sexta-feira, 16 de abril de 2010

O bonzinho e o mauzinho (16/04)

Enquanto o “lunatic fringe” viaja na maionese, Lula opera na prática pela capitulação de Mahmoud Ahmadinejad. Mas honrosa. Tomara que desta vez o presidente acerte nos cálculos

Se Luiz Inácio Lula da Silva conseguir evitar as sanções do Conselho de Segurança (CS) da ONU ao Irã, o Brasil terá obtido uma linda vitória diplomática. Mas o CS só deixará de sancionar o Irã caso receba garantias definitivas de Teerã sobre o caráter pacífico do programa nuclear persa. E aí Barack Obama terá alcançado um belo triunfo estratégico, também pela via da diplomacia.

Parece paradoxal. Quanto mais o Brasil delimita o campo de ação, demarcando claras diferenças com os Estados Unidos, mais vincula seu destino ao do — teoricamente — adversário americano. Está em outra posição, jogando no mesmo time. Um ameaça morder, o outro assopra. Tipo os dois policiais na delegacia: o mauzinho e o bonzinho. Um assusta, o outro aconselha. E chegam até a desentender-se.

O quadro é só aparentemente paradoxal, pois faz sentido à luz do papel que o Brasil busca de tempos para cá. Esticar a corda, pero no mucho.

Minha descrição do cenário pode ser contestada? Sim. Há outras possibilidades, mais extremas.

Numa, o Conselho de Segurança prolonga o impasse até Israel e Estados Unidos penderem para a saída militar, com a simpatia velada (e a antipatia pública, naturalmente) dos demais aliados americanos no Oriente Próximo.

É impensável que a chancelaria brasileira esteja colocando suas fichas nesse desfecho, até pelas preocupações humanitárias externadas pelo ministro Celso Amorim.

Se sanções causariam grande sofrimento ao povo iraniano, mais ainda uma guerra. E que guerra!

No outro cenário irrealista, o Brasil avalia ser capaz de levar a Casa Branca a aceitar um Irã nuclear, contando que os americanos impedirão Israel de lançar o ataque preventivo contra os iranianos.

Há aqui uma contradição nas palavras das nossas autoridades.

Segundo Lula, o Brasil não deseja a nuclearização do Irã. Mas o vice-presidente da República defende que a bomba nas mãos do regime dos aiatolás seria algo positivo para eles e para o mundo, pelo suposto efeito de dissuasão.

É possível que José Alencar esteja dizendo o que outros gostariam de dizer, e não podem. Mas também é provável que a influência do vice sobre a pauta específica seja residual, como acontece por exemplo na política monetária. Quem sabe?

Lula tem certa característica bem conhecida: gosta de entreter e alimentar os portadores de soluções mirabolantes, num cultivar incessante da liderança, mas prefere saídas centristas.

Às vezes o público fica algo confuso, por causa da veemência verbal do presidente e de seu talento sindical para o teatro na mesa de negociações. Até que, plim!, o acordo aparece. Pelas mãos de Lula. De vez em quando o presidente escorrega, como em Honduras, mas não é a regra.

No caso iraniano Lula segue o script. Dá gás para a turma que sonha com a nossa bomba atômica, o pessoal que vê num Irã nuclear o ponto de inflexão para baixo da influência americana no Oriente Médio — e portanto no mundo.

Enquanto o “lunatic fringe” viaja na maionese, Lula opera na prática pela capitulação de Mahmoud Ahmadinejad. Mas honrosa.

Tomara que desta vez o presidente acerte nos cálculos.

Diagnóstico e prognóstico

Cadê a turma que apostou em Obama transformar-se rapidamente num morto-vivo, num pato manco da política interna e num joguete da política internacional?

Irã contra a parede, reforma da Saúde aprovada no Congresso, acordo de redução de mísseis com a Rússia fechado, permeabilidade chinesa para discutir a valorização da moeda, adesão dos emergentes à proposta americana de combate ao aquecimento global, economia em recuperação.

