quarta-feira, 3 de março de 2010

Tancredo aos 100 anos (03/03)

Alguns lutam desesperadamente para escrever a própria biografia em vida, tentando determinar de modo imperial o julgamento da História. É inútil. Já Tancredo Neves está confortável. O tempo passa e a imagem construída por ele vai bem

O centenário do nascimento de Tancredo Neves deverá ser prestigiado pelos diversos personagens e grupos envolvidos na atual luta pelo poder. É do jogo. A ideia é fazer uma homenagem ao líder político. Muito justo, mesmo se servir à autopromoção de quem nada teve a ver com a trajetória dele. Também é do jogo. A História é uma só, mas costuma ser reinterpretada conforme o sentido do vento, o interesse imediato ou a resultante vetorial dos litigantes.

Tancredo viveu e morreu colado nos principais episódios da nossa política no século 20. Até aí, nada. Seria apenas a fortuna ajudando o político sagaz. O mais notável na trajetória dele é outro detalhe: em todas essas ocasiões, sem exceção, ele estava do lado certo, do lado no qual deveria estar para ajudar o país a sair melhor da confusão.

Com Getúlio Vargas em 1954. Contra a radicalização política e o golpismo antes de março de 1964. Contra a ditadura depois, no MDB. A favor da abertura política nos anos 1970. Pela reaglutinação no PMDB quando o regime impôs o voto vinculado em 1982 para tentar garantir maioria no colégio eleitoral que escolheria o sucessor de João Figueiredo. A favor de usar o Colégio Eleitoral para fazer pacificamente a transição democrática na sucessão do último presidente militar, depois do insucesso formal das diretas já.

No Brasil, as circunstâncias levaram a palavra “conservador” a adquirir conotação pejorativa. Pena. Pois talvez falte entre nós hoje alguém como Tancredo, que a cada passagem crítica da sua longa militância agiu sempre de modo a ajudar na conservação da democracia, mesmo quando isso implicava o risco de ver amputada a carreira política.

Seria devaneio idealista e ilusão acreditar que em 1985 a simples presença de alguém como ele no comando do país, saído do autoritarismo, teria tido o poder de legar um ambiente menos conflagrado às futuras gerações políticas.

Mas, se o indivíduo tem seu papel nos acontecimentos, é razoável creditar à morte precoce do presidente eleito e não empossado a desagregação acelerada de um núcleo democrático e nacionalista, que fez do MDB talvez o mais importante partido do nosso portfólio, por representar a possibilidade de um projeto nacional e progressista com a mais ampla base social. Na herança do campo PSD-PTB.

Em meados dos anos 1980 já estavam presentes as forças centrífugas hoje hegemônicas, mas a tarefa pós-udenista delas foi facilitada pelos limites óbvios de um presidente da República com a legitimidade sob pressão, um José Sarney recém-imigrado do outro campo.

Como teria sido um governo Tancredo Neves? Ninguém pode garantir, mas é razoável supor que seria pelo menos tão democrático quanto foi o de Sarney, e com mais condições de influir na Constituinte. E talvez o nó fiscal não tivesse se arrastado por mais uma década e meia, enterrando sucessivas administrações até Luiz Inácio Lula da Silva finalmente agarrar o touro a unha em 2003, depois de um ensaio tardio esboçado por Fernando Henrique Cardoso na vigésima quinta hora do Real.

O mais são conjecturas, e cada um é livre para fazê-las. Eu fico com os fatos. Um fato: Tancredo foi do tipo de político cuja alma nunca está à venda. Outro fato: ele era um assim chamado conciliador, mas nunca transigiu nos princípios democráticos. Outro fato: nunca se soube que fosse adepto do culto à personalidade.

Alguns lutam desesperadamente para escrever a própria biografia em vida, tentando determinar de modo imperial o julgamento da História. É esforço inútil, quixotesco. Batem-se contra moinhos de vento. Para o candidato a protagonista (êta profissãozinha de risco), mais seguro é agir de olho no juízo pós-morte, quando seu poder já não mais terá como intimidar os magistrados.

Nesse particular Tancredo Neves está confortável. O tempo passa e a imagem construída por ele vai bem.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (03) no Correio Braziliense

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15 Comentários:

Anonymous João disse...

Sarney fez um bom governo como Tancredo o faria.

quarta-feira, 3 de março de 2010 09:47:00 BRT  
Blogger Marcos Diniz Ribeiro disse...

