domingo, 25 de abril de 2010

O amigo dos inimigos (25/04)

Ciro não percebeu os sinais de que o segundo mandato marcaria uma flexão importante na política de alianças de Lula: o lugar à direita de sua excelência estaria reservado não para animar os dispostos a lhe fazer o bem, mas para demover quem ameaçasse fazer-lhe o mal

Ciro Gomes é a enésima vítima de um sistema eleitoral cuidadosamente concebido para transformar a política brasileira nesta confederação de cartórios esclerosados. Oferecido pelo PSB na mesa de câmbio das negociações paroquiais, das pequenas ambições e do apetite exacerbado pelas miudezas, o razoável seria Ciro concorrer à Presidência por outro partido, ou como independente.

Não vai acontecer, porque o monopólio da política por legendas desobrigadas de praticar qualquer democracia interna foi no Brasil transformado em virtude.

Prazos de desincompatibilização, prazos de filiação, fidelidade partidária, proibição de propaganda paga nos veículos de comunicação, proibição de arrecadar recursos se você não for dono de partido (antes do “início oficial” da campanha), exigência de filiação partidária para concorrer. Todos remédios certificados para curar, mas que vão levando à morte do paciente na mão do neocoronelismo.

Houvesse uma Anvisa para o setor, os alquimistas da politicagem nacional estariam em péssimos lençóis.

Mas esta coluna não é sobre reforma política, é sobre Ciro Gomes e suas circunstâncias. Até 1994 ele teve uma carreira política brilhante. Em pouco mais de uma década já percorrera as posições de deputado estadual, prefeito de Fortaleza, governador do Ceará e ministro da Fazenda. Rompeu com o PSDB no início do governo Fernando Henrique e foi para o PPS. Conseguiu 10% dos votos na eleição presidencial de 1998, garantindo fôlego para disputar quatro anos depois com chances no primeiro turno — e participando decisivamente da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno.

Ciro entrou no governo Lula e esteve na linha de frente da batalha da reeleição. Ali cometeu o primeiro erro realmente grave. Não percebeu os sinais de que o segundo mandato marcaria uma flexão importante na política de alianças do presidente: o lugar à direita de sua excelência estaria agora reservado não para animar os dispostos a lhe fazer o bem, mas para demover quem ameaçasse fazer-lhe o mal. O velho ditado de manter os inimigos mais por perto ainda.

Se a flexão era mesmo necessária, Lula operou-a de maneira tosca e amadora, detalhe surpreendente num profissional da política. O presidente vem deixando um a um os aliados históricos (uso aqui o termo com alguma flexibilidade) sucumbirem em batalhas desiguais e desmoralizantes contra os neoamigos, refregas sempre temperadas por convenientes vazamentos palacianos sobre as “preferências pessoais” e a “torcida” do presidente. E sobre a “tristeza” após cada infeliz desfecho.

São as únicas batalhas que Lula “perde”. Nas demais ele sempre tenta a vitória com a faca nos dentes.

Descartada a candidatura, o quase ex-presidenciável Ciro Gomes tem hoje dois problemas.

O PT ameaça colocar em marcha o projeto de demolir o grupo dele no Ceará, caso Ciro não se junte à operação para liquidar a carreira política de Tasso Jereissati. É uma das muitas metas de Lula nesta eleição. Como Tasso e Ciro são — aí sim — aliados históricos, ao ponto de o tucano Tasso ter largado a candidatura presidencial de José Serra em 2002 para apoiar o parceiro, é coisa que Ciro não fará.

O segundo problema de Ciro é ter dinamitado as pontes com o outro lado. Num sistema linear de pensamento, isso deveria ter engordado seu cacife com o presidente. Mas diminuiu. Ao menos por enquanto, Ciro só tem bala para fazer mal a Lula em discursos. Coisa que pode ser facilmente neutralizada com os vazamentos de sempre, difundindo-se como Lula está “triste”, “chateado” ou “irritado”.

Um belo cardápio de supostos estados de espírito.

Alienação

De todo modo, Ciro presta pelo menos um serviço ao país nesta saída, ao advertir para os riscos da situação cambial.

O Banco Central dá sinais de que vai subir para valer o juro básico nos próximos meses. A medida irá acelerar a deterioração das contas externas e agravar nossa dependência dos investimentos diretos do exterior. Ou seja, da alienação de ativos para o exterior.

