sexta-feira, 5 de março de 2010

Um soco em boa hora (05/03)

Será que nossos modelos de eleição e de cobertura jornalística da dita cuja não estão a reproduzir na circunstância eleitoral exatamente o desenho econômico e social excludente que os políticos sem exceção dizem querer combater? E que o jornalismo teoricamente deveria criticar?

Circunstâncias profissionais fizeram eu estar sentado na noite da quarta-feira diante de um filme não propriamente novo, mas ao qual eu deveria ter dado bola antes: “Pro dia nascer feliz”, de João Jardim, lançado há três anos. Tomei um soco no estômago. E veio em boa hora.

O filme dura o tempo de um jogo de futebol e capta as realidades contrastantes de adolescentes nas extremidades sociais e regionais do Brasil. Na pauta, a educação (ou a falta dela), a cultura, a sexualidade, a violência. Bom de passar na televisão aberta em horário nobre. Logo depois da novelinha “como é verde meu vale” da vez.

Quando o comentarista político senta diante do teclado, especialmente no ano eleitoral, a tentação quase irresistível é escrever sobre a politicagem, sobre os joguinhos. “Oposição acusa Dilma de fazer campanha antes da hora”, “Ciro mantém mistério sobre se vai ser candidato a presidente ou a governador”, “PSDB não se entende sobre a vice”, “Lula diz que a eleição não vai ter terrorismo”.

E daí?

Tem também as pesquisas, E lá se vão páginas e mais páginas, manchetes sobre manchetes. As eleições transformaram-se nisto: um mar de politicagem pontilhado aqui e ali por levantamentos estatísticos de intenção de voto e escândalos –reais ou convenientemente fabricados. Só.

Parece-lhe até aqui pueril, um adjetivo incompatível com a função de colunista? Talvez seja mesmo. Mas vou correr o risco, para tentar abrir cartas novas no baralho. Uma: será que os modelos de eleição e de cobertura jornalística da dita cuja não estão a reproduzir na circunstância eleitoral exatamente o desenho econômico e social excludente que os políticos dizem querer combater? E que o jornalismo teoricamente deveria criticar?

Qual é a maior tragédia nacional? Todos têm uma opinião. Na minha modesta, é a distância galáctica entre, de um lado, a beleza de escola frequentada pelo filho do rico e do classe média e, de outro, a tristeza da “escola” oferecida ao filho do pobre. Se você discorda dessas minhas aspas, assista “Pro dia nascer feliz”.

Querem uma segunda desgraça? A expansão ainda muito lenta da rede de água e esgoto para as regiões que o eufemismo nacional chama de “carentes”. Uma terceira? A deplorável situação do transporte coletivo nas grandes cidades. Metrô escasso e ônibus caindo aos pedaços, enquanto empresários espertos, além de muito bem relacionados e sortudos em licitações, faturam os tubos.

Uma quarta? A impunidade crônica dos autores de crimes de morte. O Brasil é o país da boa relação custo-benefício para o homicida. Especialmente se é “de menor”.

Assuntos há de monte. Mas é como se os temas “populares” pertencessem a uma casta inferior. Perto da eleição, o marqueteiro talentoso e maravilhosamente bem pago com o dinheiro de doações ocultas dos sócios do Estado vai dar um jeito de mostrar como o candidato dele, sempre sorridente, “já fez muito, e fará muito mais pelas pessoas, pelos que precisam”. Quais vão ser as prioridades? “Educação, Saúde e Segurança!”. O fulano se dará inclusive ao trabalho de apresentar um “programa de governo”. Ah bom.

Pronto. Já desabafei e estou novamente em condições de voltar à rotina. Antes, fica uma pergunta aos presidenciáveis. “Quais medidas o senhor (ou senhora) adotará para igualar a qualidade da escola pública à da particular nos níveis fundamental e médio? E em quanto tempo o senhor (ou senhora) acredita que a defasagem estará superada? O senhor (ou senhora) assume esse compromisso?”

Empilhados

Por falar em programa de governo, a habilidade política da candidata Dilma Rousseff será testada na prática quando ela tiver que se definir sobre questões centrífugas que ganham relevância à medida que se amplia a base dos apoiadores.

Um exemplo é a jornada de trabalho de 40 horas semanais. O governo e Dilma sempre poderão recorrer ao habitual “não é comigo” e jogar o abacaxi para o Congresso. O risco é a ministra passar a impressão de que com ela na cadeira o Legislativo correria razoavelmente solto, e o PMDB daria as cartas e jogaria de mão.

