quinta-feira, 29 de abril de 2010

A nova dependência (29/04)

Este ano o Brasil exigirá do exterior em torno de US$ 50 bilhões para fechar as contas. Como nossa balança comercial patina, o buraco será coberto por investimentos diretos. Em vez de estarmos pendurados em credores, agora precisamos desesperadamente de sócios

O artigo semanal do ex-ministro Delfim Netto ontem na Folha de S. Paulo finalizava assim: “Deficits fiscais produzidos por políticas distributivas exageradas, aumentos cumulativos automáticos de despesas de custeio que sacrificam os investimentos públicos e câmbio valorizado são uma boa receita para transformar a alegria de curto prazo em tragédia grega no longo prazo”.

O recado está no duplo sentido do “grega”: a crise hoje é na Grécia (e outros da periferia europeia), mas teatro grego pode ser praticado em todo lugar. Inclusive aqui.

Este fim de governo Luiz Inácio Lula da Silva tem cacoetes do crepúsculo do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Para efeito político-eleitoral anda tudo maravilhosamente bem. Os problemas? Ficarão adormecidos até a posse do novo presidente (ou presidenta). Na campanha ninguém será espírito de porco, ou trouxa, de estragar o oba-oba.

O governo não tem interesse em refletir sobre se — e quanto — as aspas do texto de Delfim podem um dia vir pintadas de verde e amarelo. E a oposição não vai entrar nessa, pois seria atacada por Lula. Provavelmente com discursos dirigidos a quem, no mundo virtual que sua excelência construiu para si, “torce contra o Brasil”. Para ficar mais parecido ainda com FHC I, Lula II poderia, quem sabe?, usar doravante a expressão “fracassomaníacos”.

FHC semiocultou do país o estado real da economia quando lutava pela reeleição. E o governo do PT finge que está tudo ok para não atrapalhar a caminhada da ex-ministra Dilma Rousseff.

Há sim uma diferença essencial entre os dois cenários. Hoje o país tem reservas, que não havia na época. Não corremos o risco de quebrar e de precisar sair por aí atrás de dólares. Mas reservas não são tudo. Se o estoque delas é bom, o fluxo das contas externas vai mal. E quando o fluxo não ajuda, não há estoque que segure a onda indefinidamente. Numa família, empresa ou país.

Este ano, o Brasil demandará algo como US$ 50 bilhões de dinheiro de fora para fechar as contas. Como nossa balança comercial patina, o buraco será coberto por investimentos diretos. É uma nova modalidade de dependência: em vez de estarmos pendurados em credores, agora buscamos desesperadamente sócios.

Ser nosso sócio tem sido uma boa. A demanda anda forte e sempre existe a opção de fazer a festa no mercado financeiro, ou na bolsa.

Mas a situação traz também problemas. Inclusive num terreno caro ao presidente da República: nossa soberania. A China, por exemplo, tem condições de sustentar melhor que nós disputas com os Estados Unidos. Já o Brasil esbraveja nos fóruns internacionais e faz cara feia para Washington, mas depende de dinheiro americano para fechar as contas. Com todas as consequências.

No caso do Irã a Petrobras já pisa miudinho. E empresas brasileiras têm recusado pedidos iranianos de investimento. Empresas importantes.

Quando a autodeterminação deixa de ser só um princípio? Quando o país tem meios para praticá-la.

Código Florestal

O debate sobre as mudanças no Código Florestal segue aceso, uma queimada em plena Câmara dos Deputados. Mas além do calor ele poderá trazer também luz. Os deputados articulam convites para os presidenciáveis irem à comissão especial que cuida do tema.

Seria uma bela oportunidade para José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva ficarem expostos durante horas a todo tipo de pergunta sobre a pauta do desenvolvimento sustentável. Seria também uma demonstração de amadurecimento.

É difícil acontecer, mas não custa torcer para que aconteça.

Pressão

“Talvez não seja necessário, talvez eles mesmo entendam a necessidade de recuar.” Foi o que disse o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), quando perguntei se haverá intervenção no diretório estadual do Maranhão.

O PT nacional quer a aliança com a governadora Roseana Sarney (PMDB). O local decidiu pela coligação com Flávio Dino (PCdoB).

Se o PT achegar-se aos Sarney, será preciso observar se — e quanto — o PCdoB resistirá ao rolo compressor do Palácio do Planalto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (29) no Correio Braziliense.

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11 Comentários:

Anonymous NPTO disse...

