terça-feira, 13 de abril de 2010

A armadilha do cronômetro (13/04)

Está na hora de mobilizar toda a inteligência do Itamaraty e toda a perspicácia político-sindical de Lula. Até para não comprometer o projeto de o Brasil alcançar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva talvez precise usar as conhecidas habilidades sindicais para encontrar uma saída diplomática que, ao mesmo tempo, preserve a soberania brasileira na definição das relações bilaterais com o Irã e impeça o Brasil de escorregar para o isolamento político planetário.

A má notícia aqui é o assunto ser extremamente complexo e delicado. A boa notícia é Lula possuir (pelo menos) sete vidas. Ele tem como achar um jeito de sair bem. Aliás, o discurso brasileiro sofre um ajuste fino desde que Hillary Clinton passou por Brasília.

A partir de lá, no começo discretamente, a diplomacia brasileira e o presidente começaram a deixar claro que vão com Teerã só até certo ponto. Se forem removidas as camadas de retórica, percebe-se o esforço de Lula no assegurar a Washington que não vai dar um cheque em branco para Mahmoud Ahmadinejad.

Escrevi aqui outro dia sobre a necessidade de um upgrade na posição brasileira. E o ambiente no Itamaraty é exatamente este: os diplomatas quebram a cabeça em busca de uma solução boa o suficiente para não nos deixar mal nem com uns nem com outros. Há inclusive certa tensão entre o gabinete presidencial e a chancelaria. Mas nada que uma bela saída final não resolva.

Lula precisa do troféu para exibir, como prova de que "não se dobrou aos americanos". Mas tampouco pode embarcar numa aventura de braços dados com Ahmadinejad. A solução ótima será o Irã aceitar o monitoramento internacional e as medidas já propostas por franceses e russos, para garantir ao mundo o caráter pacífico do programa nuclear persa. Seria uma vitória maiúscula de Lula.

Mas ela parece por enquanto distante.

Há outro componente, mais obscuro, no imbróglio. A teimosia iraniana é útil ao governo brasileiro quando nos dá uma plataforma para denunciar o militarismo dos grandes, um biombo discursivo a encobrir nossas próprias ambições nucleares.

Uma coisa é debater se o Brasil precisa ou não da bomba. Penoso. Mais fácil é defender o direito de o Brasil desenvolver energia nuclear da maneira que melhor lhe convier. Essa segunda linha é propagandisticamente boa, pois evita o debate no mérito.

Lula domina bem a técnica de radicalizar em público e buscar um meio-termo em privado. Tipicamente sindical. É disso que se trata agora.

Na busca do troféu, o presidente precisará escapar ainda da armadilha do cronômetro. O ritmo do ajuste da posição brasileira deve estar sincronizado com russos e chineses. É visível que os Estados Unidos nos consideram ator secundário da peça. Mas estão empenhados full time em atrair Moscou e Pequim para um acordo que coloque limites ao programa nuclear dos aiatolás.

O risco é ficarmos pendurados no pincel. E se chineses e russos chegam a um acerto com os americanos? O que faremos? Vamos aderir na 25ª hora? Ou vamos "marcar posição", num repeteco do constrangimento hondurenho? Parece óbvio que nem russos nem chineses vão deixar de fechar um pacto com os Estados Unidos só para serem solidários a nós.

Está na hora de mobilizar toda a inteligência do Itamaraty e toda a perspicácia político-sindical de Lula. Até para não comprometer o projeto de o Brasil alcançar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Falta uma peça

Há forte resistência no governo a assinar o protocolo adicional do tratado de não proliferação (TNP) de armas nucleares. O argumento para não assinar é a defesa da soberania tecnológica do país, pois o texto prevê poderes totais de inspeção à Agência Internacional de Energia Atômica.

Argumentam ainda que a Constituição brasileira já proíbe fabricar a bomba.

Mas será que essa recusa também não compromete nosso projeto de integrar permanentemente o Conselho de Segurança da ONU?