Aliás, há um detalhe na praça sobre o eventual governo Dilma. Se for somar todo o poder que cada interlocutor dela acredita que terá, seria poder em quantidade suficiente para uns dez governos empilhados. Pelo menos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Anonymous Duarte disse...

As 40 horas é pauta do Congresso. Os candidatos a presidente podem e devem se posicionar, e exercer seu poder de pressão política, mas não podem prometer aquilo que não podem entregar ao eleitor.

Até para boa conscientização política é importante o eleitor saber que reformas dependem do voto no deputado e senador (um voto muito negligenciado).

Por mais que o executivo tenha uma máquina forte e haja fisiologismo no legislativo, há limites sobre o Congresso. Se não houvesse, a CPMF teria sido prorrogada.

sexta-feira, 5 de março de 2010 12:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Você diz:
"Qual é a maior tragédia nacional? Todos têm uma opinião. Na minha modesta, é a distância galáctica entre, de um lado, a beleza de escola frequentada pelo filho do rico e do classe média e, de outro, a tristeza da “escola” oferecida ao filho do pobre. Se você discorda dessas minhas aspas, assista “Pro dia nascer feliz”."
Concordo. Nas pequenas cidades do interior do Brasil isso não ocorre. A tendência, entretanto, é cada vez mais as pequenas cidades desaparecerem do mapa. Ainda talvez isso não ocorra no Brasil, mas é tendência de países mais desenvolvidos e fatalmente vai ocorrer aqui nos próximos anos. Então eu não tenho solução para esta tragédia. A não ser que um governo de força proibisse o ensino privado ou então abrisse vaga para alunos pobres em escolas de rico.
O problema era pequeno até a Constituição de 88. Com a Constituição de 88 houve um aumento muito grande dos gastos com educação pública, mas que trouxe como resultado mensurável apenas a massificação do ensino. Houve maior quantidade, mas piorou a qualidade. Talvez a próxima geração já encontre uma escola pública de melhor qualidade e as famílias dos pobres tenham melhores condições para ser uma extensão da escola. A Internet pode ter um papel a desempenhar. Na década de 80 acompanhei para levantamento estatístico um projeto de ensino de professores leigo (Projeto Logos II) e era enorme a quantidade de professores sem nem mesmo a conclusão do primeiro grau em Minas Gerais.
Lembro que no início dos anos 80 eu discutia com os meus amigos petistas e dizia que se o PT era tão melhor assim eu deveria torcer para que eles ganhassem nas pequenas cidades e perdessem nas grandes. Pois era fundamental que as pequenas cidades pudessem ser pontos de atração da população. Haveria mais igualdade e as grandes cidades não teriam os grandes problemas urbanos que há muito as sufocam.
Na mesma época desenvolvi a idéia de que um grande plano nacional de desenvolvimento seria assegurar a cada pequeno município as condições mínimas de água, esgotamento sanitário, energia elétrica e telecomunicações e tivesse também um corpo de funcionários dos três entes estatais prestando um pouco de serviço para a toda a população.
Os tempos, entretanto, eram outros. Lembro que no final da década de 80, por motivos de maior eficiência do serviço público (Sempre considerei um atraso a busca da eficiência no setor público, afinal se uma das razões de sucesso do sistema capitalista é a ineficiência (Duas farmácias concorrendo na mesma rua fazem o trabalho que uma só poderia executar), por que se deve ser eficiente no setor público?), várias agências da Receita Federal foram desativadas, entre elas uma em Pedra Azul cidade no nordeste de Minas Gerais com 25 mil habitantes. Ali a Receita Federal prestava um serviço que deixou de fazer.
A minha idéia para recuperar os pequenos municípios do Brasil numa política mais igualitária seria o governo federal patrocinar a construção de uma minicidade em cada um dos municípios do Brasil com 100 moradias e toda a infra-estrutura de rua, esgoto, água, energia e telecomunicações, um centro de lazer, um de saúde, um de educação e um de cultura e um centro administrativo que prestasse todos os serviços que o setor público presta (havia nesse todos muito mais do que se imagina como, por exemplo, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial que eu mencionava tendo em vista que a Cachaça Havana perdera a patente porque esse serviço não era prestado lá em Salinas).
Bem, para um estado funcionar assim como eu estava imaginando, era necessário que se tivesse uma outra concepção de Estado diferente daquela que vigorava então. É de se esperar que a crise de 2008 possa fazer com que se ressurja essa nova concepção de Estado.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 05/03/2010

sexta-feira, 5 de março de 2010 13:20:00 BRT  
Anonymous Pax disse...