Mas porque as reservas precisariam durar indefinidamente? Elas só precisam suavizar o processo de desvalorização do Real, não?

Até concordo com o Delfim da necessidade de segurar a expansão dos gastos, concordo com o editorial da Folha dizendo que precisamos melhorar as condições para as empresas brasileiras se tornarem mais produtivas, mas concordo com essas coisas porque elas são importantes em si, não porque são necessárias para evitar o apocalipse maia de 2012.

Os proponentes da tese da doença holandesa, ou da crise iminente, precisam mostrar que o desequilíbrio atual não tem como ser corrigido com os mecanismos usuais. Aí sim, temos uma crise em mãos. Mas ainda não vi nada disso muito bem estabelecido.

Se alguém souber de um texto mais analítico provando o contrário, agradeço pela recomendação.

quinta-feira, 29 de abril de 2010 13:44:00 BRT  
Anonymous Marc disse...

Alon, nós (POVO) sabemos que não existe o paraíso e que sempre haverá dificuldades durante a nossa vida, a tua e deles. Portanto não se iluda pensando que a gente não sabe que sempre teremos dificuldades a enfrentar. Ou você pensa que vamos acreditar nas promessas de quem entregou o país bem pior do que é hoje? Acorda, e caminha no meio da massa, a massa fedorenta porque da cheirosa tu és parte.

quinta-feira, 29 de abril de 2010 13:59:00 BRT  
Anonymous Ivanisa Teitelroit Martins disse...

Alon, que viva o PC do B. E que o PT do Maranhão resista!

quinta-feira, 29 de abril de 2010 14:44:00 BRT  
Blogger Alexandre disse...

Vc quer comparar um déficit de 2,5% do PIB e U$ 250 bi de reservas com o cenário de FHC 1.0 quando foram 4 anos seguidos de déficts na casa dos 5% do PIB (além de déficts primários) e sem reservas? Só pode ser falta de memória.

quinta-feira, 29 de abril de 2010 17:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Concordo com a parte inicial do seu post "A nova dependência" de 29/04/2010. Ontem, ou melhor, hoje em um comentário enviado em 29/04/2010 às 01:10 para o post "As propostas econômicas de Serra" de 28/04/2010 às 09:35 no blog do Luis Nassif eu transcrevi esse final do artigo de Delfim Netto.
Penso, entretanto, que eu tenho esse direito, pois venho fazendo essa crítica ainda antes do real ser lançado. Ainda na URV eu já prognosticava que se o real ficasse amarrado ao dólar levaria o Brasil para o buraco.
Ontem eu também lembrava que sem o real FHC não teria sido eleito. E é claro, a única possibilidade de se eleger Dilma Rousseff foi o governo ter dado a guinada no início do ano passado e colocado todas as fichas no crescimento puxado pelo mercado interno. E insistia que o discurso correto em 1994 para lema de campanha seria: “É o câmbio idiota”. E que ele também poderia ser repetido em 1998. E que ele seria o discurso correto agora. Em todos esses momentos, entretanto, ninguém queria ouvir esse discurso. E agora também, ninguém ouvirá. Clever Mendes de Oliveira
BH, 29/04/2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010 21:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Eu digo que eu tenho o direito de falar mal da valorização cambial porque eu critiquei o Plano Real por querer acabar com a inflação no supetão, eu critiquei fazer um plano em ano de eleição e critiquei fazer um plano em época de eleição para eleger um presidente e critiquei fazer um plano em época de eleição para eleger um presidente que não fora sequer presidente de um grêmio recreativo. Fiz a crítica por motivos políticos (Penso que esses planos tal qual uma invasão como a que Bush fez no Iraque anestesiam o eleitorado e a discussão política é interditada, ou melhor, não alcança um eleitorado hipnotizado, anestesiado), mas também por motivos econômicos. Mesmo sendo leigo eu sabia que o Plano precisaria de uma valorização da moeda para segurar a inflação e isso seria nocivo ao país.
E tenho esse direito de criticar a valorização atual do real porque fui contra a emenda da reeleição porque além de ser contra a reeleição sabia que para ela ser aprovada e para assegurar a reeleição de FHC seria preciso que o governo mantivesse valorizado o real.
Agora, quando fica todo mundo esbravejando contra o câmbio sem mencionar os efeitos políticos dele e sem mencionar que esse problema acentuou-se com o advento da reeleição e com o fortalecimento do presidente da República em decorrência de ser reeleito e que esse fortalecimento cria nele a perspectiva de fazer o sucessor e, portanto, buscar nos cofres públicos (Dívida pública) todo o poderio para eleger o sucessor, eu venho, e aqui eu me valho de vocábulo de sua lavra, para interditar esse debate.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 29/04/2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010 22:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Tem um detalhe que você poderia incluir na sua interpretação da análise delfiniana, que se refere à culpa que a oposição tem em tudo isso, qual seja: a derrubada da CPMF, a mais justa de todas as taxas, foram 40 bilhões pelo ralo. Ou então, noves fora nada, seria apenas dez bi para alavancar, e não mais cinquentinha.
De qualquer forma não posso concordar com você em igular os termos FHC/LULA. Sem ser economista vemos 'a olhos vistos' que o desenvolvimento econômico veio para ficar, o que dilui muito esse problema de contas a pagar.
Ismar Curi

