sábado, 17 de abril de 2010

Carville em xeque (18/04)

As pessoas votam de olho na economia quando ela vai mal. Mas por que votariam focadas na economia quando ela vai bem? Só para evitar um retrocesso, para impedir que desande

O marqueteiro James Carville prestou um belo serviço a William Jefferson Clinton quando mandou o então candidato democrata enfatizar as questões econômicas na campanha presidencial de 1992. “É a economia, estúpido!” Carville não tinha pirado, a palavra rude não era dirigida ao possível futuro presidente: no alvo estavam os membros do estafe que ainda resistiam a compreender a centralidade do tema.

Os americanos viviam a recessão, e as pessoas votaram para retomar o crescimento. Bill Clinton elegeu-se 42o. Presidente dos Estados Unidos, derrotando George H. W. Bush, o pai. Um ano antes a popularidade de Bush explodira na fácil vitória da Guerra do Golfo, que também acabara de fechar as feridas do Vietnã, removendo os medos americanos nascidos no pântano da Indochina. Mas Bush pai não conseguiu outros quatro anos.

Quando a economia vai mal, é razoável supor que as pessoas votem em quem julgam mais capaz de melhorá-la. E a frase de Carville ficou famosa, um lugar comum. Há porém certo detalhe menos célebre da estratégia democrata em 92. Além de mandar bater na tecla econômica, Carville sugeria a Clinton jamais esquecer de falar na reforma da saúde.

A História costuma sofrer de esquematismo, visto ser obra de historiadores, que carregam viés. Desde Clinton/Carville a centralidade da economia virou dogma, com algo de determinista. Ano e meio atrás a tese pareceu ser reforçada quando Barack Obama bateu John McCain, no auge da maior crise econômica americana e mundial desde 1929.

O massacre noticioso na eleição do primeiro negro presidente dos Estados Unidos e o efeito “landslide” (avalanche) no colégio eleitoral (365 votos eleitorais contra 173) deixaram um fato em segundo plano: Obama colocou apenas 10 milhões de votos sobre McCain num eleitorado de 130 milhões, algo como 7,5 pontos percentuais. Pouco. Isso com a economia afundando e a Guerra do Iraque batendo recordes de impopularidade.

A política existe. A oposição brasileira tem uma chance de eleger o presidente da República, mesmo lutando contra um governo bem avaliado. Luiz Inácio Lula da Silva quase levou a eleição presidencial de 1998 para o segundo turno, no qual teria grande possibilidade de vitória pois certamente receberia o apoio de Ciro Gomes e Enéas Carneiro. E ali as pessoas achavam que a economia estava bem. Só cairiam na real (e do real) no começo do ano seguinte.

Mesmo a questão econômica precisa ser observada com mais sutileza e sofisticação. As gentes votam de olho na economia quando ela vai mal. Mas por que votariam focadas na economia quando ela vai bem? Só para evitar um retrocesso, para impedir que desande. Por isso o PT desce a lenha em Fernando Henrique Cardoso, tentando construir o medo de que, no poder, o PSDB fará desandar os avanços econômicos dos últimos anos.

Vai funcionar? Até agora não tem funcionado, por algumas razões. Uma delas é o PT anunciar essa tática desde sempre, dando tempo suficiente aos adversários se adaptarem. Outro elemento é mais subjetivo. Nem José Serra nem Aécio Neves (quando era pré-candidato) conduziram administrações regressistas, ruinosas ou mal avaliadas. E tem o debate sobre quanto há de continuidade e ruptura na política econômica do governo do PT.

Um erro político é tomar o desejo pela realidade, a nuvem por Juno. Acreditar na própria propaganda. Tucanos acharem que Lula faz um mau governo não torna ruim a administração do PT. Do mesmo jeito, petistas falarem mal de Serra e Aécio não tem o efeito mágico de piorar as realizações políticas e administrativas de ambos.

Claro que tudo pode mudar quando Lula for à televisão para apelar ao eleitor. Resta esperar para ver como o eleitor reagirá. O incômodo, para o PT, é depender dessa única bala. E saber que a oposição sabe que um dia ela será atirada.

Tira-teima

Qual um bom método para verificar se determinada pesquisa é fajuta? Ora, só quem pode ter certeza disso é quem a fez, ou encomendou.

