Estados Unidos voltam a estreitar relações militares. É a resultante de dois movimentos simultâneos do governo Luiz Inácio Lula da Silva: buscar novos espaços para afirmar a identidade brasileira no plano internacional, mas sem colocar em dúvida nosso campo de alianças — especialmente bélicas — no hemisfério.

Na concorrência dos caças, por exemplo, o Brasil exerce sua soberania, mas dentro de limites rigorosamente definidos. Dos três finalistas, um é americano e os demais são empresas de países aliados dos Estados Unidos. O assunto foi delimitado. Tirada a retórica, sobra a disputa comercial. E só.

A estratégia é parecida com a adotada por correntes da esquerda social-democrata na Europa Ocidental do pós-guerra. Aderiram ao “atlantismo” (referência à Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar comandada por Washington), e assim deixaram de ser ameaça à hegemonia dos Estados Unidos, na época envolvidos com a Guerra Fria.

Uma troca razoável, que ajudou a garantir aos principais países europeus meio século seguido de estabilidade democrática e paz. Coisa inédita na vida recente do continente. Quem olha a Europa ocidental próspera e pacífica de hoje e vê ali uma dádiva da natureza deveria debruçar-se sobre o século e meio que vai das guerras napoleônicas ao fim da Segunda Guerra Mundial. Terá uma surpresa.

Talvez a Europa do pós-1945 seja um modelo a estudar. Uma região do mundo rapidamente recuperada do maior conflito bélico de todos os tempos, porque teve paz, estabilidade e investimentos maciços, inclusive em capital humano.

Foi um exemplo de recuperação não alicerçada em corridas armamentistas, ao contrário do entreguerras, o cenário do caldo de cultura para nazistas e fascistas.

Alguém duvida do efeito que terá na América do Sul meio século de democracia, ausência de conflitos militares e aceleração dos investimentos? Adaptado o mote de Juscelino Kubitschek, seriam 500 anos em 50.

E o Brasil emergirá maior e mais forte. Num cenário sem conflagrações regionais e sem ingerências externas, nossa liderança regional é automática. Ninguém aqui perto tem território, economia ou população para competir conosco.

É inclusive nosso principal cacife para ambicionar as cadeiras mais importantes da diplomacia mundial.

O presidente da República fala com frequência, e torna quase “natural” o analista usar os discursos dele como matéria prima.

Mais eficaz, entretanto, é prestar atenção ao que Lula faz. Em vez de só enxergar — ou ouvir — o que ele diz.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Dentro de certas limitações sou um admirador de Jimmy Carter. Recentemente em um ou outro blog onde comento tive oportunidade de lembrar que foi Jimmy Carter e não Ronald Reagan quem indicou Paul Volcker para presidente do Banco Central Americano e que foi Paul Volcker que acabou com a inflação que chegou a 12% nos Estados Unidos. E se levarmos em conta que os preços das commodities tiveram o auge quando Paul Volcker assumiu a presidência do FED e ao cair quebraram quase todos os países em via de desenvolvimento e que só 30 anos depois os preços dessas commodities voltaram ao pico do final da década de 70, é de se imaginar que Paul Volcker teve mais influência sobre as ditaduras nos países em desenvolvimento do que Jimmy Carter.
É por isso que quando eu li essa passagem no seu post:
"As pressões do governo Carter ajudaram na época a acelerar a abertura política e a atenuar o sofrimento de quem combatia o regime",
Fiquei pensando se você não queria dizer o contrário.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/04/2010

quarta-feira, 14 de abril de 2010 20:45:00 BRT  
Anonymous Chesterton disse...

O antiamericanismo europeu vem daí, do fato que a Europa tem uma dívida enorme com os EUA e não querem admitir.

quarta-feira, 14 de abril de 2010 21:51:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

" É uma dívida que a democracia brasileira e os militantes da esquerda brasileira têm com o ex-presidente americano. Talvez não seja confortável para a biografia de alguns, mas é um fato", Alon FEUERWERKER.

C ta certo Alon, também devemos a agradecer.

quarta-feira, 14 de abril de 2010 23:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Tem umm dado econômico interessante que eu ouvi hoje na Hora do Brasil, é sobre os BRICs: o radialista se referia a um dado do Banco Mundial que relatava o desenvolvimento do comércio mundial e o peso dos BRICs nele, que passara de 5% para 15% entre 2002 e 2008, e que em 2014 poderá chegar a 60%, para demonstrar a importância que esse grupo econômico terá no futuro, (com certeza temos o crescimento assimétrico da China no grupo) mas, de fato a importância do Brasil deve significar muito para os EUA. Estive no mês passado num Fórum Internacional no Rio sobre Cidades, e a delegação americana era a de mais alto nível, com muitos secretários de estado e o próprio embaixador Shanon esteve numa palestra espetacular, que na verdade foi espetacular pela presença do embaixador brasileiro Correia do Lago. O caso é que as falas do americanos eram reipeitabilíssimas em relação as iniciativas brasileiras para o setor de planejamento urbano e a realização do Fórum, a tal ponto que, derepente a mediadora que era brasileira, deu um 'peraí' no sentido de que era a iniciativa dos países da América Latina, e por aí vai...
Ismar Curi

quinta-feira, 15 de abril de 2010 00:24:00 BRT  

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