sexta-feira, 12 de março de 2010

Um acacianismo conveniente (12/03)

A conversa com o acaciano seguirá “ad infinitum”. Com ele a emitir aspas sobre aspas, dotadas de uma propriedade mágica: explicar tudo, sem possibilidade de contestação, já que isoladamente cada uma delas é 100% verdadeira

Após décadas de acirrado debate entre ortodoxos e heterodoxos, monetaristas e desenvolvimentistas, keynesianos e “neoliberais”, chegou a hora do grande consenso. As diferenças doutrinárias são coisa do passado e toda a inteligência econômica nacional converge para uma única e grande corrente de pensamento: a acaciana.

Atenção: é uma ironia.

O nome homenageia o Conselheiro Acácio, personagem de Eça de Queiroz ("O primo Basílio") que mais bem materializou a supremacia do senso comum, do pensar o simples e óbvio, pedra fundamental do fazer o simples, como diz o presidente da República sobre o modo certo de resolver as dúvidas econômicas.

A economia brasileira andou para trás no ano passado. Saíram os números oficiais e o Produto Interno Bruto recuou 0,2%. Era inevitável, dizem os fatalistas. Era evitável, contestam os críticos. São ambas respostas que permitem polemizar. Mas a verdadeira ciência está com os acacianos, que trazem o diagnóstico irrespondível: “Poderia ter sido pior”.

Ninguém no domínio das faculdades mentais tem condição de discordar. Claro que as coisas poderiam ter saído piores, como também poderiam ter saído melhores. É óbvio que nenhuma das duas respostas resolve nada, mas o importante é elas estarem certas, sempre, em qualquer situação. Mais ainda quando uma delas oferece as aspas para que a autoridade compareça ao noticiário com uma tese. Porque o show precisa continuar.

O acacianismo é invencível. Nem a Teoria da Relatividade chega perto. Por que poderia ter sido pior? “Porque nossa economia recuou menos do que em outros países.” Mas houve também nações que cresceram bem acima. A expansão chinesa rondou os 9%. “São situações com as quais temos muitas diferenças.” Uma linha de argumentação genial. Quero ver você contestar. Vamos, tente.

O candidato a esperto, mas incauto, pode ensaiar uma pegadinha no acaciano. E tasca a pergunta. Não temos, por acaso, também características diferentes dos que foram pior do que nós, especialmente os mais desenvolvidos? “Claro, não há dois países iguais.” Impressionante.

Pergunte ao acaciano por que o Banco Central esperou meses para começar a baixar os juros na crise, quando o mundo todo jogou as taxas no chão em tempo real. “Porque não era possível prever com certeza o comportamento da inflação.” Aqui você acha que pegou o acaciano numa falha, pois “prever com certeza” é uma contradição em termos, visto que só depois de o fato ter acontecido é possível ter certeza de que aconteceu.

Mas os acacianos são como matemáticos, trabalham com postulados. Princípios que dispensam a prova. Um postulado acaciano diz que é possível “prever com certeza”. É ferramenta útil quando se deseja usar as obrigatórias dúvidas sobre o futuro para justificar atos pouco racionais no presente.

Pergunte ao acaciano, do ramo petista da corrente, qual é a explicação para o Tesouro do Brasil continuar arcando com as maiores taxas de juros do planeta, se tudo na economia vai tão bem, a crer nas autoridades? “No tempo do Fernando Henrique era pior.” Dá vontade de tirar o chapéu. E por que o spread bancário brasileiro é recorde, se não há dados que comprovem sermos mais caloteiros do que os outros? “Sabe como é, os bancos precisam proteger-se contra os maus pagadores.”

E não é que no mundo todo é assim?

Aí você acha que vai enquadrar o acaciano, e lembra que a indústria recuou mais de 5% ano passado, e só deve atingir o patamar de 2008 no fim deste ano. Terão sido portanto dois anos perdidos. “Ora, todo mundo sabe que a crise teve forte impacto no comércio internacional, e isso influiu nos números da indústria.”

Mas, e o câmbio valorizado, consequência inclusive do juro alto, não agrava a situação? “Lembre que a indústria também se beneficia do Real forte, pois pode importar mais bens de capital e insumos, pagando menos.”