Se uma pesquisa favorece fulano e ele acredita nela, continua sua campanha na mesma linha. Se ela o beneficia mas ele não confia nela, muda a orientação.

As pesquisas recentes trouxeram cada uma bons números para cada um dos dois principais candidatos. E números ruins para o outro.

Vamos agora observar.

Infelizmente

É pena que o PDT do senador Cristovam Buarque (DF) esteja fora da disputa presidencial justo na eleição em que a reforma da Educação leva jeito de virar ponto de pauta nos grandes debates.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (18) no Correio Braziliense.

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16 Comentários:

Blogger pait disse...

Seu algoritmo é mais geral, mas tem um método que funciona se a pesquisa é muito fajuta: ver se há algum erro grosseiro de estatística. Por exemplo, um aluno notou que os resultados da pesquisa Sensus saíram com 1 casa decimal depois da vírgula, e erro de mais de 2%. Indício de fabricação - confissão de fraude mais clara, só o das eleições na Pérsia ano passado.

Feuerwerker é tão mais fácil que Eyjafjallajökull quanto estatística é mais fácil que política.

sábado, 17 de abril de 2010 21:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

Gostaria de lhe perguntar duas coisas:
1. Você não acha que em 1998 a mídia desempenhou um papel importante? Há teses e mais teses defendendo este argumento.
2. Penso que a questão das pesquisas passa por uma ferrenha disputa de mercado. Dois outros institutos entraram para valer (vox populi e sensus), o que é bom para a democracia porque temos mais do que "uma" verdade, e o datafolha parece desenvolver uma ação reativa no sentido de desqualificá-los. Nunca vi um instituto usar um jornal, o seu alias, para tentar ridicularizar um concorrente.
Você está acompanhando as críticas metodológicas que o Datafolha vêm sofrendo?

abs

Daniel Menezes - Natal/RN

domingo, 18 de abril de 2010 10:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Eu costumo brincar que o povo brasileiro foi abduzido tendo o início da abdução se dado com a reforma na Constituição passando o mandato presidencial para quatro anos, coincidindo com a eleição para governador, reforçando a abdução com o Plano Real e sendo dado o último retoque com a emenda da reeleição.
Há alguma coisa de errada quando na disputa a direita não esteja presente, e quando está presente, como esteve em 2006 na figura de Alckmin, trata-se de uma direita bastante dissimulada e bem mais próxima do centro.
E o Carville não está em xeque. Ele astutamente viu que Bill Clinton só ganharia pelo fato de Bill Clinton ter carisma, a economia está enfraquecida (Embora ela tenha se recuperado no ano da eleição) e nos Estados Unidos não se ter dois turnos, pois Ross Perot fez a diferença.
Agora não se pode esquecer o que ocorrera nas três eleições anteriores. Contra Jimmy Carter, em 1980 Ronald Reagan prometeu reduzir os impostos. Contra Mondale em 1984 Ronald Reagan foi reeleito e Mondale prometia aumentar os impostos. Contra Michael Dukakis prometendo aumentar os impostos, George Bush em 1988 trouxe para a eleição o lema "Read my lips: no more Taxes". Em 1992 Bill Clinton resolveu o problema da honestidade (Responsabilidade fiscal) do Partido Democrático omitindo-se quanto aos impostos (Embora todos soubessem que ele teria que os aumentar como de fato o fez) e reproduzindo sem som a frase de George Bush que, por não ser tão irresponsável como o Ronald Reagan e como o filho, realmente aumentara os impostos para poder ter mais recursos para enfrentar a crise dos fundos de poupança (savings and loan crisis) americana.
E finalmente, com os bons resultados da economia, embora em dezembro de 2000 Alan Greenspan tivesse que iniciar a redução abrupta do juro básico americano (Prime rate) porque já se iniciara a recessão, era de esperar que Albert Gore pudesse ganhar as eleiçoes. Ele, entretanto, não tinha carisma. E George Bush filho, embora parecesse menos inteligente que o pai, tinha muito mais carisma com a população conservadora americana que ele representava do que George Bush o pai.
A falta de carisma do Albert Gore que eu percebia no Brasil pode ser observada em vídeo de divulgação do autor do livro “The Political Brain", Drew Westen. Aliás, esse livro e outro eu mencionei em comentário enviado em 24/04/2010 às 08h40min00s BRT para o post “Para enrolar os enroláveis” de 24/03/2010 fazendo referência a artigo de Hélio Schwartzman que saiu segunda-feira, 22/03/2010, na Folha de S. Paulo, na seção Brasil (brasil/fc2203201006) com o título: "Ciência explica por que, no voto, emoção pesa mais que a razão" e que trata da publicação de dois livros nos Estados Unidos "The Political Mind" de George Lakoff e "The Plitical Brain" de Drew Westen (No meu comentário está escrito equivocadamente Westencom e outro erro foi repetir repetir o título do artigo) com pesquisa sobre a motivação do eleitorado.
E algumas distinções importantes da eleição americana para a brasileira (O fato de ser indireta não conta tanto, pois a campanha é dirigida aos eleitores da eleição direta). A eleição americana não é em dois turnos. E nos Estados Unidos não tem um estado com mais de 20% da população, nem esse mesmo estado com mais de 34% do PIB, nem uma diferença de renda per capita entre o estado mais populoso e mais rico com a renda per capita dos outros estados.
Não sei porque esses pontos não são analisados no Brasil. O que se vê divulgado é a tese de que “Governo bom fica, governo ruim o povo tira”. Isso é frase que só pode ser defendida por ingênuos ou pelos que, sabendo que ela não é verdade, mas por não levar o povo a sério reproduzem a frase. Enfim é dita pelos ingênuos e pelos que não acreditam na democracia
Clever Mendes de Oliveira
BH, 18/04/2010

