sexta-feira, 30 de abril de 2010

O MST sem aliados (30/04)

Não há ator relevante da política disposto a defender o MST. O movimento hoje luta pela reforma agrária onde ela não é mais possível — pelo menos no capitalismo — e renuncia a buscá-la onde é necessária. Daí o isolamento

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desempenha um papel importante no Brasil. Se não por outro motivo, ao fazer recordar todo dia que o direito à propriedade é universal. Direito de propriedade só para alguns é contradição em termos.

Eis um aspecto bonito da reforma agrária. Ela talvez materialize melhor que outras bandeiras o desejo de o direito de propriedade ser praticado da maneira mais ampla e absoluta.

Como então os portadores dessa aspiração amplíssima chegaram ao isolamento político, facilmente verificável? Ontem Dilma Rousseff não citou o MST, mas mandou o recado de que não admite ilegalidades.

A ocupação de fazendas é ilegal, quando a Justiça assim decide. A mensagem não poderia ter sido mais clara.

Antes, José Serra tinha ido na mesma linha, só que mais explicitamente. Pois não está obrigado a tratar o tema com luvas macias.

O isolamento político do MST obedece também a razões estruturais.

O Brasil é um país secularmente reacionário quando o assunto é a terra. Aqui, a Independência não aboliu a escravidão e a República não trouxe a reforma agrária. Esta só avançou — pasmem! — a partir do regime militar, quando o presidente Castelo Branco deu ao país o Estatuto da Terra.

A redução do direito de propriedade a prerrogativa de alguns é construção ideológica arraigada entre nós. Mas o isolamento político do MST não bebe só dessa fonte. Suas raízes conjunturais estão na total assimetria entre a estratégia do movimento e o projeto de construção nacional.

Qual o sentido de o MST acampar à beira de estradas do Sul-Sudeste, ao lado de propriedades que já fizeram a transição para a agricultura plenamente capitalista, em vez de pressionar o governo para que a expansão da fronteira agrícola aconteça com base na democratização territorial?

Infelizmente, o MST deixou-se enredar já faz algum tempo numa aliança com as forças que procuram nos impor o congelamento da fronteira agrícola, o abandono da engenharia genética e a renúncia à população das fronteiras. Dessa aliança não sai — nem vai sair — nada útil para o país.

É como cruzar espécies distintas. Dá até prolezinha, mas estéril. Uma esterilidade política bem desenhada em teses como “a luta contra o agronegócio”.

Em resumo, o MST hoje busca a reforma agrária onde ela não é mais possível — pelo menos no capitalismo — e renuncia a buscá-la onde é necessária. Daí o isolamento.

Fraqueza que chega ao ponto de não conseguir arrancar do governo Luiz Inácio Lula da Silva nem a atualização dos índices mínimos de produtividade da terra para ela atender ao interesse social.

Cicatriz colonial

Houve alguma confusão ontem sobre a escolha de Lula como um dos indivíduos mais influentes, na relação organizada pela revista americana Time.

No fritar dos ovos, importa menos se o presidente é o primeiro da lista, ou o 17º. Ou o nono. É melhor estar nessas listas do que não estar. Mesmo que se discutam seus critérios.

Um detalhe porém chama a atenção em ocasiões assim. A necessidade quase patológica que temos do “reconhecimento internacional”. Precisamos sempre de um atestado, europeu ou americano, de estarmos fazendo as “coisas certas”.

É o velho complexo de inferioridade. Lula faz um bom governo, e isso se expressa nos resultados objetivos e na popularidade dele. Esse juízo não depende de o presidente comparecer ou não às capas das revistas americanas e europeias.

Mas o Planalto sabe que país governa. Um país complexado. Daí que tenha nos anos recentes colocado para rodar uma bem azeitada máquina de lobby junto às principais publicações do “Primeiro Mundo”.

Nesta terra de colonizados, falarem bem de você “lá fora” costuma valer ouro. E falarem mal é visto como tragédia.

Tirar uma nação da situação colonial é difícil, mas nada que se compare ao grau de dificuldade de tirar a cicatriz colonial da alma dela.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (30) no Correio Braziliense.

