terça-feira, 27 de abril de 2010

Lágrimas de crocodilo (27/04)

E se não acontecer? Lula poderá dizer que pelo menos tentou. Que não se dobrou ao império. E, afinal, as eventuais sanções não serão contra nós, nem as possíveis bombas cairão aqui

O chanceler Celso Amorim está em Teerã, dando curso à estratégia de Luiz Inácio Lula da Silva para a crise em torno do programa nuclear do Irã. A posição do Brasil é conhecida. Somos a favor de os iranianos terem direito de dominar a tecnologia atômica, para fins pacíficos. É bastante razoável. Os povos devem mesmo possuir a prerrogativa da autodeterminação, quando em paz.

É tão razoável que todo o mundo concorda. Onde está a dificuldade? Nas garantias que a Organização das Nações Unidas (ONU) exige, e que Teerã recusa dar. É um jogo de gato e rato, no qual os iranianos desfilam no fio da navalha. Indo e vindo. Buscando a cada passo “comprar” tempo.

E vem uma dúvida, também razoável. Para que exatamente o Irã busca mais tempo? Se o programa nuclear de Teerã é pacífico, como aposta o Brasil, e se é o que as grandes potências exigem do Irã, onde está a dificuldade?

Quando os Estados Unidos e o Reino Unido ocuparam o Iraque, verificaram que Saddam Hussein não detinha mais armas atômicas, químicas ou biológicas. Então por que o presidente iraquiano recusou as inspeções internacionais que poderiam atestar a falsidade das acusações e neutralizar o argumento formal para a invasão?

Há três hipóteses na obstinação suicida de Hussein.

A mais benigna é caracterizá-lo como um estúpido, um lunático que fez o país dele retroceder à dominação colonial em troca de nada. Ou em troca apenas do orgulho de resistir a uma inspeção da ONU.

No segundo caminho, algo mais verossímil, o sunita Saddam não desejava que o xiita Irã tivesse exata noção da fragilidade militar de Bagdá. Inclusive para não desequilibrar o precário equilíbrio político no Iraque do Partido Baath, onde a ditadura da minoria sunita dava as cartas na relação com a maioria xiita.

A terceira, conectada à segunda e mais realista, tem a ver com a política interna iraquiana. A possível existência de armas de destruição maciça era apenas secundariamente uma ameaça para fora: ela apontava prioritariamente para dentro, para controlar a oposição. Pelo medo.

Em qual das três trilhas é possível encontrar a melhor explicação para a estratégia hoje do governo islâmico de Teerã?

Tudo bem que Mahmoud Ahmadinejad possa recolher força política da retórica antiamericana e antissionista, mas o exemplo de Saddam Hussein não encoraja esticar a corda além de um certo ponto.

Uma variável nova é os Estados Unidos estarem ocupados demais no Iraque e no Afeganistão, sem fôlego momentâneo para a terceira frente. Raciocínio arriscado, pois a esta altura o Pentágono já deve ter as equações para Barack Obama decidir caso necessário. Se não as tem, prepara aceleradamente. Já ronda até o noticiário.

O segundo cenário é menos provável, pois ao contrário do que diz a propaganda dos aiatolás o Irã não está ameaçado territorialmente por nenhum país vizinho ou dos arredores. Desde que, naturalmente, ele próprio não deseje varrer ninguém do mapa ou interferir militarmente na vida alheia.

Sobra o terceiro. O sonho de um Irã dotado de armas nucleares transformou-se em vetor de poder interno. E aí mora a complicação maior. Como recuar em ordem, sem assinar o recibo da derrota humilhante? Sem abrir um flanco político talvez fatal?

A aposta brasileira é ser o avalista desse recuo. Se acontecer da maneira como quer Lula, ele terá nas mãos um troféu para exibir nas nossas eleições. Dirá como enfrentou os Estados Unidos, como se opôs às sanções, e também como isso permitiu chegar a uma solução pacífica para a crise.

Importará menos, para efeito de retórica, que o Brasil tenha contribuído para os americanos alcançarem o objetivo principal deles: fazer o Irã recuar do projeto de potência nuclear. Se acontecer, Lula arrastará as cartas no palco interno.

E se não acontecer? Lula poderá dizer que pelo menos tentou. Que não se dobrou ao império. E, afinal, as eventuais sanções não serão contra nós, nem as possíveis bombas cairão aqui.

Custo zero. Não faltarão tampouco as habituais lágrimas de crocodilo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Deseja perguntar-me algo?

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

9 Comentários:

Blogger João Paulo Rodrigues disse...