domingo, 18 de abril de 2010 12:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1)Economia. Sem dúvida, será um dos grandes, senão o maior, tema nas eleições. Ainda mais sobre os efeitos do aumento da classe média, ou classe C. Robustecida por contingentes migrados dos estratos D e E. O maior nó das eleições, subjacente e dependente da economia, tende a ser o entendimento do que quer essa população ascendente. Porém, é certo imaginar que irá demandar muito mais dos contendores políticos. 2) Demandas da classe C. Outro aspecto interessante será avaliar se os contendores surpreenderão na proposição do que possa estimular o grande contingente a ir ao voto. 3) Imprensa e pesquisas. O mesmo efeito pode vir a exigir muito da imprensa. Contudo, imaginar que esta possa influir a ponto de decidir os rumos de pesquisas e o resultados das eleições, seria crer em velhas e surradas paranóias. E pior: seria desmentir o processo de desenvolvimento social tão alardeado. 4)Educação. Mais um desafio: integrar, pela Educação, a classe C no processo de desenvolvimento do País.
Swamoro Songhay




que insistem em tratá-los com o paternalismo dos que antigamente distribuiam óculos e sapatos. As lendas dão conta de óculos sem lentes e apenas um pé de sapato. As demais partes só eram dadas após a verificação dos resultados das eleições. Há outras descrições, como metade de uma nota de dinheiro e dentaduras.

domingo, 18 de abril de 2010 15:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira, BH, 18/04/2010
1) Reeleição e dois turnos. A meu ver, se não houvesse estabelecido direito à disputar reeleições a cada 4 anos, em dois turnos para o Executivo, teríamos sucumbido a reeleições a cada 6 anos em um único turno. Ou, quem sabe, direito de disputar dois mandatos de 10 anos cada, em eleições de turno único. 2) Assimetrias de renda estaduais e regionais. Tais dicotomias são um desafio a demandar posicionamento político há décadas no Brasil. Contudo, não consideraria tal aspecto como único a definir eventual reestruturação do processo federativo, incluindo os aspectos político, fiscal e tributário.
Swamoro Songhay

domingo, 18 de abril de 2010 15:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"Qual um bom método para verificar se determinada pesquisa é fajuta? Ora, só quem pode ter certeza disso é quem a fez, ou encomendou".
Bingo! O Daniel bem que poderia iluminar as trevas de nossa ignorância mostrando de onde partem e quais são as críticas à metodologia do Datafolha. De antemão, algo curioso está a acontecer: quando o instituto anunciou uma queda de dez pontos percentuais na diferença entre os candidatos, não se viu choro nem ranger de dentes. Agora que houve uma reversão na tendência, pululam as teorias conspiratórias. Quanto ao Sensus, há que ser esclarecida ao menos aquela malcontada história sobre que sindicato teria encomendado a última pesquisa, se o Sindicato dos Aposentados Jogadores de Dominó da Praça Mauá ou o Sindicato dos Penteadores de Mico-Leão-Dourado do Estado do Pará. De minha parte, prefiro esperar os números do Ibope, antes de tecer qualquer comentário.