Dizer que o presidente Lula pegou o "touro [do nó fiscal] à unha" em 2003 é um excesso de boa vontade com ele.

Se FHC só acabou criando a disciplina fiscal quando foi posto contra a parede (vivas à LRF, ao FMI e ao governador Serra nesse sentido), em 2003, com a crise criada pela própria expectativa em relação ao então possível governo Lula, o presidente não teve escolha no início de 2003 senão avançar no esforço fiscal, contra tudo o que o próprio e seu PT disseram até então.

Se há mérito nas escolhas do presidente Lula? Há, porque ele é beeem melhor do que o - aproximadamente - pensamento petista.

quarta-feira, 3 de março de 2010 10:51:00 BRT  
Anonymous F.Arranhaponte disse...

Eu ia fazer um comentário na linha do Marcos, acima. Todo o trabalho pesado, difícil politicamente e extremamente impopular de renegociar a dívida dos Estados e fechar o Banespa e as torneiras dos bancos estaduais foi feito pelo FH. A Lei de Responsabilidade Fiscal, idem. O início do ciclo de superávits primários, num momento de crise econômica (quando é muito mais difícil, porque a arrecadação só sobe com aumento da alíquota ou criação de novos impostos, ao contrário dos momentos em que a economia vai bem, quando cresce de carona na atividade), também foi realizado por FH, em 1998 e 1999. O grande mérito de Lula, com Palocci, foi ter dado um aperto adicional, de, digamos, uns 20%, no superávit primário herdado do FH em 2002, o que ajudou a superar a crise de 2002 e 2003. A partir daí, Lula teve o mérito de tocar uma política macroeconômica consistente, mantendo a herança do tripé (1) sistema de metas com autonomia operacional do BC, (2)câmbio flutuante, (3)superávits primários suficientes para manter sobre controle e reduzir gradativamente a relação dívida/PIB.

Mas Lula também foi ajudado pelo que o Affonso Celso Pastore costuma chamar o "choque do bem", a inacreditavelmente vigorosa virada dos ventos da economia global a favor dos grandes produtores de commodities como o Brasil. Eu acho que a melhor ilustração disso é a trajetória do petróleo, a principal commodity, que chegou a US$ 10 o barril em 1998 ou 1999, para bater em US$ 140em 2008, apenas dez anos depois hoje está em US$ 80).

Foi a combinação do arcabouço de responsabilidade fiscal implantado por FH, do ciclo de superávits primários iniciados em 1998/99 e da mudança dos ventos da economia global, pró-produtores de commodities, que permitiu ao Brasil superar definitivamente, ali por volta de 2004 e 2005, a longa crise fiscal iniciada no desastre da dívida externa na virada da década de 70 para a de 80.

E as considerações sobre Trancredo estão muito boas, diga-se de passagem.

quarta-feira, 3 de março de 2010 12:15:00 BRT  
Anonymous F.Arranhaponte disse...

Bem, se puder, corrija aí o "Trancredo" e onde ficou meio truncado

quarta-feira, 3 de março de 2010 12:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Faço aqui o que eu considero só conjecturas
Em meu entendimento, se Tancredo neves não tivesse falecido triunfaria o parlamentarismo. Eu creio que o parlamento sendo a arena do fisiologismo por definição, pode-se dizer que com Tancredo Neves haveria mais fisiologismo.
Acredito que quanto mais se democratiza mais fisiológico torna-se o sistema e assim sou a favor da democracia fisiológica e, portanto, do parlamentarismo. Como considero a eleição direta para Presidente da República a maior valorização do princípio da igualdade dentro do sistema democrático, eu, apesar de parlamentarista defendo o Presidencialismo com plenos poderes (Os que ele possui hoje) para o presidente da República (Sou contra entretanto a reeleição, mas a favor de um mandato maior).
Um segundo ponto é que com Tancredo Neves não haveria Plano Cruzado. Sem o Plano Cruzado talvez nós não tivéssemos tido uma Constituição tão avançada, popular e democrática e de esquerda como a que tivemos em 1988.
Agora se Tancredo não tivesse falecido eu acredito que o Brasil estaria hoje "pari passu" com a China em desenvolvimento econômico.
Esta semana, o jornalista Luís Carlos Bernardes aqui de Minas Gerais na coluna dele no jornal O Tempo fez uma conjectura interessante. Se Tancredo Neves tivesse vencido a eleição para Governador de Estado em 1960 contra Magalhães Pinto não teria havido o golpe de 64 (Aos interessados lembro o título dado à coluna do Luís Carlos Bernardes: no dia: Tancredo Eterno).
Enfim trata-se apenas de conjecturas.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 03/03/2010

quarta-feira, 3 de março de 2010 20:03:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Senta que lá vem história...

