quinta-feira, 22 de abril de 2010

Exemplo a seguir (22/04)

É sempre o melhor caminho: em vez de esconder-se, esclarecer. Pacientemente. Democraticamente. Responder a todas as dúvidas. A sabatina de Gilmar Mendes no YouTube é sinal de sanidade da democracia brasileira

O ministro Gilmar Mendes fez um gol, quando dias atrás compareceu ao YouTube para responder a todo tipo de pergunta, incluídas as incômodas. O presidente do Supremo Tribunal Federal veio ao palco virtual sem a blindagem do cargo. Talvez o STF deva incluir sabatinas assim nas obrigações regimentais de seus presidentes. Por que não?

Num país em que o Estado e a função pública infelizmente ainda são tratados como “coisa nossa” — o “nossa” aqui não é referência ao coletivo cidadão —, o STF daria um passo adiante no aperfeiçoamento da cidadania. O tribunal tem avançado bastante, com a transmissão dos julgamentos em rede nacional de televisão e, mais recentemente, ao deixar disponíveis no YouTube os vídeos de sessões e programas da TV Justiça. E pode ir além.

Justiça boa exige, entre outros, dois elementos-chave: ritmo e visibilidade. Ritmo para não dizer velocidade, pois o julgamento justo precisa garantir o direito de defesa do acusado. Na prática, e não apenas formal. Mas sobre a visibilidade não pode haver dúvida, especialmente num tribunal como o STF, a Corte constitucional. Ali, além de decidir, cada juiz deve estar exposto a explicar direitinho por que decidiu. E de um jeito não totalmente hermético.

Mendes e sua assessoria deram também um exemplo aos outros poderes de como enfrentar a situação complicada no relacionamento com a opinião pública. Ao responder a todo tipo de pergunta no YouTube, ele deixou também registradas para a História respostas a seus críticos.

É sempre o melhor caminho: em vez de esconder-se, esclarecer. Pacientemente. Democraticamente. Responder a todas as dúvidas.

Por um motivo simples: nunca a dúvida é exclusiva de quem a expõe, sempre há mais gente — muita gente — com a mesma interrogação. E a autoridade se fortalece à medida que neutraliza argumentos, soluciona pendências, num processo progressivo de esvaziamento da força moral e intelectual dos adversários.

O poder costuma cair na tentação de enxergar-se acima do bem e do mal. Talvez os ministros do Supremo estejam até mais vulneráveis a ilusões assim, pois o mandato só acaba na aposentadoria. E afinal as decisões deles são irrecorríveis. Mas mesmo os de mandato relativamente curto, no Executivo e Legislativo, tendem a agir como se o poder fosse eterno, como se viesse de dádiva e colocasse o detentor acima dos demais cidadãos.

É raro o poderoso ao menos esforçar-se para transmitir a impressão de ser simples funcionário do povo — que é o que é. Uma vez sentado na confortável cadeira e segurando a caneta cheia de tinta, forças poderosíssimas (terríveis, nos termos do então presidente Jânio Quadros) empurram-no para a onipotência, a soberba, a tentação de impor só pela autoridade. Ou empurram para o precipício. Ou para ambas as situações.

Daí que a democracia exija um sistema azeitado de freios e contrapesos. O problema é não haver fórmula pronta e acabada desse sistema. Cada sociedade constrói o seu, a partir da experiência acumulada, das vitórias e fracassos. Mas uma regra é universal. Quanto mais democrático o arcabouço, mais o detentor de poder responde pelos seus atos a outros sujeitos institucionais. Ou ao público em geral.

A sabatina de Gilmar Mendes no YouTube é sinal de sanidade da democracia brasileira.

Dois trens

Almoçava na praça de alimentação do shopping nesta Brasília cinquentenária quando um leitor me abordou:

— Li sua coluna sobre a maneira de identificar pesquisas fajutas. Entendi que o fajutador se revela quando o humor dele piora depois de uma pesquisa boa. Só não entendi por que alguém investe numa pesquisa em que nem ele pode acreditar.

Pesquisas têm pouco ou nenhum efeito sobre o eleitor. Mas ajudam a quebrar a inércia dos políticos recalcitantes. Os que não querem embarcar no trem errado, mas tampouco podem se dar ao luxo de perder o trem certo.

Doendo

A luz que era amarela virou vermelha no painel do Planalto (agora do CCBB) que monitora as votações do Congresso.

O governo tem procurado monopolizar as bondades e terceirizar as maldades para suas excelências os parlamentares. Normal. Mas uma hora a pata chamuscada do gato encarregado de tirar as castanhas do fogo começa a doer.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (22) no Correio Braziliense.

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5 Comentários:

Blogger Ligeirinho disse...

E eu achando que a entrevista no youtube apenas deixava claro o narcisismo do Gilmar Mendes.

O que achei bacana foi a 'democracia direta' na entrevista: pessoas perguntando coisas pro GM que a imprensa usualmente não pergunta...

quinta-feira, 22 de abril de 2010 08:55:00 BRT  
OpenID muitopelocontrario disse...

Serio? Qdo vc escreveu sua coluna vc nao sabia que ele já havia removido o video de lá?


Hum...

quinta-feira, 22 de abril de 2010 10:49:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

Quando responder ou deixar de responder, fazer ou deixar de fazer pode no máximo causar uma aposentadoria renumerada...fica bem fácil posar de democrata.

quinta-feira, 22 de abril de 2010 15:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não tirou, MuitoPeloContrário. Está lá em http://www.youtube.com/watch?v=Yt1tnv5p30I

quinta-feira, 22 de abril de 2010 17:34:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

Suponho que a Imprensa poderia aproveitar a lição e recomeçar a promover entrevistas críticas com os Poderosos, assim como as pessoas comuns conduziram a conversa com ninguém menos que o Presidente do STF.

quinta-feira, 22 de abril de 2010 21:38:00 BRT  

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