Tem gente que adora fazer diagnóstico quando deveria fazer prognóstico. Depois fingem que não é com eles.

Atenção. Esta nota é um diagnóstico, não um prognóstico.

Será?

Pareceria improvável, mas os movimentos dos pré-candidatos mantêm acesa a esperança de uma campanha eleitoral essencialmente programática.

“Pré-candidatos”? Decidi aderir à terminologia. É minha modesta contribuição ao cinismo nacional.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (16) no Correio Braziliense.

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9 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Um pouco da história da diplomacia brasileira dos “vira-latas”. E também como Obama parece estar adaptando a estratégia de Cliton no enfrentamento com o Irã

O Brasil já ocupou em situação semelhante a posição de mediador em conflitos regionais nucleares.

Vamos recordar à turma do “nunca antes” que em 1998 o Brasil foi bastante ativo nas tentativas de negociações dos conflitos entre Índia e Paquistão. O protagonismo brasileiro resultou de conversas de FHC com Clinton e do fato do Senado brasileiro na época sinalizar forte e positivamente a aprovação da mensagem presidencial apoiando o TNP, encaminhada ao Congresso em junho de 1997. Lula também poderia imitar nisso o que fez o antecessor, sinalizando posição favorável à assinatura do Protocolo do TNP.

As análises e as conclusões sobre se as iniciativas brasileiras nessas negociações foram ou não positivas, fica a cargo dos leitores interessados em prosseguir a pesquisa.

Rui Nogueira em reportagem da FSP de 10 de junho de 1998

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft10069801.htm

CORRIDA ARMAMENTISTA. Tratado de 91 com a Argentina será usado para tentar convencer Índia e Paquistão a cessar testes atômicos. Brasil exibe modelo para acordo nuclear

Na rivalidade nuclear entre indianos e paquistaneses, os países desenvolvidos e com arsenal atômico escolheram o subdesenvolvido Brasil para desempenhar uma dupla função: oferecer o acordo com a vizinha Argentina como modelo para negociar uma solução entre Índia e Paquistão e ASSUMIR PAPEL ATIVO nas negociações internacionais. [...]

O BRASIL GANHOU ESSA PROJEÇÃO POR TER RATIFICADO PRATICAMENTE TODOS OS TRATADOS DE CONTROLE DE PROGRAMAS DE PESQUISA NUCLEAR PARA FINS PACÍFICOS E BÉLICOS.

A proposta de usar o acordo nuclear Brasil-Argentina como modelo de negociação foi feita pela Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear), em Brasília, e levada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso ao governo norte-americano. OS EUA ENCAMINHARAM A PROPOSTA À AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), que reuniu segunda-feira, em Viena, a sua junta de governadores (órgão executivo).

O diretor-geral da AIEA, Mohamed al Baraddai, telefonou ontem para a Cnen e disse que a junta de governadores acatou a proposta brasileira como forma de estimular Índia e Paquistão a negociarem SEM A INTERFRÊNCIA DAS POTÊNCIAS que reclamam dos testes e AMEAÇAM COM SANÇÕES, mas têm armas nucleares -situação classificada pelo governo indiano de "hipócrita". [...]

Foi esse papel de bom moço na questão nuclear, que o Brasil vem desempenhando desde o governo Sarney (85-89), quando começou a ser desmontada a rivalidade nuclear com a Argentina, que levou agora o G-8 (grupo dos sete países mais ricos e Rússia) e a AIEA a empurrar o Itamaraty para o cenário da negociação internacional. Um papel que o governo brasileiro aceita de bom grado. [...]

Até chegar ao TNP, o Brasil assinou o acordo com a Argentina, o Tlatelolco (não-proliferação entre países latino-americanos), o Quatripartite (com a AIEA), o com o chamado "Clube de Londres" (que autoriza o país a ser supridor de materiais nucleares) e o MTCR (Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis).