Alon

Sua memória é bem melhor que a minha. Me corrija se estiver errado.

Se não me falha a memória, Tancredo foi quem primeiro quis pular fora do MDB. Depois retornou, conforme o motivo que você expôs no post. Tancredo articulava um novo partido juntamente com forças políticas que estavam se desgarrando da velha ARENA nos estertores do regime militar. Também para ele o MDB já havia cumprido o seu papel histórico de frente democrática contra a ditadura, pela anistia e liberdades democráticas. Eram essas as palavras de ordem que unificavam a frente ampla política de oposição à ditadura.

Eu lembro que a palavra de ordem da Assembleia Constituinte livre, democrática e soberana foi a última a entrar na lista. Tenho lá as minhas dúvidas se o Tancredo concordava com a oportunidade da palavra de ordem naquele momento. Não que ele fosse contra a Constituinte. Seguramente não era. Mas acho que ele defendia alguma coisa mais próxima de uma grande conciliação nacional.

Se não me engano, a Veja ou a Isto É deu capa ou matéria interna, quando numa Assembléia da SBPC na PUC/SP (no TUCA, em 197?) os estudantes estenderam, lá de cima do balcão do teatro, uma imensa faixa pedindo a Constituinte.

A diretoria da SBPC estava dividida sobre a aprovação de uma moção de apoio à Constituinte Soberana. O teatro foi só aplauso e apoio e o fato ganhou o noticiário nacional. Se não me falha a memória, mesmo com toda essa pressão a moção não foi oficialmente colocada em votação. Mas teve o mesmo efeito, ou talvez até maior pelo inusitado da coisa.

A ideia de fazer a faixa e estendê-la durante a Assembleia surgiu durante o almoço e entre alguns estudantes da Caminhando, tendência política estudantil na qual o dono do blog militava na época. Havia entre os estudantes forte desconfiança de que a direção da SBPC não colocaria a moção em votação. Estender a faixa foi um protesto pela Constituinte.

Lembro que na época setores da esquerda, ainda numa fase pré-PT, articulavam ao mesmo tempo que Tancredo uma frente popular à esquerda, que também seria transformada em partido político. Ironia da história ou sagacidade política, o fato é que Tancredo saiu na frente e lançou o seu partido com o mesmo nome pensado pela frente popular: Partido Popular. Se não me engano, o jornal Movimento publicou artigos ou editoriais defendendo a criação do PP, não o do Tancredo, a quem fazia oposição, mas o PP da frente popular à esquerda de Tancredo. o Partido Popular da esquerda era contra a tese da conciliação pregada por Tancredo.

Interessante é que ambas as frentes minguaram. Tancredo voltou para o MDB e logo depois morreu. A frente popular não saiu do papel e esvaziou-se com a debandada do pessoal da AP-ML e demais egressos do bang bang, da igreja, da esquerda liberal da Faculdade São Francisco/USP e os novos sindicalistas para fundar o PT.

Nessa época do final da ditadura Lula ainda não havia conquistado o protagonismo que só veio adquirir bem depois. Era uma liderança importante, mas não tão mais importante do que as outras lideranças sindicais que surgiram na época. As greves do ABC projetaram Lula, que nessa época era até bem visto pelos militares como expressão de um novo sindicalismo de resultado, isto é, sem a influência dos comunistas. Aliás, Lula em São Bernardo quebrou a hegemonia comunista no sindicato dos metalúrgicos.

Que eu lembre, o pessoal do PCB e do PC do B continuou no MDB ainda por um tempo. A diáspora tucana foi a última. Com a legalização dos partidos, o PC do B saiu do MDB e hoje apoia os governos do PT. O Partidão acabou como partido. Com o tempo, os trotskistas acabaram entrando no PT e, claro, saindo.

quarta-feira, 3 de março de 2010 21:52:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Clever Mendes de Oliveira
Excelentes conjecturas. E olha como é a ironia do destino. Tancredo atribuía a perda da eleição de 1960 para Magalhães Pinto porque JK não lhe deu apoio decidido (parece que não queria outra liderança do PSD mineiro que lhe fizesse sombra). JK logo foi cassado pelo golpe de 64, e perdeu toda sua liderança que não quis dividir um pouco com Tancredo.

