quarta-feira, 21 de abril de 2010

Campanha sem interdições (21/04)

O PT propõe interditar a reflexão sobre o porvir. Como se o país devesse simplesmente outorgar a Lula a indicação do próximo presidente. E o PSDB não conseguirá fugir dos questionamentos sobre o que fez no poder

O Brasil deve ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a antecipação da campanha eleitoral. É obrigatório reconhecer pelo menos um saldo extremamente positivo da longuíssima movimentação de sua excelência para alavancar a candidata do governo. Positivo para o país.

O motivo de Lula para abrir prematuramente a disputa foi —e é— bem conhecido: reunir condições de impor um nome ao PT e aos aliados, e gorar no ovo qualquer tentativa de movimentação independente no situacionismo. E quem errou na análise, ou no timing, deu-se mal. Os favoritos a sobrar com o mico na mão são Ciro Gomes e seu PSB.

Mas até aqui estamos no terreno da política por ela mesma. É preciso olhar a coisa do ângulo do eleitor. E este, insisto, colheu um prêmio. Pelo menos quatro meses (se contar a Copa do Mundo, são três) para conhecer os candidatos como são de verdade, antes de a fantasia tomar o lugar dos fatos nos programas de rádio e televisão.

Graças à largada prematura do governismo, a oposição chegou quente em abril, após as desincompatibilizações. Não havia mais tempo a perder. Agora, diferente das outras vezes, os litigantes estão à toda.

Serão meses preciosos, quando também o jornalismo se moverá com liberdade maior. O conceito surreal de “pré-candidaturas” traz o aspecto positivo: como não há propriamente candidaturas, fica difícil cercear a movimentação geral, na política e no jornalismo.

E o que temos visto? Há ainda alguma retórica —afinal, estamos no Brasil—, mas a vida prática pelo menos tenta infiltrar-se nos discursos. O PT insistirá na tecla da comparar as administrações Lula e Fernando Henrique Cardoso, sua estratégia desde sempre? Sim. O PSDB continuará concentrado em debater o futuro? Também. Como é provável que ambos alcancem só parcialmente o objetivo, o resultado pode ser interessante.

Pois talvez tudo seja afinal discutido. Não seria bom? Passado e futuro. O PT propõe uma espécie de interdição envergonhada da reflexão sobre o porvir. Como se o país devesse simplesmente outorgar a Lula a indicação do próximo presidente, por Lula ter resultados melhores que FHC. E o PSDB não conseguirá fugir dos questionamentos sobre a passagem pelo poder, para o eleitor medir a probabilidade de os tucanos realizarem o que propõem.

É possível um cenário bizarro, com cada um a falar só de seu assunto preferido? Restando como ponto de fricção as pegadinhas, as aspinhas para preencher o cotidiano do noticiário preguiçoso? Possível é, mas improvável. Mesmo que deseje, ninguém está só, ninguém joga solto numa campanha eleitoral. Ou, melhor, numa “pré-campanha”.

Que bela chance de mitigar momentaneamente a tara cartorial da nacionalidade! Os debates, por exemplo, este ano devem acontecer todos. Ou pelo menos os principais. E já no primeiro turno. Não haverá como correr, pois não há favorito disparado. E não há ambiente para aliviar a vida de fujões.

Verdade sem dono

A política externa de Lula é no geral boa. Mas tem, a exemplo de tudo na vida, seus problemas. Pena que o presidente recorra amiúde à desqualificação da crítica. Como fez ontem. Quem discorda dele não necessariamente está movido pelo propósito de diminuir o Brasil no plano internacional.

É possível o sujeito ser patriota e divergir de Lula na política externa, total ou parcialmente? Óbvio que sim. Mas essa possibilidade não se manifesta no discurso presidencial, Lula não abre a porta para um verdadeiro diálogo.

Ou se está 100% com Lula, ou se está contra o Brasil. Uma linha que encontra dificuldade para manter a consistência. Fragilidade que vem sendo habilmente explorada pela oposição.

Aliás, nos últimos tempos publicações estrangeiras que vinham elogiando Lula e o Brasil começaram a colocar um pé atrás. Significa que estão certas agora, quando criticam? Não. Assim como não estavam necessariamente certas quando elogiavam —e isso era apresentado pelos operadores do poder como supertrunfo de Lula diante do mundo.

Ninguém é dono da verdade. Nem na imprensa nem na política. E num planeta hiperinformado — porque hiperinformatizado — quem percebe antes ganha boa vantagem competitiva.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (21) no Correio Braziliense.

