quarta-feira, 24 de março de 2010

Para enrolar os enroláveis (24/03)

É cômodo repisar a necessidade de “impedir a volta do neoliberalismo tucano” ou de “reverter o aparelhamento do Estado pelo petismo”. Difícil é responder sobre coisas mais práticas

Se ninguém impedir, há o risco de assistirmos a mais uma eleição alinhavada por abordagens abstratas e divagações. Será conveniente para os candidatos, pois o vencedor irá depois governar com mãos bem desimpedidas —como de hábito. Tem sido frequente nas eleições brasileiras. Discute-se de tudo um pouco, mas não o que o eleito efetivamente vai executar

É um traço de subdesenvolvimento político.

Entre nós, a abordagem realista dos temas importantes costuma ser privilégio da Casa Grande, em conversas educadas e cínicas. A senzala deve contentar-se com o circo. Com as emoções, diriam os marqueteiros. Ou com generalidades supostamente programáticas.

Um exemplo é a polêmica sobre o papel do Estado. Teoricamente, haverá dura polarização este ano entre estatistas e privatistas. Mas ela permanecerá no plano das abstrações, das diferenças ideológicas. O que seria normal se Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva estivessem disputando a chefia do departamento de Ciência Política numa universidade qualquer.

Como a luta é pelo Palácio do Planalto, impõem-se perguntas relacionadas à vida prática. Se Dilma for eleita, que companhias privadas vai estatizar? E que empresas privatizadas por Fernando Henrique Cardoso ela vai retomar para o Estado?

Vale também para Serra. Em meio à mudez ele deixou vazar a preferência por um “Estado ativo”. Do que se trata? No que difere da administração petista? Em que outras atividades o governo vai se meter no caso de vitória do PSDB? Em que setores é necessária mais presença governamental, ou estatal? Ou menos? E como vai ser feito?

Quando a vida real bate à porta, tucanos e petistas são parecidos no que gostam de se dizer diferentes.

O Brasil é um dos piores países para os usuários de internet e telefonia, operadas por companhias nascidas na era da privatização. Os serviços são caros e ruins. A operação é oligopolizada e a regulação, ineficaz. Sem concorrência real, a agência reguladora está reduzida a figurante.

O governo de São Paulo pressionou as telefônicas a oferecerem planos de banda algo mais larga por preços módicos. O governo federal pressiona as telefônicas a oferecerem um plano similar ao paulista, talvez um tanto melhorzinho. Qual é a diferença então? O preço? A largura da banda? É isso? Saber quem negocia melhor?

O que cada candidato vai fazer para o brasileiro finalmente pagar pela telefonia e pela internet o que paga um americano, ou um europeu? Qual é o caminho? Abrir para mais concorrência? Reduzir impostos? Criar uma estatal que compita no mercado forçando o preço para baixo? Essa ideia foi posta para circular pelo governismo, mas aparentemente os argumentos da turma de sempre vêm sendo bons para fazer, de novo, o governo recuar.

O mesmo raciocínio vale para outros temas, tão sensíveis quanto. Quem vai finalmente dar um jeito no spread bancário? Falar em “ativismo estatal” num país onde o capital financeiro pinta e borda sem nada temer das autoridades não é programa de governo, é roteiro de programa de humor.

Qual é a razão para o tomador de empréstimo consignado comprar uma televisão para a família e pagar duas, a dele e outra que dá de presente ao banco? Por que os equipamentos de informática à venda no Brasil são mais caros e de qualidade inferior? O que deve ser feito para corrigir isso? E em que prazo será corrigido?

São algumas perguntas. Há delas em quantidade suficiente para preencher colunas até outubro. Sobre todos os temas. Elas são fáceis de formular, mas pelo visto difíceis de responder. Daí que não tenham sido respondidas até hoje. Mais cômodo é repisar a necessidade de “impedir a volta do neoliberalismo tucano” ou de “reverter o aparelhamento do Estado pelo petismo”.

Conversas para enrolar incautos, enquanto o dia da eleição, e de estourar a champanhe, não chega.