Kbção

segunda-feira, 19 de abril de 2010 10:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (18/04/2010 às 15h37min00s BRT),
Não fiz defesa do que poderia acontecer, mesmo porque eu não tenho o dom da predição. Fiz e faço defesa do que a minha ideologia diz que é o melhor para o Brasil. Penso que o período de 5 anos para presidente não é curto, como o de 4 nem longo como o de 6 e de modo muito importante permite que a disputa se dê em situações diferentes: de 10 em dez anos como eleição solteira e de 20 em 20 como eleição casada para governador ou casada para prefeito.
Quanto a reeleição, as pessoas vão entender o que ela significa quando os Paulos Malufs começarem a ser eleitos.
Sou contra os dois turnos porque considero a eleição proporcional um avanço em relação a eleição majoritária, assim como a democracia representativa é superior a democracia direta. Na democracia direta assim como no segundo turno prevalece a vontade majoritária com a exclusão de uma parcela muito grande. Na eleição sem dois turnos dificilmente alguém vence com maioria esmagadora. Desse modo, o vencedor pode até pertencer à vontade minoritária que em uma eleição em dois turnos mais provavelmente seria excluído pela vontade majoritária.
É verdade que se deve fazer esforço para combater o que na sua denominação polticamente correta ganhou a alcunha de "Assimetrias de renda estaduais e regionais", mas criar na própria legislação mecanismos que agravem o problema é não ir em busca da solução.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 19/04/2010

segunda-feira, 19 de abril de 2010 21:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira, BH, 19/04/2010
O post do Alon dá uma importante oportunidade de discussão acerca de economia e eleições. Ou a influência de uma sobre a outra, independente da ordem. De todo modo: 1) Parlamentarismo. O Parlamentarismo daria direito a sucessivos mandatos, desde que conquistada a maioria nas eleições parlamentares e mostrada competência político-administrativa. 2) Candidatos. No caso, as características dos candidatos são, com maior ou menor dificuldade, avaliadas pelos eleitores e com as exceções de praxe, as piores sempre podem ser devidamente defenestradas. 3) Tempo de mandato. Enquanto não surgir proposta consistente de mandato único mais longo, algo como 5 anos e o Parlamentarismo não for colocado, mandato de 4 anos com direito a uma única reeleição consecutiva fica de bom tamanho. Ficaria melhor com a exigência de renúncia do pretendente, ao cargo executivo que ocupa, seis meses antes das eleições. 4) Assimetria. Poderia ser utilizado desigualdades regionais de renda, porém, ficaria com o quase subjacente sentido de correção política. Não foi essa a intenção, pois a pretensão foi a de destacar a demora na resolução dos problemas de desenvolvimento econômico e social díspares.
Swamoro Songhay