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14 Comentários:

Anonymous Marcos disse...

O jornalista critica o presidente até quando ele recebe boas criticas.
Outro dia, lendo um jornal que não mais assino, tive a impressão que o Brasil vivia na época do ultimo ano de governo do ex-presidente José Sarney.
Como um pais que cresceu mais do que em qualquer outro período nos últimos 30 anos pode ser retratado dessa maneira?

sexta-feira, 30 de abril de 2010 07:50:00 BRT  
Anonymous Tiago disse...

Há, na minha opinião, um algo a mais. Que vai além do jogo pra platéia interna. Não é só o Brasil que carrega na alma uma cicatriz colonial. Na verdade, no tabuleiro do passado imperial poucos eram os colonizadores. A maioria são ex-colonias.
Acho que o "reconhecimento internacional" é bom pro Brasil pq ajuda a começar um esboço do que um dia, talvez, possa ser o soft power tupiniquim.

sexta-feira, 30 de abril de 2010 09:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É bom lembrar, como fez Fernando Barros Silva hoje na Folha, que a revista Time indicou há alguns anos, em uma lista de "líderes do mundo no futuro", Célio Borja e Alysson Paulinelli. Ou seja, há muita mistificação e ignorância neste tipo de coisa.

Esta lista só ajuda o ego do nosso presidente, que não parece precisar de nada para estar hiper inflado.

sexta-feira, 30 de abril de 2010 09:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Achei muito interessante terem colocado na relação de "pensadores" o Jaime Lerner, este creio que não houve lobby, foi merecimento mesmo...

sexta-feira, 30 de abril de 2010 11:15:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Em reportagem para o ESP, Roldão Arruda apontou os indícios que indicam haver um estoque de quase 1,5 milhão de hectares nas mãos do INCRA.

Por que o INCRA não libera esse montão de terra para os assentamentos?

A reportagem do Roldão traz algumas respostas:

"Governo já tem terras para assentar 50 mil famílias, mas ainda desapropria"

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100427/not_imp543454,0.php

Sobre o feito da Time, qual a repercussão disso fora do nosso pequeno círculo? Fora desse universo paralelo, o nome da revista talvez seja lido e entendido como "Team".

João Santana vai fazer com isso o quê? Colocar Dilma num filme segurando a Time e dizendo: "Esse é o cara! Vote em mim".

O alvo do lobby é manter sob os holofotes "o cara", mas para consumo externo. Faz mais sentido. Lula deu vários sinais do que pretende para o futuro na reunião do Caribe (Caricom).

Celso Amorim é mesmo um portento. Indagado pela imprensa barrigueira sobre o que pensava a respeito da indicação do presidente Lula como “a personalidade mais influente do mundo pela Time” (o que é falso, pois a revista não ranqueia, como sabemos) Amorim não se fez de rogado e respondeu assim aos vira-latas: “Para vocês é uma surpresa?"

sexta-feira, 30 de abril de 2010 18:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
1. invasões são ilegais sempre, a priori.
2. os sem-terra já ganharam tanta terra que passaram a ser latifundiários improdutivos
3. obrigado por lembrar Castelo Branco

sexta-feira, 30 de abril de 2010 23:23:00 BRT  
Anonymous Omar Torres disse...

"Não há outra solução para o mal crônico e profundo do povo senão uma lei agrária que estabeleça a pequena propriedade, e que vos abra um futuro, a vós e vossos filhos, pela posse e pelo cultivo da terra. Essa congestão de famílias pobres, esta extensão de miséria, estes abismos de sofrimento não tem outro remédio senão a organização da propriedade da pequena lavoura... A propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado da pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra à propriedade, como não faz honra aos poderes do Estado..."
Mais de cem anos depois que Joaquim Nabuco proferiu estas palavras, quando da luta pela Abolição da Escravatura, o que efetivamente mudou? Talvez somente a violencia urbana.
Omar Torres

sábado, 1 de maio de 2010 11:24:00 BRT  
Anonymous Tovar disse...