Tancredo, quando eleito em 1985, nomeou o sobrinho de confiança, atual senador Francisco Dornelles, para a fazenda (economista liberal ortodoxo). Políticos diziam que ao ser eleito, Tancredo era saudado por populares e confidenciava: daqui a dois anos estarão todos xingando pelas medidas amargas que teria que tomar.
Realmente não haveria plano cruzado. O ajuste fiscal seria antecipado em uns 20 anos. A constituinte seria mais "centrão" e menos progressista. Par a par com a China, eu não digo. Tancredo vinha do PSD e tinha muitos amigos e apoios de empresários patrimonialistas. Mas é provável que o crescimento acompanhasse algo como os números chilenos, na década de 90 em diante. Só discordo quanto ao parlamentarismo. Com Tancredo também haveria o plebiscito, e o voto popular não aprovaria, como não aprovou.

quinta-feira, 4 de março de 2010 00:53:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, já afirmei aqui que estou me preparando psicologicamente para votar em José Serra, voto útil, constrangido, mas de oposição. Mas creio que em nada ajuda a oposição tentar salvar a honra do governo anterior, campanha plebiscitária serve ao governo atual. Caro Arranhaponte, a renegociação da dívida dos estados foi impopular? A União assumir parte do estoque, e do custo presumível de carregamento, da dívida de estados que, de tão endividados, já não conseguiam novos papagaios nem em instituições quase filantrópicas como o Banco Mundial, é uma medida impopular? Quem não aprecia uma medida que alivia o custo de sua dívida e ainda libera margem para novos papagaios? Antes que medida impopular, a renegociação da dívida foi fundamental para fazer passar a reeleição no Congresso. Houve pontos positivos, claro, obrigou-se os estados a privatizarem para abater dívida, principalmente os sempre complicados bancos estaduais, mas porque então não se deu prosseguimento com a venda de BB, CEF, BNB, BASA e, last but not least, o BNDES – principal instrumento do governo para garantir baixas taxas de crescimento pelos próximos anos? Trata-se do mesmo “façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço”, que anima a Lei de Responsabilidade Fiscal que, entre outras coisas, proíbe (ou proibia originalmente, não sei se mudou) a renegociação de dívidas com os estados... É difícil passar a idéia que Lula não foi responsável pela crise que sofremos antes de tomar posse (essa deveria ser uma frase cômica), nem as crises asiáticas, russas e mexicanas, nosso problema foi estarmos sempre na marca do pênalti (ou no limite da irresponsabilidade), permitindo que qualquer resfriado, em qualquer parte do mundo, nos jogasse de cama. Precisa falar da contraprova? Que a marola provocada pela pior crise econômica desde 1929 serviu mais como desculpa para distribuir bondades em ano pré eleitoral que qualquer outra coisa? Caro Arranhaponte, você diz que o diferencial entre o superávit primário do governo Lula foi uns 20%, deve ser por ai, mas esses 20% cobrem a diferença entre a água e o vinho, a ponto de não haver semelhança entre as duas políticas, a não ser de forma. Pior, quanto menor essa diferença, mais claro fica que o governo anterior não falhou por imposição das circunstâncias, nem pode alegar ignorância -- a necessidade do ajuste fiscal está nos textos do governo --, portanto falhou por falta de vontade, por displicência mesmo. Se alguém procura um político que de fato enfrentou resistências para alterar um pouco o curso modorrento de nossa economia, e de cujos resultados somos devedores até hoje, deve se voltar para Collor e não Fernando Henrique Cardoso. Engraçado essa coisa de dizer que o PSDB é neoliberal, só mesmo neste país de Alice, o PSDB é o principal obstáculo para uma virada liberal, são as nossas zelites de esquerda.
Tancredo merece a homenagem, não fui simpático à personagem em seu tempo, mas não percebia naquela época a importância da passagem sem ruptura para essa democracia possível (e também relativa, como já era na época de Geisel, mas um poço melhor) que temos hoje.

quinta-feira, 4 de março de 2010 15:15:00 BRT  
Anonymous F.Arranhaponte disse...