Eu não entendo muito deste troço, mas acho que as apostas de panoramas pecam por imaginarem que o jogo acaba quando com as sanções. Imagino que os players tenham cenários variados para o futuro com as sanções funcionando.

terça-feira, 27 de abril de 2010 09:20:00 BRT  
Anonymous Ivanisa Teitelroit Martins disse...

Alon,
é extremamente complexo procurar entender a posição do Saddam no passado. Podemos fazer especulações. E, talvez, a terceira hipótese se aproxime mais da realidade, sem descartar a segunda É muito difícil demarcar as fronteiras de uma nação sem levar em conta sua influência sobre os países vizinhos. Analisemos a terceira proposta feita por você:
"A terceira, conectada à segunda e mais realista, tem a ver com a política interna iraquiana. A possível existência de armas de destruição maciça era apenas secundariamente uma ameaça para fora: ela apontava prioritariamente para dentro, para controlar a oposição. Pelo medo. "
Os conflitos entre sunitas e xiitas sempre foram o traço marcante das guerras na região. A ascensão ao poder e sua permanência é aparentemente sustentada por inclinações religiosas que na verdade se instalam em função de interesses políticos e fisiológicos. O Irã na região se tornou estrategicamente importante por fazer resistência a uma ocupação cultural e econômica do mundo ocidental. No entanto, internamente, há conflitos que avançam e recuam e podem, em algum momento, por pressão, desestabilizar o atual governo. É muito importante que o Brasil sustente o diálogo sem arriscar sua posição internacional.

terça-feira, 27 de abril de 2010 09:35:00 BRT  
Blogger pait disse...

Brilhante! (Como sempre.) All politics is local.

terça-feira, 27 de abril de 2010 11:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É difícil imaginar que a diplomacia iraniana não tenha já estudado, com profundidade, a congênere brasileira ao longo do tempo. E ter mesmo alguma aferição da visão que tenha o brasileiro a respeito do Irã. A noção iraniana de até onde pode ir o Brasil neste caso, também não pode ser aspecto a desprezar. Assim, o Irã pode até ter calculado até que ponto poderia aceitar ser fator de trunfo político no Brasil e o que tal aspecto obrigaria o parceiro a contrapartidas. De todo modo, como já dito aqui neste espaço, são duas nações que têm muito futuro se enveredarem pela opção pacífica de resolver assuntos. Pela opção belicista pode ser muito difícil.
Swamoro Songhay

terça-feira, 27 de abril de 2010 12:51:00 BRT  
Anonymous Joachim disse...

Custo zero?

Neville “peace for our time” Chamberlain poderia perfeitamente ter usado raciocínio semelhante quando entregou os Sudetos a Hitler.

Nós sabemos qual foi o custo.

terça-feira, 27 de abril de 2010 12:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ivanisa Teitelroit Martins (27/04/2010 às 09h35min00s BRT),
Há uns dois anos diante da insistência de um blogueiro em trazer a situação do Irã para discussão eu questionava a insistência e alegava o meu desconhecimento para evitar falar sobre o assunto. Sempre há um ponto que chama mais a atenção. Por exemplo houve a repercussão de uma entrevista de um iraniano em que se disse que o Mahmoud Ahmadinejad era incompetente. Essas avaliações para mim são falsas. Como saber se um administrador público eleito pelo povo é incompetente? Não há como saber exceto uma conclusão com base na ideologia de quem conclui. E sobre isso eu gosto de falar.
Ainda sou, entretanto, um leigo sobre o Irã. De todo modo, não vejo como aplicar no Irã a terceira possibilidade que Alon Feuerwerker apontou para o Iraque. No Iraque, onde penso muito remota essa possibilidade, mas não a descarto, Saddam Hussein tinha suporte em uma minoria sunita, minoria até diante dos Curdos.
No Irã, o regime dos aiatolás conta com relativo prestígio popular. Teve problemas na primeira década do séc. XXI até 2008 porque a inflação era elevada (De 15 a 20% ao ano) e eles não queriam elevar o juro. Com a crise de final de 2008 provavelmente a inflação no Irã cedeu e o regime conta ainda com mais apoio popular. A terceira alternativa não pode ser descartada, porque a realidade é sempre mais complexa do que a imaginamos, mas usar a realidade de Saddam Hussein para aplicá-la no Irã, não me parece razoável.
Clever Mendes de Olivera
BH, 27/04/2010

terça-feira, 27 de abril de 2010 14:04:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Faltou na sua análise acrescentar o episódio do fracasso que resultou da invasão do Kuwait, sob qualquer aspecto (da política interna e externa sob a direção de Sadan) que se examine.