Só senti falta do assunto "Corrupção" na lista das quatro prioridades.

Dá para negociar uma quinta?

Parabéns, como sempre um post primoroso.

sexta-feira, 5 de março de 2010 14:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Vi o triller e tomei "dois socos" no estomago. Tenho filha adolescente e enxergo a realidade de todas elas, somente o triller me basta

sexta-feira, 5 de março de 2010 21:36:00 BRT  
Anonymous Germano Machado disse...

Ótima análise.

sexta-feira, 5 de março de 2010 23:10:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, excelente este texto, se mais não for por contextualizar o debate eleitoral que corre por estes dias: ele ocupa uma reduzidíssima parcela da população, as “cortes”, digamos assim. A existência desse abismo eu creio que percebi a primeira vez quando da eleição de Collor de Melo, apesar da enorme vantagem que as pesquisas apontavam eu não deparava com ninguém de minhas relações (incluindo a mim mesmo) que fosse votar nele, nem minha faxineira de então. Claro, conhecia celebridades, como a atriz Marília Pêra, que foi moralmente linchada por nossas “zelites” de esquerda (quem viveu lembra). A segunda vez que lembro ter-me deparado com o abismo foi no plebiscito sobre o comércio de armas, passei a freqüentar (sou a favor do trema) blogs e mesmo o Orkut: era divertido ler a tripa de comentários a artigos de jornalistas importantes, comentários em sua imensa maioria a favor do comércio de armas, enquanto o texto principal fazia uma defesa apaixonada contra esse mesmo comércio. Nossas cortes são tão fechadas que até as pesquisas de opinião erraram o resultado. O grande lance da democracia é que de tanto em tanto o conjunto da população detona essa política de bastidores (que nesse meio tempo pode, por exemplo, mandar um governador para a cadeia ou, inversamente “esquecer” casos rumorosos do passado, ao sabor das preferências cortesãs). Concordo quando você se refere à extrema diferença entre a escola da elite e a popular, apenas acrescento que a beleza da escola da elite é também (mas não só), em boa medida, questão de aparência: fui ao site do MEC procurar o currículo do ensino médio, não foi fácil, a informação relevante fica por traz de um enorme bla bla bla inútil, achei 14 matérias: Arte, Português, Literatura, Educação Física, Língua Estrangeira, Espanhol, Biologia, Física, Matemática, Química, Filosofia, Geografia, História e Sociologia. Todas obrigatórias, não é um escárnio? E esse truque de esconder o Inglês sob o título de Língua Estrangeira, para acrescentar o Espanhol? Apenas me dou conta do absurdo porque tenho um filho cursando o ensino médio, em escola paga. Em uma idade em que a curiosidade e a criatividade estão a mil, uma burocracia chinfrim, acompanhando interesses corporativos de escassa representatividade, detona qualquer iniciativa do jovem. Impõe um currículo que rigorosamente não ensinará NADA, além de evadir-se da escola. Enfim, o que eu queria dizer: nossa vida pública é tão pobre que degenera mesmo para além do serviço prestado pelo Estado, para a grande maioria da população, incluindo boa parte da classe média mais média que alta, o poder público tem a naturalidade de uma enchente de verão, ou de uma tsunami, para não dizer que estou fazendo campanha. A propósito, não vi o filme, mas vou ver.

sábado, 6 de março de 2010 13:53:00 BRT  
Blogger PorSeuAmor disse...

Acho que entendo sua indignação Alon.
Vamos ver?
O conceito de Jornalismo está contido no de Imprensa, certo?
Imprensa vai além do jornalismo, e alguém deveria contar (ou lembrar) isso aos jornalistas.
Nossa imprensa vive uma neuróse frenética em busca do furo. Nessa ciranda, vale jornalismo de ficção, vidência, chute, especulação, boatos, ilações, difamação,..., qualquer coisa! Vale-Tudo! Até a irresponsabilidade.
Produzem causas a esmo. Mas desconhecem seus efeitos.
Mais vale um furo do que o futuro do Brasil? Brasileiros? Só na certidão de nascimento.
Note. Quem define nossos candidatos a Presidente em 2010?
Convenções Partidárias? Rá?!? Quem sabe um dia... meu sonho.
Lula, ao lançar Dilma, ela passa a constar nos questionários de pesquisa.
Quem determina o privilégio de outros nomes constar nesses questionários de pesquisas?
PT do B lançou canditato a +1 mês. Como é um desconhecido, e não proporciona algo próximo de um realismo fantástico, a Imprensa o desconhece.

segunda-feira, 8 de março de 2010 21:50:00 BRT  

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