Alberto099, a renegociação da dívida estadual passou uma amarra geral no endividamento dos Estados, o que se combinou com o fechamento da torneira monetária dos bancos estaduais. Foi uma negociação hercúlea. Se informe

quinta-feira, 4 de março de 2010 16:47:00 BRT  
Anonymous F.Arranhaponte disse...

Desculpe, Alberto099, acho que fui ríspido no comentário anterior.

O que quero dizer é que, embora teoricamente as condições de renegociação da dívida dos Estados fossem favoráveis, na prática elas envolveram colocar amarras numa fonte histórica de sangria fiscal, especialmente no que diz respeito aos bancos estaduais.

Privatizar o Banespa, por exemplo, foi um parto. O Covas, companheiro de partido do FH, resistiu com unhas e dentes. Não foram tempos fáceis, nem tarefas fáceis. Na prática, a renegociação obrigou os Estados a produzir superávits primários quase que indefinidamente, e isso antes de a União começar a produzir os seus.

Aliás, concordo que a grande falha de FH foi não ter feito ainda mais na área fiscal, contra tudo e contra todos, aí incluído a feroz oposição do PT e da massa fisiológica do Congresso. Mas não se pode tirar o mérito de ter montado o arcabouço básico que permitiu uma política fiscal decente a partir de 98

quinta-feira, 4 de março de 2010 17:21:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

F.Arranhaponte
Na questão da privatização dos bancos estaduais não faltou responsabilidade fiscal também?

O processo foi de privatizar os lucros e socializar os prejuízos. O estado do Paraná briga até hoje porque tem que pagar dividas do Banestado, enquanto o banco privado que comprou recebeu créditos em valor maior do que pagou pelo banco.

Concordo que nenhum ente privado compra dívida, mas então porque não foi incorporarado os bancos estaduais nos bancos federais primeiro, para saneá-los e compensar os prejuízos com a geração de lucros?

A soma dos ativos bancários dos bancos federais com os estaduais manteria a maior parte da poupança interna sob controle governamental dos bancos estatais, e a gestão da taxa de juros da dívida pública ficaria bem menos onerosa, se os leilões de títulos tivessem como compradores uma maior participação de bancos estatais em vez de privados, reduzindo o déficit nominal.

quinta-feira, 4 de março de 2010 18:46:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Arranhaponte, sem melindres, acho que meu comentário também esteve longe de ser suave, né não? O que pegou mesmo foi você dizer que a medida foi impopular. De fato, para os governantes no cargo, que queriam fazer investimentos para enfrentar as eleições, a renegociação foi uma mão na roda. Paradoxalmente abria espaço para endividamento novo (não no montante do que estava sendo abatido com privatizações, que abatiam na dívida mesmo antes de serem realizadas, ou que acabou sendo assumido pela união, claro). Informe-se também, os estados, principalmente os grandes, estavam fora do mercado de crédito, mesmo o de fomento, justamente em função dos níveis de comprometimento de suas receitas com o serviço das dívidas, e a renegociação espichava toda a dívida para um horizonte de 30 anos. Claro, houve aspectos positivos, os estados passassem a produzir superávits primários, houve problemas pontuais como o do Banespa, que o Covas perdeu na noite anterior a sua posse (ou não perdia mais, né? Mas acho que fora o mise en cene, até para não ficar mal com os funcionários do banco, ele deve ter agradecido, porque o banco havia já sido quebrado pelo Quércia e não ia dar para tirar muito mais dali). Um dos problemas deste país, porém, é que as experiências anteriores raramente são avaliadas a sério e com isenção, e tudo acaba meio no diz que diz. De qualquer modo, creia-me, a política econômica do governo Fernando Henrique Cardozo foi ruim, foi muito ruim mesmo. A propósito, você fala em “uma política fiscal descente a partir de 98”, mas não podemos esquecer que então o governo contou com uma pressãozinha providencial do FMI, não é mesmo? E que mesmo com essa pressão a dívida líquida em relação ao PIB não deixou de crescer um ano sequer até 2003, dali para frente ela passou a cair ano após ano (até em 2009, com essa crise também providencial para o governo de agora, né não?), resultado daqueles 20% a mais de resultado primário, feito além do exigido pelo FMI...