Deterioradas

Vai a galope a deterioração das contas externas brasileiras. A balança comercial vira fumaça e o país está cada vez mais dependente de investimento estrangeiro para fechar os números. Até quando?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (24) no Correio Braziliense.

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11 Comentários:

Anonymous Ticão disse...

Já dizia o "velho deitado popular", na teoria a prática é outra.

Junte caras que concordam com as linhas gerais de pensamento e políticas públicas, que compartilham a mesma visão de mundo, e peça para redigirem as linhas mestras, o plano de governo, e tudo será lindo.

Mas aí peça para cada um individualmente traduzir todas essas boas intensões em projetos de lei, normas e regras, portarias, resoluções, tudo por escrito e detalhado.

Depois junte essa plêiade de bons pensadores para escolherem o que vai pra votação.

Sente-se confortavelmente e assista o espetáculo.

Ninguém quer se comprometer com nada.
Ninguém quer fazer uma afirmação que não deixe uma porta dos fundos aberta para escapar.
Ninguém quer ser cobrado, logo não afirma nada de prático claramente.

Até porque são executivos que não entendem de execução, nem de gerenciamento.

E o eleitor também tem culpa nesse cartório. Pensa "da mão pra boca" e odeia medidas que possam ser boas a longo prazo mas são ruins no curto prazo.

Mas pior mesmo é a imprensa. É difícil em debates entre candidatos ver uma cobrança mais incisiva. Nessa hora sempre vira "diálogo com Maluf".

Repórter: A senhor tem dinheiro fora do Brasil?

Maluf: Fui eu que iluminei o oceano Atlântico.

E fica por isso mesmo.

Todos são favoráveis a:

1- Diminuir o desemprego
2- Aumentar a distribuição de renda
3- Controlar o gasto público
4- Gastar de maneira mais racional
5- Ter uma política de segurança mais eficiente
6- Melhorar o ensino público fundamental
7- Etc...

Quem em sã consciência pode afirmar o contrário? Só um doido. Alguém quer piorar algo? Fazer algo de forma ineficiente? Gastar de forma irracional?

A conversa mole é a de sempre. Vamos todos juntos irmanados de forma democrática, escutando à todos, com pluralidade de pensamento, construir juntos a solução desses questões.
E pronto. Não precisa dizer qual é sua proposta, como pretende resolver uma questão, uminha só que seja.

E ninguém que tem acesso (leia-se imprensa) cobra uma resposta completa. Afinal o brasileiro é antes de tudo um ser cordial. E cobrar seria uma indelicadeza.

Acho que está faltando pergunta impertinente.

quarta-feira, 24 de março de 2010 03:14:00 BRT  
Blogger Eduardo P.L disse...

Muito boa sua reflexão! Vou virar leitor do blog!