E a conversa com o acaciano seguirá “ad infinitum”. Com ele a emitir aspas sobre aspas, dotadas de uma propriedade mágica: explicar tudo, sem possibilidade de contestação, já que isoladamente cada uma delas é 100% verdadeira. Maravilhado, você imagina estar diante de uma teoria unificadora, até descobrir que as verdades acacianas sobre a economia são tão verdadeiras quanto inúteis, se tomadas no conjunto. Pois resultam numa soma vetorial zero.

Inúteis? Só se forem para você, tolinho.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (12) no Correio Braziliense.

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11 Comentários:

Anonymous Ricardo Melo disse...

Alon, você não considerou um aspecto fundamental.

A principal causa da estagnação do PIB em 2009 não foi a taxa de juros e nem o câmbio.

Foi a abrupta queda da taxa de investimento em 2009: - 9%.

Nenhum indicador em 2009 teve uma queda tão profunda, com consequências tão determinantes para o resultado final do PIB.

Só para comparar: o indicador "consumo das famílias" aumentou em 7% em 2009!

Na verdade, desde o final de 2008 milhares de investidores engavetaram projetos de ampliação de produção, comerciantes cancelaram pedidos, exportadores demitiram por conta da "crise que viria por aí".

Agora, o que é realmente interessante: o que explica esse "descasamento" entre consumo elevado e investimento em queda abrupta?

Foi o catastrofismo midiático, que convenceu cada investidor do país que fazer investimento era suicídio.

Ainda bem que a nossa massa populacional não deu a menor bola para as manchetes catastrofistas e para as imprecações de "especialistas" e economistas engajados no clima de fim de mundo que imperou no Brasil no ano passado. A coisa foi realmente "tenebrosa", eu mesmo morri de medo.

Importante lembrar que o crescimento de 2010 não vai ser puxado pelo "consumo das famílias", este já vinha elevado desde o ano anterior.

O crescimento de 2010 vai ser sustentado pelo aumento tardiamente "arrependido" da taxa de investimento. E não pela derrubada da taxa de juros ou do spread.

E agora, será que eu também fui "acaciano"?

sexta-feira, 12 de março de 2010 10:51:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Não foi acaciano não, Ricardo. Você foi apenas engraçado, ao afirmar que os grandes investidores tomam decisões baseados em manchetes de jornal ou em análise de jornalista. Essa foi realmente boa, como humorismo. Se fosse assim, os jornalistas de economia estariam milionários e não seriam necessários analistas profissionais. Agora falando sério, a retração dos investimentos deveu-se a dois fatores principais: a falta de lliquidez (e portanto à necessidade de olhar em primeiro lugar para o caixa) e à retração brutal do comércio mundial. São duas coisas diretamente relacionadas à taxa de juros e, naturalmente, ao câmbio. Agora, com a economia mundial voltando aos eixos, os investimentos vão sendo retomados. Um abraço, e desculpe a brincadeira. É que você é da casa.

sexta-feira, 12 de março de 2010 11:56:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Excelente !!!

Seus últimos posts têm sido fenomenais, parabéns.

sexta-feira, 12 de março de 2010 11:57:00 BRT  
Anonymous Germano Machado disse...

Fecho perfeito na última frase.