quinta-feira, 29 de abril de 2010 23:42:00 BRT  
Anonymous Lucas Jerzy Portela disse...

Lula tentou rifar a Bahia também, forçando o ultra-carlista César Borges para dentro da chapa de reeleição de Wagner. Com seus lances de Go peculiares, Wagner conseguiu fazer a idéia naufragar.

A Bahia resistiu a rifa. O Maranhão, nosso estado-caçula, também resistirá. Com fé em São José de Ribamar e nos pandeirões da Maioba!

sexta-feira, 30 de abril de 2010 07:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ismar Curi (29/04/2010 às 23h42min00s BRT),
Não levo muito a ferro e fogo a idéia de o superávit fiscal ser condição para se ter saldo na Balança Comercial que é o que o dólar valorizado nos leva, mesmo sabendo que um saldo na Balança Comercial requer mais poupança interna e que pode ser obtida mediante redução no consumo público. Não resta dúvida, entretanto, que um superávit fiscal é de grande ajuda para aumentar a poupança interna. E eu só defendo o superávit fiscal quando ele é obtido mediante o aumento da receita. E a CPMF é um bom mecanismo para aumentar a receita.
Enfim, este post é para concordar com você e salientar que foi importante você mencionar isso aqui neste post “A nova dependência” de 29/04/2010 e agora nessa época de eleição. Em minha luta pelo saldo na Balança Comercial, eu sempre defendi a ajuda para se conseguir esse saldo que o aumento de receita pode trazer, começando por tributar as exportações dos produtos primários e semi-elaborados e nunca descartei a CPMF.
E a CPMF tinha uma qualidade para criar a poupança interna e uma outra qualidade para administrar a valorização do dólar. A CPMF inibe o consumo. E a CPMF é uma espécie de IOF na saída e na entrada de recursos do exterior. A fuga de dólares que iniciou-se no primeiro semestre de 2008 e teve seu apogeu no segundo semestre seria diminuída se a CPMF existisse naquela época e tinha a vantagem de trazer mais recursos para os cofres públicos ao incidir nos que mandassem o dinheiro para fora.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/04/2010

sexta-feira, 30 de abril de 2010 13:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

NPTO (29/04/2010 às 13h44min00s BRT),
Provavelmente aqui no blog do Alon Feuerwerker eu já tenha feito algum comentário em que, parodiando a frase do PSDB “governo bom fica governo ruim o povo tira”, frase que eu não levo a sério, eu tenha afirmado que:
“Governo bom forma reservas, governo ruim as destrói”.
E acrescentava para mostrar um paradoxo que há em relação às reservas a seguinte frase:
“E as reservas são para inglês ver”
São para inglês ver porque não são para serem usadas. Deveriam ser formadas para enfrentar uma hecatombe, mas mesmo essa possibilidade é muito rara. Se são usadas revelam que há um problema no país, ou seja, revelam um mau governante.
É claro que ninguém é ruim sozinho. Se o governo Lula tivesse aprovado a CPMF agora talvez se estivesse mandando menos recursos para o exterior. Em sendo assim, a ruindade é do governo ou da oposição?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/04/2010

sexta-feira, 30 de abril de 2010 13:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Comentário de quinta-feira, 29 de abril de 2010 13h59min00s BRT. Dificuldades que têm de ser enfrentadas pela sociedade como um todo e não por quem que queira arvorar-se no papel de condutor. A forma estabelecida da sociedade manifestar-se, participar e influir é a representativa, com aspectos de democracia direta, referendo e plebiscito. Contudo, não há prescrição alguma de estruturas sobrepostas ao Executivo, Legislativo e Judiciário.
Swamoro Songhay

domingo, 2 de maio de 2010 11:06:00 BRT  

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