quarta-feira, 24 de março de 2010 06:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
A direita não participar da campanha eleitoral desde o Plano Real (Ainda que o Geraldo Alckmin não seja nenhum esquerdista de carteirinha) é um desvirtuamento da política. Na segunda feira, dia 22/03/2010, li em O Globo uma queixa dessa situação que demonstrava que a direita já se sente incomodada. Não sei quanto tempo esse modelo dura.
Ontem, respondendo uma indagação de Swamoro Songhay (Que ele não considerou como resposta e depois eu percebi que é assunto que eu repito há muito em especial junto ao seu post "À espera de um carinho (13/12)" de 12/12/2009) junto ao post aqui no seu blog intitulado O PNDH na UTI de 18/03/2010, aproveitei para fazer referência ao artigo de Hélio Schwartzman que saiu segunda-feira, 22/03/2010, na Folha de S. Paulo, na seção Brasil (brasil/fc2203201006) com o título: "Ciência explica por que, no voto, emoção pesa mais que a razão" e que trata da publicação de dois livros nos Estados Unidos "The Political Mind" de George Lakoff e "The Plitical Brain" de Drew Westencom com pesquisa sobre a motivação do eleitorado e cujo o título era "Ciência explica por que, no voto, emoção pesa mais que a razão". Como eu disse no meu comentário que enviei para Swamoro Songhay, "embora eu seja reticente quanto a neurociência se bem que tenho que reconhecer que como leigo minha reticência tenha pouco valor" as pesquisas mostram exatamente o quanto a realidade brasileira se distancia do que ocorre no mundo onde prevalece a emoção dominando as reações e os impulsos políticos do eleitorado.
O PSDB dominando a direita em São Paulo dá pouca margem para discussões mais amplas nas disputas eleitorais. Não falar sobre essa camisa de força que ocorre na política brasileira é a meu ver a crítica que eu tenho a grandes jornalistas brasileiros como você. Ela foi construída com a eleição direta que eu sou a favor, a eleição em dois turnos que eu sou contra, a redução do mandato presidencial para quatro anos e a conseqüente coincidência da eleição presidencial com a eleição para governador, o Plano Real e a emenda da reeleição (Na época da aprovação da emenda da reeleição lembro só de Barbosa Lima Sobrinho em artigo no Jornal do Brasil e Carlos Lindenberg aqui em Minas Gerais no jornal Hoje em Dia terem feito a relação da emenda da reeleição com a Revolução de 30). E essa camisa de força emasculou a política democrática. Com a emenda da reeleição e o lançamento da candidatura de José Serra para dar continuidade ao governo de FHC, repetia-se em 2002 o que já ocorrera em 1998 e que Washington Luiz tentou fazer em 30, mas resultou na Revolução de 30.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 24/03/2010

quarta-feira, 24 de março de 2010 08:40:00 BRT  
Anonymous Pablo Vilarnovo disse...

Porque pagamos mais caro? Imposto.
Acha que damos outra TV ao banco? Ledo engano. Damos uma grande parte do governo (imposto) e damos outra grande parte ao mesmo governo (juros altos para captar recuros externos).

Para todas suas perguntas a resposta (ou culpa) está nos ombros do governo. Não das empresas, não dos consumidores.

E pelo visto, olhando os atuais candidatos, vai tudo permanecer na mesma.

quarta-feira, 24 de março de 2010 10:45:00 BRT  
Blogger marcos disse...

São questões interessantes, reais, mas que só podem ser levantadas porque foram geradas pelas politicas e estratégias "neoliberais" de FHC.

Se há telefonia ruim e internet foi porque mudaram o rumo do país;

Me parece óbvio que criar estatal não resolve ruindade de nenhum setor, visto que BB e CEF estão fazendo e acontecendo e os privados nem aí pros juros, spread...

Se há compra de TV e computador é porque há TV e computador pra comprar, mas baixar os juros e melhorar a qualidde dos produtos e serviços exige ampla reforma adm. politica e fiscal. Por último falta educação elementar e média...

8 anos de estado indutor não resolveram nenhuma das questões que vc reflete... Mas, pra descompensar ainda mais, entupiram o país de mini-bolivarismos e maxi-vergonhas, enquanto largaram o ensino básico e médio à própria sorte.

Logo, prefiro a volta dos "neoliberais". Mesmo com o socialista Serra à frente.

Mas, vc está certo, que diabos é um estado ativo????

MAM

quarta-feira, 24 de março de 2010 11:05:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

Concordo com o Ticão. Falta perguntar e fazê-lo com qualidade.
Esse papel é da imprensa e, no caso das eleições, também das regras eleitorais.
Impossível falar de debate em que as controvérsias são limitads e as regras aceitas pela imprensa buscam justamente impedir que os opostos se confrontem e haja uma conclusão.
Sobra a ladainha esterilizada dos marqueteiros a vender urtiga como se fosse talco.
E tem quem compre. E como tem. E a imprensa continua com seu velho negócio de vender o silêncio ao invés da informação.

quarta-feira, 24 de março de 2010 13:39:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