Especialmente porque, segundo nossos líderes, não queremos mesmo ter armas nucleares. Ou seja, vamos brigar com os principais países do mundo porque não aceitamos que uma agência multilateral verifique como estamos cumprindo os compromissos por nós assumidos. Apesar de estarmos cumprindo.

Qual é a lógica nisso? Falta alguma peça para completar o quebra-cabeças.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (13) no Correio Braziliense.

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23 Comentários:

Blogger Ligeirinho disse...

Alon,

Não conheço nada de tecnologia nuclear, mas me lembro muito bem que uma das questões levantadas qdo das inspeções da AIEA às nossas centrífugas de enriquecimento de urânio era o qto devíamos mostrar sem que 'segredos tecnológicos' fossem revelados... Se isso era verdade e não jogo de cena, explica a relutância em assinar esse protocolo adicional.

terça-feira, 13 de abril de 2010 00:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Parabéns Alon, você escreveu "se chineses e russos chegarem a um acordo com os americanos", sem cair na conversa de que os chineses já tinham concordado com as sanções.

terça-feira, 13 de abril de 2010 11:02:00 BRT  
Anonymous Paulo Borges Lima disse...

Discordo de você, pois acredito que o Brasil deve ter sim uma bomba atômica. Só assim seremos líderes incontestes na América do Sul.

terça-feira, 13 de abril de 2010 11:03:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Ligeirinho

O post está correto. Em minha opinião devemos assinar o protocolo adicional.

Não há argumento racional para que o país não assine o Protocolo. Incrível como essa turma contrária se apega ao tal "complexo de vira-lata" para justificar a "posição soberana". Tolice.

A se confirmar que a China fechou com o Obama as sanções, o Brasil ficou isolado. Lula que não é burro de ficar sozinho contra o grupo dos 6 vai loguinho dar uma "hondurada". Amorim já deu mostra disso quando esteve dias atrás no Senado.

Nós só temos a ganhar assinando o protocolo. Com apenas 30% do território nacional mapeado, já ocupamos a 6ª posição mundial em reservas de Urânio. Portanto, é provável que o potencial seja maior.

O Brasil já domina a tecnologia para enriquecer a 20%, que é o necessário para produção de equipamentos destinados às atividades médicas, entre outras. Tudo isso feito sob a lupa do TNP. Há no mundo fila de espera para comprar urânio enriquecido. Isto é, a demanda já é muito superior à oferta. Ou seja, um puta mercado.

Enfim, o Brasil tem condição de no futuro tornar-se exportador de urânio enriquecido para fins pacíficos. Assinar o protocolo é como aceitar um convite para entrar no seleto clube de exportadores. Não assinar é esnobar o clube e ficar de fora dizendo que eles são feios, sujos e malvados. E aí vamos vender para quem? Para o Sudão? Para o Congo? Não assinar é criar ruído desnecessário. É bravataria de vira-lata que late mas não morde.

Mesmo se tivermos de fato alguma tecnologia inédita (é tão inédita que nem saber dizer exatamente o que é. Parece piada.), é fácil negociar a proteção dela em troca da assinatura.

A Venezuela parece que tem muito urânio, que o Irã está de olho. O Brasil como membro pleno do seleto grupo poderia, por exemplo, processar o urânio de outros países da América Latina e liderar como pais membro pleno do clube esse mercado. Se a gente não fizer isso, outros países farão: os EUA, a Rússia, a China, o Irã etc.

Ainda não sabemos como fazer o enriquecimento industrialmente. Portanto, sou favorável a que o país procure um sócio internacional de peso o mais rápido possível e com disposição de transferir tecnologia industrial. Mas a posição do governo dos ditos “não-vira-latas” é a de criar uma empresa estatal mista. Isto é, o Tesouro entrando com a parte do governo e o BNDES entrando com a parte dos "empresários nacionais". Ou seja, a velha mamata patrimonialista de beneficiar os apaniguados.

Lembra no que deu a “proteção estratégica” da indústria nacional de informática? Eu lembro. Deu prejuízo e pôs grana grossa no bolso de muito picareta. A conta disso pagamos nós, os contribuintes que sustentam a corja.