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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
"Que Sera Sera,
what ever will be, will be".
O futuro é uma incógnita. E o passado é esse nosso conhecido de acordo com a ideologia que cada um usou para interpretá-lo.
O que ocorre com o PT é que ele espera ter como trunfo a interpretação de cada um sobre o passado. É uma estratégia política que muitos evitam. Em 2002 (e também em 1998), por estratégia, a campanha do PSDB era sobre o futuro: "Eu tenho medo do que virá com o PT". Os admiradores do PSDB poderão dizer que coerentemente, se a coerência for um valor, o partido propõe também desta vez a discussão sobre o porvir.
Assim, não concordo com a sua frase de que "O PT propõe uma espécie de interdição envergonhada da reflexão sobre o porvir". Não há como o PT fazer a interdição. Ele tem uma estratégia que seria diferente, se a candidata adversária fosse a Heloisa Helena, por exemplo. Ai provavelmente o PT usaria a mesma estratégia de José Serra em 2002.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/04/2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010 11:53:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"A política externa de Lula é no geral boa."

Boa para quem, cara pálida?

Não sei se você incluiu em sua análise o artigo “Brazil's cuddly ways are barrier to seat at the top table” de John Paul Rathbone para o Financial Times (20/04/2010)

Bom artigo com o qual concordo bastante.

Que Lula é um narcisista, não discuto. Mas Rathbone chamá-lo de ingênuo ou bufão é um equívoco do analista.

O que o governo brasileiro defende foi expresso na recente Cúpula sobre Segurança Nuclear, em Washington: "O modo mais eficaz de se reduzir os riscos de que agentes não-estatais utilizem explosivos nucleares é a eliminação total e irreversível de todos os arsenais nucleares" (discurso presidencial)

http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u719974.shtml

A eliminação total será uma conquista realista de longo prazo. Em termos geopolíticos, Lula pediu e irrealizável. O que se disse em Washington prenuncia a intenção do governo em levar a VIII Conferência do TNP em maio na ONU para o impasse.

A atual política externa não tem nada de ingênua. Tem método, embora às vezes errático na condução, como no caso de Honduras e de Cuba. Se perdem a eleição presidencial , então o ciclo fecha e a análise do período poderá ser feita com base nos resultados efetivamente conquistados. Se ganharem, acho que o grupo vai continuar insistindo no método, agregando a novidade do ex-presidente livre para atuar mais à vontade na linha de frente internacional.

Na visita que fará ao Irã, Lula precisará convencer os aitolás que o governo brasileiro tem, em relação ao programa nuclear, os mesmos interesses estratégicos que o Irã.

Para tornar-se respeitável e confiável aos aitolás, será necessário convencê-los sobre a vitória de Dilma estar no papo, assim como estava a de Ahmadinejad. Essa é a única garantia de continuidade da atual política externa. Estando em fim de mandato, não vejo o que mais Lula poderia oferecer, a não ser a certeza de continuidade do seu grupo no controle do poder de Estado.

Vai dar certo a diplomacia do “olho no olho” ? O narcisismo de Lula, alimentado diuturnamente pelo puxa-saquismo dos áulicos, o leva a crer que suas chances no Irã são tão grandes quanto o ego dele.

Eu prefiro aguardar os fatos, observar com quem ele conversará além do Ahmadinejad, ouvir o que Lula e os donos da casa dirão e, principalmente, como agirão desde agora até a VIII Conferência do TNP em maio

quarta-feira, 21 de abril de 2010 12:03:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O que Lula pretende com sua visita ao Irâ?

Tida como preparatória para a VIII Conferência do TNP na ONU, a Conferencia Nuclear de Teerã aconteceu neste último fim de semana. No domingo, o ministro iraniano de relações exteriores Manouchehr Mottaki leu uma declaração tão ou mais irrealista quanto a de Lula (que pediu o desarme nuclear imediato dos EUA) na Cúpula de Washington: “Um Oriente Médio livre de armas nucleares requer que o regime sionista se una ao TNP”. (18/04/2010).

http://www.almanar.com.lb/newssite/NewsDetails.aspx?id=134189&language=es

Na abertura da Conferência, Ahmadinejad pronunciou-se favorável à criação de “um grupo internacional independente que planeje e supervisione o desarme nuclear e impeça a proliferação”. Ahmadinejad defendeu que os EUA não fossem admitidos nesse “grupo internacional independente”.

http://www.almanar.com.lb/newssite/NewsDetails.aspx?id=133861&language=es

No mesmo domingo de encerramento da Conferência que exigiu a adesão de Israel ao TNP, o governo iraniano comemorou o “dia do exército” e expôs no desfile militar os mísseis capazes de transportar ogivas nucleares.