terça-feira, 20 de abril de 2010 10:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (20/04/2010 às 10h33min00s BRT),
Eu acredito na superioridade do Parlamentarismo sobre o presidencialismo. Já mencionei há mais tempo a razão para eu acreditar nessa superioridade. Repetirei. Penso que no Parlamentarismo é maior a possibilidade de desenvolvimento do fisiologismo. Penso que o fisiologismo é da essência da democracia representativa que para mim é superior à democracia direta. A superioridade da democracia representativa prende-se ao fato de que, mediante os acordos, conchavos e barganhas, as frações minoritárias podem defender seus interesses enquanto na democracia direta há a prevalência da maioria de forma excludente.
A democracia representativa será cada vez mais superior à democracia direta quanto mais ela é proporcional e não majoritária como é a democracia direta.
E a forma mais correta de se ter a democracia representativa proporcional é mediante o parlamentarismo.
No parlamento as decisões não são pontuais, mas um processo em que como já afirmado mediante acordos, conchavos e barganhas faz-se a composição de interesses conflitantes e, sendo um processo, em cada acordo, conchavo e barganha os grupos excluídos se protegem para o próximo embate de tal forma que no cômputo geral não se tem um grupo totalmente excluído do processo.
Por ser processo, e não manifestação pontual como é na democracia direta, e o Parlamentarismo o regime mais apropriado para a realização desse processo, eu acredito na superioridade do Parlamentarismo.
No próximo comentário explico porque considero que a democracia representativa é um processo essencialmente fisiológico.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/04/2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010 21:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (20/04/2010 às 10h33min00s BRT),
A democracia representativa se desenvolve segundo um processo essencialmente fisiológico, porque cada representante atua em defesa do interesse daqueles que representa. Bem aqui eu devo fazer uma explicação sobre fisiologismo. Há mais de vinte anos, digo que não há outra forma de a democracia funcionar senão fisiologicamente. Recentemente, entretanto, ao fazer essa afirmativa houve contrariedade com o que eu dissera apresentando-se para mostrar o desconforto e o repúdio à minha afirmação a definição de fisiologismo no dicionário Houaiss (Essa discussão está no blog PolíticaÉtica, no post “Vaccarezza, não suje mais o PT”).
Diz lá Houaiss:
“Fisiologismo: conduta ou prática de certos representantes e servidores públicos que visa à satisfação de interesses ou vantagens pessoais ou partidárias, em detrimento do bem comum“
Quando fiz a pesquisa no Houaiss vi que só havia esse significado. Para mim fisiologismo era um termo técnico, Imaginei que com os trabalhos de Theodore J. Lowi em obras como “American Business, Public Policy, Case-Studies, and Political Theory” (1964) ou “The End Of Liberalism” (1969) tornava-se automático o entendimento do termo fisiologismo sem o caráter pejorativo que o dicionário dava a ele. Em 14/09/2008, Plínio Fraga, em artigo para a Folha de S. Paulo, intitulado “A quem interessar possa” comentou sobre “The Process of Government: A Study of Social Pressures”; Arthur Fisher Bentley, fazendo referência a artigo de Nicholas Lemann que saiu no The New Yorker. O artigo de Nicholas Lemann chama-se “A Critic at Large – Conflict of Interest”. Lendo o artigo e depois o livro disponibilizado na internet pude constatar que as idéias de Theodore J. Lowi já eram entendidas no início do século XX.
Como considero os Estados Unidos o país mais democrático do mundo, apesar de ser contrário à eleição distrital majoritária (Sou a favor da eleição distrital proporcional, mas não a dita eleição distrital mista que na verdade é eleição distrital majoritária e geral proporcional e sim a eleição distrital proporcional pura), e como o fisiologismo, como eu entendo o termo, é inerente à atividade parlamentar americana, pareceu-me certo usar de modo técnico e sem caráter pejorativo o termo fisiologismo.
Bem, encontrei depois uma definição mais neutra de fisiologismo. É a do dicionário Michaelis segundo o qual fisiologismo significa:
“ação dos políticos, em geral, e dos parlamentares, em particular, condicionada e determinada, principal ou exclusivamente, pelos interesses pessoais da clientela deles (Os políticos e os parlamentares)".
A essa definição eu junto o que eu entendo como fisiologismo:
"Por fisiologismo entendo como a conduta, prática ou ato de todos os representantes políticos que visem à satisfação dos interesses ou ao alcance de vantagens para os representados, no limite da lei, sem avaliação dos efeitos junto ao bem comum, salvo quando o bem comum ou interesse público ou interesse maior da nação esteja objetivamente definido em lei”.
A democracia representativa só funciona fisiologicamente porque nós não sabemos para cada caso concreto o que é o interesse maior da nação, o que é o interesse público, o que é o bem comum.