Eu penso que no futuro o governo vai ceder e assinar o Protocolo. Mas antes o Lula vai querer um palco, uma paparicação do Obama (“Cara, você é o cara”) e só depois apresentar a assinatura como se isso fosse um dádiva do rei Sol. Bobagem. Se não assinarmos, vamos é ficar no clube dos párias.

Se quiser alguma informação relevante, leia a palestra do Almirante que gerencia o programa do submarino que foi publicada em ótimo resumo em um site especializado.

http://www.naval.com.br/blog/ 2010/03/04/resumo-da-palestra- do-prosub/

Repare na passagem em que ele diz que para o reator do submarino são necessários apenas 7% de enriquecimento. Ontem o Pingueli no Globo News falou que o reator precisa de 20%. Ou seja, está por fora.

Até onde sei, 20% de enriquecimento é para produção, por exemplo, de vários aparelhos de uso médico. Tenho um sobrinho físico que faz residência no Hospital AC Camargo (referência em oncologia). Na área de oncologia os aparelhos de radioterapia estão cada vez mais precisos. Antes, ao se bombardear um câncer, atingia-se desnecessariamente partes sãs. Hoje, o avanço tecnológico permite focar mais diretamente sobre as células cancerosas, o que provoca menor dano colateral, ao mesmo tempe que permite aumentar a dose ou tempo de exposição.

terça-feira, 13 de abril de 2010 11:26:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, nada sei sobre o tal protocolo adicional e a mim também não agrada qualquer posição que restrinja a transparência nesse assunto. Agora, a saída para o caso do Irã já está clara: o Brasil já declarou que cumprirá qualquer resolução do Conselho de Segurança da ONU a respeito de sanções ao Irã, não se dobrará aos EUA, mas à ONU.

terça-feira, 13 de abril de 2010 13:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Tiago Aguiar, (terça-feira, 13 de abril de 2010 10h45min00s BRTA)
Israel bombardeou instalações nucleares iranianas? Quando ocorreu tal coisa? Será que você queria referir-se ao Iraque?
Swamoro Songhay

terça-feira, 13 de abril de 2010 13:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Seria muito mais interessante que o Brasil assinasse o Protocolo Adicional ao TNP. Isso porque, a influência brasileira é pequena para alterar posições de EUA, China, Rússia, Reino Unido e França. E também sobre Índia, Paquistão, Israel, Coréia do Norte, Irã. Ou seja, pode ficar isolado e ter a credibilidade de suas pesquisas para fins pacíficos questionada. Sobre o assunto, há interessante matéria na FSP, pg. A3, 10/04/2010. Artigos de Samuel Pinheiro Guimarães e Rubens Ricupero, onde ambos respondem à questão: O Brasil deve assinar o Protocolo Adicional ao TNP?
Swamoro Songhay

terça-feira, 13 de abril de 2010 14:09:00 BRT  
Blogger Ligeirinho disse...

Sobre a 'piada' de termos ou não alguma tecnologia inovadora, sugiro o seguinte artigo de 2004 (quando já se falava sobre o tratado adicional) http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=15243

terça-feira, 13 de abril de 2010 14:56:00 BRT  
Anonymous Tiago Aguiar disse...

Lanço neste espaço meus protestos. Sempre achei que o jornalista em tela era um democrata, mas ao podar opiniões em contrário, me decepciono. Espero que aperfeiçoe este espaço dando mais pluralidade.

terça-feira, 13 de abril de 2010 17:08:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

O problema, Tiago, não são as opiniões, mas as informações completamente erradas, factualmente erradas. E que acabam abrindo um debate inadministrável. Receberei suas observações normalmente, desde que elas sejam verificadas e, portanto, não me obriguem a fazer recorrentemente o trabalho que deveria ser realizado por quem comenta.

terça-feira, 13 de abril de 2010 18:32:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Ligeirinho

O que se faz em termos de desenvolvimento de C&T na área nuclear no Brasil, com todo respeito aos nossos cientistas, não se compara. Não há base de comparação.

A Alemanha que assinou o TNP e que se sujeita à rigorosa fiscalização da AIEA está muito, mas muito mais a nossa frente.