Durante os festejos, Ahmadinejad pronunciou discurso no qual, mais uma vez, comparou Israel a um “micróbio corrupto”. Se ainda restava dúvida sobre o objetivo estratégico de varrer Israel do mapa, a metáfora do micróbio corrupto é prova mais que suficiente dessa intenção. Apesar de Ahmadinejad falar por metáforas supostamente persas, o que mais se deve fazer com o micróbio corrupto que ameaça a saúde das nações da região, a não ser exterminá-lo?

“O regime sionista está em vias de colapso", disse Ahmadinejad. "Este regime é o principal instigador da rebelião e conflito na região [...]. A principal razão para a insegurança na região nesses últimos 60 anos é esse micróbio corrupto. Seus aliados e criadores [refere-se à criação de Israel pela ONU em 1948] devem parar de apoiá-lo [Israel] e permitir que as nações da região e os palestinos resolvam as coisas com eles”.

Ahmadinejad só não foi claro o suficiente na explicitação da profilaxia mais eficiente na desinfecção do ambiente ameaçado pelo micróbio judeu. Hitler, que não dispunha de tecnologia nuclear, decidiu pela profilaxia dos gases venenosos seguida da eliminação dos restos nos fornos crematórios. Fantasticamente, o fez em escala industrial. Hitler só queria o bem da humanidade. Zelava pela nossa saúde, buscando livrar definitivamente o mundo do contágio com o micróbio judeu

http://www.almanar.com.lb/newssite/NewsDetails.aspx?id=133891&language=en

A posição oficial do governo brasileiro sobre o desarmamento nuclear está afinadíssima com a do Irã. Apesar de embaladas em “mentiras nobres”, elas não são ingênuas. Isso autoriza e unifica os governos brasileiro e iraniano no confronto que certamente patrocinarão também na VIII Conferência (os países que “não têm autoridade moral”).

Isso é bom para o Brasil? Eu diria que é péssimo.

quarta-feira, 21 de abril de 2010 12:28:00 BRT  
Blogger assino mamãe… disse...

O grande problema do Lula, do PT e dos petistas é esse: ou se está com eles ou contra eles. Nñao é possível concordar com algumas coisas e discordar de outras. Isso é insuportável.
Eu aprovo algumas coisas que Lula fez, mas desaprovo outras e por isso, qualquer coisa que fale, já me caem em cima. Não dá pra manter um diálogo.
Uma das coisas que deploro no seu governo é essa política externa. Está em completo desacordo com o que o pensam e pregam os brasileiros. É uma política ideológica e de partido e não uma política de Estado, e nos envolve em assuntos e atitudes que depõem contra o Brasil.
Isso é pensar pequeno, muito ao contrário do que o PT prega. Estar de acordo com as grandes potências não nos apequena como querem nos fazer crer. Importa apoiar o que é certo, independente de quem propõe.

quarta-feira, 21 de abril de 2010 17:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

"E o que temos visto? Há ainda alguma retórica —afinal, estamos no Brasil"

esta tua frase foi puro preconceito. Substancializou completamente o "Brasil".

abs

DAniel Menezes

quarta-feira, 21 de abril de 2010 21:33:00 BRT  
Anonymous Marcelo Andrade disse...

Parabéns pelo post. Na maioria dos blogs os blogeiros são Lula desde criancinha ou são oposição a Lula. Poucos fazem analise de maneira mais equilibrada. Analisando os fatos e suas conseqüências sem enfatizar demasiadamente na pessoa.