Dito isso eu acrescento que embora pense que o parlamentarismo pela proteção que assegura aos interesses minoritários seja superior ao Presidencialismo, eu sou presidencialista. Deixo para uma próxima oportunidade explicar porque sou presidencialista.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/04/2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010 22:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (20/04/2010 às 10h33min00s BRT),
Não gosto do Presidencialismo pelo caráter majoritário da eleição do presidente. No entanto, o Presidencialismo pela eleição direta para presidente da República dá à democracia um pujante destaque para a participação popular. A importância que se dá a cada voto individualmente para a escolha de uma única pessoa que terá um grande poder por período razoável de tempo aumenta o interesse em participar do processo eleitoral. É o momento em que a democracia representativa consegue ser participativa no seu mais alto grau.
E mais, muito mais no meu entendimento. Ao dar a cada um do povo o mesmo valor na hora do voto e de um voto que é para escolha do presidente da República que é chefe de governo e não só chefe de Estado e, portanto, um voto de valor inestimável, a eleição direta para presidente da República consagra o mais alto valor da democracia: o princípio da igualdade. Não acredito que o homem da roça, o jovem estudante um tanto alienado da realidade política do Brasil, ou um descrente da atividade política tenham o mesmo discernimento de um estudioso de nossa realidade. No entanto, é isso que se observa e se afirma na eleição para presidente da República.
Por isso eu sou a favor do Presidencialismo. E mais ainda quando vejo o parlamentarismo realizando aquilo que de certo modo Alon Feuerwerker no post mais à frente “Campanha sem interdições” de hoje, 21/04/2010, considera que o PT se propõe a fazer: interditar a reflexão sobre o porvir. É isso que acontece quando o Parlamentarismo na Europa define o futuro ao estabelecer que não se pode ter um déficit público superior a 3% do PIB, não se pode ter inflação superior a 3% ao ano e que não se pode ter uma dívida pública superior a 100% do PIB, além de outras regras dessa natureza.
No fundo, o parlamentarismo nunca foi defendido sob o argumento de que ele é um modelo que melhor representa e protege os interesses minoritários, mas sim porque melhor permite que se evite que decisões equivocadas da maioria possam ter efeitos danosos para o bom andamento administrativo do país.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/04/2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010 23:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (20/04/2010 às 10h33min00s BRT),
Sim, no Parlamentarismo é possível que o chefe de governo, o primeiro ministro, fique durante muito tempo no poder. Não é um poder imperial como se tem nos regimes presidencialistas. Ele tem de estar bem com todos os parlamentares do partido. Como eu disse no Parlamentarismo o fisiologismo é essencial. A Margaret Thatcher saiu, não porque perdeu para os Trabalhistas, mas porque não quis acordar com as barganhas que os parlamentares do partido dela insistiam que ela fizesse e assim ela foi substituída por John Major de 1990 a 1997 quando ele perdeu para Tony Blair.
Nos Estados Unidos há que se considerar ainda que o poder do Presidente da República internamente é menor do que o poder dos presidentes das repúblicas sulamericanas. Então no parlamentarismo ou no presidencialismo mitigado, ou seja, com um presidente com pouco poder a reeleição dessas pessoas não me parece um mal que merecesse a interdição da reeleição.
O que não acredito é em sua afirmação de que a possibilidade da reeleição no parlamentarismo estaria condicionada à demonstração de “competência político-administrativa”.
Não conheço um mecanismo que nos informe quem tem competência político-administrativa”. Veja na história da humanidade se existe alguém que demonstrou possuir acima de qualquer dúvida competência administrativa. É a nossa ideologia que nos informa a competência de um administrador. É claro que a incompetência absoluta é mensurável. Essa, entretanto, não é muito viável no processo democrático. Como eu insisto em reproduzir em meus comentários a frase do Conde de Sodermöre (Axel Oxenstiern) para o filho como conselho para não se preocupar muito por ser inexperiente perto de renomadas figuras da realeza européia que participariam das negociações que levariam a Paz de Westfália “An nescis, mi fili, quantilla prudentia mundus regatur” (Você não sabe meu filho com quanta estultícia o mundo é governado) só faz sentido quando havia a possibilidade de um desmiolado qualquer assumir um trono.