A dificuldade do MST é alcançar quem apóie publicamente a bandeira do fim da propriedade privada.
Ainda mais em época eleitoral, quando, como bem assinala a précandidata Dilma, desfilam até lobas plastificadas e em fantasias de ovelhas.
Bandeira, por sinal, emparceirada a outras tantas e que visam extinguir o modelo de democracia vigente. Ainda que esse tenha permitido a silenciosos, porém ativos, simpatizantes ocupar até mesmo o governo federal.
Dilma durante os mais de 7 anos em que esteve no Governo não defendeu qualquer restrição ao MST nem defendeu a propriedade privada e, no caso, o respeito ao Judiciário. Antes, ao contrário. Pregou contra sua criminalização, mesmo que crimes fossem praticados.
É a legítima conversa para boi dormir.
O Governo e o PT fizeram o mesmo.
O MST visa ocupar o Poder. A aliança com o PT é tática. A questão é que o PT também se fardou para tanto: o Poder. E dali não quer sair, mesmo que tenha de abandonar a idéia de partido transformador e aceitar a dinastia Lula da Silva. O MST como ameaça ao estado de direito e à Oposição lhe serve como as SA serviram a Hitler.
A história pode se repetir.

sábado, 1 de maio de 2010 13:48:00 BRT  
Blogger Smeg disse...

Alon, na boa, esse é me parece papinho do Aldo Rebelo, o comunista que se juntou a ala ruralista liderada pela Katia Abreu por conta de um nacionalismo stalinista completamente anacronico.

Mas entrevista do Stedille, ele tem deixado bem claro que a luta do MST incorporou a luta contra o agronegócio, e que neste caso a ocupação de terra perde eficiencia, que é preciso uma luta que aconteça dentro da cidade e que tenha uma abrangencia muito maior. Ou seja, não é que o MST está isolado, é que a nova batalha é muito mais difícil e que o circulo de alianças nesta luta é outro.

Olha o modelo que o governo Lula escolheu para o pais - o BNDES financiou o Friboi para comprar empresas amercinas em declínio absoluto com tecnologia ultrapassada que tem como base um modelo de alimentação completamente equivocado, para mim essa é uma estratégia ruim. Os jornais aqui não dizem, mas o produto brasileiro na Europa é pouco aceito já que eles tem uma tradição de produção familiar e com uma qualidade muito superiro, alem de ser mais "gentil" com a natureza.

Não sei não, a discussão sobre a terra não pode ser apenas sobre o ranking do pais no mundo e muito menos sobre a capacidade do Brasil de produzir grãos, tem que ser sobre o pais que queremos, simples assim.

sábado, 1 de maio de 2010 18:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Comentarista de 01 de maio de 2010 18h37min00s. Quem seriam os "que queremos"? E qual "país" seria este?
Swamoro Songhay

domingo, 2 de maio de 2010 10:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Sabe o que sempre me estranha Alon, é que nunca, nunquinha mesmo, eu vejo na imprensa, ou de quaisquer jornalistas com 'opiniões relevantes', a apresentação de experiências bem sucedidas do MST. Então, eu que conheço uma variedades delas como técnico e profissional, portanto, algo além de minhas acepções ideológicas, (faço planejamento físico-territorial) vejo que todas essas análises são contaminadas por preconceitos ideológicos e também são extremamente superficiais, além do que, não percebem que dentro de um movimento tão amplo sempre há problemas e divergências de toda espécie. Assim, do mesmo modo, não se pode apregoar, por exemplo, a extinção do DEM pelas ações dos seus membros mais importantes como o Arruda, e o deputado do castelo, porém sobre o MST, sempre se cogita sua extinção nas formas da lei.
Sobre o isolamento político do movimento pelo fato de que nenhuma opinião política importante o defende, isso não é uma verdade inteira, veja o Blog do ex-ministro e insuspeitíssimo Bresser Pereira, que na ocasião do factóide dos laranjais da Cutrale se manifestou sobre o fato. Tem também o Senador Suplicy, entre outros que conhece bem o movimento e empreende a defesa dele.
De minha parte posso relatar suscintamente o conhecimento que tive sobre a rede de Comunas da Terra, uma experiência nova com tres assentamentos fincados nos interstícios entre área urbana e rural da metrópole paulistana, prova que esse suposto esgotamento da critatividade nas ações do movimento não se sutenta nesse caso, pois é dali, de um local inusitado nos termos da reforma agrária, é que se traçam os novos paradigmas de revolução social para quem pensa que a idéia está morta. A ação faz a conexão entre a incensada defesa do ambiente, a pequena produção agrícola e o sistema de comunas como a decorrência natural da exploração daquele território específico, qual seja, um lugar no coração de uma das maiores metrópoles do mundo capitalista, mas, tais ações passam em branco para a comunidade de informações da mídia.
Seria expressão do desinteresse, ou apenas a ocultação das boas experiências?
Ismar Curi