Tecnologia nuclear não é só reator de submarino ou de usina de energia. Essa tecnologia tem aplicação na agricultura, na medicina, na engenharia. Enfim, há um campo imenso de aplicação. E acontece que nós não temos no país os recursos humanos e financeiros para dar o salto que o país precisa nesse campo. Precisamos muito da cooperação mundial e só conseguiremos isso se nos mostrarmos confiáveis. Dizer ao mundo que a nossa Constituição proíbe armamento nuclear não é garantia de porra nenhuma para o mundo.

Volte à reportagem do Ilimar Franco que foi reproduzida pelo Jornal da Ciência. Tudo ali está escrito no futuro do pretérito:

"por trás das mudanças pretendidas pela agência internacional, PODERIA existir um DESEJO escuso de apropriação da tecnologia de ponta desenvolvida pelo Brasil.

Ou informação errada:

'Vamos enriquecer o urânio num percentual inferior a 5%. Eles sabem que para mover um submarino nuclear É PRECISO ENRIQUECER URÂNIO A 20% e que para produzir uma bomba o enriquecimento é de mais de 90%', disse um assessor qualificado do governo.

A informação fornecida em palestra pelo coordenador do programa do submarino brasileiro, Almirante Accioly, fala em 4% para as Usinas e 7% para os reatores dos submarinos. Ou essa autoridade governamental não sabe do que fala ou o Almirante não sabe do que fala. Ou, pior, o Almirante mentiu durante a palestra sobre esses dados.

Outra informação absurda e completamente desprovida de lógica:

“Como o Brasil não é acusado de integrar qualquer 'eixo do mal', a pressão para que a agência tenha acesso irrestrito às instalações brasileiras está sendo associada à pirataria tecnológica.”

Pirataria do quê? Ninguém fala exatamente o quê. A única coisa que ouvimos dizer é sobre a tecnologia das centrífugas. Tudo bem proteger essa tecnologia e isso já é feito. Os fiscais da AIEA fiscalizam essas centrífugas com aparelhos que fazem certas medições. Durante a inspeção as centrífugas são cobertas. O que os fiscais querem é saber do urânio. Querem saber do urânio que entrou no reator do que saiu saiu e onde ele está.

É ofensivo acusar a AIEA, órgão da ONU, de estar a serviço de espionagem industrial.

“Integrantes do governo disseram”.

Quem são esses integrantes. Por que são mantidos pela reportagem no anonimato? Toda a reportagem é feita para justificar a posição do governo.

Eu assisti (07/04/2010) o Seminário promovido pela CRE do Senado sobre a revisão do TNP que vai acontecer maio na ONU. Não lhe parece um contrassenso fazer um seminário apenas dando expressão às posições que concordam com as do governo?.

Seminário é lugar por excelência do contraditório. Mas ele não ocorreu. Foi um seminário montado para a confraternização da unanimidade. Não havia no seminário uma voz sequer discordando e defendendo assinatura do protocolo.

Se o Brasil de fato almeja ser exportador de urânio enriquecido para fins pacíficos e beneficiar-se do desenvolvimento mundial da tecnologia nuclear (com todo o respeito e reconhecimento ao trabalho dos nossos cientistas, sou realista quanto à real capacidade brasileira de levar a bom termo a pesquisa teórica e de aplicação da tecnologia nuclear à margem da comunidade internacional), então por que resistir de modo tão irracional à hipótese de pautar-se pelas normas definidas pela comunidade internacional no protocolo adicional ao TNP?

Enfim, em nenhum momento se perguntou no Seminário se o País, ao não aderir ao Protocolo Adicional, não estaria criando um problema completamente desnecessário em assunto tão sensível á comunidade internacional.

terça-feira, 13 de abril de 2010 23:40:00 BRT  
Blogger Ligeirinho disse...

P A

Em essência tb sou a favor da assinatura. A questão para mim é justamente buscar o contraditório. A submissão do país às regras internacionais é certamente necessária. Mas, sabendo-se quem escreve as regras, é inteligente nos submetermos sem o mínimo questionamento? O tratado como um todo é valido, mas quão contaminado por interesses laterais pode ele estar?

