quarta-feira, 7 de abril de 2010

Na situação do remador (07/04)

Até agora, o discurso de Lula era suficiente para manter nosso presidente em pé no fio de arame nuclear. Nas novas circunstâncias, num jogo cada dia mais complexo, talvez o cenário esteja a pedir um upgrade

Barack Obama vem dando passos importantes para o mundo livrar-se um dia das armas nucleares. Fechou com a Rússia a redução bilateral de arsenais. E lançou uma nova doutrina de defesa. Na qual três pontos merecem destaque.

Os Estados Unidos renunciam ao desenvolvimento de novas ogivas. Renunciam a empregar artefatos nucleares contra países signatários do Tratado de Não Proliferação (TNP) — e que, naturalmente, estejam cumprindo o TNP. E comprometem-se a não usar a bomba se forem atacados com armas convencionais, químicas ou biológicas.

É um estímulo a que países adiram e se mantenham dentro do TNP. E um passo para reforçar o protagonismo americano no debate planetário sobre o desarmamento.

Há dois caminhos possíveis, na teoria, para alcançar um mundo desnuclearizado.

O primeiro é congelar o status quo e forçar os detentores da tecnologia nuclear com fins bélicos a, progressivamente, renunciarem ao uso.

O segundo é apostar na proliferação como caminho para a distribuição mais justa do poder nuclear, o que eventualmente geraria uma nova modalidade, multipolar, do “equilíbrio do terror” que caracterizou a Guerra Fria.

O Brasil namora a segunda hipótese, sem que explique exatamente a razão. Não temos contencioso territorial com vizinhos. Não temos vizinhos cuja capacidade convencional seja ameaça real a nossa soberania. E não haveria como competir nesse terreno com os Estados Unidos para, hipoteticamente, equilibrarmos a relação de forças com eles.

Para complicar, um mundo em que a proliferação vire regra não é aceitável pelas demais potências, pelo receio de a tecnologia cair na mão de grupos terroristas. É o medo de surgir um “desequilíbrio do terror”.

Ainda que possa haver entre nós quem enxergue o terrorismo de matriz global como “aliado tático na luta anti-imperialista”, esse viés não recolhe, aqui dentro ou lá fora, a simpatia de ninguém com peso específico para influir nas decisões, locais ou mundiais.

É possível relativizar a decisão americana? Claro. Se o fator limitante da nova situação de forças for somente a capacidade convencional, a vantagem dos Estados Unidos provavelmente vai crescer, em vez de diminuir.

Há aqui duas constatações: não se faz omelete sem quebrar ovos e o serviço do presidente dos Estados Unidos é defender os interesses dos Estados Unidos. Como o do Brasil é defender os do Brasil.

Isso talvez surpreenda quem supunha ser Barack Obama uma modalidade estadunidense de Mikhail Gorbatchev. O establishment americano está a (muitos) anos-luz do estágio de degradação da elite soviética quando esta assistiu impotente ao colapso de seu país.

Em termos práticos, e no que interessa a nós diretamente, estreita-se a margem para dubiedades. Luiz Inácio Lula da Silva vem se equilibrando numa retórica de duas pernas. O diálogo (com o Irã) como único caminho aceitável. E a pouca autoridade moral dos países nucleares para ditarem regras aos demais.

Até agora, o discurso de Lula era suficiente para manter nosso presidente em pé nesse fio de arame, mesmo com influência apenas relativa. Nas novas circunstâncias, num jogo cada dia mais complexo, talvez nossa “situação de remador” esteja a pedir um upgrade.

Qual é a esperteza do remador? Ele olha para um lado, mas faz força com o objetivo de se deslocar no sentido oposto.

Para o arquivo

É justa a luta do Ministério Público contra o Projeto de Lei nº 265/2007. Ele propõe punir membros do MP que adotem decisões funcionais movidos por má-fé, por desejo de promoção pessoal ou para perseguição política.

O trabalho do MP deve e pode ser criticado, mas a independência da instituição é essencial para a democracia. Um sintoma dessa importância é todo partido querer colocar freio e mordaça nos procuradores quando chega ao poder.

Sem contar que o projeto é natimorto. Como produzir prova sobre “as reais intenções” de um promotor?

O único objetivo da ideia é intimidar. E talvez mobilize sentimentos favoráveis no Parlamento. Por isso, cairá bem no currículo do presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), se ele ajudar a mandar a bobagem ao arquivo.

E sua excelência ficará melhor ainda na foto se, junto, der um jeito de enterrar a legalização dos bingos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (07) no Correio Braziliense.

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4 Comentários:

Blogger Briguilino disse...

Alon, na minha opinião o Brasil escolheu o primeiro caminho:

" congelar o status quo e forçar os detentores da tecnologia nuclear com fins bélicos a, progressivamente, renunciarem ao uso".

Isso é bem a maneira, estilo do negociador Lula.

quarta-feira, 7 de abril de 2010 00:30:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

Alon, você também concorda que este "inquerito"(?) deve ir "para o arquivo"?

O Ministério Público Federal em Brasília instaurou inquérito civil público para apurar as negociações em torno da compra dos 36 caças pelo governo brasileiro. A pedido do procurador José Alfredo de Paula Silva, o MPF pretende investigar a possível preferência do governo brasileiro em “escolher o caça francês Rafale, desprezando as concorrentes Gripen (Suécia) e Super Hornet (EUA), cujas propostas tinham preços menores”.

quarta-feira, 7 de abril de 2010 00:35:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Boa notícia. Os entendimentos entre EUA, Rússia e China sobre a necessidade de impor sanções ao Irã vão surtir o efeito de fazer parar o programa nuclear iraniano para fins militares. E o governo brasileiro será forçado pelas circunstâncias a alterar na prática sua posição contrária às sanções.

Ao menos ficaremos livres de ouvir as retóricas chinfrins de países estilingueiros X países “extremamente armados” que não têm moral.

Os últimos acontecimentos são suficientes para revelar que o governo brasileiro está totalmente isolado em sua posição pró-Irã. Imagino que Lula não irá à cúpula nuclear convocada por Obama para a próxima semana armado com a retórica do estilingue e da falta de moral.

Quando Hillary esteve no Brasil em março, a secretária não conseguiu obter apoio do Brasil para uma nova rodada de sanções contra o Irã.

Mas hoje na CRE do Senado Celso Amorim deu mostra de que acusou o golpe, relativizando na Comissão o que antes eram afirmativas peremptórias:

"O Irã tem que demonstrar flexibilidade. Ele também não pode se isolar", disse Amorim. [eu observo: portanto, o governo brasileiro não vai mais apoiar a intransigência do Irã. Parece que finalmente os nossos itamaratecas aprenderam a lição, depois da sucessão de erros na questão hondurenha]

O ministro brasileiro disse ainda que o governo brasileiro irá aplicar as sanções comerciais ao Irã se essa for a decisão do Conselho de Segurança da ONU.

"Se houver sanções, mesmo que a gente não concorde com elas, isso vai afetar a cooperação econômica do Brasil com o Irã", disse Amorim.

"Temos dito isso a eles com clareza. Espero que eles vejam que é necessário negociar", acrescentou.

http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1559681-5602,00-SANCOES+PODEM+PROVOCAR+REVOLTA+POPULAR+NO+IRA+DIZ+AMORIM.html

quarta-feira, 7 de abril de 2010 01:55:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Fui lembrado a pouco que hoje se comemora o dia dos jornalistas. Então, meus parabéns a você e a todos os seus colegas que honram o ofício.

quarta-feira, 7 de abril de 2010 17:43:00 BRT  

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