A postura contra a pesquisa nuclear para fins bélicos foi reforçada no governo FHC com a decisão de assinar o TNP, o tratado que enfrentava a oposição mais organizada entre setores das Forças Armadas e da diplomacia. Esses setores consideram o TNP discriminatório -não acaba com o arsenal nuclear existente. [GRIFOS MEUS]

sexta-feira, 16 de abril de 2010 03:37:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Relembrando a história da ratificação do TNP pelos “vira-latas” de 1998.

O que diziam alguns militares da reserva vinculados ao golpe de 64 e à ditadura e contrários ao TNP.

Antes, um artigo de 2004 para efeito de comparação com uma reportagem da FSP de 1998 e uma declaração de Lula em 2002

Economia & Energia. Ano VIII -No 44: Maio-Junho 2004.

Othon L.P. da Silva. Empresário. Engenheiro Naval, Mecânico e Nuclear. Vice-Almirante da Reserva.

http://ecen.com/eee44/eee44p/inpecoes_nucleares_othon.htm

As inspeções nucleares no Brasil e o mictório público francês.

“No governo Fernando Henrique, contrariando décadas de coerência em política externa, o Brasil aceitou ratificar o TNP - Tratado de Não Proliferação nuclear.”

Mais a diante no artigo, Othon L.P. da Silva, empresário. engenheiro naval, mecânico e nuclear, vice-almirante da reserva, prossegue expondo com bastante franqueza o seu pensamento sobre as supostas intenções do império americano:

“A existência de artefatos nucleares de baixa potência com um vetor adequado de lançamento é um poderoso fator inibidor de concentração de forças, não sendo do agrado de paises que têm como opção estratégica a possibilidade de intervenção militar independente da aprovação do Conselho de Segurança da ONU.”

Isto é, se os EUA é um país com artefatos militares nucleares que age como o “fora da lei” que “tem como opção estratégica a possibilidade de intervenção militar independente da aprovação do Conselho de Segurança da ONU”, então é forçoso concluir que os EUA são uma ameaça efetiva à soberania brasileira, que precisa defender-se desses supostos bandidos que “tem como opção estratégica a possibilidade de intervenção militar independente da aprovação do Conselho de Segurança da ONU”. Portanto, seria somente demonstração de ingenuidade civil e sórdido entreguismo assinar o TNP e o protocolo porque esses tratados, além de reconhecerem a assimetria, nos impedem de fato e de direito de aplicar a tecnologia nuclear na fabricação de artefatos militares para uso “defensivo” contra os bandoleiros do norte. Nos impediram, por exemplo, de colocar ogivas nucleares “defensivas” nos mísseis dos nossos submarinos de propulsão nuclear.

Sigo com os outros exemplos em artigos anteriores de 2004 e que praticamente ativam contra a ratificação do TNP e a assinatura do Protocolo idênticos argumentos:

Militares brasileiros criticam assinatura de tratado [TNP] pelo país. FSP, 10/06/1998

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft10069802.htm

Os militares da ativa não falam por saber que estariam confrontando a política oficial do governo. Os da reserva falam e não têm dúvida: o Brasil comete um erro ao ratificar o TNP (Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares). [...]

"A ratificação desse acordo é o golpe de misericórdia na possibilidade de o Brasil liderar uma proposta que trate de forma igual todos os arsenais nucleares", disse o brigadeiro Ivan Frota.

"Dá para ver que a assinatura do TNP é uma papagaiada. E o mais grave é que o tratado quebra a tradição de um país jamais aceitar em acordos internacionais cláusulas discriminatórias", Bernardino Pontes, ex-comandante da Marinha

O candidato Lula em 13/09/2002, durante reunião com militares e ex-ministros do regime militar, criticou a ratificação do TNP. Há quem diga que foi só bravataria, retórica eleitoral oportunista. É? Quantos mil milhares (10.000.000?) de votos essa distinta plateia poderia render ao candidato? Sendo realista bonzinho, bem menos que isso. Talvez uns 20.0000 ou mesmo 100.0000 votos, se tanto.