Quanto á inovação, se ela existe, o próprio fato de não termos uma massa crítica de empresas e pesquisadores na área faz com que o segredo seja fundamental! Qualquer inovação que permita que o país domine per si o ciclo de produção deve ser protegido, sobre o risco de ser apropriado e melhorado rapidamente por outros. Futuramente, teríamos que pagar royalties sobre algo que começamos a desenvolver. Aliás, não imagino que haja boa vontade do ‘clubinho atômico’ em aceitar o Brasil como membro fornecedor de material enriquecido. Sem resistências, seremos o maior fornecedor.... de matéria prima bruta. Repito que estou apenas divagando, pois não sou da área.

quarta-feira, 14 de abril de 2010 10:32:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Ligeirinho

Você já se deu ao trabalho de ler o que estão escrevendo os milhares de cientistas nas caixa de comentários de reportagens sobre a vacina da gripe suína?

Pois é. Incrível o número de cientistas que se manifestam sobre os males e os efeitos colaterais da vacina. A teoria na qual se apoiam tais homens de ciência contrários à vacina é conhecida como "Teoria da Conspiração", que somente se mantém em pé se os tempos verbais utilizados em seus enunciados forem conjugados no futuro do pretérito.

Volte ao artigo reproduzido no Jornal da Ciência. A Teoria da Conspiração está lá, fundamentando toda a reportagem.

quarta-feira, 14 de abril de 2010 14:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A AIEA já faz vistorias na fase de enriquecimento de urânio pelo Brasil. Tal faculdade advém do TNP, do qual o Brasil é signatário. Inibir o controle internacional sobre o estágio e destino do urânio enriquecido, que é o que a AIEA faz, pode redundar em obstáculos à colaboração de centros de pesquisas internacionais com centros brasileiros da área. Nas tarefas de desenvolvimento pacífico da energia nuclear, isso seria fundamental. Isolados será muito difícil saltarmos de patamar nas vastas áreas de aplicação pacífica dessa energia. Se a rejeição à assinatura do protocolo adicional deve-se à preocupação com a tecnologia das ultracentrífugas, embora possa se considerar justa, que tecnologia seria essa? Será que EUA, Rússia, China, Inglaterra e França, detentores de tecnologia, arsenais atômicos e recursos financeiros há muito tempo, teriam necessidade de expropriar a tecnologia brasileira? A França, por exemplo, é um país que pode ser chamado de nuclearizado em energia. A Alemanha, que não possui armamento nuclear, detém tecnologia. Acordos e intercâmbios científicos com ambos, por exemplo, seriam muito úteis. Contudo, poderiam ser prejudicados em caso de desconfianças quanto ao programa brasileiro. O Brasil está, há mais de 100 anos, sem quaisquer rusgas bélicas com vizinhos. Assim, não necessita de dissuassão nuclear. Os recursos financeiros e tecnológicos, se não são suficientes para ampliação da aplicação da energia nuclear para fins pacíficos, que dirá em termos de escala para outras aplicações, como o desenvolvimento de artefatos e a produção de lançadores.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 14 de abril de 2010 14:49:00 BRT  
Blogger Ligeirinho disse...

Paulo

A teoria da conspiração e a ingenuidade são dois pontos opostos da mesma escala. A verdade raramente é 0 ou 1

Songhay, vc disse "Será que EUA, Rússia, China, Inglaterra e França... teriam necessidade de expropriar a tecnologia brasileira?"

Não foi isso que escrevi. Quem necessita dessa tecnologia somos nós. Não desenvolvermos autonomamente nossas próprias tecnologias nos deixa nas mãos de quem a detém.