quarta-feira, 21 de abril de 2010 23:03:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, tenho gostado muito de vários de seus últimos posts, sempre quero comentá-los mas outras atividades vão se sucedendo e acabo por não fazê-lo. Porém, como a discordância gera uma maior vontade de manifestação, comento o comentário do Paulo Araújo. Caro Paulo, começando pelo final, porque a posição do governo brasileiro sobre desarmamento nuclear é prejudicial ao Brasil? Dou tratos à bola e a única resposta que encontro é o fato de o país não posar nessa foto específica com as lideranças do mundo ocidental. E isso sequer tem efeito relevante sobre a força da diplomacia brasileira em geral. Posso discordar inteiramente de uma iniciativa diplomática sem por isso entender que ela prejudique o país: o jogo diplomático produz muito mais jogo de cena que decisões efetivas. Um exemplo para que eu não passe por “áulico puxa-saco” do presidente vai um exemplo recente que achei repulsivo: quando do lado do primeiro ministro britânico Lula culpou os “loiros de olhos azuis pela crise”. Pura falta de educação, conseqüências para o país? Zero. O Foreign Office britânico imediatamente soltou uma nota dizendo que entendia que a declaração possuía finalidade de política interna (dá para ser mais preciso?). Lula sabia que podia posar de durão sem criar uma crise diplomática (pouco importa se combinou antes com os ingleses). Agora, mais sério, por que a concordância com o Irã a respeito do desarmamento nuclear (que ela existe grosso modo é evidente, em detalhes não saberia dizer, creio que não) implica em respaldar a posição do Irã sobre Israel? Se esse ponto específico não afasta o Brasil do ocidente em todos os demais assuntos também não torna o Brasil idêntico ao Irã. Também não consigo entender por que uma posição divergente ou mesmo irrealista implique em desejo de confronto... se concordamos em tudo corremos para o abraço, vai negociar o que? E o “irrealismo” também faz parte do jogo de cena, veja que algo pode ser irreal mas possuir um forte suporte moral: por que Israel tem o direito de se manter a parte do TNP? Por que Israel tem o direito tácito de possuir armas atômicas sem declará-las? Quem pode discordar que a máxima segurança estaria na eliminação dos arsenais (independente da possibilidade de fazê-lo a curto ou longo prazo)? Posso não gostar de Ahmadinejad, mas tenho que reconhecer que ele faz alguns pontos. Por fim, estou próximo da posição do Alon dos “bad cap, good cap”, o Irã é um país maior e mais sofisticado que o Iraque de Saddam Hussein, uma guerra seria ainda mais cara e mais difícil de sustentar. Entrar em jogo com o ocidente em bloco contra o Irã (digamos que China, Rússia e Turquia não são lá muito ocidentais, e nós até parecemos) fortaleceria, mais do que enfraqueceria, o atual governo, e dificilmente teria outro desfecho que não a guerra.

sexta-feira, 23 de abril de 2010 11:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O que dá para dizer nesse embrulho nuclear: 1) o Brasil, com sua posição, não conseguirá desarmar as 5 potências nucleares mundiais e sabe disso; 2) sabe também que quem se encarrega de investigar e prevenir desvios de urânio são as 5 potências; 3) sabe também que não permitirão que forças assimétricas venham a possuir armas nucleares; 4) as decisões a respeito de desarmamento, paulatino ou acelerado, serão tomadas pelas 5 potências; 5) o Brasil também não conseguirá deter o Irã, caso este esteja realmente desenvolvendo armas nucleares e com ceteza sabe disso também, tanto como os outros interessados; 6) muito menos detém condições de influenciar Índia, Paquistão, Israel, Coréia do Norte sobre suas políticas nucleares e todo mundo sabe disso. A salvação de tudo, situa-se na quase certeza de que ninguém estaria disposto a apertar algum gatilho nuclear. Ou em obliterar algum desafeto com armas convencionais. Ninguém quer o inferno, muito menos no Oriente Médio. Talvez seja com isso que conta a diplomacia brasileira. Quanto ao ranger de dentes, talvez ela saiba mostrar que, desde 1870, o Brasil não tem qualquer conflito com vizinhos. Talvez isso possa ser ensinado em eventual lugar permanente no CS da ONU.
Swamoro Songhay

domingo, 25 de abril de 2010 15:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alberto099 (23/04/2010 às 11h20min00s BRT)
Concordo com você, só não acredito que se o Brasil entrasse em jogo com o ocidente em bloco contra o Irã o atual governo se fortaleceria (Aos olhos de quem e para efeitos sobre quem?) nem que o desfecho de o Brasil adotar uma posição pró-ocidental seria a guerra. Enfim sobre esse assunto, penso que a conclusão de Swaoro Songhay no comentário dele de 25/04/2010 às 15h22in00s BRT de que "A salvação de tudo, situa-se na quase certeza de que ninguém estaria disposto a apertar algum gatilho nuclear" é a mais correta.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/05/2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010 13:39:00 BRT  

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