quinta-feira, 15 de abril de 2010

Basta a observação (15/04)

Os sujeitos que entre 1964 e 1985 alcançaram o adjetivo de “históricos”, e que ainda estão por aqui, dividem-se em duas categorias: os pacificados com a própria biografia e os demais

Conduzir o debate a partir de juízos sobre os adversários é o caminho mais seguro para o desastre na política. Um bumerangue infalível, pois permite ao oponente vitimizar-se. De vez em quando desavisados enveredam pela trilha, pois ela leva jeito de ser bonita e fácil. Só impressão.

Dia desses vi um documentário sobre Nelson Mandela, onde a explicação para o longuíssimo período dele atrás das grades era “a luta contra o apartheid”. Uma falsificação histórica, comum nos processos de glorificação e criação de mitos.

Teve um monte de gente que lutou contra o apartheid e não foi presa. Mandela ficou um tempão encarcerado porque adotou o caminho da luta armada contra a segregação dos negros.

E daí? E daí nada. Uma vez no poder, Mandela seguiu pela trilha difícil e frutífera da conciliação. Está em Invictus, o filme bacana de Clint Eastwood. Um pouco glamourizado, mas paciência. O cinema seria muito chato se fosse só reprodução da vida real.

Concluiremos, então, que o epílogo da carreira de Mandela representou a negação do que propunha no começo da caminhada? Ou, ao contrário, a ratificação da tática adotada nos anos 1960? De novo, nenhuma das anteriores. Aqui, o método do juízo a posteriori conduziria a um desastre historiográfico.

Gandhi preferiu a não violência e alcançou a independência da Índia, mesmo amputada do que viria a ser o Paquistão. Pode-se então afirmar que Gandhi é superior moral ou politicamente a Mandela? Quem seria irresponsável de dizer isso?

A história não funciona assim. Na abordagem dela, mais útil é analisar os fatos e sua influência sobre os outros fatos. E como são influenciados por estes. Uma polêmica, por exemplo, é quanto a luta armada no Brasil na segunda metade dos anos 1960 foi causa ou consequência do endurecimento do regime militar. Um trabalho duro para os historiadores. Nunca chegarão ao consenso.

Vejam que eu disse “quanto”, e não “se”. Faz toda a diferença. O “quanto” permite uma avaliação histórica, escapando do juízo quase moral a que somos empurrados se optamos pelo “se”.

Suponha que a Palestina e Israel cheguem a um acordo de paz com o mútuo reconhecimento e o compromisso bilateral de plena segurança, além da anistia de quem praticou atos de violência. Razoável. Por acaso esse desfecho seria um diploma de honra ao mérito para quem explodiu crianças em ônibus ou atirou deliberadamente em civis? Claro que não.

A função de juiz moral ou político da história embute uma taxa letal de pretensão. Como julgar o preso político que sob tortura passa aos algozes informações que depois serão usadas para prender e eventualmente seviciar outras pessoas? Impossível, além de — aí sim — imoral. E repugnante, quando o carrasco se autonomeia para sentenciar sobre o comportamento da vítima.

Na ditadura brasileira houve quem lutou armado e quem preferiu fazê-lo só com as armas da mobilização e da palavra. Houve quem conseguiu ficar no Brasil e quem precisou sair. Houve quem se arrependeu e trocou de lado. Houve quem mudou de ideia sobre o melhor caminho para alcançar o objetivo, e ajustou-se no meio do caminho. E houve quem não viveu para refletir sobre a própria experiência.

São todas classificações que pegam gente de ambos os lados. E os critérios se referem a fatos já encerrados. Uma contabilidade factual fechada.

Vindo para o presente, os sujeitos que entre 1964 e 1985 alcançaram o adjetivo de “históricos”, e que ainda estão por aqui, dividem-se basicamente em duas categorias: os pacificados com a própria biografia e os demais.

Não é tão difícil identificar os integrantes de cada clube. Não é necessário método muito sofisticado. Basta a simples observação.

Bom sinal

Vai chegando ao fim o biênio do ministro Gilmar Mendes na Presidência do Supremo Tribunal Federal. Houve nesse período decisões do STF para todos os gostos, e para todos os desgostos.

Quem se der ao trabalho de listar, não conseguirá encontrar um fio condutor ideológico, ou político, nas sentenças da Corte.

O que é bom. Mostra que o Supremo está cumprindo sua função, julgando caso a caso de acordo com a consciência dos juízes.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (15) no Correio Braziliense.

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3 Comentários:

Blogger Túlio disse...

Exato. Só faltava que, na primeira eleição presidencial sem representantes da velha direita entre os candidatos, a esquerda resolvesse fazer um acerto de contas entre "guerrilheiros" e "fujões", como (quase) disse o General Leônidas ao Geneton. A esquerda adotando o discurso retrógado contra a própria esquerda. É muita burrice.

quinta-feira, 15 de abril de 2010 12:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eu não vejo porque temer o juizo moral, afinal, o fazemos em relação ao nazismo, não?

quinta-feira, 15 de abril de 2010 18:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Como é que é...( )polêmica em relação à questão de se a ditadura aconteceu por conta da luta armada ou que a luta armada aconteceu por causa da ditadura...( )
Nem a direita inteligente pensa assim. Simplesmente não existe essa polêmica, o acontecimento é descrito pelos próprios militares de a Revolução Redentora (redentora de que mesmo? Da luta armada é que não era, eu nunca soube que existisse alguma coisa como isso antes da Redentora). Já por nós, quase todos nós, de Golpe Militar. Se, para a esquerda em 64 havia o Jango para que guerrilha. Tem mais uma evidência, a intenção desse golpe que não acontecera em 1955 não perdeu a chance em 1964. Então, ponhamos os pingos nos is, antes de abrirmos um artigo sobre o tema.
Ismar Curi

sábado, 17 de abril de 2010 13:40:00 BRT  

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