Claro que pode não haver inovação nenhuma, apenas jogo de cena com alguma intenção maléfica... o que tb não deixaria de ter um toque de teoria da conspiração.

quarta-feira, 14 de abril de 2010 17:01:00 BRT  
Blogger Ligeirinho disse...

um artigo que também xplica a questão tecnológica. Que fique claro que não concordo com tudo que está escrito. Mas há que se reconhecer a autoridade do Almirante Othon para falar nesse assunto. Aramar não existiria sem ele.

http://ecen.com/eee44/eee44p/inpecoes_nucleares_othon.htm

quarta-feira, 14 de abril de 2010 17:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
É para mim uma seara difícil essa de entender as relações internacionais. Principalmente quando considero que a Ásia que conta: China, Índia e Japão não é cristã e, portanto, talvez não aja com os mesmos olhos como agem os países cristãos.
Vejo você como um nacionalista. Também sou nacionalista, mas não me vejo tão nacionalista como você. Repito o que já disse aqui muitas vezes, concordo com José Luís Fiori quando nos coloca como Estado relevante, mas não expansivos, porta-vozes pacíficos do “bom senso ético universal”. Uma espécie de “Turma do deixa disso” conforme o artigo “A turma do “deixa disso”” saído no Valor Econômico de 23/05/2007.
Sendo o Brasil um país assim, não vejo como o cronômetro esteja correndo contra nós.
No entanto, o que mais me chamou a atenção foi você questionar se a recusa em assinar o protocolo adicional do tratado de não proliferação (TNP) de armas nucleares não comprometeria nosso projeto de integrar permanentemente o Conselho de Segurança da ONU?
Como você colocou, parece que para integrarmos permanentemente o Conselho de Segurança da ONU, basta assinarmos o protocolo. Como eu disse não consigo entender como se desenvolvem as relações internacionais. Parece-me, entretanto, que, a menos que o Brasil deseje sair da turma do deixa disso, a solução para entrar no Conselho de Segurança está em nossas mãos, ou melhor, em nossa assinatura.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/04/2010

quarta-feira, 14 de abril de 2010 21:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ligeirinho, quarta-feira, 14 de abril de 2010 17h01min00s BRT.
Fiz a referência com o complememto de achar justa a intenção de proteger desenvolvimentos tecnológicos. Porém, quis deixar subjacente que não é coerente chegar-se ao isolacionismo com tal justificativa. E nem à consideração de constituir-se uma humilhação a adesão do Brasil ao Protocolo Adicional do TNP. Aliás, a AIEA não procura inovações tecnológicas aplicadas a centrífugas e ultracentrífugas, mas sim pelo nível de enriquecimento do urânio e seu destino.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 15 de abril de 2010 09:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Na frase em meu comentário de quarta-feira, 14 de abril de 2010 14h49min00s BRT, "Assim, não necessita de dissuassão nuclear", onde aparece "dissuassão", com todas as desculpas, leia-se dissuasão.
Grato
Swamoro Songhay

quinta-feira, 15 de abril de 2010 10:16:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Ligeirinho

Parei de ler aqui:

"No governo Fernando Henrique, contrariando décadas de coerência em política externa, o Brasil aceitou ratificar o TNP - Tratado de Não Proliferação nuclear. O TNP é assimétrico e discriminatório por dispensar a inspeção em países nuclearmente armados e inspecionar somente os desarmados."

Não me interessou saber o que vem depois.

repetindo pela enésima vez, não foi O GOVERNO FHC que aceitou ratificar o TNP. Foi O SENADO (inclusive com os votos favoráveis do PT) que aprovou a proposta encaminhada da pelo executivo. Gostem ou não, é direito do executivo encaminhar ao Congresso propostas para serem votadas. Ao Senado restou a decisão de aprovar ou não a ratificação.

Pela lógica do Almirante Othon, é forçoso concluir que o Senado aprovou um acordo contrário aos interesses nacionais. No limite, comportou-se como uma instituição lambe-botas do imperialismo.

Que esse senhor vá vestir o seu pijama e cesse as ofensas contra o Senado brasileiro.

O Almirante pate de uma premissa histórica falsa e chega a conclusões igualmente falsas. Ou seja, o Almirante falta com a verdade histórica. Num português mais tosco, e Almirante mente quando responsabiliza o governo FHC pela ratificação.

Não discuto com sofistas. É perda de tempo debater sobre abstratos. Só vale a pena debater sobre objetos.

O TNP é assimétrico? É. E daí?