domingo, 2 de maio de 2010 12:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

domingo, 2 de maio de 2010 20:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Agronegócio na fronteira agrícula? Ah o desmatatamento é o que se pretende falar... Agronegócio moderno? Ah é o maior uso de "defensivos" agrículas no mundo e a trangenia (segura?)... Quem é o sustentável? Quem não apoia o MST é a favor destas modernidades?

domingo, 2 de maio de 2010 23:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Um título elucidativo este deste post de 30/04/2010 que você achou por bem denominar "O MST sem aliados".
O MST não é democrático. Pelo menos, o MST não é democrático se se toma por base a democracia representativa, pois reconhecem não dispor de força no Parlamento para ver a tese do movimento avançar. E não dá para o MST se por como defensor da democracia direta, pois sabem que a democracia direta não permite que todos se apresentam não servindo assim para atender os interesses do MST (Muito provavelmente em uma consulta direta mais aparecerá inimigos do MST). À democracia pode-se opor o autoritarismo ou a oligarquia. Creio que se pode tomar o MST como autoritário, mas não como oligarca.
O MST não é de esquerda, pois ele defende a propriedade individual. E o MST não é nacionalista, pois defende interesses mais universalistas.
Onde então em terras brasileiras o MST poderia encontrar aliados? Penso que o MST não pode sobreviver por esse ângulo. O MST só sobreviverá se ela se tornar de interesse do Brasil, ou talvez, como defensores de uma tese universalista, de interesse do mundo.
Penso que a defesa do MST se tornará interessante quando se perceber que o subsídio agrícola é um imperativo mundial. Sem subsídio agrícola, as melhores terras do mundo (Planície da China, da Rússia e Ucrânia, da Europa, dos Estados Unidos (As da Argentina e também as terras de muito boa qualidade na Índia com altos índices pluviométricos e com outras condições climáticas favoráveis só não faze parte por que sendo país pobres a diferença do ganho do campo em relação ao centros urbanos ainda não é tão elevado)) não conseguem se viabilizar economicamente. Quando o Brasil tiver o mesmo nível de renda atual da Europa, ninguém vai querer ser produtor rural sabendo que um pequeno armazém dá um retorno muito maior.
A produção de alimentos no mundo já é suficiente. O MST só se justifica como uma forma de se contrapor a emigração intensa que se verificou no Brasil nos últimos 60 (ou 50 se se considera que ela foi mais forte no período da ditadura militar) anos e que abarrotou de gente os grandes centros urbanos brasileiros sem nenhuma infra-estrutura. Embora aparentemente seja menos custoso construir infra-estrutura que atenda os grandes aglomerados nos mais importantes centros urbanos do país, penso que levar de volta para o campo grande parte desse emigrantes, subsidiando a produção dos novos proprietários agrícolas daria uma espaço maior no tempo e no lugar para se ter nos centros urbanos uma melhor estrutura de moradia, de água potável, esgotamento sanitário, energia e telecomunicações.
Como os agricultores brasileiros ainda pertencem a um tempo antigo em que se defendia o fim do subsídio agrícola europeu e americano, o MST não poderá contar com esse grupo. No momento inicial (Nos próximos dez anos), o MST só poderá contar com o apoio do governo. No futuro, talvez se juntem a eles os agricultores e pecuaristas que hoje são ferrenhos adversários do MST. A luta do MST é conquistar corações e mentes dos governantes.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 03/05/2010

segunda-feira, 3 de maio de 2010 14:03:00 BRT  

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