"Só teria sentido esse tratado [TNP] se todos os países que já detêm [armas nucleares] abrissem mão das suas. Ora, por que um cidadão pede para eu me desarmar, para ficar com um estilingue, enquanto ele fica com um canhão para cima de mim? Qual a vantagem que levo? O Brasil só vai ser respeitado no mundo quando for forte econômica, tecnológica e militarmente." (Lula)

sexta-feira, 16 de abril de 2010 03:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Quanto ao Obama, certíssimo. Apesar da atmosfera quase religiosa que o ungiu à Casa Branca, o presidente americano tem se saído muito bem, principalmente em assuntos espinhosos. Enquanto por aqui há uma constante mitificação do líder, por lá, um chegou mito e, durante o governo, tem se mostrado um político pragmático e eficaz. Já sobre a questão iraniana, acho a hipótese aventada pelo post carregada de wishfull thinking, afinal inúmeras chances de diálogo foram dadas aos aiatolás, sem resultado prático algum, a não ser uma maior radicalização. Trata-se de um devaneio achar que nossa diplomacia seria capaz de dissuadir o Ahmadinejad de ter a bomba. Acho até que a declaração do vice serve para dar uma parâmetro das reais intenções do governo sobre o assunto.

Kbção

sexta-feira, 16 de abril de 2010 06:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Dê a China o que é da China.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/06/2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010 07:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Honduras lembra que a derrota foi prestidigitação midiática.Hoje aquele país centro-americano,reduziu-se a dimensões menores do que no tempo de Zelaya.
Voltou a ser uma "banana republic",legítima.Uma forte candidata a "Porto Rico".
Você também se confundiu? É a técnica de Lula.Comparação com Garrincha é cada vez mais recorrente.As pernas parecem indicar uma direção e o deslocamento se dá noutro sentido.
Pena que o espetáculo está terminando e não tem bis.

sexta-feira, 16 de abril de 2010 09:33:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Para que não pairem dúvidas sobre as declarações de Lula em 2002, segue o link com reportagem da FSP.

"Petista critica adesão ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear e defende serviço militar obrigatório.”

Nessas declarações de Lula, a origem da retórica do estilingue:

“Sou de paz e amor. Quero uma sociedade mais justa. O Brasil deveria ter exigido que os países que detêm [armas nucleares] abrissem mão das suas. Por que só os países em desenvolvimento têm de ficar com um estilingue?" (Lula) [...]

Seis ex-ministros do regime militar participaram do encontro: Aureliano Chaves (Minas e Energia e vice-presidente de 1979 a 1985), Alfredo Karam (Marinha), Carlos Tinoco (Exército), Leônidas Pires Gonçalves (Exército), Ivan Mendes (Serviço Nacional de Informações) e Gibson Barbosa (Relações Exteriores). [...]

"Disse exatamente o que eu esperava. Foi claro nas propostas", disse Leônidas Pires Gonçalves.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1409200212.htm

sexta-feira, 16 de abril de 2010 12:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Poucas vezes eu vi um texto tão ousado, original e criativo.

sexta-feira, 16 de abril de 2010 16:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Em meu comentário de 16/04/2010 às 07h56min00s BRT eu quis ser tão sucinto que deixei de crasear o "a". Corrigindo tem-se:
"Dê à China o que é da China".
Quanto ao complemento você é quem escolhe.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/06/2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010 22:59:00 BRT  
Blogger pait disse...

Concordo, mas acho que você está subestimando a irracionalidade e incompetência dos wingnuts (já que é para usar um anglicismo, esse é mais conciso e inimitável do que lunatic fringe), que regem o Itamaraty e os "think tanks" petistas. Como tem gente (não você) que subestima o bom senso e habilidade do Lula. Se der certo, vai ser uma vitória incrível do Lula sobre os wingnuts.

sábado, 17 de abril de 2010 12:45:00 BRT  

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