sexta-feira, 12 de março de 2010 13:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Concordo com você em relação ao acacianismo do debate. Só penso que o seu post poderia ter saído no ano passado junto do post “The Economist: economia para baixo, sucessão disputadíssima” de 26/02/2009 que fazia o link para reportagem da revista The Economist “Set to shrink – Brazil’s economy will probably shrink, despite official efforts”.
Na época eu tentei enviar um comentário para seu post, mas como meu comentário ficara muito extenso ele foi recusado. Coloquei-o junto ao post no antigo blog do Pedro Dória junto ao post “O Brasil no freio” de 25/02/2009 que também fazia o link para a reportagem da revista The Economist. No meu comentário indiretamente eu dizia que a revista The Economist era boa em política, pois acertava na previsão da disputa de Dilma Rousseff e José Serra quase dois anos antes da eleição e que era ruim em economia, pois dizia que a economia brasileira encolheria, quando na verdade a economia brasileira já havia encolhido e depois que a revista The Economist fora publicada a tendência da economia era crescer.
Quanto ao comentário do Ricardo Melo de 12/03/2010 às 10h51min00s BRT, penso que ele tem um pouco de razão. A reação da mídia quando foi divulgado em março de 2009 o PIB de 2008 foi muito forte talvez tentando mostrar que o governo errara em dizer que houve apenas uma marolinha. Foi tão forte que economistas como o Delfim Netto se dedicaram durante uns dois meses a mostrar que a situação não era tão calamitosa. E quando a mídia percebeu que ela dava um tiro no próprio pé passou a ser menos dura nos comentários.
Disse que o Ricardo Melo tinha um pouco de razão porque a razão principal está no seu comentário de 12/03/2010 às 11h56min00s BRT quando você diz:
"a retração dos investimentos deveu-se a dois fatores principais: a falta de liquidez (e portanto à necessidade de olhar em primeiro lugar para o caixa) e à retração brutal do comércio mundial."
Entretanto, ao contrário do que você diz, esses dois fatores não estavam naquele momento ligados diretamente "à taxa de juros e, naturalmente, ao câmbio" (A não ser que você tenha querido dizer que o Brasil sairia melhor da crise se no início o juro fosse ainda mais alto e o câmbio fosse ainda mais valorizado).
E voltando para os acacianos penso que o problema ´que ocorre a eles é que eles não ousam reconhecer que o Brasil não pôde ter uma outra alternativa para sair da crise porque há muito carregamos a herança maldita de FHC: Regime de Metas da Inflação, Câmbio Flutuante/Livre fluxo de moeda, Liberação do Comércio Exterior, Superávit primário (Eu defendo que o governo faça superávit primário para pagar a dívida e fazer reservas, mas não como uma camisa de força), Lei de Responsabilidade Fiscal e outros tantos modelos importados.
Contra os Acacianos há um bom artigo (O fim de uma era nas finanças) de Dani Rodrik, hoje, 12/03/2010 no Valor Econômico.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 12/03/2010

sexta-feira, 12 de março de 2010 14:01:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Alon, hoje é sexta-feira e também estou esbanjando bom humor e comicidade Que só aumentaram ao ver que você “amplificou” a importância que eu dei à influência dos jornalistas.

Afinal, eu comentei que – além da sua categoria – os economistas também têm alguma influência junto aos investidores, fora outros “especialistas”.

Aliás, quantos investidores pagaram uma verdadeira fortuna para assistir o economista Nouriel Roubini, que veio inclusive ao Brasil demonstrar que estávamos entrando em uma “depressão” ou em uma recessão em “L”?

Você acertou ao afirmar que a falta de liquidez e a retração brutal do comércio mundial causaram a queda abrupta da taxa de investimentos na economia. Tudo certo, mas será que essa é a história toda?

Parece-me que não. Em parte porque o próprio governo supriu boa parte do crédito que o mercado demandava, em parte porque a economia brasileira não é tão “internacionalizada” assim, sendo que o mercado doméstico foi a verdadeira tábua de salvação de 2009, mantendo o consumo elevado.

Mas o mais importante não é isso. O que realmente interessa é que o seu texto teve como função primordial mirar no trinômio câmbio/spread/juros e os acertou. Foi uma pena que, apesar do esforço todo, você não acertou na causa principal do problema do texto: o tombo no PIB do ano anterior.

Se você provar que a queda da taxa de investimento não teve o papel fundamental na questão, aí sim o seu texto deixará de ser cômico.

Aliás, o trinômio maldito juros/câmbio/spread não foi atacado até agora pelo governo e, acredite quem quiser, mesmo assim a perspectiva não é de uma recessão em 2010!

Porquê? Porque a taxa de investimento agora é elevada, simples assim.

sexta-feira, 12 de março de 2010 14:02:00 BRT  
Anonymous Tiago Aguiar disse...

Caro Alon.

Realmente os fatores por ti lançados, quais sejam, liquidez e mercado mundial, são cruciais.