Até hoje para mim não é claro o porquê de Bush pai ter impedido Colin Power de terminar o serviço e depor Sadan. A resistência de Sadan explica-se bastante por essa derrota política e militar na guerra do Kuwait. Derrotado, Sadan ficou sem espaço político para recuar perante os inimigos, reais ou imaginários, sob pena de revelar-se um governante fraco. Digamos que tentou tapar o sol com uma peneira. Deu no que deu.

No Irã, eu penso que ocorre algo diferente. Aliás, damos aqui muita importância para um ator coadjuvante, Ahmadinejad, mas pouco atentamos para o que pensam e buscam estrategicamente os que de fato mandam no Irã: os aiatolás e a sua guarda revolucionária.

A diferença fundamental reside no fato de Sadan ter inscrito no currículo dele uma derrota vexaminosa para os “infiéis”, o que não ocorreu com os segundos. O aiatolá Ruhollah Musavi Khomeini foi o líder da revolução que expulsou os “infiéis”. Uso o termo “infiel” metaforicamente.

Embora não tenha provas, eu não tenho dúvida sobre os múltiplos indícios da visada belicista do programa nuclear iraniano. Se vão conseguir fabricar armamentos nucleares eu não sei. Na hipótese de conseguirem, se irão ou não usar a bomba no futuro, essa é uma questão de custo e de benefício políticos. A decisão será pesada sempre a cada momento e em conformidade com as circunstâncias. Para essa turma que de fato manda no Irã, o programa nuclear para fins bélicos é, talvez sobretudo, estratégico em termos geopolíticos.

Nesse sentido, esses “lunáticos” não são menos temerários do que os nossos Strangelove, os amantes da bomba tupiniquins. Por isso precisam ser controlados bem de perto pela AIEA. E é exatamente esse controle rigoroso o que não desejam. Tanto lá quanto cá.
Não são somente a retórica, no caso iraniano, e a esperteza política, no caso do governo brasileiro, os ingredientes dessa mixórdia. Os elementos de afinidade política e ideológica e entre os governos iranianos e brasileiro precisam ser trazidos para a análise. Tem um monte de gente no governo e fora dele (de variada coloração política e vocação autoritária) que é contra o TNP e favorável ao desenvolvimento da tecnologia nuclear também para fins militares.

O alvo de Lula nessa aproximação com o Irã tem pouco a ver com as eleições de 2010. Lula já deixou claro que não vai abandonar a política. Fora do governo, e por isso eleger Dilma é para ele e seu grupo questão de sobrevivência, Lula estará livre para fazer o que mais gosta mundo afora. Sei lá, talvez tornar-se o porta-voz ( a “voz dos que não têm voz”) dos interesses de um novo “terceiromundismo”.

PS: Uma crítica. Acho descabido em análise ou discurso político falar em nome de um "nós" (Brasil, povo, nação etc.) que é por definição intangível. Então, me incomoda bastante quando você escreve “A posição do Brasil é conhecida”. Toda assertiva precisa ser provada antes de ser afirmada ou negada. O melhor e, portanto, lógico é escrever “A posição do governo brasileiro é conhecida”. Essa assertiva é perfeitamente verificável e provada por fatos. A segunda, a que fala em nome de um “nós”, é inverificável, sendo, portanto, ideológica, isto é, somente questão de crença.

Qualquer governo é sempre e necessariamente a expressão de uma parte do todo. A diferença entre os governos está no regime. Na democracia representativa indivíduos e grupos organizados em partidos somente conquistam legitimidade política no voto. No entanto, e a história não se cansa de mostrar, a sapiência democrática determina o jogo da alternância de poder, ensinado que é preciso desconfiar dos políticos e dos partidos, porque sabe que nem sempre a maioria escolhe o que é o melhor para o país.

terça-feira, 27 de abril de 2010 14:55:00 BRT  
Anonymous Aguda Ponta disse...

Terceira frente ,já existe:Paquistão.
Por esse ângulo é uma jogada publicitária com a colaboração (in)voluntária da mídia.Amplia-se mais a porta de acesso àquela região,converte-se num interlocutor confiável.Não apenas para os persas mas ao árabes do Oriente e da África.Futuros aliados para reduzirem a "invasão chinesa" no continente africano.
Depois, dizem que os grandes mestres de xadrez são os russos...

terça-feira, 27 de abril de 2010 16:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
Mais uma pérola: quer dizer que foi o Sadan que fez o pais dele retroceder? Não foi a guerra contra ele? Nem nos EUA há muitos que acreditam que havia as tais armas no Iraque!
Esta sua pérola só e superada pela cobrança ao Lula por não ter visitado um Monumento em Israel que nunca esteve colocado na programação oficial da visita discutida entre os dois países.
Assim, com uma dúvida aqui, uma desinformação ali vamos em frente, não é mesmo?
Parabéns.

terça-feira, 27 de abril de 2010 17:58:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home