Enquanto isso, Lula discursa sobre o patriotismo do seu governo e o chanceler cuida de produzir factoides para preencher o noticiário.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (25) no Correio Braziliense.

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8 Comentários:

Blogger pait disse...

Não sei se a flexão do Lula foi realmente tosca e amadora como você argumenta. Acho que foi a escolha necessária por que as posições dos aliados históricos do PT são insustentáveis. Sem as costuras do Lula, teriam dado em desastre. Perder aliados como o Ciro Gomes foi o custo do sucesso.

Outra discordância, também respeitosamente: acredito que a economia está no caminho da inflação. Ou o executivo corta despesas, ou o Banco Central aumenta os juros, ou volta nossa velha conhecida. O corte de despesas, duvido que ocorra: a política anti-cíclica da União era conversa fiada, foi tudo pura gastança. A opção pela dependência dos investimentos estrangeiros foi do governo federal, não do Banco Central.

Vamos esperar para ver quem tem razão.

domingo, 25 de abril de 2010 11:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Não vou dizer que discordo do seu post "O amigo dos inimigos" de 25/04/2010. Este, como todos os seus posts, é bem escrito, com ótimo relato jornalístico e possui uma ideologia democrata nacionalista de esquerda que eu também imagino esposar. Às vezes, entretanto, parece-me que há um algo de excesso ou um acréscimo em falta.
Você diz que:
"Rompeu com o PSDB no início do governo Fernando Henrique e foi para o PPS. Conseguiu 10% dos votos na eleição presidencial de 1998, garantindo fôlego para disputar quatro anos depois com chances no primeiro turno — e participando decisivamente da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno".
Essas duas frases, embora corretas, omitiram dois fatos importantes. Primeiro quando (em uma data mais exata do que no início do governo de FHC) e por que o Ciro Gomes rompeu com o PSDB. E segundo porque Ciro Gomes que ganhara fôlego para disputar com sucesso a eleição de 1998 não saíra melhor na eleição.
Como eu afirmei em comentário enviado em 01/04/2010 às 12h58min00s BRT para o seu post "Plateia sábia" de 01/04/2010 (/2010/04/plateia-sabia-0104.html) Lula deve muito mais a José Serra do que a Ciro Gomes pela vitória dele em 2002, pois quem se desgastara para fazer a crítica de Ciro Gomes, quando esse subira na pesquisa, fora José Serra. Se não fosse o tremendo esforço de José Serra em mostrar o quanto o discurso de Ciro Gomes não era em base factual, provavelmente Lula com o alto índice de rejeição do povo para com o PT não tivesse sido eleito.
E Ciro Gomes saíra do PSDB em 1996 quando percebera que a intenção do governo era aprovar a reeleição e manter em São Paulo o domínio da política brasileira.
É claro que com o apoio de Lula ele seria hoje o candidato mais forte. Não há razão, entretanto, para o PT aceitá-lo como candidato do PT.
Os que fizeram o Plano Cruzado e o Plano Real tem uma dívida com o Brasil. O Plano Cruzado felizmente não deu certo e a maioria pagou a dívida com o próprio revés do Plano. O Plano Real, entretanto, deu certo, dependendo do que se considere dar certo. Há, entretanto, o que eu chamo de vingança de Modigliani (Dizem que quando André Lara Resende apresentara uma forma de acabar com a inflação sem muito esforço, Modigliani teria dito que se fosse tão fácil assim nunca se acabaria com a inflação, pois sempre se a estaria trazendo de volta para poder acabar com ela). Itamar Franco vai-se acabando na política, restando para ele a expectativa de ser o plano B para a disputa eleitoral em Minas. Rubem Ricúpero foi engolido pela Parabólica, Ciro Gomes está desaparecendo devagarinho. E Fernando Henrique Cardoso fica medindo força para ver quem sabe mais com quem muitos vangloriam de chamar apedeuta.
E não entendi o que você quis dizer com "e o chanceler cuida de produzir factoides para preencher o noticiário". De que se está falando nessa frase?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/04/2010

domingo, 25 de abril de 2010 18:02:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Assino este comentário do Pait

"Outra discordância, também respeitosamente: acredito que a economia está no caminho da inflação. Ou o executivo corta despesas, ou o Banco Central aumenta os juros, ou volta nossa velha conhecida. O corte de despesas, duvido que ocorra: a política anti-cíclica da União era conversa fiada, foi tudo pura gastança. A opção pela dependência dos investimentos estrangeiros foi do governo federal, não do Banco Central."