Ocorre que investimentos são efetuados e cancelados em face à confiança dos meios empresariais.

Não se deve esquecer a capacidade da imprensa em influenciar a confiança da população, do empresariado, nem de conseguir um segundo turno em que o candidato tem menos votos que no primeiro (Alckmin 2006). Deve-se lembrar de acidentes aéreos não lembrados, e de fotos de delegados que vazam para imprensa. Nem como grandes empresários se beneficiam de matérias jornalisticas para conseguirem habeas corpus.

Quanto à operação do BC em estação de crise, a tão rogada independencia do BC foi saudada pela mídia a todo modo e prática.

E as medidas anti-ciclícas lançadas pelo executivo, e não pelo BC. A questão da liquidez tem solução no BB e não no setor privado.

Discordo de seu posicionamento nestes particulares.

Saudações!

sexta-feira, 12 de março de 2010 14:23:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

O alarmismo de manchetes de jornal aconteceu de fato, e foi por colonialismo. Jornalistas devem ter seguido, como fontes, economistas, empresários e operadores de mercado (esses os menos confiáveis), e muitos analisaram o quadro brasileiro sem distinguir as diferenças, sobretudo dos EUA.

Os grandes investidores tomam decisões baseadas em indicadores. Mas pequenos empresários, que também oxigenam a economia, tomam decisões também pelo "feeling" e pelo que vêem em seu entorno. Para eles o catastrofismo influiu.

Mesmo grandes empresários, da industria e comercio de bens de consumo, que decidem mais por indicadores, sofreram influencia com os índices de confiança do consumidor, afetados pelo noticiário.

A imprensa deve ser realista. Não deve ser otimista, mas foi pessimista. Houve falta de realismo a quem não descolou o Brasil, onde não chegou a haver quebra de bancos, de países onde houve verdadeiro efeito cascata.

O mal do catastrofismo é produzir uma espiral negativa. Grandes empresas cortam preventivamente na Folha de pagamento; menos gente empregada, menos consumo e menos confiança de quem está empregado, logo a industria que demitiu preventivamente acaba realizando a profecia. Deixasse por conta da mão invisível do mercado ocorreria este quadro de espiral negativa. Foram as medidas anti-cíclicas do governo federal que levaram a recontratação e superação da crise já em fevereiro de 2009, após a queda brutal do último trimeste de 2008 e com efeitos estensivos até janeiro de 2009.

sexta-feira, 12 de março de 2010 16:33:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Sobre o spread/juros, parodoxalmente o Brasil sai melhor do que entrou na crise.
A participação dos Bancos estatais no mercado bancário brasileiro aumentou.
Quanto mais BB e CEF tiverem mais participação no mercado do que os bancos privados, nos fundos e aplicações de renda fixa, mas fácil será o BC colocar no mercado títulos da dívida a juros mais baixos.
Um leilão de títulos do BC com juros mais baixos, a CEF e o BB absorvem. A banca privada não.
O mesmo acontece com o spread: é BB e CEF quem está puxando para baixo.

sexta-feira, 12 de março de 2010 16:46:00 BRT  
Anonymous Tiago Azevedo de Aguiar disse...

Andei pesquisando os dados do PIB, e a economia ao fim de 2008 encontrava-se com PIB em expansão de 6%, e o consumo das famílias em expansão de 8%.

Em semelhante transe ao da Febre Amarela, no primeiro trimestre de 2009, o baque em relação ao mesmo período do ano antecedente foi de 15%. O setor financeiro secou o credito em súbito, e mercado é feeling, e feeling é notícia.

A imprensa não é a responsável. Mas tem uma parcela de culpa, por denotar uma linha editorial um tanto arlamista.

Com relação à Política Monetária, eu acho fator importante o desgaste político que uma transição para políticas heterodoxas causaria. Nenhuma Democracia é tolerante para com mudanças radicais.

Saudações Fraternas Alon!

sábado, 13 de março de 2010 01:47:00 BRT  
Blogger Raphael Neves disse...

Rárá, Alon, essa foi genial. Adorei o post.

Abraço,
Rapha

quarta-feira, 17 de março de 2010 22:14:00 BRT  

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