No regime democrático isso não ocorre. Não creio, entretanto, que o modelo democrata de escolha tenha a capacidade de escolher os melhore eliminando os piores. Creio que o modelo democrático que inicia-se na fase escolar na escolha para liderança de turma, depois de grêmio recreativo, depois de diretórios estudantis e assim por diante vai na disputa formando gerentes, pessoas com capacidade de liderança com carisma e que exercitam ainda novo habilidades importantes para um chefe de executivo: organizar-se, avaliar opções, tomar decisões, implementar as decisões tomadas, etc.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/04/2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010 00:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (20/04/2010 às 10h33min00s BRT),
Ao criticar o mandato de quatro anos com reeleição eu não o transformo em questão de honra. São as regras do jogo. O que eu critico são os analistas falarem das vantagens desse modelo (Vantagens que são muitas das vezes pueris, como dizer que permite que o bom governante continue e o mau seja defenestrado) e, ao mesmo tempo, esquecerem os muitos problemas que o modelo traz (Tendência do governante fazer aquilo que aumenta a popularidade e não aquilo que o país precisa).
Todos que são a favor da reeleição nunca aceitam que George Bush só invadiu o Iraque depois de ter invadido o Afeganistão e a reação dos eleitores ter sido favorável ao partido Republicano na eleição de 2002. Ou seja, George Bush só invadiu o Iraque depois que percebeu que essa era a única forma de ele ser reeleito. Se o povo americano não votasse em presidente que invadisse país fraco em ato de completa barbárie, George Bush não teria invadido o Iraque, e nem invadiria o Iraque se não houvesse reeleição ou percebesse que no caso em que não houvesse a reeleição o prestígio dele invadindo o Iraque não fosse suficiente para fazer o sucessor. A invasão do Iraque foi tremendamente prejudicial para o prestígio dos Estados Unidos no mundo, principalmente para os grandes financistas que de crto modo viram em Barack Obama um jeito de recuperar o que obtiveram no governo de Bill Clinton.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/04/2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010 08:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (20/04/2010 às 10h33min00s BRT),
Ao dizer em meu comentário de 22/04/2010 às 08h15min00s BRT que com a reeleição há a "Tendência de o governante fazer aquilo que aumenta a popularidade e não aquilo de que o país precisa" eu apenas utilizei um jargão freqüente na mídia em geral e o utilizei na suposição de que a avaliação de que o governante faz aquilo que aumenta a popularidade e não aquilo de que o país precisa foi feita pelos próprios asseclas do governante, pois não penso possível saber com certeza o que o país precisa ou quando se sabe (melhorar a saúde, a educação, a produção de energia elétrica, o acesso às telecomunicações, o saneamento, a qualidade das estradas, etc.) não se sabe qual o grau de prioridade deve-se ter com aquilo de que o país precisa.
Aumentar o consumo interno a partir de 2009 foi decisão a meu ver de cunho eleitoreiro, pois acredito que o melhor para o país era manter o dólar valorizado (Ele chegou a valer 2,3 na crise no quarto trimestre de 2008). Trata-se de uma opinião econômica de um leigo em economia. Sei que há muitos economista que pensam como eu, mas há os de opinião contrária.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/04/2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010 13:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira BH, 22/04/2010, quinta-feira
Conforme havia dito em outro comentário, o estímulo do post para discussões era grande. Confesso que está muito proveitoso. Mas insisto no Parlamentarismo. Em segundo, mantenho crença no sistema atual, mas acrescento renúncia do executivo 6 meses antes das eleições. Em terceiro, numa consistente proposta de 5 anos sem reeleição, embora considere os riscos de vir a vingar reeleição consecutiva, no que iríamos para 10 anos.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 23 de abril de 2010 18:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (23/04/2010 às 18h46min00s BRT),
Ao fim ainda resta uma questão, como evitar que um presidente faça esforço para defender a reeleição para proveito próprio? Bem, a solução é simples, se for só para evitar o presidente de impor uma proposta assim, basta eleger alguém como FHC que realmente não tem ânimo de participar desse jogo sujo. Tem razão que como réplica dizer que não é tão simples assim, pois mesmo sem o ânimo dele a proposta foi aprovada. É, talvez tenha que ser genérico, impedindo que o presidente e os áulicos dele tentem semelhante manobra. E o impedimento não é difícil. Basta estender o prazo de 1 ano da legislatura eleitoral para um prazo de 5 anos. E colocar esse prazo como cláusula pétrea. Assim além de estabilidade na legislação eleitoral não haveria risco de em um mesmo governo ser introduzida a reeleição. E os políticos não têm interesse em fazer uma legislação para que o próximo governante seja o beneficiário.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 27/04/2010

terça-feira, 27 de abril de 2010 12:56:00 BRT  

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