O governo não vai cortar, logo, empurra para o BC o papel de bandido nessa história que não tem mocinho

Queria saber como os R$ 180 bilhões (liberaram os outros R$ 100 bilhões, que faria o total subir para R$ 280 bilhões?) tomados a preço de mercado que o tesouro enfiou no BNDES para repassar a maioria a grandes empresários com subsídio vai retornar ao tesouro. De concreto, já tem um frigorífico que quebrou três meses após pegar a metade dos R$ 460 milhões liberados pelo banco. A isso dá-se o nome de esqueletos contabilmente escondidos nos armários do BNDES.

A diferença de custo da montanha de dinheiro no tomado pelo tesouro e repassado ao BNDES que subsidia, como vai voltar ao Tesouro. Qual a mágica? O Fundo do BNDES é o FAT, remunerado com as mesmas taxas praticadas pelo Banco. Mas o que acontece quando o tesouro entra para capitalizar o banco?

E a Petrobras, quem vai capitalizar? O BNDES? Qual a garantia? O petróleo do pré-sal? Então por que não fazer um leilão dos 5 bilhões de barrias e por dinheiro de verdade na Petrobras?

PS.: Sou totalmente contra que o governo capitalize a Petrobras. Nossas urgências são outras. A Petrobras já é grandinha o suficiente para caminhar sozinha sem precisar que a mamãe Estado segure a sua mãozona.

segunda-feira, 26 de abril de 2010 02:30:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

O grande erro que Ciro cometeu agora foi não ter sido candidato ao governo paulista com apoio do PT e vários partidos. Ganhando ou perdendo ganharia força para ser junto com Aécio representar a oposição ao governo Dilma. O que falta a Ciro (agregar), Cid irmão dele tem de sobra. Talvez dispute sozinho aqui no Ceará, quase todos os partidos lhe apoia. Ah, e não escuto ninguem falar que é antidemocrático!

segunda-feira, 26 de abril de 2010 07:41:00 BRT  
Anonymous Marcelo Silber disse...

Alon

Sou o Dr Marcelo Silber, Pediatra do Einstein, Vice Presidente do CAOC em 1984, na gestão do Walter e Celsinho (remember??) bons tempos !!!!
Acompanho a sua carreira e gosto muito da sua analise política,preciosa, pois você não tem o "rabo preso" e isso faz toda a diferença...
Alon, Ciro não percebeu que para Lula e o PT nunca foi considerado "da turma" e sempre foi escalado para fazer o "serviço de salsicharia" ou seja ataques pesados a FHC e Serra.
Acho hoje que José Serra vencerá a eleição com tranquilidade e
discordo apenas que Ciro não tenha mantido "pontes". Seu relacionamento com Alckmin e Aécio é excelente. Acho que Ciro será bem moderado na oposição a Serra e terá papel relevante no futuro político do Brasil
Grande abraço!!!