quinta-feira, 4 de março de 2010 18:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Duarte (04/03/2010 às 00h53min00s BRT),
Não sei realmente o que ocorreria em relação ao parlaentarismo, mas o Tancredo Nevesera era mestre nas causas impossíveis.
Quando eu falei sobre pari passu com a China eu deixei de falar exatamente o que você fala em seguida sobre como seria Tancredo na presidência:
"nomeou o sobrinho de confiança, atual senador Francisco Dornelles, para a Fazenda (economista liberal ortodoxo [Aqui há duas coisas a se acrescentar, uma foi o fato de com a nomeação ele colocou alguém que não era do interesse dos empresários paulistas e a segunda é que então Francisco Dornelles não era o economista liberal e ortodoxo que depois ele se tornou]). Políticos diziam que ao ser eleito, Tancredo era saudado por populares e confidenciava: daqui a dois anos estarão todos xingando pelas medidas amargas que teria que tomar.
Realmente não haveria plano cruzado. O ajuste fiscal seria antecipado em uns 20 anos. A constituinte seria mais "centrão" e menos progressista."
Enfim, sendo Francisco Dornelles um parente de Getúlio Vargas ele trazia para o Ministério da Fazenda alguém que defendia o que Getúlio Vargas era: um defensor: Estado forte. E sendo Francisco Dornelles um ex-superintendente da Receita Federal ele sinalizava que haveria aumento de impostos. E tendo no discurso de posse dito (Ou melhor escrito) que era proibido gastar ele sinalizava que haveria corte de gastos. Enfim, o ajuste fiscal seria antecipado em 20 anos.
E mais. O grande problema do Plano Cruzado é ele ter sido feito para uma realidade diferente daquela que efetivamente ocorria no Brasil. Nós tivemos a recessão de 1983, mas em 1984 o país crescera 4% e lembro que o Jornal do Brasil deu a informação de que no segundo semestre de 1984 a indústria crescera a taxa de 6%. E em 1985 o crescimento foi, nas primeiras prévias, de cerca de 7,9%. Talvez para reduzir a inflação que estava em 220% ao ano desde a maxi-desvalorização de março de 1983, os primeiros anos de Tancredo Neves trariam um crescimento menor (algo e torno de 4 a 5%), mas em quatro anos voltaríamos para a taxa normal de crescimento para aquela época (Algo em torno de 7% ao ano). Comparando os dados da economia de 84 e 85 com as declarações de José Serra na revista Veja de, se não me engano, 19 de março de 1986 e que teve o título de "O Cruzado já vingou" vê-se o quão afastado da realidade estavam os técnicos do PMDB daquela época.
Quanto a Juscelino Kubitschek vale ressaltar a diferença de personalidade. Juscelino Kubitschek era um empreendedor, um sujeito criativo e aventureiro. Tancredo Neves não deixou nada palpável na carreira. Nos dois anos de governo em Minas Gerais preocupou-se apenas com os gastos. Era a pessoa ideal para assumir a presidência em 1985. Ali, com o país crescendo, a prioridade era o ajuste fiscal com uma visão social.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 05/03/2010

sexta-feira, 5 de março de 2010 14:00:00 BRT  
Anonymous F.Arranhaponte disse...

Alberto099, eu que acompanhei a política econômica naqueles anos todos, torcendo para dar certo, e testemunhando de perto o gigantesco esforço da equipe econômica para tentar fazer reformas e implementar o arcabouço básico da responsabilidade fiscal, diante da indiferença ou da hostilidade de quase todas as forças políticas e as correntes de formadores de opinião pública que contam, acho irônico como hoje, confortavelmente, pessoas (não você, porque não conheço nada de você) que na época apoiavam tanto a responsabilidade fiscal quanto um judeu fundamentalista apoia o Estado Palestino, pontificam sobre a ruindade fiscal do governo FHC.

Eu me lembro como se fosse hoje por exemplo, de um debate do então ministro da Previdência, o Stephanes, no Roda Viva, com todos os jornalistas sem exceção trucidando o sujeito que timidamente tentava demonstrar a necessidade fiscal da reforma da Previdência.

Mais irônico ainda, essa política fiscal frouxa do FHC praticametne congelou os salários de boa parte do funcionalismo, que hoje, de maneira geral, considera FH um monstro muito pior do que Hitler e Stálin combinados.

Essa política fiscal frouxa paralisou investimentos públicos, o que hoje é jogado na cara dos tucanos pelo Lula.

Foram anos cheios de crise, com a grana curtíssima na maioria das vezes, gastos com juros estratoféricos (a velha discussão sobre a política cambial do Gustavo Franco, mas o fato é que houve essa política cambial e o dinheiro dos juros foi gasto).