Para mim, “impedir a volta do neoliberalismo tucano” seria mais do que suficiente para definir meu voto, mas eu acho que a massa dos brasileiros está votando com a mão no bolso.
Quem migrou da classe D para a C acredita que o país está bem governado. O mesmo para quem era da E e subiu para a D. Quem está se sentindo mais seguro no emprego tem seus motivos para escolher seu voto. Quem estava desempregado e está empregado em emprego formal também. Quem ganha salário mínimo, idem. O "baixo clero" do funcionalismo militar e civil também. Microempresários que ganharam muito com o plano real, para depois perder com a crise de 1999, e por fim com o apagão de 2001, e agora estão vendo as maravilhas que uma melhor distribuição de renda faz para seus negócios também sabem o motivo.
Se estivéssemos num quadro de desesperança com candidaturas desconhecidos do grande público (como foi a eleição de Collor em 1989), a crítica faria mais sentido, mas o eleitor está sendo bem prático na escolha de um candidato a governo que ele entende que seja melhor para si, da mesma forma que Itamar Franco saiu nos braços do povo e elegeu FHC seu sucessor, com o plano Real.

quarta-feira, 24 de março de 2010 19:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Rotundo (24/03/2010 às 13h39min00s BRT),
Talvez assim seja melhor. Se a imprensa vendesse informação, os ricos, que já dominam o poder, dominariam com muito mais facilidade.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 24/03/2010

quarta-feira, 24 de março de 2010 20:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Muito bom o artigo hoje do Delfim Netto na Folha de S. Paulo. Diz lá ele:
“. . . Capitalismo . . .não é uma coisa, mas um processo . . . tem . . . um problema: precisa de um estado constitucionalmente forte para garantir o funcionamento da instituição a que se dá o nome de “mercados”.”
Estado constitucionalmente forte, eu consigo medir pela carga tributária. Mais alta a carga mais forte o Estado. E pensar que Ernesto Geisel entregou o Estado com uma carga tributária de 27% do PIB e João Figueiredo que o recebera de Ernesto Geisel o entregou para José Sarney com uma carga tributária de 24% (E José Sarney entregou para Fernando Collor com uma carga de 21%).
Bem, mas o que há de pensar disso são duas coisas. Delfim Netto sabia disso à época, mas não aumentava a carga tributária porque sabia em relação ao processo evolutivo que chamam de capitalismo que “o germe que o alimenta é o mesmo que o destrói. E outra coisa, por representar os interesses do empresariado paulista, o PSDB, que tinha uma forte compreensão do poder do Estado, não era a favor do aumento da carga tributária. Também não era a favor do aumento da carga tributária o PT de origem paulista, pois foi um partido criado para defender a sociedade politicamente organizada.
Felizmente, o FMI conseguiu incorporar nos nossos dois atuais partidos de mando no Brasil a defesa do aumento da carga tributária.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 24/03/2010

quarta-feira, 24 de março de 2010 20:32:00 BRT  
Anonymous Rotundo disse...

O Duarte tá certo. O povo está escolhendo o melhor para si. E quem está na frente das pesquisas, ainda mais solto quando se fala no 2º turno, é o Serra.
E salve a volta do neoliberalismo assumido, porque o disfarçado tá soltinho por aí,

quinta-feira, 25 de março de 2010 09:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito pertinente a análise. Contudo, um aspecto a considerar refere-se à ex-ministra do Meio Ambiente. Aparentemente, ela possui muito mais do que a fórmula anódina debate x embate. E também, pode ter muitas condições para embates, como deixou claro em duras e firmes intervenções no Senado e no ministério. Notadamente quando defendia a tese da transversalidade no trato do meio emabiente. Antes de render-se à uma fórmula de conciliação, seria o caso de avaliar se há tal necessidade. Quanto ao comentário do Duarte, sobre o "impedimento do neoliberalismo tucano", deve haver um arco-íris no fim do pote: se for neoliberalismo, mesmo, a prática nunca esteve em melhor guarida do que a condução econômica a partir de 2003. Principalmente no que tange aos problemas a serem equacionados.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 26 de março de 2010 09:04:00 BRT  

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