segunda-feira, 26 de abril de 2010 12:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Já sou prolixo e difuso o suficiente para não me fazer entender e com os erros aí eu me torno incompreensível. Faço então o acerto na frase a seguir que no meu comentário de 25/04/2010 às 18h02min00s BRT teve o ano de 2002 alterado para 1998. Alterando-a, a frase fica:
"Essas duas frases, embora corretas, omitiram dois fatos importantes. Primeiro quando (em uma data mais exata do que no início do governo de FHC) e por que o Ciro Gomes rompeu com o PSDB? E segundo, por que Ciro Gomes que ganhara fôlego para disputar com sucesso a eleição de 2002 não saíra melhor na eleição?"
E sobre o tema da inflação, aproveito para repetir um pitaco que eu coloquei lá no seu post "Ladeira abaixo" de 30/03/2009 (/2009/03/ladeira-abaixo-3003.html). Disse eu lá em comentário enviado em 31/03/2009 às 21h59min00s BRT para apresentar uma forma de se entender a atuação do Banco Central:
"E há uma terceira forma que seria acompanhar a subserviência do Banco Central à vontade do presidente nos últimos 6 anos do governo Lula.
Assim, no segundo semestre de 2003, o governo mandou o Banco Central baixar bastante o juro porque o governo precisava se fortalecer nas eleições de 2004. Dito e feito, o Banco Central baixou o juro em uma taxa mais rápida do que o que se tem hoje, embora ele tenha começado a baixar o juro no segundo semestre, contando, portanto, com um tempo mais curto. Quando o crescimento de 2004 já estava assegurado o governo mandou o Banco Central subir o juro novamente. O mesmo governo, em abril de 2008, ali enquanto o Banco Central relutava em aumentar o juro, definiu o que era inflação de tal forma que o povo entendesse: “a desgraça da inflação” e não fazendo uso do enunciado catedrático, mas provavelmente falso dos tucanos: “a inflação é o mais injusto dos impostos”. A fala de Lula era a senha para a subida de juro, que só agora em 2009 começa a cair".
Falei no meu comentário de 25/04/2010 às 18h02min00s BRT sobre a "vingança de Modigliani". Não é só para os políticos. Ela atinge todos os comentaristas econômicos que, ao elogiarem o Plano Real, esquecem o quanto é bom para o Presidente da República ter um Banco Central fingidamente autônomo para recair sobre o Banco Central todo o ônus do combate à inflação. E, em um país de potencial de crescimento econômico elevado como é o Brasil, havendo crescimento, mas a inflação não aparece (Pela subida do juro na dosagem certa) todo o bônus fica para os índices de popularidade do presidente da República. Não importa de quanto se aumentou a dívida pública.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/04/2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010 13:08:00 BRT  
Anonymous Alexandre Porto disse...

"Ciro entrou no governo Lula e esteve na linha de frente da batalha da reeleição. Ali cometeu o primeiro erro realmente grave. Não percebeu os sinais de que o segundo mandato marcaria uma flexão importante na política de alianças do presidente."

Há um engano.
Ciro percebeu sim e foi ali seu primeiro grande erro.

Ele percebeu e resolveu sair do governo para virar parlamentar. Poderia ter um ministério de maior visibilidade e dali formular uma frente de partidos com o PSB. Tentou fazer isso na Câmara, o tal Bloquinho, que teve como ponto alto as eleições para presidência da casa, quando apoiaram Aldo Rebelo. Mas nas eleições de 2008 não soube ou não se quis liderar o bloco e formar as alianças regionais. O resultado é que o Bloquinho se fraturou e ele perdeu seu único ponto de apoio, já que continuava seu enfrentamento com o PT. As violentas agressões à prefeita de Fortaleza Luziana Lins naquele pleito são comenbtados até hoje nos debates do partido. Ao mesmo tempo em que se deslocava do governo não se apresentou como uma liderança parlamentar viável, nunca negou que tem dificuldades com a vida parlamentar. Lula dizia o mesmo na Constituinte.

Como escreveu bem o Ricardo Noblat:

"Na verdade, Ciro contava com a boa vontade de Lula para lhe ceder alguns pequenos partidos de modo a que ele pudesse dispor de tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão como candidato a presidente."

Eu concordo e considero um erro grave. O PT, ao contrário do que afirma o deputado, apoia o PSB em vários estados e não vincula esse apoio ao fim de sua candidatura. Ontem mesmo em PE o apoio foi anunciado formalmente. Há problemas em alguns estados, mais relacionados à fartura de candidatos aliados que a Ciro.

segunda-feira, 26 de abril de 2010 15:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alexandre Porto (26/04/2010 às 15h53min00s BRT),
Eu concordo com você. Mas será que não há alguma coisa errada nesse sistema em que dois anos antes da eleição já se soubesse quem iria disputá-la? E também não parece haver algo estranho quando a direita não se faz representar? E também não há algo de estranho quando São Paulo que concorreu com 5 candidatos em 89 hoje só tenha um?
E não há algo de estranho quando se acompanha a sina de Itamar Franco em 1998 e verifica-se que ela é igual a sina de Ciro Gomes em 2010? Quem foi mais habilidoso: Lula ou FHC ou a pergunta não deveria ser outra: quem foi mais forte FHC ou Lula? Ou a pergunta não deveria ser como um presidente como FHC cujo partido tinha tudo para acabar conseguiu dominar a política brasileira, ou então como um presidente como Lula cujo partido tinha mais de 50% de rejeição do eleitorado consegui dominar a política brasileira a esse ponto? Só com o juro alto?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/04/2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010 20:52:00 BRT  

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