É verdade que a equipe econômica queria apertar mais a parte fiscal, contra tudo e contra todos, e FH, ali por 97, deixou o sucesso efêmero subir à cabeça, e não seguiu o conselho. É verdade, isso. Agora, um dos motivos pelos quais FH não seguiu o conselho é porque não havia o mínimo apoio político ou social para austeridade. Como continua a não haver hoje. A diferença é que, com a disparada das commodities, ficamos ricos, e austeridade ainda é positiva, mas não mais dramaticamente necessária

sexta-feira, 5 de março de 2010 16:02:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Arranhaponte, creio que não podemos aqui ir além de expressar impressões daquele momento, e não vi todo esse empenho que você viu. Posso lembrar de umas poucas coisas: esforço mesmo só aconteceu no segundo mandato, com o país quebrado. Lembra de um pacote de medidas fiscais que acabou conhecido jocosamente como “boa idéia”, porque por acaso acabou composto por 51 medidas, entre aumentos de impostos e corte de despesas? Pois bem, pelo que acompanhei na época, quase só as medidas de aumento de impostos tiveram resultado, justo essas que contam muitas vezes com a necessidade de aprovação parlamentar. Já então estava no serviço público federal e tinha um pequeno contato com pessoas que gravitavam (a uma distância segura, hehe) a equipe econômica, ficou o clima: Fernando Henrique Cardoso é muito frouxo, não vale a pena ficar dando murro em ponta de faca. Só para tocar mais alguns pontos, de fato o salário da maior parte do funcionalismo ficou congelado, mas houve aumentos substanciais das Comissões para funções de confiança (DAS), o que é do jogo, claro. O funcionalismo que eventualmente odeia o ex-presidente está sem dúvida na base da pirâmide. Aprendi vendo: o funcionalismo mais qualificado, mesmo aquele que ficou de fora dos aumentos dos DAS no governo anterior, e mesmo sendo majoritariamente de esquerda (ainda que muitas vezes não o exprima livremente), odeia mais sentir-se subordinado a alguém sem educação formal do que ver o salário defasar (mesmo odiando isso também, claro). O apelido carinhoso para o presidente que mais ouço por aqui é o de molusco, e as pessoas vão ao delírio a cada erro gramatical do presidente, ainda que tenham visto o próprio salário ir da água para o vinho no atual governo. A vida de Fernando Henrique Cardoso no poder também não foi esse “azar” todo. Houve anos de bonança, e logo que assumiu o Ministério da Fazenda, sob Itamar, ganhou reservas cambiais com as quais nenhum outro governo desde Geisel contou: o Real é mais resultado do momento do que da genialidade da equipe econômica, muito menos do presidente (faço afirmações relativas). Desculpe a prolixidade, mas tenho de falar de Reinhold Stephanes, que se aposentou antes dos 50, com salário integral, como servidor público no Paraná se não me engano. Não faço objeção moral, nem vou discutir sua competência como ministro, que desconheço, mas para mim é o retrato mais vívido da essência o Estado Brasileiro: um butim, com todos se estapeando para aumentar sua participação pessoal. Isso vale para tucanos e petistas, servidores ou políticos, de esquerda ou de direita... a reação que provoca o bolsa família (sei que não é seu caso Arranhaponte) ou outra política social focada, em pessoas muito bem colocadas e muitas vezes abertamente de esquerda, é surpreendente. E não se critica a possível dependência que os programas possam criar (e que em certa medida criam de fato) ou seu efeito fiscal, mas o suposto fato de a estarem sustentando com os impostos que pagam, de não participarem do “festim”. E falei suposto porque se trata de uma classe média que certamente recebe mais em transferências, e como objeto de serviços públicos (ainda que de péssima qualidade, claro), do que paga em impostos. Não encontro a frase em que pegaram o Beltrame, secretário do Rio, dizendo da importância diversa de vítimas da polícia segundo a região geográfica da ocorrência na cidade do Rio. Caro Arranhaponte, se não me engano você está entre aqueles que gostariam de ver a aproximação política entre PT e PSDB, esposei essa idéia num passado já distante, hoje preferia vê-los juntos também, mas na oposição. Desculpe Alon, obrigado pela discussão Arranhaponte.

sábado, 6 de março de 2010 10:21:00 BRT  

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