1. No que a ratificação do TNP pelo Senado interferiu de modo negativo no programa nuclear brasileiro?

2. No que a ratificação do TNP pelo Senado interferiu de modo positivo programa nuclear brasileiro?

3. Indiferente.

Se o Almirante Othon ou qualquer outra pessoa trouxer os objetos para debater, vamos ao debate. Caso contrário, estou fora. Tenho mais o que fazer.

Abs.

quinta-feira, 15 de abril de 2010 23:54:00 BRT  
Blogger Ligeirinho disse...

Paulo

Vc leu o que não devia... e esqueceu a parte que me interessou: o que tivemos que fazer para enriquecer nosso próprio urânio e a inovação tecnológica.

sexta-feira, 16 de abril de 2010 11:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo Araujo (15/04/2010 às 23h54min00s BRT),
Segundo você:
". . . repetindo pela enésima vez, não foi O GOVERNO FHC que aceitou ratificar o TNP. Foi O SENADO (inclusive com os votos favoráveis do PT) que aprovou a proposta encaminhada da pelo executivo",
Segundo o almirante Othon:
"No governo Fernando Henrique, . . . , o Brasil aceitou ratificar o TNP - Tratado de Não Proliferação nuclear".
Parece-me que o almirante Othon foi mais fiel aos fatos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/04/2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010 13:34:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Ligeirinho

Fizemos o que fizemos e a assinatura do TNP não atrapalhou em nada. Ao contrário mais ajudou. Leia os meus comentários no último post no blog ("O bonzinho e o mauzinho". 16/04)

Em dezembro de 1998, a CAE do Senado Logo depois da teve como pauta:

COMISSÕES
09/12/1998
CAE DISCUTE FINANCIAMENTO DA USINA NUCLEAR ANGRA II
A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), presidida pelo senador Pedro Piva (PSDB-SP), discute na reunião desta quinta-feira (dia 10), às 10h, empréstimo destinado ao financiamento parcial do projeto Usina Nuclear Angra II. A operação será firmada entre a Centrais Elétricas Brasileiras S/A (Eletrobrás) e um consórcio de bancos alemães, no valor de 225 milhões de marcos alemães.

http://www.senado.gov.br/agencia/verNoticia.aspx?codNoticia=1356&titulo=CAE%20DISCUTE%20FINANCIAMENTO%20DA%20USINA%20NUCLEAR%20ANGRA%20II

Esse é o ponto que desonestamente os militares bombistas omitem quando criticam o Tratado. Essa oferta de empréstimo seria viável sem a assinatura do TNP?

"Ah! A soberania nacional não tem preço!" Preferem ficar arengando sobre supostos vendilhões da pátria, sobre as intenções ocultas do bandoleiros do norte e as supostas ameças que eles representam.

São uns ressentidos que não se conformam que a ordem democrática os obriga a aceitar que as questões relativas a segurança nacional do país sejam decididos por civis, isto é, pelo Parlamento.

Que se dane o monte de títulos que o Almirante ostenta após o nome e o sobrenome. Isso não lhe confere autoridade e muito menos o direito de acusar nas entrelinhas governos e o Parlamento brasileiros eleitos democraticamente de entreguistas ou subservientes "ausamericânus".

Quero debater sobre objetos que podem ser examinados e pesados. As abstrações que fiquem por conta dos Strangelove (personagem de filme do Kubrick) e seus admiradores secretos ou descarados.

Clever

O Almirante não foi mais fiel aos fatos. Ele omitiu fatos com o objetivo de veicular argumento falso.

Leia os meus comentários no último post no blog ("O bonzinho e o mauzinho". 16/04). Há ali farta indicação sobre a verdade da aprovação da ratificação pelo Senado. O Parlamento demorou um ano para aprovar a mensagem presidencial.

FHC sancionou a aprovação do Parlamento, como aliás é a praxe nos regimes democráticos.

O fato é que os bombistas perderam e não se conformam com a derrota. O mesmo hoje acontece com setores da esquerda que querem forçar uma revisão anacrônica da lei da Anistia.

sexta-feira, 16 de abril de 2010 14:54:00 BRT  

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