quinta-feira, 25 de março de 2010

O embate e o debate (25/03)

Talvez haja um nicho de mercado para a nova política. Falar sempre a mesma coisa, sem adaptar a temperatura do discurso ao ambiente. E convencer os apoiadores a se comportarem do mesmo jeito

A senadora Marina Silva (PV-AC) constrói bem grudada ao centro o caminho de candidata a presidenta da República. Tem sido uma moderada militante. Não se ouve um ataque, uma radicalização. No mais das vezes, as propostas são precedidas de elogios amplamente distribuídos pelo espectro.

Mesmo quando trata do assunto mais palpitante, o meio ambiente. A promessa sempre reiterada é buscar consensos, entendimentos, compromissos. Naturalmente que sem abrir mão dos princípios.

Outro dia ela lamentou que a campanha presidencial vindoura receba antecipadamente o rótulo de embate.

- Não precisamos ir para o embate, e sim para o debate.

Bonito de ver, de tão civilizado. Enquanto isso, a base política da senadora bota para quebrar no Congresso Nacional. A iniciativa mais recente é carimbar de “exterminadores do futuro” os parlamentares que defendem a revisão de certas regras do código florestal.

Demonizador, ainda mais quando estão na mira os “ruralistas”, um pessoal já não tão querido assim dos bem-pensantes, estes sedentos em busca de algo que os caracterize como “progressistas”, mas a custo zero.

A reação veio a galope. Os alvos da campanha destrutiva acabam de ressuscitar a Frente Parlamentar Nacionalista, para expor possíveis relações de subordinação das organizações não governamentais de defesa do meio ambiente a instituições e governos no exterior que as inspiram, ou financiam.

No carpete dos grandes líderes, o debate. No mundo exterior, o embate. Nesse particular, a candidatura da ex-ministra não parece tão renovadora ou moderada.

Escrevi ontem sobre as diferenças de tratamento que assuntos sérios da política recebem na Casa Grande e na senzala. É uma dualidade permanente.

Nas conversas com investidores, lá fora e aqui, a administração Luiz Inácio Lula da Silva cultiva os vasos que o ligam ao governo precedente, tucano. Deve ser o tal debate. Já na planície só se veem embates, para alimentar a utilíssima tese da herança maldita.

E na oposição mais tradicional?

Pelo jeito, o PSDB vai à campanha disposto a não tirar os olhos do futuro, sem vontade nenhuma de falar mal do governo que termina no fim do ano. Arrancaram o retrovisor do carro, para nem sentirem a tentação de dar uma olhadinha.

Bem, se era para ser assim, talvez tucanos e democratas devessem ter feito nestes anos todos outro tipo de oposição, mais refinada, sofisticada. Mais na linha do debate, e não do embate.

Não é fácil para o analista ou eleitor saber a cada momento que palavras saídas da boca do político estão valendo, e quais não estão. Ou o deságio de cada uma delas. Exige arte, até mais do que técnica.

Talvez haja aí um nicho de mercado para a nova política. Falar sempre a mesma coisa, sem adaptar a temperatura do discurso ao ambiente. E convencer os apoiadores a se comportarem do mesmo jeito.

Parece ingênuo? Barack Obama ganhou a eleição assim. Ou quase assim. E está governando assim. Ou quase assim.

Lógica

São boas algumas mudanças propostas pelo deputado federal ACM Neto (DEM-BA) para o Código de Ética da Câmara. O corregedor propôs criar a pena de suspensão do mandato por até seis meses, e também o ressarcimento aos cofres da Casa de recursos mal utilizados da verba indenizatória.

O segundo ponto é óbvio. Já o primeiro, nem tanto.

O senso comum supõe que penas mais severas sempre ajudam a desestimular a prática de atos ilícitos. Mas a vida é um pouco diferente. Se o castigo é severo demais para determinado delito, pode haver a tendência de simplesmente não punir, para evitar uma injustiça flagrante.

O que coíbe melhor o ato criminoso é a certeza de punição, e não a dureza excessiva dela. Paradoxalmente, regras draconianas podem até estimular a prática delituosa, pela inaplicabilidade do castigo.

A cassação do mandato é quase uma pena de morte política. Incluir no Codigo de Ética punições menos fortes, mas ainda bastante duras, é ato de sabedoria. Só o futuro dirá se funcionou, mas é uma decisão lógica.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (25) no Correio Braziliense.

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4 Comentários:

Blogger João Lacerda disse...

Alon,

Excelente análise! Muito me preocupa o quebra pau que se avizinha com essa tal "eleição publicitária", quebra pau inócuo e que não traz para a mesa discussões necessárias.

Parabéns a Marina por levantar essa bola de uma "agenda positiva" e de debates no lugar de embates!

quinta-feira, 25 de março de 2010 13:13:00 BRT  
Blogger Túlio disse...

Alon, entendi a diferenciação entre a postura da Marina e da bancada ligada a ela. Mas há duas coisas aqui. Uma é se devemos entender o que ela diz como postura pessoal ou proposta para todos. Tambpem prefiro que seja para todos, mas falta combinar com os russos. A bancada ruralista é dura de roer, e não gosta de negociação.Em algum momento é preciso endurecer.

quinta-feira, 25 de março de 2010 18:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, publiquei esta parte do comentário em post errado. Agora, permita-me que publique neste. Muito pertinente a análise. Contudo, um aspecto a considerar refere-se à ex-ministra do Meio Ambiente. Aparentemente, ela possui muito mais do que a fórmula anódina debate x embate. E também, pode ter muitas condições para embates, como deixou claro em duras e firmes intervenções no Senado e no ministério. Notadamente quando defendia a tese da transversalidade no trato do meio emabiente. Antes de render-se à uma fórmula de conciliação, seria o caso de avaliar se há tal necessidade.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 26 de março de 2010 13:07:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Barack Obama não pode ser tomado como parâmetro para o Brasil. Primeiro nós estamos dentro de uma camisa de força eleitoral em que o Plano Real e outros fatores nos colocaram que não nos permite saída nos próximos anos e que desvirtua o processo eleitoral. Lá nos Estados Unidos o carisma funciona e esse carisma Barack Obama tem de sobra.
Segundo, a situação econômica é diferente. A economia americana entrou em recessão em dezembro de 2007 e só veio a sair no final do ano passado, um ano depois da eleição de Barack Obama. O próprio George Bush só ganhou a eleição de 2004 porque tinha feito a guerra contra o Iraque. Aliás, a guerra teve como principal razão exatamente assegurar a vitória de George Bush nas eleições seguintes (Avaliação feita com base no apoio que o partido Republicano tivera na eleição de 2002 como retorno da invasão do Afeganistão e que se mostrou correta como demonstraria a vitória de 2006). Com os resultados ruins da guerra no Iraque a derrota do Partido Republicano na eleição de 2008 era favas contadas. A falta de experiência de chefe de executivo e outros fatores talvez tenha tornado a vitória de Barack Obama um pouco mais difícil.
Agora, a situação da oposição hoje no Brasil, fora os três trunfos que ela possui e o trunfo que o governo possui, é parecida com a de Lula em 1998.
Em 1998 o discurso correto da oposição era apontar para o endividamento do país, a situação das contas externas, o real sobrevalorizado desempregando milhões de pessoas. Quem, entretanto, ouviria este discurso. Hoje caberia atacar a valorização do real, mostrar que as contas externas se assemelham à situação de 1998, mas quem ouviria esse discurso hoje?
Os três trunfos da oposição são: uma candidatura em nome de quase toda a direita, pelo menos de toda a direita mais radical e feita por um candidato da esquerda, uma candidatura com base no maior colégio eleitoral do país e que se encontra unido com essa candidatura e uma adversária sem nenhum carisma e sem experiência eleitoral (É uma espécie do General Lott que serviria apenas para permitir a volta de JK em 1965), que ao contrário de Leonel Brizola que tinha dois estados para apoiá-lo não conta com os dois que deveriam dar a ela apoio integral (Minas Gerais e Rio Grande do Sul).
E o trunfo do governo agora comparando com a situação que FHC enfrentou em 1998 é que a economia vem crescendo desde março de 2009 e que o crescimento atual está na faixa de 8% e se precisar para conter a inflação reduzir o crescimento para 5% ao ano ainda se estaria em uma situação invejável.
O grande risco que o governo corre é a inflação sair do controle, risco que o governo de FHC não correu em 1998, porque com o câmbio sendo segurado pelo Gustavo Franco quanto mais dólares saíssem do país, mais baixa seria a inflação, pois a liquidez cairia vertiginosamente.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/03/2010

sexta-feira, 26 de março de 2010 19:30:00 BRT  

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